Estamos sofrendo uma crise intelecto-empática. E ela se revela de variadas formas.

A capacidade intelectual parece cada vez mais combalida, tanto na forma de desprezo pelo pensamento crítico, filosófico e pela displicência no entendimento do mundo e a si mesmo – que pode ser revelar por um verdadeiro horror/espanto em relação à erudição – quanto por uma deturpada concepção sobre o que seriam bons húmus para a inteligência. Como exemplo, existem aqueles que vivem à base de leituras em auto-ajuda, pensando estar contribuindo de forma voraz para o intelecto (talvez haja alguma contribuição, mas minha tese é que não há).

Em suma, vive-se uma crise no senso de prioridade, em que prevalece a atenção a trivialidades.

Em relação à empatia, também estamos em apuros. E é tudo graças ao nosso ego fortificado. Estamos numa guerra endêmica (ao menos países como Israel e Palestina – e todos que lucram com isso, como EUA), a desigualdade pulula como milho estourando, pessoas vivendo na rua, morrendo de inanição pelo mundo afora, e tudo que conseguimos fazer é compartilhar links no Facebook mostrando nossa temporária indignação.

Sim, muita gente doa dinheiro para caridade, o que tem efeitos muitos mais práticos e efetivos. Mas, às vezes, isso parece mais uma maneira de comprar nossa paz interior do que realmente ajudar o outro. Às vezes, a mesma emotividade impulsiva que cria conflitos, parece ser tida como solução.

empatia

A maioria das pessoas está desorientada quanto a solução para esse cenário caótico. Já é difícil mudar nossas próprias atitudes e pensamentos, imagina expandir isso para outras pessoas. O hino que parece constante, entretanto, é a ideia de que mais amor é preciso, mais coração e menos intelecto. Este último, aqui, tem um sentido mais voltado à erudição, ao academicismo. É comum a crítica à pesquisa universitária, assim como às pessoas que costumam usar bastante a razão, como se estivessem fechadas numa hermenêutica intransitável pelo discurso e pelas necessidades do cotidiano da população em geral. Seriam ideias de fria racionalidade e de prolixidade inútil, enquanto o mundo precisaria de um feeling mais, literalmente, emocional e, ao mesmo tempo, prático.

Vejo essa crítica como um contrassenso na maioria das vezes.  O mundo é, tecnológica e culturalmente, profundamente entrelaçado com a atividade científica em suas várias especialidades. As contribuições científicas mais notadas são as de natureza médica e tecnológica, mas esses efeitos vão muito além. Acredito que o trabalho acadêmico tem muito mais a oferecer ao cotidiano do que simples aparatos tecnológicos facilitadores da vida.

A Antropologia é um exemplo completo do poder que a reflexão acadêmica tem de modificar nossa vida comum, cotidiana, se assim quisermos. Seus efeitos são sentidos tanto em quem estuda a área quanto para quem lê sobre.

Com o estudo das relações sociais, a Antropologia faz muito mais do que bolar teorias sobre o comportamento social de culturas tão diferentes da nossa, como as indígenas. Os etnólogos – antropólogos que pesquisam sociedades indígenas – buscam entrar verdadeiramente naquele mundo epistemológica e conceitualmente distinto do nosso e entendê-lo o máximo possível através das concepções dos próprios nativos. Não pretender estar mais certo que o sujeito observado sobre as razões de seus fatos culturais e costumes é um elemento importante – uma lição que o antropólogo consagrado Eduardo Viveiros de Castro sempre relata em suas entrevistas.

Nisso está contido um enorme respeito por culturas que são tão complexas quanto a nossa e, de modo mais abrangente, o respeito pelo outro, pelo sujeito. E é interessante notar como somos carentes disso no âmbito intracultural. No dia-a-dia, quantas vezes não caímos no erro de julgar as atitudes dos outros sujeitos com base em nossas próprias experiências de mundo?

O julgamento é necessário, precisamos dele. Porém, o raciocínio etnológico parece um princípio deficitário nas culturas globalizadas, uma vez que julgar (mais no sentido reprovador do que crítico) nem sempre é a saída para um problema, e fazemos isso frequentemente.

Sem essa postura básica seria complicado empreender a mais simples pesquisa antropológica. O proeminente antropólogo Viveiros de Castro usou e abusou desse recurso em sua etnografia dos povos ameríndios. Suas pesquisas, especialmente por se tratar de sociedades tão próximas de nós e ao mesmo tempo tão distantes, sublinham a existência do diferente e de nossa surpresa e resistência diante do diverso.

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O que fazer quando nos chocamos com ideias tão diferentes a respeito de nosso próprio lugar na Terra, de nossa relação com outros animais ou sobre a definição daquilo que chamamos de “humanidade”? Se estamos preparados para ao menos ouvir e entender essas culturas limítrofes sem antes darmos nosso selo de aprovação, ser mais inclusivo com o que está mais próximo (diferenças dentro de nosso próprio nicho cultural) fica fácil.

Abaixo, cito dois exemplos de manifestações culturais conforme o que Viveiros de Castro entendeu como o Perspectivismo ameríndio:

(1) Essas tribos enxergavam da seguinte forma a relação entre todas as coisas na terra: tudo que existe teria sido humano um dia, dos seres vivos às pedras e montanhas; mas, por algum motivo, diferentes seres perderam diferentes graus de humanidade. Assim, todos se posicionam numa escala de humanidade. Entretanto, entenda esse “humano” como um atributo que torna os seres sujeitos, portadores de subjetividade. Na nossa sociedade é justamente o contrário. Todos somos, no fundo, animais, segundo a Teoria da Evolução (será que nossa visão é mais correta?).

(2) Para essas tribos, e sobretudo para seus xamãs, a tendência do conhecimento, na medida em que é refinado, é ser cada vez mais subjetivo, no sentido de se dirigir a um animismo. Quanto mais o xamã conhece os fenômenos, mais ele atribui intencionalidade a eles, mais os compreende como algo que é dotado de uma alma (mesmo que sejam ventos, pedras ou a água). Isso está de acordo com a concepção da humanidade de fundo em cada uma das coisas no mundo. Na nossa cultura, vamos na direção oposta. Quanto maior o conhecimento, mais ele rompe com o animismo. Quanto mais sabemos, mais tendemos a reduzir os objetos (inclusive os humanos) a seu funcionamento físico, como bem manda o Fisicalismo – plano de fundo filosófico das teorias científicas.

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Respeitar essas concepções, essencialmente tão diferentes das nossas, requer uma enorme abertura intelectual e emocional. Intelectual, pois estamos acostumados com as típicas formas de conhecer e entender o mundo, vindas das ciências, da filosofia. E emocional, porque se livrar daquilo que achamos certo é um esforço que envolve a quebra do apego às nossas próprias certezas, e, também, porque esse próprio movimento demolidor requer que seja feita uma ferida narcísica no ego.

Por isso, muitos antropólogos possuem uma peculiar abertura e, também, uma erudição incomum. Estou longe de louvá-los como bodisatvas acadêmicos, mas somente reconhecendo o que parece ser um lema da profissão: conhecer e ouvir mais do que julgar. Poderíamos aprender muito com isso.

É claro que, vale destacar, a atividade crítica é necessária, porque, afinal, temos de funcionar em nível individual no mundo, o que requer opiniões sobre o que é certo e o que é errado. E como área acadêmica, certamente a Antropologia não teria uma visão tão intelectualmente ascética de não criticar nunca. Este texto não é um apelo para que todos adotem uma postura relativista. É mais uma defesa da ineficiência em tentar estabelecer uma moral absoluta, imutável, ou de ter opiniões imutáveis. Até mesmo dentro do método científico há lugar para a dúvida, para a refutação de teorias bem estabelecidas.

Em suma, antes de colocar tudo isso em prática, lembre que ser tolerante não é ser omisso.

Da próxima vez que eu for contrariado, tentarei assumir uma postura mais antropológica. E você?


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escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


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