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Aberturas que já valem a série inteira

Em Tempo de Curtir por Felipe NovaesComentário

Exis­tem algu­mas músi­cas que ficam na nossa cabeça. Podem não ser de qua­li­dade — ainda que você possa argu­men­tar que não existe algo “de boa qua­li­dade” em si — , mas algo em sua estru­tura sonora defi­ni­ti­va­mente que faz com que sejam ines­que­cí­veis, como uma espé­cie de meme insis­tente (esse é o prin­cí­pio daque­las músi­cas de pro­pa­gan­das, bola­das sagaz­mente pelo pes­soal do mar­ke­ting).

Melhor ainda é quando temos uma música que não sai da cabeça, que é boa, e que serve para com­por aquela série que tem nos tirado o sono por nos fazer assis­tir e re-assis­tir os epi­só­dios num loo­ping fre­né­tico. É como se fosse o melhor dos casa­men­tos: uma série bem rotei­ri­zada e diri­gida que é apre­sen­tada ao espec­ta­dor com uma aber­tura bela este­ti­ca­mente, com uma boa e sig­ni­fi­ca­tiva música.

Foi pen­sando nessa com­bi­na­ção mara­vi­lhosa que resolvi criar uma lista das séries que vi (ou estou vendo) que mais se encai­xam nes­ses cri­té­rios. Não vou posi­ci­oná-las de acordo com a melhor ou a pior, elas estão em posi­ção ale­a­tó­ria. Por­tanto, seria legal se você me aju­dasse nessa tarefa, suge­rindo uma ordem ou mesmo falando de alguma outra série que não conheço!
 

True Detective

 

Esqueça Car­cosa e os cri­mes. True Detec­tive é sobre como for­jar bons per­so­na­gens, sobre como bons e maus sujei­tos for­mam uns aos outros. Essa foi uma série curta da HBO, mas com his­tó­ria sufi­ci­ente pra dei­xar os fãs ocu­pa­dos por meses, atrás de bases filo­só­fi­cas que com­pu­se­ram o roteiro, uni­ver­sos expan­di­dos e lei­tu­ras adi­ci­o­nais.

A trama cri­ada por Nic Piz­zo­latto se volta para o tra­ba­lho de dois inves­ti­ga­do­res, o agente Rust Cohle e Mar­tin Hart, num tra­ba­lho que envolve a ati­vi­dade de um som­brio serial kil­ler que parece ter uma ori­gem muito mais obs­cura do que espe­ra­vam. Isso tudo, no entanto, é pano de fundo para algo que se desen­volve mais pro­fun­da­mente no enredo, a rela­ção entre Rust e Mar­tin, um texano intro­ver­tido, refle­xivo e pes­si­mista, e um reli­gi­oso tra­di­ci­o­na­lista que parece levar uma vida dupla de hipo­cri­sia e trai­ção. O que marca a série é a trans­for­ma­ção de ambos, com suas per­so­na­li­da­des curi­o­sas que man­tém a todos gru­da­dos na tela.

A aber­tura é con­du­zida per­fei­ta­mente por Far From Any Road, can­tada pela Hand­some Family, uma banda de Chi­cago, embora o voca­lista seja um texano com aquele sota­que ana­sa­lado e arras­tado e por vezes claro dos sulis­tas ame­ri­ca­nos, o que é per­fei­ta­mente cabí­vel den­tro da nar­ra­tiva de True Detec­tive, inclu­sive, com seu fundo cul­tu­ral e esté­tico do sul. Os tons são mui­tas vezes som­brios, ape­sar de a banda con­tar com um bom reper­tó­rio gos­pel em sua dis­co­gra­fia. O estilo varia de maneira bem agra­dá­vel entre o coun­try e o blu­e­grass, com espe­cial ênfase nas mur­der bal­lads.

Far From Any Road remete ao clima latino des­sas do sul ame­ri­cano e parece se entre­la­çar com a cul­tura do cow­boy. E a pegada som­bria do ritmo, da voz do voca­lista e da quase pro­po­si­tal­mente hor­ri­pi­lante da voca­lista lem­bram muito o pró­prio ambi­ente da his­tó­ria, com neblina pra todo lado, tempo nublado, que parece refle­tir o inte­rior do agente Rust, com sua per­so­na­li­dade pes­si­mista e sem espe­rança.

Como não é novi­dade para a mai­o­ria dos fãs, o roteiro de Nic Piz­zo­latto sofreu grande influên­cia de clás­si­cos do hor­ror cós­mico, como Robert Cham­bers, em O Rei de Ama­relo, e H. P. Love­craft, com seus incon­tá­veis con­tos sobre o hor­ror indi­zí­vel do que está muito além de nossa per­cep­ção e com­pre­en­são ordi­ná­rias. Não sei se pas­sei a per­ce­ber desta forma con­ve­ni­en­te­mente depois de me infor­mar sobre isso tudo, mas essa bela e ter­rí­vel música de aber­tura parece pas­sar jus­ta­mente o mesmo sen­ti­mento que essa atmos­fera per­me­ada por ele­men­tos de hor­ror cós­mico.
 

The Americans

 

A his­tó­ria se passa nos últi­mos 20 anos de Guerra Fria, com dois agen­tes da KGB (a agên­cia de espi­o­na­gem russa) infil­tra­dos em solo ame­ri­cano. O dife­ren­cial da série, além do rea­lismo com que a espi­o­na­gem é tra­tada, é a mis­tura com a vida pro­fis­si­o­nal e pes­soal dos per­so­na­gens.

Eli­za­beth e Phi­lip Jen­nings são/representam um casal que tra­ba­lha no ramo de turismo e tem dois filhos. A ideia era que ambos repre­sen­tas­sem esse papel para serem a famí­lia modelo do Tio Sam, acima de sus­pei­tas. Mas ao longo dos anos os dois desen­vol­vem uma ver­da­deira rela­ção de cum­pli­ci­dade e amor em meio aos dis­far­ces e ope­ra­ções ile­gais alta­mente arris­ca­das.

Um dos pon­tos sutis, mas muito inte­res­san­tes, são os momen­tos em que é comen­tada a dife­rença de men­ta­li­dade entre ame­ri­ca­nos, adap­ta­dos a um sis­tema capi­ta­lista, que visa lucro, e um sis­tema soci­a­lista, que não tem como pri­o­ri­dade o luxo e o acú­mulo, mas pro­du­ção e dis­tri­bui­ção.

A música de aber­tura é bem carac­te­rís­tica da Rús­sia, com os sons ligei­ros da bala­laica, música fol­cló­rica do país. Na série, não parece haver os ins­tru­men­tos que os rus­sos usam tipi­ca­mente, mas o piano (acho que é piano) tocando repro­duz um ritmo bas­tante pare­cido. Essa velo­ci­dade sonora se encaixa bas­tante com o ritmo da nar­ra­tiva e dos even­tos da trama, que envol­vem espi­o­na­gem, ten­são, audá­cia e agi­li­dade.

 

Game of Thrones

 

Essa dis­pensa apre­sen­ta­ções. GoT tem uma aber­tura que repro­duz de modo não-ver­bal, na lin­gua­gem uni­ver­sal do ritmo, todas as emo­ções e a trama intrin­cada das Crô­ni­cas de Gelo e Fogo. É sim­ples­mente sen­sa­ci­o­nal. É como se esti­vés­se­mos ouvindo um daque­les velhos con­ta­do­res de his­tó­rias con­tando uma saga muito antiga, cheia de lições de vida, peri­gos e heroísmo, só que atra­vés “voz” de vio­li­nos e vio­lon­ce­los.
 

Salem

 

Situ­ada nos Esta­dos Uni­dos, século XVII, conta a his­tó­ria das Caça às Bru­xas de Salém, caso verí­dico na época. Foi uma espé­cie de his­te­ria cole­tiva típica de tem­pos com­pli­ca­dos, cons­pi­ra­tó­rios, onde cul­pa­dos estão sendo pro­cu­ra­dos a qual­quer custo. Foi algo muito pare­cido com o que ocor­reu na Idade Média, com a Santa Inqui­si­ção, e no século XX, com o Macar­tismo. Nes­ses tem­pos, bru­xas e comu­nis­tas eram tra­ta­dos como uma praga a ser reve­lada e exter­mi­nada, denun­ci­ando seus cúm­pli­ces tam­bém.

A trama da série gira em torno de John Alden, um sol­dado badass que se apai­xona por uma moça humilde de Salém, Mary Sibley, mas tem que aban­doná-la para entrar nas linhas ini­mi­gas, num con­flito con­tra os ingle­ses. Anos depois, vol­tando para o local, se depara com uma cidade medo­nha, envol­vida em mis­té­rio e medo, e Mary casada com um velho rico e entre­vado, mis­te­ri­o­sa­mente, logo após o casa­mento.

É claro que a série cria toda uma nar­ra­tiva auto­ral des­ses acon­te­ci­men­tos, uma trama com­ple­ta­mente fic­tí­cia, dei­xando de lado os deta­lhes do epi­so­dio real ocor­rido his­to­ri­ca­mente em Salém. O clima da série é muito bom, você per­cebe a para­noia no ar, per­cebe o medo das pes­soas exa­lando pelos seus poros. Porém, um ponto fraco é a falta de suti­leza ao tra­tar a magia. Seria algo mais crí­vel se fosse menos explí­cito. 

A tri­lha de aber­tura é pro­ta­go­ni­zada pelo som de Marilyn Man­son, com um tom caver­noso bem capri­chado. A batida e a voz do can­tor dão um toque que trans­mite a sen­sa­ção de que algo maca­bro está para acon­te­cer.
 

Vikings

 

Por último, cito um sucesso do canal His­tory Chan­nel (um dos úni­cos, desde que resol­ve­ram pas­sar somente docu­men­tá­rios mos­trando “como nós des­cen­de­mos de seres extra­ter­res­tres), a série Vikings.

Como o nome já denun­cia, o pro­grama se passa nos pri­mei­ros sécu­los da era cristã na Europa, antes que o cris­ti­a­nismo tivesse sido assi­mi­lado pela cul­tura nór­dica. O pro­ta­go­nista é o fazen­deiro e guer­reiro nór­dico (sim, as duas fun­ções eram facil­mente con­ci­liá­veis no mundo norte euro­peu) Rag­nar Loth­brok, que desa­fia o líder de sua região, ale­gando que pode­ria ser filho de Odin e que o Pai de Todos (espé­cie de codi­nome de Odin) havia con­fir­mado a exis­tên­cia de ter­ras a serem explo­ra­das à oeste (ou seja, nas regiões onde atu­al­mente ficam paí­ses como Ingla­terra e Islân­dia).

Vikings (e até Crô­ni­cas Saxô­ni­cas, uma saga do famoso autor Ber­nard Cornwell) se baseiam num intré­pido con­quis­ta­dor len­dá­rio, que supos­ta­mente viveu na Sué­cia ou Dina­marca, cha­mado Rag­nar Lod­brok, cujos filhos have­riam pro­ta­go­ni­zado as pri­mei­ras inva­sões bár­ba­ras par­ca­mente docu­men­ta­das pelos anglo-saxões.

A aber­tura da série conta com um cená­rio bem tipi­ca­mente nór­dico — ima­gino eu. Tem mar e um clima apa­ren­te­mente gelado e nublado. Apa­re­cem moe­das caindo nas águas, bem como uma embar­ca­ção tipi­ca­mente viking, o que nos dá a enten­der que as moe­das caí­ram de lá. També há cadá­ve­res na água, afi­nal, é difí­cil ima­gi­nar vikings sem pen­sar em bata­lhas e cor­pos.

Tudo isso é aman­tei­gado com uma música que é um misto de ele­trô­nica com rock alter­na­tivo, can­tado pela banda sueca The Knife. A voca­lista, de pseudô­nimo Fever Ray, tem uma voz bela, mas ao mesmo tempo passa algo mis­te­ri­oso e ter­rí­vel, como ima­gino que devia ser o uni­verso dos nór­di­cos, vivendo em todas aque­las con­di­ções ambi­en­tais adver­sas, com solos difí­ceis de plan­tar e um frio con­ge­lante.

Acre­dito que uma boa série é um espe­tá­culo com­pleto, isto é, ato­res bons, enredo ins­ti­gante, boa pro­du­ção e uma tri­lha sonora (o que inclui tam­bém a aber­tura) que tenha a ver com a his­tó­ria, que com­ple­mente o espe­tá­culo. É tudo um con­junto, mas pode fal­tar uma coisa ou outra, afi­nal, nem tudo é per­feito, mas isso não neces­sa­ri­a­mente com­pro­mete a qua­li­dade glo­bal da obra.

Gos­ta­ria tam­bém de ouvir dicas de outras séries que não citei e que tal­vez nem mesmo conheça. Dei­xem suas opi­niões nos comen­tá­rios!

Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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