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Acorde, tem um desconhecido mandando na sua vida

Em Consciência por Victor LisboaComentários

O Experimento Bargh

O modo como você anda, o quão per­sis­tente você é, qual seu nível de egoísmo e até mesmo o que você com­prará no super­mer­cado: sinto muito, mas quem decide essas coi­sas banais e outras tan­tas mais impor­tan­tes não é você.

Em 1996, o psi­có­logo John Bargh rea­li­zou um expe­ri­mento sim­ples mas de impli­ca­ções per­tur­ba­do­ras. Ele divi­diu volun­tá­rios em dois gru­pos e pediu que for­mas­sem fra­ses com pala­vras dadas por sua equipe. Mas um dos gru­pos tinha uma pecu­li­a­ri­dade: sem per­ce­be­rem, algu­mas des­sas pala­vras eram rela­ci­o­na­das à velhice (esque­cido, careca, ruga, etc). Em seguida, Bargh pedia que todos os volun­tá­rios cami­nhas­sem até outra sala, mais dis­tante, infor­mando que lá have­ria mais tes­tes, e cro­no­me­trava secre­ta­mente o tempo que leva­vam no per­curso.

Por incrí­vel que pareça, os volun­tá­rios do grupo com pala­vras asso­ci­a­das à velhice cami­nha­vam mais len­ta­mente que os do outro grupo, como se fos­sem ido­sos. Pos­te­ri­or­mente, todos os volun­tá­rios dis­se­ram não ter per­ce­bido as pala­vras rela­ci­o­na­das à velhice e tam­pouco notado algo de pouco natu­ral no seu pró­prio jeito de cami­nhar.

O teste foi repe­tido várias vezes, com rigor cien­tí­fico, e o resul­tado foi sem­pre o mesmo.

Até então, a ideia de que men­sa­gens subli­mi­na­res (no sen­tido de infor­ma­ções ape­nas per­ce­bi­das pelo incons­ci­ente de alguém) fos­sem capa­zes de real­mente ori­en­tar o com­por­ta­mento humano era uma espé­cie de “lenda urbana” da psi­co­lo­gia. Mas, a par­tir do expe­ri­mento de Bargh, novas expe­ri­ên­cias foram desen­vol­vi­das para apu­rar a exten­são desse efeito de men­sa­gens asso­ci­a­ti­vas no com­por­ta­mento humano mais básico.

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Em 2006, uma equipe de psi­có­lo­gos publi­cou os resul­ta­dos de um expe­ri­mento cha­mado The Psy­cho­lo­gi­cal Con­se­quen­ces of Money (“As Con­sequên­cias Psi­co­ló­gi­cas do Dinheiro”). Essen­ci­al­mente, se tra­tava de um expe­ri­mento seme­lhante ao de John Barg, mas com pala­vras e sím­bo­los rela­ci­o­na­dos ao dinheiro, que os par­ti­ci­pan­tes não per­ce­biam, mas eram repas­sa­das ao seu incons­ci­ente.

Nesse caso, os pes­qui­sa­do­res cons­ta­ta­ram que os mem­bros do grupo que rece­be­ram ante­ri­or­mente men­sa­gens subli­mi­na­res asso­ci­a­das a dinheiro per­sis­tiam o dobro do tempo na ten­ta­tiva de resol­ver um desa­fio lógico-mate­má­tico de difí­cil solu­ção. Por outro lado, esses mes­mos par­ti­ci­pan­tes se mos­tra­vam muito mais egoísta quando se tra­tava de aju­dar os cole­gas, ainda que a ajuda não os pre­ju­di­casse.

Ou seja, quando as pes­soas estão roti­nei­ra­mente sub­me­ti­das a um con­texto social em que o dinheiro é um assunto oni­pre­sente, elas se tor­nam mais deter­mi­na­das, mas ao mesmo tempo mais indi­vi­du­a­lis­tas.

Tam­bém em 2006, outro expe­ri­mento demons­trou que um grupo de pes­soas ori­en­tado a pen­sar em atos ver­go­nho­sos de seu pas­sado antes de par­ti­ci­par de um jogo de pala­vras ten­dia a esco­lher, no jogo, pala­vras asso­ci­a­das com lim­peza. Esse teste pro­gre­diu para outro em que parte dos volun­tá­rios deve­riam ima­gi­nar esta­rem pra­ti­cando um homi­cí­dio — tal grupo, em uma pos­te­rior simu­la­ção de com­pra no super­mer­cado, adqui­riu mais pro­du­tos de lim­peza (sabão, deter­gente, etc.) que os demais par­ti­ci­pan­tes.

A um resul­tado seme­lhante che­gou o mun­di­al­mente acla­mado neu­ro­lo­gista Antó­nio Damá­sio. Em 1996, ele desen­vol­veu uma série de tes­tes que com­pro­va­ram que o ser humano não toma deci­sões raci­o­nais mesmo que o con­texto exija raci­o­na­li­dade. Segundo a pes­quisa de Damá­sio, toma­mos deci­sões incons­ci­en­te­mente moti­va­dos por emo­ções e, dis­far­çando esse fato para nós mes­mos, cri­a­mos jus­ti­fi­ca­ti­vas apa­ren­te­mente raci­o­nais para essas esco­lhas. Quando ques­ti­o­na­dos, os indi­ví­duos sin­ce­ra­mente afir­ma­vam que sua esco­lha foi pau­tada por con­si­de­ra­ções raci­o­nais, mas Damá­sio desen­vol­veu uma espé­cie de jogo capaz de reve­lar quando, na ver­dade, as deci­sões eram toma­das por emo­ções.

Deze­nas de outros expe­ri­men­tos simi­la­res estão sendo docu­men­ta­dos nos últi­mos tem­pos, todos rea­li­za­dos e repe­ti­dos o número sufi­ci­ente de vezes para serem vali­da­dos segundo cri­te­ri­o­sos parâ­me­tros cien­tí­fi­cos. E em todos eles, os par­ti­ci­pan­tes afir­ma­ram ao final não terem per­ce­bido as men­sa­gens subli­mi­na­res que influ­en­ci­a­ram seu com­por­ta­mento.

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Todas essas pes­qui­sas demons­tram, de forma sólida e obje­tiva, que o pilar cen­tral das teo­rias psi­co­ló­gi­cas tra­di­ci­o­nais real­mente existe. Não se trata de uma pres­su­po­si­ção abs­trata, sem fun­da­mento: o incons­ci­ente, aqui enten­dido como uma parte de nossa psi­que que escapa ao con­trole da nossa cons­ci­ên­cia, tem o poder de, fre­quen­te­mente, dar a última pala­vra em rela­ção ao nosso com­por­ta­mento.

E a con­clu­são final des­ses expe­ri­men­tos bem resu­mida por Daniel Kah­ne­man, psi­có­logo que ganhou o Nobel de eco­no­mia por desen­vol­ver uma teo­ria que estuda a tomada de deci­são humana inclu­sive sob o enfo­que econô­mico: gos­ta­mos de pen­sar que somos senho­res de nos­sas ati­tu­des e deci­sões, mas é um estra­nho quem con­duz nos­sas vidas.

Após falar de algu­mas des­sas pes­qui­sas em seu acla­mado livro Rápido e Deva­gar, Kah­ne­man arre­mata: “você aca­bou de ser apre­sen­tado a esse estra­nho que existe em você mesmo, que tal­vez esteja no con­trole sobre grande parte do que você faz, embora você rara­mente vis­lum­bre isso”.

E esse estra­nho é mani­pu­lá­vel, facil­mente influ­en­ciá­vel. Um polí­tico habi­li­doso, uma agên­cia publi­ci­tá­ria ou mesmo um líder reli­gi­oso que sou­ber puxar as cor­das cer­tas será capaz de con­du­zir o seu des­tino como o de um mari­o­nete, por mais que você não admita isso, por mais que você se jul­gue espe­cial e dife­rente de seus con­tem­po­râ­neos.

E tudo isso por­que você está dor­mindo, neste exato momento.

Acorde.

Gurdjieff e o sonho acordado

O armê­nio George Iva­no­vich Gur­di­eff faz parte daquele grupo de lou­cos geni­ais do século XX, que mis­tu­ra­vam insights reve­la­do­res com pira­ções às vezes peri­go­sas, grupo ao qual per­ten­ciam figu­ras como Colin Wil­son, Wil­liam Reich, Aleis­ter Cro­wley, Jodo­roswki e tan­tos outros doi­dos de vari­ado grau de peri­cu­lo­si­dade social. Sabendo sepa­rar o joio do trigo, a teo­ria maluca das ideias pro­vei­to­sas, pode­mos apren­der um bocado com Gurd­ji­eff.

Para ele, esta­mos sem­pre ador­me­ci­dos, seja durante o sono noturno, seja com os olhos aber­tos ao longo do dia, oca­sião em que nos ilu­di­mos de que esta­mos total­mente des­per­tos.

Para enten­der­mos o que ele quer dizer, pre­ci­sa­mos com­pre­en­der alguns aspec­tos ele­men­ta­res dos sonhos. Quando dor­mi­mos à noite, fica­mos ape­nas par­ci­al­mente e não com­ple­ta­mente iso­la­dos do mundo externo, sem per­ce­ber o que ocorre lá fora. Afi­nal, fecha­mos nos­sos olhos para dor­mir, mas não nos­sos ouvi­dos e os demais sen­ti­dos de nosso corpo.

Então, às vezes, per­cep­ções do mundo real vazam para den­tro de nos­sos sonhos, e nós incor­po­ra­mos esses estí­mu­los ao que sonha­mos no momento. Todos nós já pas­sa­mos por esse tipo de expe­ri­ên­cia. Às vezes, sen­ti­mos sede e sonha­mos que esta­mos bebendo água. Den­tro de nosso sonho um carro buzina, um tele­fone toca ou alguém nos chama pelo nome, e logo em seguida des­per­ta­mos para des­co­brir que no mundo real um carro estava mesmo buzi­nando, nosso celu­lar real­mente tocava ou alguém de fato ten­tava nos des­per­tar.

Gurdjieff

Isso ainda acon­tece quando esta­mos supos­ta­mente acor­da­dos, pois em certo sen­tido ainda con­ti­nu­a­mos a sonhar, e quem sonha de olhos aber­tos é alguém cha­mado “Ego”.

E o ego sonha por­que tende a orga­ni­zar todas expe­ri­ên­cias do mundo em torno de si, como se tudo o que ocor­resse tivesse ele, direta ou indi­re­ta­mente, como pro­ta­go­nista, como per­so­na­gem cen­tral para o qual todas as coi­sas, todos os even­tos, con­ver­gem.

Assim, a única dife­rença entre estar dor­mindo e estar acor­dado seria ape­nas do grau de pro­fun­di­dade do ato de sonhar rea­li­zado pelo Ego. Isso por­que os sonhos são for­ma­dos por frag­men­tos de estí­mu­los do mundo lá fora e por ele­men­tos que estão em nosso incons­ci­ente. Há, por assim dizer, uma mis­tura de rea­li­dade e de sub­je­ti­vi­dade.

Durante o dia, a quan­ti­dade de per­cep­ções do mundo lá fora que vazam para esse nosso “sonho” é muito maior, e o Ego se encar­rega de ajus­tar todos esses estí­mu­los exte­ri­o­res para for­mar uma nar­ra­tiva coe­rente que con­fun­di­mos com a rea­li­dade, mas que não passa de algo ima­gi­nado — pois, no cen­tro da nar­ra­tiva, nós somos os pro­ta­go­nis­tas e a ver­dade é que o mundo existe, as pes­soas vivem e as coi­sas acon­te­cem inde­pen­den­te­mente de nossa exis­tên­cia.

Vamos lem­brar do exem­plo da buzina e do celu­lar. Quando esta­mos acor­da­dos, per­ce­be­mos a rea­li­dade ao nosso redor, e esta­mos cons­ci­en­tes quando um carro buzina ou toca nosso celu­lar. Pode­mos, assim, inte­ra­gir com o mundo lá fora.

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Porém, para Gurd­ji­eff, não per­ce­be­mos os estí­mu­los exter­nos tais como são, mas os sele­ci­o­na­mos e os inter­pre­ta­mos con­forme nossa pers­pec­tiva de Ego que está em parte acor­dado e em parte sonhando.

Da mesma forma como, enquanto dor­mi­mos à noite, a maté­ria de nosso sonhar é o con­junto de ele­men­tos per­ten­cen­tes ao incons­ci­ente somado a algu­mas per­cep­ções da rea­li­dade, enquanto esta­mos acor­da­dos durante o dia essas per­cep­ções, mais nume­ro­sas, são mis­tu­ra­dos pelo Ego con­di­ci­o­na­men­tos da infân­cia, trau­mas, pre­con­cei­tos, dese­jos frus­tra­dos, temo­res, expec­ta­ti­vas e pres­su­po­si­ções sobre como gos­ta­ría­mos que as coi­sas fos­sem.

Para expli­car esse pro­cesso, há um con­ceito muito útil for­mu­lado pela psi­co­lo­gia. Trata-se do fenô­meno da pro­je­ção. Assim como um antigo pro­je­tor de cinema pro­jeta na tela branca cenas de um filme, da mesma forma nosso Ego pro­jeta nos acon­te­ci­men­tos supo­si­ções e cir­cuns­tân­cias que não são reais, mas que cor­res­pon­dem, de forma por vezes sim­bó­lica, ao que está den­tro de nós e que somos inca­pa­zes de reco­nhe­cer cons­ci­en­te­mente.

Esta­mos par­ci­al­mente dor­mindo nesse exato momento jus­ta­mente por­que nosso estado de semi­des­per­tar é repleto des­sas pro­je­ções.

Esse é o motivo pelo qual, mui­tas vezes, um pequeno inci­dente no trân­sito acaba em vio­lên­cia des­pro­por­ci­o­nal. Tam­bém é a razão pela qual uma riva­li­dade entre tor­ci­das de fute­bol pode ser a dar lugar a um homi­cí­dio, ou um pequeno desen­ten­di­mento entre fami­li­a­res ou ami­gos pode resul­tar num grande desen­ten­di­mento, com todos mago­a­dos de forma incom­pre­en­sí­vel.

Matar por um time, agre­dir por causa de um pedaço de metal moto­ri­zado ou magoar-se por um inci­dente minús­culo: fatos insig­ni­fi­can­tes que resul­tam em gran­des tra­gé­dias. É que, envol­vendo os fuga­zes e pouco rele­van­tes even­tos da vida real, há cama­das e cama­das de pro­je­ções resul­tan­tes de nosso estado semi­des­perto.

Nes­ses casos e em mui­tos outros, quem dis­cute, agride ou se magoa não está real­mente enxer­gando o outro ser humano na sua frente, mas uma mis­tura da outra pes­soa com uma pro­je­ção de algo que existe ape­nas na sua cabeça. Porém, como sonha­mos acor­da­dos, jul­ga­mos ter exis­tên­cia con­creta coi­sas que estão ape­nas em nossa mente. É assim que nosso Ego man­tém uma nar­ra­tiva coe­rente, mas fal­se­ada, sobre sua impor­tân­cia no mundo.

Mas se a dife­rença entre nosso sonho noturno e nosso sonho diurno está ape­nas no grau em que os estí­mu­los inter­nos vazam para nosso sono, há algum modo de real­mente des­per­tar?

E como despertar?

Para Gurd­ji­eff have­ria, ao lado do ador­me­cer noturno e do “sonam­bu­lismo” diurno, um ter­ceiro está­gio de cons­ci­ên­cia. Esse seria o estado de pleno des­per­tar.

É dessa forma que o bigo­dudo armê­nio defi­nia o con­ceito ori­en­tal de “ilu­mi­na­ção” e seus equi­va­len­tes oci­den­tais, como a “bea­ti­tude”: não have­ria nada de mís­tico nes­ses esta­dos, o ilu­mi­nado não seria alguém que atin­giu um nível de espi­ri­tu­a­li­dade supe­rior. Quem se ilu­mina sim­ples­mente acor­dou no sen­tido de não mis­tu­rar e con­fun­dir as coi­sas do mundo real com ele­men­tos do seu mundo sub­je­tivo — a vida lá fora não é mais uma tela branca na qual seu ego pro­jeta, sem per­ce­ber, con­teú­dos que estão aqui den­tro. Ele reco­nhece as coi­sas tal como são.

Essa, curi­o­sa­mente, era a visão que outro maluco beleza, Wilhelm Reich, tinha sobre a per­so­na­li­dade de Jesus Cristo. Para Reich, não se tra­tava do “filho de Deus”, e tam­pouco de um ali­e­ní­gena ou ser de alguma forma espi­ri­tu­al­mente dis­tinto dos outros huma­nos. Ele teria sido ape­nas um homem que des­per­tou mais do que seus con­tem­po­râ­neos, e seu assas­si­nato não come­çou no momento da cru­ci­fi­ca­ção, mas quando seus dis­cí­pu­los pas­sa­ram a tratá-lo como uma espé­cie de divin­dade, detur­pando suas pala­vras.

Nesse caso tería­mos, na his­tó­ria de Cristo, um ensi­na­mento impor­tante a tirar. Quando che­ga­mos a esse ter­ceiro está­gio, a essa expe­ri­ên­cia de um maior des­per­tar, aque­les que ainda estão dor­mindo e sonhando pro­je­tam em nós o con­teúdo de seu sonho: não nos enten­dem e tam­pouco nos­sas pala­vras, então nos tra­tam como se fôs­se­mos seres espi­ri­tu­al­mente supe­ri­o­res. Isso é uma estra­té­gia defen­siva com a qual o Ego impede que pos­sa­mos ir mais além e superá-lo. Afi­nal, se aquele sujeito que fala coi­sas mara­vi­lho­sas não é como nós, mas sim uma cri­a­tura de natu­reza divina, esta­mos dis­pen­sa­dos do com­pro­misso de che­gar ao está­gio em que ele se encon­tra.

Mas no momento em que des­per­ta­mos, já não nos enga­na­mos mais e somos capa­zes, ao menos em parte, de reco­nhe­cer o mundo e as coi­sas tal como de fato são. Per­ce­be­mos a rea­li­dade den­tro da modesta capa­ci­dade de nossa cons­ci­ên­cia, mas essa capa­ci­dade está dis­po­ní­vel em sua poten­ci­a­li­dade mais plena pois não está con­ta­mi­nada por con­teú­dos do incons­ci­ente. Esta­mos acor­da­dos e pos­suí­mos a noção mais pre­cisa pos­sí­vel dos estí­mu­los exter­nos, de modo a per­ce­ber a com­ple­xi­dade e ambi­gui­dade de cada situ­a­ção ou ser com que entra­mos em con­tato, e a difi­cul­dade pecu­liar de adaptá-los nas cate­go­rias men­tais que nossa mente for­mula.

Qual pílula você escolheria? A da verdade ou a da ilusão?

Qual pílula você esco­lhe­ria? A da ver­dade ou a da ilu­são?

Mas ainda não che­ga­mos ao que importa: há algum modo de não sonhar­mos mais?

Nesse ponto, a pri­meira ati­tude men­tal­mente sau­dá­vel é aban­do­nar qual­quer tipo de obses­são pela ideia de “des­per­tar”. Gur­di­eff era, em grande parte, obce­cado com a noção de que podía­mos atin­gir uma cons­ci­ên­cia mais plena, e exi­gia incon­di­ci­o­nal ade­são de seus dis­cí­pu­los que deve­riam fazer exer­cí­cios diá­rios de aten­ção para não se dei­xar “ador­me­cer” no coti­di­ano.

Porém, um dos segre­dos da vida que nos poupa de sofri­mento des­ne­ces­sá­rio é não exi­gir de si um desem­pe­nho de per­fei­ção a 100%. Admi­tir que a natu­reza humana é falha e que graus meno­res de sucesso, atin­gí­veis sem o sacri­fí­cio de nos­sas rela­ções huma­nas, são pos­sí­veis, é a ati­tude mais reco­men­dá­vel.

É por isso que se come­çar­mos com uma com­pre­en­são de que qual­quer pequeno des­per­tar diá­rio, por menor que seja, já é uma vitó­ria, esta­mos no cami­nho certo. Sere­mos capa­zes de nos des­cul­par e com­pre­en­der quando nos apa­nhar­mos dor­mindo diante de uma situ­a­ção, pro­je­tando no mundo real o que é “sonho” de nossa mente, e segui­re­mos um tra­jeto suave, sem atri­tos e obses­sões, para um cami­nho de melhor qua­li­dade de vida.

E qua­li­dade de vida é uma pala­vra impor­tante, pois deixa claro que, nesse tópico, o fun­da­men­tal é ser prá­tico e não filo­só­fico. Não que­re­mos che­gar a um está­gio de supe­ri­o­ri­dade meta­fí­sica — que­re­mos é viver bem e redu­zir o sofri­mento dos seres ao nosso redor. Isso por­que ainda não res­pon­de­mos cla­ra­mente como che­gar a um maior des­per­tar.

Ocorre que a segunda ati­tude men­tal sau­dá­vel é não se dei­xar pren­der a qual­quer filo­so­fia ou dou­trina espe­cí­fica que nos sirva como forma de des­per­tar. Pois ao lado do risco da “obses­são”, tam­bém há o risco de “fana­ti­za­ção” com uma das vari­a­das dou­tri­nas e téc­ni­cas que podem nos for­ne­cer para dei­xar­mos de dor­mir acor­da­dos.

Por­que há, sim, vários méto­dos capa­zes de ser­vir como via para um maior des­per­tar. O grande tru­que é con­si­de­rar­mos todos esses méto­dos e dou­tri­nas como ins­tru­men­tos, úteis den­tro de deter­mi­na­dos limi­tes e con­tex­tos, e não como ver­da­des abso­lu­tas que tra­zem a pana­ceia para nossa situ­a­ção.

E se ado­tar­mos essa pos­tura, pra­ti­ca­mente quase todas as ati­vi­da­des de desen­vol­vi­mento humano, da Yoga à prá­tica de nosso esporte favo­rito, tor­nam-se fer­ra­men­tas para o des­per­tar.

Dito isso, uma das prá­ti­cas mais anti­gas e efi­ci­en­tes para come­çar a tri­lhar o cami­nho de um maior des­per­tar é a medi­ta­ção. Por assim dizer, a ela é uma “tec­no­lo­gia de des­per­tar” desen­vol­vida no Ori­ente. Há, na ver­dade, vários tipos de medi­ta­ção, e a expe­ri­ên­cia de cada uma delas é tão par­ti­cu­lar que é como se fosse uma roupa que se ajusta à cada pes­soa con­forme suas par­ti­cu­la­ri­da­des. Mas todas indu­zem, de uma forma ou de outra, nossa mente a ficar mais atenta aos seus pro­ces­sos inter­nos e à rela­ção com o mundo externo.

E moder­na­mente, arrisco dizer que o Oci­dente desen­vol­veu moder­na­mente sua pró­pria tec­no­lo­gia de des­per­tar, embora sobre ela ainda recaia muita incom­pre­en­são e acu­sa­ções injus­tas, em grande parte vin­das de pes­soas que jamais toma­ram o cui­dado de real­mente estudá-la com a pro­fun­di­dade e aten­ção que ela existe, e quecon­fun­dem o mapa com o ter­reno que ele tenta repre­sen­tar. Trata-se da psi­ca­ná­lise, que se desen­vol­veu muito após o passo ini­cial dado por Freud (e as prin­ci­pais crí­ti­cas de lei­gos vol­tam-se muito a esse fun­da­dor, igno­rando o que foi revisto e refor­mu­lado ao longo de um século) e que nos auxi­lia a com­pre­en­der até onde a nossa per­cep­ção do mundo cir­cun­dante é afe­tada e mesmo fal­se­ada por ele­men­tos inter­nos.

Existe, assim, um ponto de encon­tro entre a prá­tica ori­en­tal da medi­ta­ção e o pro­ce­di­mento oci­den­tal da psi­ca­ná­lise. Seja pelo treino da desin­den­ti­fi­ca­ção entre a cons­ci­ên­cia e os pen­sa­men­tos (medi­ta­ção), seja pelo tra­ba­lho de reco­nhe­ci­mento da repre­sen­ta­ções emocionais/simbólicas (psi­ca­ná­lise), ambas as expe­ri­ên­cias par­tem de pon­tos dís­pa­res (a medi­ta­ção, do treino da cons­ci­ên­cia; a psi­ca­ná­lise, do labor com o incons­ci­ente) para atin­gir um obje­tivo comum: a habi­li­dade de dis­tin­guir o que há de real daquilo que há de oní­rico.

Um mundo com pes­soas mais des­per­tas é um mundo de pes­soas mais amo­ro­sas em suas rela­ções e mais res­pon­sá­veis em seus atos. Quem acor­dou um pouco mais do sonam­bu­lismo diá­rio é capaz de ter a aber­tura neces­sá­ria para cons­truir uma soci­e­dade real­mente evo­luída, em que o cen­tro de nos­sas deci­sões não é o ego, mas o bem estar cole­tivo.

Faze­mos, por fim, ami­zade com o des­co­nhe­cido que há em nós e que comanda nos­sas vidas. Tra­ze­mos ele à luz, reco­nhe­ce­mos os seus obje­ti­vos con­fu­sos, medos ocul­tos e dese­jos incon­fes­sos. E ele se torna menos mani­pu­lá­vel, menos cego em seus pas­sos. Na ver­dade, ocorre a fusão entre nós e uma parte de nosso ser que igno­ra­mos. Por fim, abri­mos nos­sos olhos um pouco mais, pois eles estão fecha­dos neste exato momento, e sonha­mos sem per­ce­ber.

Por­tanto, des­per­te­mos.

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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