Existem algumas músicas que ficam na nossa cabeça. Podem não ser de qualidade – ainda que você possa argumentar que não existe algo “de boa qualidade” em si – , mas algo em sua estrutura sonora definitivamente que faz com que sejam inesquecíveis, como uma espécie de meme insistente (esse é o princípio daquelas músicas de propagandas, boladas sagazmente pelo pessoal do marketing).

Melhor ainda é quando temos uma música que não sai da cabeça, que é boa, e que serve para compor aquela série que tem nos tirado o sono por nos fazer assistir e re-assistir os episódios num looping frenético. É como se fosse o melhor dos casamentos: uma série bem roteirizada e dirigida que é apresentada ao espectador com uma abertura bela esteticamente, com uma boa e significativa música.

Foi pensando nessa combinação maravilhosa que resolvi criar uma lista das séries que vi (ou estou vendo) que mais se encaixam nesses critérios. Não vou posicioná-las de acordo com a melhor ou a pior, elas estão em posição aleatória. Portanto, seria legal se você me ajudasse nessa tarefa, sugerindo uma ordem ou mesmo falando de alguma outra série que não conheço!
 

True Detective

 

Esqueça Carcosa e os crimes. True Detective é sobre como forjar bons personagens, sobre como bons e maus sujeitos formam uns aos outros. Essa foi uma série curta da HBO, mas com história suficiente pra deixar os fãs ocupados por meses, atrás de bases filosóficas que compuseram o roteiro, universos expandidos e leituras adicionais.

A trama criada por Nic Pizzolatto se volta para o trabalho de dois investigadores, o agente Rust Cohle e Martin Hart, num trabalho que envolve a atividade de um sombrio serial killer que parece ter uma origem muito mais obscura do que esperavam. Isso tudo, no entanto, é pano de fundo para algo que se desenvolve mais profundamente no enredo, a relação entre Rust e Martin, um texano introvertido, reflexivo e pessimista, e um religioso tradicionalista que parece levar uma vida dupla de hipocrisia e traição. O que marca a série é a transformação de ambos, com suas personalidades curiosas que mantém a todos grudados na tela.

A abertura é conduzida perfeitamente por Far From Any Road, cantada pela Handsome Family, uma banda de Chicago, embora o vocalista seja um texano com aquele sotaque anasalado e arrastado e por vezes claro dos sulistas americanos, o que é perfeitamente cabível dentro da narrativa de True Detective, inclusive, com seu fundo cultural e estético do sul. Os tons são muitas vezes sombrios, apesar de a banda contar com um bom repertório gospel em sua discografia. O estilo varia de maneira bem agradável entre o country e o bluegrass, com especial ênfase nas murder ballads.

Far From Any Road remete ao clima latino dessas do sul americano e parece se entrelaçar com a cultura do cowboy. E a pegada sombria do ritmo, da voz do vocalista e da quase propositalmente horripilante da vocalista lembram muito o próprio ambiente da história, com neblina pra todo lado, tempo nublado, que parece refletir o interior do agente Rust, com sua personalidade pessimista e sem esperança.

Como não é novidade para a maioria dos fãs, o roteiro de Nic Pizzolatto sofreu grande influência de clássicos do horror cósmico, como Robert Chambers, em O Rei de Amarelo, e H. P. Lovecraft, com seus incontáveis contos sobre o horror indizível do que está muito além de nossa percepção e compreensão ordinárias. Não sei se passei a perceber desta forma convenientemente depois de me informar sobre isso tudo, mas essa bela e terrível música de abertura parece passar justamente o mesmo sentimento que essa atmosfera permeada por elementos de horror cósmico.
 

The Americans

 

A história se passa nos últimos 20 anos de Guerra Fria, com dois agentes da KGB (a agência de espionagem russa) infiltrados em solo americano. O diferencial da série, além do realismo com que a espionagem é tratada, é a mistura com a vida profissional e pessoal dos personagens.

Elizabeth e Philip Jennings são/representam um casal que trabalha no ramo de turismo e tem dois filhos. A ideia era que ambos representassem esse papel para serem a família modelo do Tio Sam, acima de suspeitas. Mas ao longo dos anos os dois desenvolvem uma verdadeira relação de cumplicidade e amor em meio aos disfarces e operações ilegais altamente arriscadas.

Um dos pontos sutis, mas muito interessantes, são os momentos em que é comentada a diferença de mentalidade entre americanos, adaptados a um sistema capitalista, que visa lucro, e um sistema socialista, que não tem como prioridade o luxo e o acúmulo, mas produção e distribuição.

A música de abertura é bem característica da Rússia, com os sons ligeiros da balalaica, música folclórica do país. Na série, não parece haver os instrumentos que os russos usam tipicamente, mas o piano (acho que é piano) tocando reproduz um ritmo bastante parecido. Essa velocidade sonora se encaixa bastante com o ritmo da narrativa e dos eventos da trama, que envolvem espionagem, tensão, audácia e agilidade.

 

Game of Thrones

 

Essa dispensa apresentações. GoT tem uma abertura que reproduz de modo não-verbal, na linguagem universal do ritmo, todas as emoções e a trama intrincada das Crônicas de Gelo e Fogo. É simplesmente sensacional. É como se estivéssemos ouvindo um daqueles velhos contadores de histórias contando uma saga muito antiga, cheia de lições de vida, perigos e heroísmo, só que através “voz” de violinos e violoncelos.
 

Salem

 

Situada nos Estados Unidos, século XVII, conta a história das Caça às Bruxas de Salém, caso verídico na época. Foi uma espécie de histeria coletiva típica de tempos complicados, conspiratórios, onde culpados estão sendo procurados a qualquer custo. Foi algo muito parecido com o que ocorreu na Idade Média, com a Santa Inquisição, e no século XX, com o Macartismo. Nesses tempos, bruxas e comunistas eram tratados como uma praga a ser revelada e exterminada, denunciando seus cúmplices também.

A trama da série gira em torno de John Alden, um soldado badass que se apaixona por uma moça humilde de Salém, Mary Sibley, mas tem que abandoná-la para entrar nas linhas inimigas, num conflito contra os ingleses. Anos depois, voltando para o local, se depara com uma cidade medonha, envolvida em mistério e medo, e Mary casada com um velho rico e entrevado, misteriosamente, logo após o casamento.

É claro que a série cria toda uma narrativa autoral desses acontecimentos, uma trama completamente fictícia, deixando de lado os detalhes do episodio real ocorrido historicamente em Salém. O clima da série é muito bom, você percebe a paranoia no ar, percebe o medo das pessoas exalando pelos seus poros. Porém, um ponto fraco é a falta de sutileza ao tratar a magia. Seria algo mais crível se fosse menos explícito. 

A trilha de abertura é protagonizada pelo som de Marilyn Manson, com um tom cavernoso bem caprichado. A batida e a voz do cantor dão um toque que transmite a sensação de que algo macabro está para acontecer.
 

Vikings

 

Por último, cito um sucesso do canal History Channel (um dos únicos, desde que resolveram passar somente documentários mostrando “como nós descendemos de seres extraterrestres), a série Vikings.

Como o nome já denuncia, o programa se passa nos primeiros séculos da era cristã na Europa, antes que o cristianismo tivesse sido assimilado pela cultura nórdica. O protagonista é o fazendeiro e guerreiro nórdico (sim, as duas funções eram facilmente conciliáveis no mundo norte europeu) Ragnar Lothbrok, que desafia o líder de sua região, alegando que poderia ser filho de Odin e que o Pai de Todos (espécie de codinome de Odin) havia confirmado a existência de terras a serem exploradas à oeste (ou seja, nas regiões onde atualmente ficam países como Inglaterra e Islândia).

Vikings (e até Crônicas Saxônicas, uma saga do famoso autor Bernard Cornwell) se baseiam num intrépido conquistador lendário, que supostamente viveu na Suécia ou Dinamarca, chamado Ragnar Lodbrok, cujos filhos haveriam protagonizado as primeiras invasões bárbaras parcamente documentadas pelos anglo-saxões.

A abertura da série conta com um cenário bem tipicamente nórdico – imagino eu. Tem mar e um clima aparentemente gelado e nublado. Aparecem moedas caindo nas águas, bem como uma embarcação tipicamente viking, o que nos dá a entender que as moedas caíram de lá. També há cadáveres na água, afinal, é difícil imaginar vikings sem pensar em batalhas e corpos.

Tudo isso é amanteigado com uma música que é um misto de eletrônica com rock alternativo, cantado pela banda sueca The Knife. A vocalista, de pseudônimo Fever Ray, tem uma voz bela, mas ao mesmo tempo passa algo misterioso e terrível, como imagino que devia ser o universo dos nórdicos, vivendo em todas aquelas condições ambientais adversas, com solos difíceis de plantar e um frio congelante.

Acredito que uma boa série é um espetáculo completo, isto é, atores bons, enredo instigante, boa produção e uma trilha sonora (o que inclui também a abertura) que tenha a ver com a história, que complemente o espetáculo. É tudo um conjunto, mas pode faltar uma coisa ou outra, afinal, nem tudo é perfeito, mas isso não necessariamente compromete a qualidade global da obra.

Gostaria também de ouvir dicas de outras séries que não citei e que talvez nem mesmo conheça. Deixem suas opiniões nos comentários!

escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


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