Na boa, estão criticando demais a abertura da Copa do Mundo. Na verdade, ela foi perfeita: é o perfeito retrato do que é o Brasil. Observem:

1 – Brancos nas arquibancadas, vendo os espetáculos, e negros e pardos no campo, trabalhando, providenciando o espetáculo (ainda que sejam negros e pardos milionários).

2 – Poucos segundos dedicados à ciência. Um bocado de tempo dedicado à música, às coreografias e ao show de imagens. Depois, duras críticas a tudo isso. O brasileiro é perfeccionista; nunca está satisfeito.

3 – Toda etnia ou cultura do território nacional foi apresentada de forma estereotipada. Para um nordestino, o gaúcho é exatamente aquela coisa fantasiada que apareceu. Para um gaúcho, o frevo é exatamente aquele circo colorido. Só faltou um pessoal de terno falando ao celular e preso em um engarrafamento (para representar São Paulo) – de preferência, a caminho do shopping para comer pizza.

Quantos negros você conta na arquibancada? (foto: Danilo Borges)
Quantos negros e pardos você conta na arquibancada? (foto: Danilo Borges)

4 – Ricaços grosseiros e mal-educados vaiando a presidente da república em um evento internacional. E vaiando o time adversário sempre que este tinha a posse de bola. Esqueceram-se de que a presidente montou aquele espetáculo para eles (eles, o povo da área VIP, que podia pagar cerca de R$900,00 por ingresso) e que, sem os adversários, o jogo não aconteceria. Faz parte do ethos do brasileiro comportar-se como um filho ingrato de vez em quando.

5 – Juiz confundindo-se, nosso time colhendo os frutos e os próprios beneficiados reclamando do resultado. Típico em nossa relação com erros humanos e com possível corrupção.

6 – Comentários racistas nas redes sociais sobre o jogador que fez o gol contra (negro) e o juiz (japonês). Típico da nossa “democracia racial”.

Quantos afrodecendentes você conta como figurantes na apresentação? (foto: Danilo Borges).
Quantos negros e pardos você conta como figurantes na apresentação? (foto: Danilo Borges).

7 – Música-tema em inglês e interpretada por 2/3 de cantores vindos dos EUA (uma americana de ascendência porto-riquenha e um americano de ascendência cubana). Influência do Tio Sam sempre é bem-vinda pelos habitantes tupiniquins, que acreditam que os americanos são o povo mais desenvolvido da Terra. E, para eles, os americanos, todos os “latinos” são iguais mesmo – o que explica a lógica Cuba/Porto Rico/Brasil.

8 – Candidato(s) oposicionista(s) tentando transformar tudo o que aconteceu em capital político, da forma mais rasteira possível.
13 provas de que a abertura da Copa foi perfeita.

9 – Greves e protestos espalhados pela cidade, mas sendo ignorados pela grande massa (que queria mesmo é ver o jogo, sem incômodos).

10 – Tremendo medo do que os outros vão pensar. Poucas bandeiras nas janelas e comemorações bem contidas na vizinhança durante os gols. Ninguém quer ser malvisto pelos vizinhos que são da turma do #nãovaitercopa. Ao mesmo tempo, ninguém quer ficar malvisto pelos vizinhos que são da turma do #vaitercopasim. Por isso, comemorações tímidas – nem apagadas o suficiente para dizerem que não torceu e nem efusivas o suficiente para dizerem que se trata de posicionamento favorável ao imperialismo globalizante.

Lá fora, o pau comendo solto
Lá fora, o pau comendo solto

11 – Síndrome de vira-latas nas redes sociais com reclamações sobre ABSOLUTAMENTE TUDO o que aconteceu durante a abertura e o jogo. A abertura foi criticada por não ser opulenta o suficiente; caso tivesse sido, teriam criticado os gastos exorbitantes para montá-la.

12 – E, finalmente, uma imprensa que viu o que quis, distorceu como quis aquilo que viu, e transmitiu de forma a lucrar politicamente com a ignorância e a estupidez alheia.

Para mim a abertura foi perfeita. Retrato fiel do nosso país. Deveríamos ficar orgulhosos. Agora os gringos aprenderam como as coisas funcionam por aqui.
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escrito por:

David G. Borges

David G. Borges é professor na Universidade Federal do Espírito Santo, formado em Biologia e em Filosofia, com mestrado também em Filosofia. Toca violão, luta boxe e, apesar de namorar uma vegetariana, adora bacon.


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