Na mitologia budista, diz-se que na noite em que Buda atingiu a iluminação ele foi atacado repetidamente por Mara, um demônio que representava os impulsos não-saudáveis e a “morte” da vida espiritual. Enquanto Buda estava sentado em estado de profunda meditação, Mara tentou-o de todas as formas imagináveis. E precisamente quando derrotou Mara e superou impulsos não-saudáveis como a ganância, o medo e a luxúria foi que Buda alcançou a iluminação.

Algum tempo depois de Buda atingir a iluminação e tornar-se um reverenciado professor em toda a antiga Índia, Mara decidiu fazer mais uma visita. Só que, dessa vez, Mara queria conversar com Buda.

Foi Ananda, discípulo de Buda, quem primeiro viu Mara aproximando-se do lugar em que estava seu mestre. Ananda temia permitir que Mara visse a Buda, pois ele sabia de seus feitos malignos e como ele tratara Buda na noite em que alcançou a iluminação.

Mas quando Buda percebeu que tinha um visitante, ele recebeu-o de braços abertos. “Mara, meu amigo! Venha e tome um chá comigo!”, ele disse. Ele não expulsou Mara, proferiu insultos, ignorou-o ou tentou atacá-lo. Buda aceitou Mara de braços abertos, para o espanto de Ananda, e convidou-o a tomar chá.

A instrutora de meditação e praticante de Vipassana Tara Brach fala desse segundo e fundamental aspecto da prática da atenção plena. Ver Mara, perceber que ele chegou e reconhecê-lo, é o primeiro passo da prática meditativa de Buda. Mas aceitá-lo abertamente e com compaixão é um segundo e fundamental passo que nos permite superar muitos desafios.

capa aceitação

Já escrevi muito sobre específicas práticas de atenção plena. Elas são definitivamente a essência de qualquer prática meditativa. Mas a atenção plena tem a ver não só com despertar: tem a ver também com abrir-se. Abrir-se aos nossos demônios e convidá-los a tomar chá com aceitação e compaixão. E isso precisa ser aprendido.

Essa é uma transformação fundamental, se comparada com o nível superficial com o qual costumamos lidar com nossos problemas, o que geral envolve ou evitá-los ou presumir que sabemos a solução (sem qualquer forma de reflexão que confirme nossa presunção), agindo cegamente sem chegarmos a lugar algum – pois a fonte do sofrimento que experimentamos é muito mais profunda do que imaginamos.

Aceitar seus demônios com abertura e compaixão – sejam eles algum tipo de medo, ódio ou crença limitada que você tem em relação à vida em geral, ou alguma outra coisa – pode parecer uma solução um bocado simplista para lidar com nossos problemas. Mas a verdade é que, na maioria dos casos, essa aceitação completa e sem reservas é tudo o que precisamos para transformarmos os nossos problemas mais desafiadores.

Mas não se engane, isso não é algo fácil de se fazer. Aceitar abertamente seus demônios pode ser uma tarefa muito difícil, pois exige tempo e paciência.

Aceitar uma coisa com abertura, sem fugir dela, afastá-la ou tentar mudar sua natureza fundamental (isso é impossível, mas é uma tentativa habitual de tentarmos evitar sofrimento) significa encará-la e dizer: “eu vejo você, sei que está aí, sei o que você é mas não estou com medo; eu aceito você com braços abertos e um coração aberto que enxerga você tal como é”.

No fundo dessa aceitação e abertura está a compaixão, e no fundo da compaixão está a compreensão. Compreender alguma coisa profundamente é amar essa coisa profundamente e sentir grande compaixão por ela. Perceber e identificar seus demônios com plena consciência é por si mesmo um ato de compaixão que se torna possível devido à clareza que adquirimos através da meditação. Portanto, é a meditação que possibilita a aceitação e a abertura.

Sem a clareza que adquirimos através da prática da meditação, não somos capazes de compreender nossos demônios e reconhecê-los como os fenômenos naturais que realmente são. Nós continuamos a tratá-los como “falhas” ou “defeitos” e nos voltamos a um sem número de comportamentos pouco saudáveis, tentando afastá-los. A prática diária de meditação quebra esse ciclo porque a claridade que adquirimos nos ajuda a cultivar uma compreensão profunda. E é essa compreensão profunda, obtida por meio da atenção plena, que nos permite cultivar essa grande e aberta aceitação de nossos maiores desafios.

Meditação 4A

Buda deixou um conjunto de instruções para nos auxiliar a lidar com o que quer que surja durante a meditação, em forma de passos:

– Reconhecimento;
– Aceitação;
– Acolhimento;
– Percepção profunda;
Insight (com insight nós sabemos o que fazer e o que não fazer para mudar a situação).

Esses passos são, na verdade, estágios, especialmente o último, insight. No fim do processo é que o insight nos permite viver com mais habilidade para lidar com nossos desafios, e também com mais paz e alegria enquanto levamos a vida adiante.

Criei um exercício meditativo chamado 4A, inspirado nesses passos, e que também no fundo tem a ver com o poder que há em perceber que estamos todos juntos diante de nossos desafios humanos.
Chamo de 4A pois esses são os passos do exercício:

1. Atenção amorosa;
2. Abertura;
3. Avaliação da experiência;
4. Acolhimento.

Todas as etapas da meditação 4A têm uma conotação acolhedora e assim mantém esse sentimento de acolhimento e amistosidade durante toda a prática. Isso é excelente para o estresse, ansiedade, depressão, dor crônica e qualquer hábito negativo que esteja nos subjugando. Isso também é uma excelente prática para lidar com emoções fortes, e pode ser utilizada para relembrar experiências difíceis.

1. Atenção amorosa

O primeiro passo, a atenção amorosa, é uma modificação do ato de atenção plena. Por ser uma técnica centrada mais em desenvolver um senso de amor e gentileza para consigo próprio, começamos a perceber o desafio ou a dor diante de nós de uma forma amorosa, cheia de compaixão e gentileza. Fazendo isso, nós garantimos que o resto do exercício seja muito mais efetivo.

Para praticar a atenção amorosa, ao invés de simplesmente perceber algo com plena atenção, imagine-se transmitindo amor e gentileza para o objeto de sua concentração. Se é alguma espécie de medo, após tornar-se plenamente consciente desse medo imagine-se observando o sentimento da próxima vez em que ele surgir da mesma forma como um pai olha para seu filho.

Veja o medo como um fenômeno que ocorre naturalmente devido a uma combinação de fatores, ao invés de enxergá-lo como uma parte indissociável da sua identidade. Isso é algo que realmente nos captura, quando pensamos que o medo faz parte de nós, que temos um problema com a raiva ou que não somos bons o suficiente.

2. Abertura

Agora que reconhecemos o medo como um amigo e não como um adversário que nos agride, podemos dar o próximo passo, que é abrir-se ao sentimento. Esse é o estágio de aceitação, e acredito que “abertura” é a melhor forma de descrever esse passo.

Nesse segundo estágio, você dá boas-vindas ao sentimento não do ponto de vista de um “eu” limitador, de um estado de espírito temeroso (“eu sinto medo”, “eu aceito esse medo”), mas antes de um estado de espírito que é nosso verdadeiro ser mais expansivo. O medo, então, é simplesmente uma coisa que surge naturalmente devido a um conjunto de fatores, e não está vinculado nem compõe a sua identidade pessoal. Você sequer precisa realmente ter se conscientizado disso ainda, você precisa só imaginar como veria o medo se tivesse essa perspectiva das coisas. Dessa forma, você muda a sua perspectiva e altera a forma com que se relaciona com o medo. Não será mais “meu medo”, mas simplesmente “medo”.

E justamente porque você dá boas-vindas a esse medo naquele momento e espaço no qual você está situado, inteiramente e incondicionalmente, isso exige coragem. Fazer a transição entre “meu medo” e “medo” ajuda, mas isso não permite magicamente que você transcenda o seu ego. E por causa disso você ainda sentirá algum nível de desconforto quando encarar o medo (ou seja qual for o sentimento que está lhe desafiando). Se isso soa meio assustador, bem, é porque às vezes é mesmo (e outras vezes não é).

Mas o legal é que a verdadeira coragem não exige que você elimine seus medos – ela apenas exige que você persista e os encare. Mesmo um rápido instante de coragem tem um valor precioso, então não pense que você precisa de um esforço monumental. Cada pequeno esforço na direção de um pouco de coragem torna tudo progressivamente mais fácil, então faça o seu melhor esforço em cada momento que dessa forma você abrirá seu caminho.

3. Avaliação da experiência

Esse passo é muito mais uma investigação do passo anterior, mas na verdade é menos uma investigação e mais um processo de sentir-se à vontade com o medo (nesse exemplo) e dissolvê-lo. Trata-se de observar os aspectos do sentimento e continuar a transmitir amor e compaixão ao invés de lidar com a situação com uma espécie de fria análise valorativa.

Prossiga com plena atenção de tudo o que surgir com o sentimento. Qual a natureza essencial desse medo? Qual a sua origem? Quais as suas características? O que o faz surgir? Não se aprofunde demais no sentimento, e sim simplesmente preste atenção à medida em que ele surge. Faça amizade com o seu desafio e continue a imaginá-lo como um amigo que senta próximo a você e com o qual você aprecia uma tranquila conversação.

4. Acolhimento

A seguir vem o que acredito ser o aspecto mais poderoso dessa forma particular de meditação. Agora, você expandirá a sua perspectiva deste momento, deste desafio, e sua relação com o sentimento indesejável incluirá todas as outras pessoas.

Imagine o rosto das outras pessoas experimentando o mesmo sentimento ou outro semelhante a ele, à medida em que você percebe que não está sozinho. Outros também vivenciam esse sentimento assim como você. E muitos enfrentam exatamente o mesmo desafio que você, não importa o que seja. Sinta o sofrimento dessas outras pessoas, e a compaixão surgirá como consequência.

Agora, imagine esses sentimentos de amor e compaixão que você cultivou durante a meditação expandindo-se para as outras pessoas que passam pelo mesmo que você.

Vivendo com sabedoria

Seria um erro pensar que aceitar o seu desafio ou sofrimento com abertura é o fim do exercício. O objetivo é viver com atenção plena, tanto com consciência aberta como com plena aceitação, e colocar a nós mesmos em um lugar em que podemos agir com mais sabedoria na nossa vida cotidiana. Esse é o objetivo do exercício.

Ao aceitar plenamente nossos demônios, ao convidá-los para tomar chá, nós podemos observá-los profundamente e assim não só aprofundar nosso conhecimento sobre eles, como também descobrir formas eficazes de superá-los. Portanto, é neste espaço de ampla aceitação que podemos viver nossa vida cotidiana com maior sabedoria, e isso nos conduz a uma maior paz e a uma felicidade mais consistente.


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escrito por:

Matt Valentine