A necessária abertura intelectual

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Felipe NovaesComentário

Esta­mos sofrendo uma crise inte­lecto-empá­tica. E ela se revela de vari­a­das for­mas.

A capa­ci­dade inte­lec­tual parece cada vez mais com­ba­lida, tanto na forma de des­prezo pelo pen­sa­mento crí­tico, filo­só­fico e pela dis­pli­cên­cia no enten­di­mento do mundo e a si mesmo — que pode ser reve­lar por um ver­da­deiro horror/espanto em rela­ção à eru­di­ção — quanto por uma detur­pada con­cep­ção sobre o que seriam bons húmus para a inte­li­gên­cia. Como exem­plo, exis­tem aque­les que vivem à base de lei­tu­ras em auto-ajuda, pen­sando estar con­tri­buindo de forma voraz para o inte­lecto (tal­vez haja alguma con­tri­bui­ção, mas minha tese é que não há).

Em suma, vive-se uma crise no senso de pri­o­ri­dade, em que pre­va­lece a aten­ção a tri­vi­a­li­da­des.

Em rela­ção à empa­tia, tam­bém esta­mos em apu­ros. E é tudo gra­ças ao nosso ego for­ti­fi­cado. Esta­mos numa guerra endê­mica (ao menos paí­ses como Israel e Pales­tina — e todos que lucram com isso, como EUA), a desi­gual­dade pulula como milho estou­rando, pes­soas vivendo na rua, mor­rendo de ina­ni­ção pelo mundo afora, e tudo que con­se­gui­mos fazer é com­par­ti­lhar links no Face­book mos­trando nossa tem­po­rá­ria indig­na­ção.

Sim, muita gente doa dinheiro para cari­dade, o que tem efei­tos mui­tos mais prá­ti­cos e efe­ti­vos. Mas, às vezes, isso parece mais uma maneira de com­prar nossa paz inte­rior do que real­mente aju­dar o outro. Às vezes, a mesma emo­ti­vi­dade impul­siva que cria con­fli­tos, parece ser tida como solu­ção.

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A mai­o­ria das pes­soas está deso­ri­en­tada quanto a solu­ção para esse cená­rio caó­tico. Já é difí­cil mudar nos­sas pró­prias ati­tu­des e pen­sa­men­tos, ima­gina expan­dir isso para outras pes­soas. O hino que parece cons­tante, entre­tanto, é a ideia de que mais amor é pre­ciso, mais cora­ção e menos inte­lecto. Este último, aqui, tem um sen­tido mais vol­tado à eru­di­ção, ao aca­de­mi­cismo. É comum a crí­tica à pes­quisa uni­ver­si­tá­ria, assim como às pes­soas que cos­tu­mam usar bas­tante a razão, como se esti­ves­sem fecha­das numa her­me­nêu­tica intran­si­tá­vel pelo dis­curso e pelas neces­si­da­des do coti­di­ano da popu­la­ção em geral. Seriam ideias de fria raci­o­na­li­dade e de pro­li­xi­dade inú­til, enquanto o mundo pre­ci­sa­ria de um fee­ling mais, lite­ral­mente, emo­ci­o­nal e, ao mesmo tempo, prá­tico.

Vejo essa crí­tica como um con­tras­senso na mai­o­ria das vezes.  O mundo é, tec­no­ló­gica e cul­tu­ral­mente, pro­fun­da­mente entre­la­çado com a ati­vi­dade cien­tí­fica em suas várias espe­ci­a­li­da­des. As con­tri­bui­ções cien­tí­fi­cas mais nota­das são as de natu­reza médica e tec­no­ló­gica, mas esses efei­tos vão muito além. Acre­dito que o tra­ba­lho aca­dê­mico tem muito mais a ofe­re­cer ao coti­di­ano do que sim­ples apa­ra­tos tec­no­ló­gi­cos faci­li­ta­do­res da vida.

A Antro­po­lo­gia é um exem­plo com­pleto do poder que a refle­xão aca­dê­mica tem de modi­fi­car nossa vida comum, coti­di­ana, se assim qui­ser­mos. Seus efei­tos são sen­ti­dos tanto em quem estuda a área quanto para quem lê sobre.

Com o estudo das rela­ções soci­ais, a Antro­po­lo­gia faz muito mais do que bolar teo­rias sobre o com­por­ta­mento social de cul­tu­ras tão dife­ren­tes da nossa, como as indí­ge­nas. Os etnó­lo­gos — antro­pó­lo­gos que pes­qui­sam soci­e­da­des indí­ge­nas — bus­cam entrar ver­da­dei­ra­mente naquele mundo epis­te­mo­ló­gica e con­cei­tu­al­mente dis­tinto do nosso e entendê-lo o máximo pos­sí­vel atra­vés das con­cep­ções dos pró­prios nati­vos. Não pre­ten­der estar mais certo que o sujeito obser­vado sobre as razões de seus fatos cul­tu­rais e cos­tu­mes é um ele­mento impor­tante — uma lição que o antro­pó­logo con­sa­grado Edu­ardo Vivei­ros de Cas­tro sem­pre relata em suas entre­vis­tas.

Nisso está con­tido um enorme res­peito por cul­tu­ras que são tão com­ple­xas quanto a nossa e, de modo mais abran­gente, o res­peito pelo outro, pelo sujeito. E é inte­res­sante notar como somos caren­tes disso no âmbito intra­cul­tu­ral. No dia-a-dia, quan­tas vezes não caí­mos no erro de jul­gar as ati­tu­des dos outros sujei­tos com base em nos­sas pró­prias expe­ri­ên­cias de mundo?

O jul­ga­mento é neces­sá­rio, pre­ci­sa­mos dele. Porém, o raci­o­cí­nio etno­ló­gico parece um prin­cí­pio defi­ci­tá­rio nas cul­tu­ras glo­ba­li­za­das, uma vez que jul­gar (mais no sen­tido repro­va­dor do que crí­tico) nem sem­pre é a saída para um pro­blema, e faze­mos isso fre­quen­te­mente.

Sem essa pos­tura básica seria com­pli­cado empre­en­der a mais sim­ples pes­quisa antro­po­ló­gica. O pro­e­mi­nente antro­pó­logo Vivei­ros de Cas­tro usou e abu­sou desse recurso em sua etno­gra­fia dos povos ame­rín­dios. Suas pes­qui­sas, espe­ci­al­mente por se tra­tar de soci­e­da­des tão pró­xi­mas de nós e ao mesmo tempo tão dis­tan­tes, subli­nham a exis­tên­cia do dife­rente e de nossa sur­presa e resis­tên­cia diante do diverso.

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O que fazer quando nos cho­ca­mos com ideias tão dife­ren­tes a res­peito de nosso pró­prio lugar na Terra, de nossa rela­ção com outros ani­mais ou sobre a defi­ni­ção daquilo que cha­ma­mos de “huma­ni­dade”? Se esta­mos pre­pa­ra­dos para ao menos ouvir e enten­der essas cul­tu­ras limí­tro­fes sem antes dar­mos nosso selo de apro­va­ção, ser mais inclu­sivo com o que está mais pró­ximo (dife­ren­ças den­tro de nosso pró­prio nicho cul­tu­ral) fica fácil.

Abaixo, cito dois exem­plos de mani­fes­ta­ções cul­tu­rais con­forme o que Vivei­ros de Cas­tro enten­deu como o Pers­pec­ti­vismo ame­rín­dio:

(1) Essas tri­bos enxer­ga­vam da seguinte forma a rela­ção entre todas as coi­sas na terra: tudo que existe teria sido humano um dia, dos seres vivos às pedras e mon­ta­nhas; mas, por algum motivo, dife­ren­tes seres per­de­ram dife­ren­tes graus de huma­ni­dade. Assim, todos se posi­ci­o­nam numa escala de huma­ni­dade. Entre­tanto, entenda esse “humano” como um atri­buto que torna os seres sujei­tos, por­ta­do­res de sub­je­ti­vi­dade. Na nossa soci­e­dade é jus­ta­mente o con­trá­rio. Todos somos, no fundo, ani­mais, segundo a Teo­ria da Evo­lu­ção (será que nossa visão é mais cor­reta?).

(2) Para essas tri­bos, e sobre­tudo para seus xamãs, a ten­dên­cia do conhe­ci­mento, na medida em que é refi­nado, é ser cada vez mais sub­je­tivo, no sen­tido de se diri­gir a um ani­mismo. Quanto mais o xamã conhece os fenô­me­nos, mais ele atri­bui inten­ci­o­na­li­dade a eles, mais os com­pre­ende como algo que é dotado de uma alma (mesmo que sejam ven­tos, pedras ou a água). Isso está de acordo com a con­cep­ção da huma­ni­dade de fundo em cada uma das coi­sas no mundo. Na nossa cul­tura, vamos na dire­ção oposta. Quanto maior o conhe­ci­mento, mais ele rompe com o ani­mismo. Quanto mais sabe­mos, mais ten­de­mos a redu­zir os obje­tos (inclu­sive os huma­nos) a seu fun­ci­o­na­mento físico, como bem manda o Fisi­ca­lismo — plano de fundo filo­só­fico das teo­rias cien­tí­fi­cas.

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Res­pei­tar essas con­cep­ções, essen­ci­al­mente tão dife­ren­tes das nos­sas, requer uma enorme aber­tura inte­lec­tual e emo­ci­o­nal. Inte­lec­tual, pois esta­mos acos­tu­ma­dos com as típi­cas for­mas de conhe­cer e enten­der o mundo, vin­das das ciên­cias, da filo­so­fia. E emo­ci­o­nal, por­que se livrar daquilo que acha­mos certo é um esforço que envolve a que­bra do apego às nos­sas pró­prias cer­te­zas, e, tam­bém, por­que esse pró­prio movi­mento demo­li­dor requer que seja feita uma ferida nar­cí­sica no ego.

Por isso, mui­tos antro­pó­lo­gos pos­suem uma pecu­liar aber­tura e, tam­bém, uma eru­di­ção inco­mum. Estou longe de louvá-los como bodi­sat­vas aca­dê­mi­cos, mas somente reco­nhe­cendo o que parece ser um lema da pro­fis­são: conhe­cer e ouvir mais do que jul­gar. Pode­ría­mos apren­der muito com isso.

É claro que, vale des­ta­car, a ati­vi­dade crí­tica é neces­sá­ria, por­que, afi­nal, temos de fun­ci­o­nar em nível indi­vi­dual no mundo, o que requer opi­niões sobre o que é certo e o que é errado. E como área aca­dê­mica, cer­ta­mente a Antro­po­lo­gia não teria uma visão tão inte­lec­tu­al­mente ascé­tica de não cri­ti­car nunca. Este texto não é um apelo para que todos ado­tem uma pos­tura rela­ti­vista. É mais uma defesa da ine­fi­ci­ên­cia em ten­tar esta­be­le­cer uma moral abso­luta, imu­tá­vel, ou de ter opi­niões imu­tá­veis. Até mesmo den­tro do método cien­tí­fico há lugar para a dúvida, para a refu­ta­ção de teo­rias bem esta­be­le­ci­das.

Em suma, antes de colo­car tudo isso em prá­tica, lem­bre que ser tole­rante não é ser omisso.

Da pró­xima vez que eu for con­tra­ri­ado, ten­ta­rei assu­mir uma pos­tura mais antro­po­ló­gica. E você?


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Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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