Achei que uma boa noite de sono e novas informações sobre o acidente seriam suficientes para as pessoas amanhecerem menos convictas de que a morte de Teori Zavascki faz parte de uma grande conspiração. Mas não foi o que aconteceu. Assim, vou explicar mais detalhadamente por que a única postura inicial racionalmente justificada é a de crer que foi um acidente e por que tendemos a acreditar em teorias da conspiração.

Grosso modo, isso ocorre como consequência de dois principais equívocos: um erro lógico e um viés de confirmação.

 

ERRO LÓGICO

“Qual a probabilidade de um avião cair? Qual a probabilidade de um avião cair com um dos poucos ministros do STF? Qual a probabilidade do avião cair com o ministro da STF que é relator da Lava-Jato, a operação que ameaça prender os mais poderosos do país?”

Esse, de regra, será o raciocínio de quem defender que é extremamente improvável que tenha sido um acidente, o que torna a hipótese de sabotagem da aeronave para assassinar o Ministro do STF, Teori Zavascki, mais plausível.

Mas este raciocínio está errado.

Observem essas duas colunas, separadas em pessoas e eventos.

 Pessoa   Evento
 Dilma  Morta em um acidente de carro
 Lula  Morto em um naufrágio
 Eduardo Cunha  Morto em um assalto
 Sérgio Moro  Morto em um acidente de helicóptero
 Marcelo Odebrecht  Suicídio
 Deltan Dallagnol  Morto por queda acidental da varanda de seu prédio

Agora, pense que qualquer pessoa da primeira coluna venha a falecer através de qualquer evento da segunda, com todas as combinações possíveis. Em todas estas hipóteses, haveria numerosas teorias da conspiração, levantamento de motivações, trechos de áudios vazados e de delações onde alguém fala sobre detê-los e todo um sentimento geral de que qualquer um destes eventos é improvável e conveniente demais.

Estamos num momento da história do país em que há uma grande rede de suspeitos, investigadores, juízes, procuradores, acusados e muitos personagens envolvidos no jogo de interesses políticos. Poderíamos acrescentar vários nomes e vários eventos às colunas acima — inclusive, se tivesse morrido Sérgio Moro e não Teori Zavascki e eu colocasse o ministro na lista acima, talvez achassem que eu estaria forçando a barra, porque o ministro é menos conhecido e não é tão decisivo para o futuro do país.

Caso qualquer pessoa com um papel importante nesta trama venha a morrer de qualquer coisa que não câncer, haverá teorias da conspiração. Ao longo de muitos meses (anos já) de investigações envolvendo tantas autoridades, não é nada absurdo a morte de uma delas num acidente. Só parece absurdo porque já estamos pegando um fato consumado e isolando-o do espectro de probabilidades.

Vamos utilizar um outro exemplo para ilustrar. Qual a probabilidade de você ganhar o prêmio máximo da loteria duas vezes? Pode guardar sua calculadora que eu já vou lhe dizer: é de uma em tantos trilhões. É até mais provável um meteoro destruir a vida na Terra nos próximos anos do que isso acontecer. Mas pesquise no Google por pessoas que ganharam na loteria duas vezes e encontrará muitas dezenas de resultados. Como isso é possível? Devemos temer o meteoro?

Não. O que acontece é que, embora as chances disso acontecer com uma pessoa em específico seja infinitesimal, as chances de que isso aconteça com alguma pessoa são muito altas. Nossa dificuldade está em entender que um evento improvável raramente está isolado, mas sim inserido dentro de todo um outro imenso espectro de improbabilidades.

No Google, encontraremos a história de uma mulher que ganhou o prêmio máximo da loteria duas vezes em um período de quatro meses. Matemáticos calcularam que a probabilidade de isso ter acontecido àquela mulher em específico é de uma em 17 trilhões. Em uma escala individual, ela é a pessoa mais sortuda do planeta. No entanto, as chances de alguém ganhar duas vezes o prêmio máximo da loteria em um período de quatro meses, dentre todas as loterias e todas as pessoas que jogam em loterias no mundo, é de uma em 30. E é praticamente garantido que alguém no mundo vai ganhar duas vezes ao longo de um ano. Só não vai ser você.

Voltando ao caso do Ministro do STF, Teori Zavascki, morto na queda do avião, a probabilidade de isso acontecer a ele era baixíssima, mas também seria minúscula a probabilidade do Sérgio Moro morrer em um acidente de carro, do Eduardo Cunha logo agora morrer em um assalto ou qualquer uma das muitas combinações possíveis das duas colunas. Mas a probabilidade de que alguma figura importante da operação ter uma morte acidental no período de meses ou anos não é tão baixa assim.

 

VIÉS DE CONFIRMAÇÃO

O segundo equivoco que leva as pessoas a teorias conspiratórias é o fato de que tendemos a ignorar aquilo que vai contra nossas suspeitas e a valorizar aquilo que as confirma.

Deste modo, as pessoas sublinham que o avião não tinha caixa preta, que Jucá disse em uma conversa interceptada que Teori Zavascki era inflexível e não dava para dobrá-lo. Lembram também que o juiz já havia sido ameaçado de morte.

Mas ignoram que o avião voava sem feedback de uma torre ou radar (a pista para onde ia não tinha tecnologia alguma), estava em meio a uma tempestade, que testemunhas viram o piloto tentar pousar duas vezes antes do acidente, que aviões não-comerciais geralmente não têm caixa-preta, que acidentes com aviões particulares são seis vezes mais comuns que com aviões comerciais, que juízes envolvidos em grandes operações costumam receber ameaça de morte, e que a operação provavelmente seguirá seu rumo mesmo sem o ministro.

Cada fato que pesaria contra a teoria da conspiração é minimizado ou explicado dentro da narrativa conspiratória, cada fato novo é interpretado dentro da trama. Curiosamente, é necessário uma tonelada de evidências contrárias para convencer alguém a abandonar uma teoria da conspiração para a qual não havia evidência alguma — apenas uma narrativa plausível que agrada nosso senso de perigo e dramaticidade.

 

Mas conspirações existem?

Certamente. Pessoas conspiram o tempo todo. Políticos e poderosos conspiram entre si para escapar da polícia ou conseguir algo.

 

Então como diferenciar uma improbabilidade que acaba acontecendo em nosso mundo de uma conspiração?

Simples: há evidências a favor da conspiração? Há sinais de que o avião foi sabotado? Há gravação de alguém dizendo que iria dar um jeito de matar o ministro? Há bons motivos para acreditar que ele e só ele detinha uma informação que poderia destruir alguém poderoso? Ou apenas uma narrativa conveniente, ligando pontos isolados, sustentada a partir da enganosa improbabilidade do acidente?

 

Mas Teori Zavascki pode ter sido assassinado?

Claro. Mas a única postura inicial racionalmente justificada é pressupor que foi um acidente. Surgindo evidências do contrário, podemos mudar de opinião. O que não podemos é cair em hipóteses conspiratórias que alimentarão nosso viés de confirmação e farão com que tomemos ausência de evidência como evidência de que alguém está escondendo as provas. É este tipo de raciocínio que faz as pessoas acreditarem que o homem não foi à lua ou que o governo dos EUA esconde óvnis.

Um bom entendimento sobre erros lógicos e sobre vieses de confirmação pode nos impedir de virar este tipo de pessoa, ao mesmo tempo em que permanecemos abertos a mudar de opinião mediante novas evidências.

Pedro Sampaio
Psicólogo, psicoterapeuta, professor universitário, hiperativo e insone. É casado com a Psicologia, mas tem dificuldades com a monogamia intelectual, dando frequentes puladas de cerca com a Música, Filosofia, Ciência, Literatura, Cinema e Política. Cético, acredita no debate baseado em evidências, na racionalidade e na honestidade intelectual para qualquer área, mas chora até em propaganda de margarina.
  • Eu pessoalmente acredito que foi acidente.
    Mas não acho absurdo a idéia de assassinato.

    Porque será que o Teori se arriscaria a ir a Paraty num
    ” avião voava sem feedback de uma torre ou radar (a pista para onde ia não tinha tecnologia alguma), estava em meio a uma tempestade, que testemunhas viram o piloto tentar pousar duas vezes antes do acidente, que aviões não-comerciais geralmente não têm caixa-preta, que acidentes com aviões particulares são seis vezes mais comuns que com aviões comerciais”.

    Ele ia para lá frequentemente?
    As duas moças que morreram também podem ser a explicação…

    Bom, existem assassinos que planejam assassinatos de pessoas que seriam melhor que não terminem o serviço que estão fazendo.

    O John Perkins já confessou isso para o mundo inteiro.

    O Presidente Equatoriano Jaime Roldos, morreu num acidente de avião e o Perkins confessou que na verdade foi assassinado. (além de terem assassinados duas testemunhas que poderiam delatar o crime)

    Omar Torrijos do Panamá, que morreu também num acidente aéreo, ele confessou o crime, contando detalhes de onde estava a bomba.

    Nos dois casos, houve antes do assassinato a tentativa de corromper, que sairia mais barato e teria menos consequências.

    O Teori Zavascki tinha um trabalho a ser realizado que incomodava muita gente.
    Ninguém planeja matar a mim ou a você com um desastre de avião, atropelamento de carro (como o presidente da Indonésia) porque nós não incomodamos ninguém.

    Então não é a toa, por viés de confirmação que existem as suspeitas. É porque a história é cíclica, sempre está se repetindo, e se acontecesse no Brasil de novo um dos possíveis alvos seria o Teori… Ele não se deixou corromper.

    Trechos do Livro “Confissões de um Assassino Econômico” de John Perkins
    http://goo.gl/Fuduj2

    In Memorian: Lucas Gomes Arcanjo
    http://goo.gl/tK0fcz

    http://jogosdinheirointernet.blogspot.com.br/2014/08/ich-e-agora-com-morte-da-terceira-opcao.html

    Especial: É tudo um assunto só!
    http://goo.gl/cpC8H3

  • Sávio Assunção

    É uma abordagem bem racional, contudo as teorias da conspiração estão na base da construção de narrativas políticas utilizadas na perpétua luta pelo poder. Assim, como há interesses poderosos por trás dessas teorias é provável que elas continuem a prosperar até que não mais interessem do ponto de vista político

  • Francisco Carlos Popriaga

    Reforçando a probabilidade de acidente: A região geográfica do litoral norte paulista/sul fluminense é considerada por muitos como das mais problemáticas para navegação aérea segura. Altas montanhas, condições climáticas que mudam abruptamente, principalmente no verão e quase inexistente apoio tecnológico. Acidentes aéreos tem maior probabilidade de acontecer aqui!