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O acidente de Teori e as teorias conspiratórias

Em Comportamento, Consciência, Política por Pedro SampaioComentários

Achei que uma boa noite de sono e novas infor­ma­ções sobre o aci­dente seriam sufi­ci­en­tes para as pes­soas ama­nhe­ce­rem menos con­vic­tas de que a morte de Teori Zavascki faz parte de uma grande cons­pi­ra­ção. Mas não foi o que acon­te­ceu. Assim, vou expli­car mais deta­lha­da­mente por que a única pos­tura ini­cial raci­o­nal­mente jus­ti­fi­cada é a de crer que foi um aci­dente e por que ten­de­mos a acre­di­tar em teo­rias da cons­pi­ra­ção.

Grosso modo, isso ocorre como con­sequên­cia de dois prin­ci­pais equí­vo­cos: um erro lógico e um viés de con­fir­ma­ção.

 

ERRO LÓGICO

Qual a pro­ba­bi­li­dade de um avião cair? Qual a pro­ba­bi­li­dade de um avião cair com um dos pou­cos minis­tros do STF? Qual a pro­ba­bi­li­dade do avião cair com o minis­tro da STF que é rela­tor da Lava-Jato, a ope­ra­ção que ame­aça pren­der os mais pode­ro­sos do país?”

Esse, de regra, será o raci­o­cí­nio de quem defen­der que é extre­ma­mente impro­vá­vel que tenha sido um aci­dente, o que torna a hipó­tese de sabo­ta­gem da aero­nave para assas­si­nar o Minis­tro do STF, Teori Zavascki, mais plau­sí­vel.

Mas este raci­o­cí­nio está errado.

Obser­vem essas duas colu­nas, sepa­ra­das em pes­soas e even­tos.

 Pes­soa   Evento
 Dilma  Morta em um aci­dente de carro
 Lula  Morto em um nau­frá­gio
 Edu­ardo Cunha  Morto em um assalto
 Sér­gio Moro  Morto em um aci­dente de heli­cóp­tero
 Mar­celo Ode­bre­cht  Sui­cí­dio
 Del­tan Dal­lag­nol  Morto por queda aci­den­tal da varanda de seu pré­dio

Agora, pense que qual­quer pes­soa da pri­meira coluna venha a fale­cer atra­vés de qual­quer evento da segunda, com todas as com­bi­na­ções pos­sí­veis. Em todas estas hipó­te­ses, have­ria nume­ro­sas teo­rias da cons­pi­ra­ção, levan­ta­mento de moti­va­ções, tre­chos de áudios vaza­dos e de dela­ções onde alguém fala sobre detê-los e todo um sen­ti­mento geral de que qual­quer um des­tes even­tos é impro­vá­vel e con­ve­ni­ente demais.

Esta­mos num momento da his­tó­ria do país em que há uma grande rede de sus­pei­tos, inves­ti­ga­do­res, juí­zes, pro­cu­ra­do­res, acu­sa­dos e mui­tos per­so­na­gens envol­vi­dos no jogo de inte­res­ses polí­ti­cos. Pode­ría­mos acres­cen­tar vários nomes e vários even­tos às colu­nas acima — inclu­sive, se tivesse mor­rido Sér­gio Moro e não Teori Zavascki e eu colo­casse o minis­tro na lista acima, tal­vez achas­sem que eu esta­ria for­çando a barra, por­que o minis­tro é menos conhe­cido e não é tão deci­sivo para o futuro do país.

Caso qual­quer pes­soa com um papel impor­tante nesta trama venha a mor­rer de qual­quer coisa que não cân­cer, haverá teo­rias da cons­pi­ra­ção. Ao longo de mui­tos meses (anos já) de inves­ti­ga­ções envol­vendo tan­tas auto­ri­da­des, não é nada absurdo a morte de uma delas num aci­dente. Só parece absurdo por­que já esta­mos pegando um fato con­su­mado e iso­lando-o do espec­tro de pro­ba­bi­li­da­des.

Vamos uti­li­zar um outro exem­plo para ilus­trar. Qual a pro­ba­bi­li­dade de você ganhar o prê­mio máximo da lote­ria duas vezes? Pode guar­dar sua cal­cu­la­dora que eu já vou lhe dizer: é de uma em tan­tos tri­lhões. É até mais pro­vá­vel um mete­oro des­truir a vida na Terra nos pró­xi­mos anos do que isso acon­te­cer. Mas pes­quise no Goo­gle por pes­soas que ganha­ram na lote­ria duas vezes e encon­trará mui­tas deze­nas de resul­ta­dos. Como isso é pos­sí­vel? Deve­mos temer o mete­oro?

Não. O que acon­tece é que, embora as chan­ces disso acon­te­cer com uma pes­soa em espe­cí­fico seja infi­ni­te­si­mal, as chan­ces de que isso acon­teça com alguma pes­soa são muito altas. Nossa difi­cul­dade está em enten­der que um evento impro­vá­vel rara­mente está iso­lado, mas sim inse­rido den­tro de todo um outro imenso espec­tro de impro­ba­bi­li­da­des.

No Goo­gle, encon­tra­re­mos a his­tó­ria de uma mulher que ganhou o prê­mio máximo da lote­ria duas vezes em um período de qua­tro meses. Mate­má­ti­cos cal­cu­la­ram que a pro­ba­bi­li­dade de isso ter acon­te­cido àquela mulher em espe­cí­fico é de uma em 17 tri­lhões. Em uma escala indi­vi­dual, ela é a pes­soa mais sor­tuda do pla­neta. No entanto, as chan­ces de alguém ganhar duas vezes o prê­mio máximo da lote­ria em um período de qua­tro meses, den­tre todas as lote­rias e todas as pes­soas que jogam em lote­rias no mundo, é de uma em 30. E é pra­ti­ca­mente garan­tido que alguém no mundo vai ganhar duas vezes ao longo de um ano. Só não vai ser você.

Vol­tando ao caso do Minis­tro do STF, Teori Zavascki, morto na queda do avião, a pro­ba­bi­li­dade de isso acon­te­cer a ele era bai­xís­sima, mas tam­bém seria minús­cula a pro­ba­bi­li­dade do Sér­gio Moro mor­rer em um aci­dente de carro, do Edu­ardo Cunha logo agora mor­rer em um assalto ou qual­quer uma das mui­tas com­bi­na­ções pos­sí­veis das duas colu­nas. Mas a pro­ba­bi­li­dade de que alguma figura impor­tante da ope­ra­ção ter uma morte aci­den­tal no período de meses ou anos não é tão baixa assim.

 

VIÉS DE CONFIRMAÇÃO

O segundo equi­voco que leva as pes­soas a teo­rias cons­pi­ra­tó­rias é o fato de que ten­de­mos a igno­rar aquilo que vai con­tra nos­sas sus­pei­tas e a valo­ri­zar aquilo que as con­firma.

Deste modo, as pes­soas subli­nham que o avião não tinha caixa preta, que Jucá disse em uma con­versa inter­cep­tada que Teori Zavascki era infle­xí­vel e não dava para dobrá-lo. Lem­bram tam­bém que o juiz já havia sido ame­a­çado de morte.

Mas igno­ram que o avião voava sem feed­back de uma torre ou radar (a pista para onde ia não tinha tec­no­lo­gia alguma), estava em meio a uma tem­pes­tade, que tes­te­mu­nhas viram o piloto ten­tar pou­sar duas vezes antes do aci­dente, que aviões não-comer­ci­ais geral­mente não têm caixa-preta, que aci­den­tes com aviões par­ti­cu­la­res são seis vezes mais comuns que com aviões comer­ci­ais, que juí­zes envol­vi­dos em gran­des ope­ra­ções cos­tu­mam rece­ber ame­aça de morte, e que a ope­ra­ção pro­va­vel­mente seguirá seu rumo mesmo sem o minis­tro.

Cada fato que pesa­ria con­tra a teo­ria da cons­pi­ra­ção é mini­mi­zado ou expli­cado den­tro da nar­ra­tiva cons­pi­ra­tó­ria, cada fato novo é inter­pre­tado den­tro da trama. Curi­o­sa­mente, é neces­sá­rio uma tone­lada de evi­dên­cias con­trá­rias para con­ven­cer alguém a aban­do­nar uma teo­ria da cons­pi­ra­ção para a qual não havia evi­dên­cia alguma — ape­nas uma nar­ra­tiva plau­sí­vel que agrada nosso senso de perigo e dra­ma­ti­ci­dade.

 

Mas conspirações existem?

Cer­ta­mente. Pes­soas cons­pi­ram o tempo todo. Polí­ti­cos e pode­ro­sos cons­pi­ram entre si para esca­par da polí­cia ou con­se­guir algo.

 

Então como diferenciar uma improbabilidade que acaba acontecendo em nosso mundo de uma conspiração?

Sim­ples: há evi­dên­cias a favor da cons­pi­ra­ção? Há sinais de que o avião foi sabo­tado? Há gra­va­ção de alguém dizendo que iria dar um jeito de matar o minis­tro? Há bons moti­vos para acre­di­tar que ele e só ele deti­nha uma infor­ma­ção que pode­ria des­truir alguém pode­roso? Ou ape­nas uma nar­ra­tiva con­ve­ni­ente, ligando pon­tos iso­la­dos, sus­ten­tada a par­tir da enga­nosa impro­ba­bi­li­dade do aci­dente?

 

Mas Teori Zavascki pode ter sido assassinado?

Claro. Mas a única pos­tura ini­cial raci­o­nal­mente jus­ti­fi­cada é pres­su­por que foi um aci­dente. Sur­gindo evi­dên­cias do con­trá­rio, pode­mos mudar de opi­nião. O que não pode­mos é cair em hipó­te­ses cons­pi­ra­tó­rias que ali­men­ta­rão nosso viés de con­fir­ma­ção e farão com que tome­mos ausên­cia de evi­dên­cia como evi­dên­cia de que alguém está escon­dendo as pro­vas. É este tipo de raci­o­cí­nio que faz as pes­soas acre­di­ta­rem que o homem não foi à lua ou que o governo dos EUA esconde óvnis.

Um bom enten­di­mento sobre erros lógi­cos e sobre vie­ses de con­fir­ma­ção pode nos impe­dir de virar este tipo de pes­soa, ao mesmo tempo em que per­ma­ne­ce­mos aber­tos a mudar de opi­nião medi­ante novas evi­dên­cias.

Pedro Sampaio
Psicólogo, psicoterapeuta, professor universitário, hiperativo e insone. É casado com a Psicologia, mas tem dificuldades com a monogamia intelectual, dando frequentes puladas de cerca com a Música, Filosofia, Ciência, Literatura, Cinema e Política. Cético, acredita no debate baseado em evidências, na racionalidade e na honestidade intelectual para qualquer área, mas chora até em propaganda de margarina.

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