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Aceite seus demônios com olhar amoroso e compaixão

Em Consciência, Série Meditação por Matt ValentineComentário

Na mito­lo­gia budista, diz-se que na noite em que Buda atin­giu a ilu­mi­na­ção ele foi ata­cado repe­ti­da­mente por Mara, um demô­nio que repre­sen­tava os impul­sos não-sau­dá­veis e a “morte” da vida espi­ri­tual. Enquanto Buda estava sen­tado em estado de pro­funda medi­ta­ção, Mara ten­tou-o de todas as for­mas ima­gi­ná­veis. E pre­ci­sa­mente quando der­ro­tou Mara e supe­rou impul­sos não-sau­dá­veis como a ganân­cia, o medo e a luxú­ria foi que Buda alcan­çou a ilu­mi­na­ção.

Algum tempo depois de Buda atin­gir a ilu­mi­na­ção e tor­nar-se um reve­ren­ci­ado pro­fes­sor em toda a antiga Índia, Mara deci­diu fazer mais uma visita. Só que, dessa vez, Mara que­ria con­ver­sar com Buda.

Foi Ananda, dis­cí­pulo de Buda, quem pri­meiro viu Mara apro­xi­mando-se do lugar em que estava seu mes­tre. Ananda temia per­mi­tir que Mara visse a Buda, pois ele sabia de seus fei­tos malig­nos e como ele tra­tara Buda na noite em que alcan­çou a ilu­mi­na­ção.

Mas quando Buda per­ce­beu que tinha um visi­tante, ele rece­beu-o de bra­ços aber­tos. “Mara, meu amigo! Venha e tome um chá comigo!”, ele disse. Ele não expul­sou Mara, pro­fe­riu insul­tos, igno­rou-o ou ten­tou atacá-lo. Buda acei­tou Mara de bra­ços aber­tos, para o espanto de Ananda, e con­vi­dou-o a tomar chá.

A ins­tru­tora de medi­ta­ção e pra­ti­cante de Vipas­sana Tara Brach fala desse segundo e fun­da­men­tal aspecto da prá­tica da aten­ção plena. Ver Mara, per­ce­ber que ele che­gou e reco­nhecê-lo, é o pri­meiro passo da prá­tica medi­ta­tiva de Buda. Mas aceitá-lo aber­ta­mente e com com­pai­xão é um segundo e fun­da­men­tal passo que nos per­mite supe­rar mui­tos desa­fios.

capa aceitação

Já escrevi muito sobre espe­cí­fi­cas prá­ti­cas de aten­ção plena. Elas são defi­ni­ti­va­mente a essên­cia de qual­quer prá­tica medi­ta­tiva. Mas a aten­ção plena tem a ver não só com des­per­tar: tem a ver tam­bém com abrir-se. Abrir-se aos nos­sos demô­nios e con­vidá-los a tomar chá com acei­ta­ção e com­pai­xão. E isso pre­cisa ser apren­dido.

Essa é uma trans­for­ma­ção fun­da­men­tal, se com­pa­rada com o nível super­fi­cial com o qual cos­tu­ma­mos lidar com nos­sos pro­ble­mas, o que geral envolve ou evitá-los ou pre­su­mir que sabe­mos a solu­ção (sem qual­quer forma de refle­xão que con­firme nossa pre­sun­ção), agindo cega­mente sem che­gar­mos a lugar algum — pois a fonte do sofri­mento que expe­ri­men­ta­mos é muito mais pro­funda do que ima­gi­na­mos.

Acei­tar seus demô­nios com aber­tura e com­pai­xão — sejam eles algum tipo de medo, ódio ou crença limi­tada que você tem em rela­ção à vida em geral, ou alguma outra coisa — pode pare­cer uma solu­ção um bocado sim­plista para lidar com nos­sos pro­ble­mas. Mas a ver­dade é que, na mai­o­ria dos casos, essa acei­ta­ção com­pleta e sem reser­vas é tudo o que pre­ci­sa­mos para trans­for­mar­mos os nos­sos pro­ble­mas mais desa­fi­a­do­res.

Mas não se engane, isso não é algo fácil de se fazer. Acei­tar aber­ta­mente seus demô­nios pode ser uma tarefa muito difí­cil, pois exige tempo e paci­ên­cia.

Acei­tar uma coisa com aber­tura, sem fugir dela, afastá-la ou ten­tar mudar sua natu­reza fun­da­men­tal (isso é impos­sí­vel, mas é uma ten­ta­tiva habi­tual de ten­tar­mos evi­tar sofri­mento) sig­ni­fica encará-la e dizer: “eu vejo você, sei que está aí, sei o que você é mas não estou com medo; eu aceito você com bra­ços aber­tos e um cora­ção aberto que enxerga você tal como é”.

No fundo dessa acei­ta­ção e aber­tura está a com­pai­xão, e no fundo da com­pai­xão está a com­pre­en­são. Com­pre­en­der alguma coisa pro­fun­da­mente é amar essa coisa pro­fun­da­mente e sen­tir grande com­pai­xão por ela. Per­ce­ber e iden­ti­fi­car seus demô­nios com plena cons­ci­ên­cia é por si mesmo um ato de com­pai­xão que se torna pos­sí­vel devido à cla­reza que adqui­ri­mos atra­vés da medi­ta­ção. Por­tanto, é a medi­ta­ção que pos­si­bi­lita a acei­ta­ção e a aber­tura.

Sem a cla­reza que adqui­ri­mos atra­vés da prá­tica da medi­ta­ção, não somos capa­zes de com­pre­en­der nos­sos demô­nios e reco­nhecê-los como os fenô­me­nos natu­rais que real­mente são. Nós con­ti­nu­a­mos a tratá-los como “falhas” ou “defei­tos” e nos vol­ta­mos a um sem número de com­por­ta­men­tos pouco sau­dá­veis, ten­tando afastá-los. A prá­tica diá­ria de medi­ta­ção que­bra esse ciclo por­que a cla­ri­dade que adqui­ri­mos nos ajuda a cul­ti­var uma com­pre­en­são pro­funda. E é essa com­pre­en­são pro­funda, obtida por meio da aten­ção plena, que nos per­mite cul­ti­var essa grande e aberta acei­ta­ção de nos­sos mai­o­res desa­fios.

Meditação 4A

Buda dei­xou um con­junto de ins­tru­ções para nos auxi­liar a lidar com o que quer que surja durante a medi­ta­ção, em forma de pas­sos:

- Reco­nhe­ci­mento;
— Acei­ta­ção;
— Aco­lhi­mento;
— Per­cep­ção pro­funda;
Insight (com insight nós sabe­mos o que fazer e o que não fazer para mudar a situ­a­ção).

Esses pas­sos são, na ver­dade, está­gios, espe­ci­al­mente o último, insight. No fim do pro­cesso é que o insight nos per­mite viver com mais habi­li­dade para lidar com nos­sos desa­fios, e tam­bém com mais paz e ale­gria enquanto leva­mos a vida adi­ante.

Criei um exer­cí­cio medi­ta­tivo cha­mado 4A, ins­pi­rado nes­ses pas­sos, e que tam­bém no fundo tem a ver com o poder que há em per­ce­ber que esta­mos todos jun­tos diante de nos­sos desa­fios huma­nos.
Chamo de 4A pois esses são os pas­sos do exer­cí­cio:

1. Aten­ção amo­rosa;
2. Aber­tura;
3. Ava­li­a­ção da expe­ri­ên­cia;
4. Aco­lhi­mento.

Todas as eta­pas da medi­ta­ção 4A têm uma cono­ta­ção aco­lhe­dora e assim man­tém esse sen­ti­mento de aco­lhi­mento e amis­to­si­dade durante toda a prá­tica. Isso é exce­lente para o estresse, ansi­e­dade, depres­são, dor crô­nica e qual­quer hábito nega­tivo que esteja nos sub­ju­gando. Isso tam­bém é uma exce­lente prá­tica para lidar com emo­ções for­tes, e pode ser uti­li­zada para relem­brar expe­ri­ên­cias difí­ceis.

1. Atenção amorosa

O pri­meiro passo, a aten­ção amo­rosa, é uma modi­fi­ca­ção do ato de aten­ção plena. Por ser uma téc­nica cen­trada mais em desen­vol­ver um senso de amor e gen­ti­leza para con­sigo pró­prio, come­ça­mos a per­ce­ber o desa­fio ou a dor diante de nós de uma forma amo­rosa, cheia de com­pai­xão e gen­ti­leza. Fazendo isso, nós garan­ti­mos que o resto do exer­cí­cio seja muito mais efe­tivo.

Para pra­ti­car a aten­ção amo­rosa, ao invés de sim­ples­mente per­ce­ber algo com plena aten­ção, ima­gine-se trans­mi­tindo amor e gen­ti­leza para o objeto de sua con­cen­tra­ção. Se é alguma espé­cie de medo, após tor­nar-se ple­na­mente cons­ci­ente desse medo ima­gine-se obser­vando o sen­ti­mento da pró­xima vez em que ele sur­gir da mesma forma como um pai olha para seu filho.

Veja o medo como um fenô­meno que ocorre natu­ral­mente devido a uma com­bi­na­ção de fato­res, ao invés de enxergá-lo como uma parte indis­so­ciá­vel da sua iden­ti­dade. Isso é algo que real­mente nos cap­tura, quando pen­sa­mos que o medo faz parte de nós, que temos um pro­blema com a raiva ou que não somos bons o sufi­ci­ente.

2. Abertura

Agora que reco­nhe­ce­mos o medo como um amigo e não como um adver­sá­rio que nos agride, pode­mos dar o pró­ximo passo, que é abrir-se ao sen­ti­mento. Esse é o está­gio de acei­ta­ção, e acre­dito que “aber­tura” é a melhor forma de des­cre­ver esse passo.

Nesse segundo está­gio, você dá boas-vin­das ao sen­ti­mento não do ponto de vista de um “eu” limi­ta­dor, de um estado de espí­rito teme­roso (“eu sinto medo”, “eu aceito esse medo”), mas antes de um estado de espí­rito que é nosso ver­da­deiro ser mais expan­sivo. O medo, então, é sim­ples­mente uma coisa que surge natu­ral­mente devido a um con­junto de fato­res, e não está vin­cu­lado nem com­põe a sua iden­ti­dade pes­soal. Você sequer pre­cisa real­mente ter se cons­ci­en­ti­zado disso ainda, você pre­cisa só ima­gi­nar como veria o medo se tivesse essa pers­pec­tiva das coi­sas. Dessa forma, você muda a sua pers­pec­tiva e altera a forma com que se rela­ci­ona com o medo. Não será mais “meu medo”, mas sim­ples­mente “medo”.

E jus­ta­mente por­que você dá boas-vin­das a esse medo naquele momento e espaço no qual você está situ­ado, intei­ra­mente e incon­di­ci­o­nal­mente, isso exige cora­gem. Fazer a tran­si­ção entre “meu medo” e “medo” ajuda, mas isso não per­mite magi­ca­mente que você trans­cenda o seu ego. E por causa disso você ainda sen­tirá algum nível de des­con­forto quando enca­rar o medo (ou seja qual for o sen­ti­mento que está lhe desa­fi­ando). Se isso soa meio assus­ta­dor, bem, é por­que às vezes é mesmo (e outras vezes não é).

Mas o legal é que a ver­da­deira cora­gem não exige que você eli­mine seus medos — ela ape­nas exige que você per­sista e os encare. Mesmo um rápido ins­tante de cora­gem tem um valor pre­ci­oso, então não pense que você pre­cisa de um esforço monu­men­tal. Cada pequeno esforço na dire­ção de um pouco de cora­gem torna tudo pro­gres­si­va­mente mais fácil, então faça o seu melhor esforço em cada momento que dessa forma você abrirá seu cami­nho.

3. Avaliação da experiência

Esse passo é muito mais uma inves­ti­ga­ção do passo ante­rior, mas na ver­dade é menos uma inves­ti­ga­ção e mais um pro­cesso de sen­tir-se à von­tade com o medo (nesse exem­plo) e dis­solvê-lo. Trata-se de obser­var os aspec­tos do sen­ti­mento e con­ti­nuar a trans­mi­tir amor e com­pai­xão ao invés de lidar com a situ­a­ção com uma espé­cie de fria aná­lise valo­ra­tiva.

Pros­siga com plena aten­ção de tudo o que sur­gir com o sen­ti­mento. Qual a natu­reza essen­cial desse medo? Qual a sua ori­gem? Quais as suas carac­te­rís­ti­cas? O que o faz sur­gir? Não se apro­funde demais no sen­ti­mento, e sim sim­ples­mente preste aten­ção à medida em que ele surge. Faça ami­zade com o seu desa­fio e con­ti­nue a ima­giná-lo como um amigo que senta pró­ximo a você e com o qual você apre­cia uma tran­quila con­ver­sa­ção.

4. Acolhimento

A seguir vem o que acre­dito ser o aspecto mais pode­roso dessa forma par­ti­cu­lar de medi­ta­ção. Agora, você expan­dirá a sua pers­pec­tiva deste momento, deste desa­fio, e sua rela­ção com o sen­ti­mento inde­se­já­vel incluirá todas as outras pes­soas.

Ima­gine o rosto das outras pes­soas expe­ri­men­tando o mesmo sen­ti­mento ou outro seme­lhante a ele, à medida em que você per­cebe que não está sozi­nho. Outros tam­bém viven­ciam esse sen­ti­mento assim como você. E mui­tos enfren­tam exa­ta­mente o mesmo desa­fio que você, não importa o que seja. Sinta o sofri­mento des­sas outras pes­soas, e a com­pai­xão sur­girá como con­sequên­cia.

Agora, ima­gine esses sen­ti­men­tos de amor e com­pai­xão que você cul­ti­vou durante a medi­ta­ção expan­dindo-se para as outras pes­soas que pas­sam pelo mesmo que você.

Vivendo com sabedoria

Seria um erro pen­sar que acei­tar o seu desa­fio ou sofri­mento com aber­tura é o fim do exer­cí­cio. O obje­tivo é viver com aten­ção plena, tanto com cons­ci­ên­cia aberta como com plena acei­ta­ção, e colo­car a nós mes­mos em um lugar em que pode­mos agir com mais sabe­do­ria na nossa vida coti­di­ana. Esse é o obje­tivo do exer­cí­cio.

Ao acei­tar ple­na­mente nos­sos demô­nios, ao con­vidá-los para tomar chá, nós pode­mos observá-los pro­fun­da­mente e assim não só apro­fun­dar nosso conhe­ci­mento sobre eles, como tam­bém des­co­brir for­mas efi­ca­zes de superá-los. Por­tanto, é neste espaço de ampla acei­ta­ção que pode­mos viver nossa vida coti­di­ana com maior sabe­do­ria, e isso nos con­duz a uma maior paz e a uma feli­ci­dade mais con­sis­tente.


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