terra santa

A vitima e o carrasco: quem é quem na terra santa?

Em Comportamento, Consciência, Religião, Sociedade por João BottonComentário

Uma intuição psicanalítica

É conhe­cida em psi­ca­ná­lise a des­cri­ção da per­so­na­li­dade nar­cí­sica, em que o indi­ví­duo trata a si mesmo como objeto de desejo. A sin­to­ma­to­lo­gia é obser­vá­vel sobre­tudo na rela­ção com o corpo: o nar­ci­sista olha o pró­prio corpo, toca e aca­ri­cia obtendo daí uma satis­fa­ção plena.

Você, que se mas­turba, como todo mundo, deve estar pen­sando: pre­ciso de um psi­ca­na­lista. Calma, embora a mas­tur­ba­ção tenha algo de nar­cí­sico, isso só é uma per­ver­são em sen­tido pato­ló­gico quando absorve toda a vida sexual do indi­ví­duo. Pode con­ti­nuar, numa boa. Divirta-se, não vai cres­cer cabelo na mão.

Uma coisa mais inte­res­sante do que a mas­tur­ba­ção, pelo menos do ponto de vista polí­tico, é a liga­ção que o nar­ci­sismo tem com a per­so­na­li­dade auto­ri­tá­ria e com a viti­mi­za­ção. E Freud já mos­trou como as neu­ro­ses indi­vi­du­ais se tor­nam cole­ti­vas quando indi­ví­duos tão dife­ren­tes quanto eu, você, um pai de famí­lia res­pei­tá­vel, um jovem de esquerda ou um velho bur­guês con­ser­va­dor, se trans­for­mam em massa, unida por um aglu­ti­nante. Esse aglu­ti­nante pode ser um líder, na figura de um homem, um Deus, ou um con­junto de ideias. Desde que pos­sam pro­du­zir um sen­ti­mento de uni­dade e per­ten­ci­mento, ainda que de modo sen­si­vel­mente irra­ci­o­nal. E o que melhor para pro­du­zir esse sen­ti­mento de uni­dade nar­cí­sica do que um ini­migo em comum? Prin­ci­pal­mente quando se pode dizer que somos suas viti­mas e pre­ci­sa­mos com­batê-lo.

Narcisismo e autoritarismo

Uma per­so­na­li­dade nar­cí­sica é auto­ri­tá­ria por­que quer se impor a todo o custo, mas o auto­ri­tá­rio jamais per­cebe a si mesmo como cruel ou atroz, não importa o quão vio­lento sejam os seus atos. E como o pode­ria? A vai­dade ine­rente ao nar­ci­sismo o impede de con­si­de­rar essa vio­lên­cia per­ni­ci­osa. O agres­sor chega, fran­ca­mente, a con­si­de­rar-se um ben­fei­tor.

Foi em nome da puri­fi­ca­ção, uma ideia sublime, que o nazismo assas­si­nou milhões de judeus na nossa his­tó­ria recente. É em nome de ide­ais não menos ele­va­dos que Israel (o qual pode­mos ques­ti­o­nar se real­mente repre­senta o povo judeu) mas­sa­cra a Pales­tina. Nenhuma des­sas cha­ci­nas foi con­ce­bida como tal por quem as per­pe­trou. “Quando ati­ra­mos sobre uma casa em Gaza, é tam­bém para que os habi­tan­tes de Gaza pos­sam ter uma vida melhor”, diz Moshe Fei­glin, vice pre­si­dente do Knes­set, o par­la­mento isra­e­lense. Tam­bém o povo pales­tino poderá acres­cen­tar que seus ata­ques, menos efe­ti­vos mera­mente por ques­tões de capa­ci­dade bélica, têm a inten­ção não de matar judeus, mas de mos­trar-lhes uma ver­dade clara.

Pode se masturbar, ninguém se opõe.

Pode se mas­tur­bar, nin­guém se opõe.

A vaidade das vítimas

A con­sequên­cia dessa pureza de inten­ções vê-se no modo como hoje Israel e seus ali­a­dos norte-ame­ri­ca­nos for­mam o “eixo das víti­mas” (eu copiei a expres­são de Sla­voj Žižek em Vio­lên­cia: seis refle­xões late­rais). O estado de Israel é a justa retri­bui­ção devida às viti­mas do holo­causto e qual­quer um que se opo­nha à sua expan­são é logo antis­se­mita. Assim como os Esta­dos Uni­dos da Amé­rica é a vitima do ter­ro­rismo do mundo islâ­mico. E quem quer que tenha se oposto à suas inves­ti­das con­tra o Afe­ga­nis­tão após os aten­ta­dos de 11 de setem­bro de 2001 ou con­tra o Ira­que em março de 2003, foi taxado de ini­migo da liber­dade. Liber­dade, outra ideia bonita, da qual só o nar­cí­sico pode se rei­vin­di­car o único e ver­da­deiro repre­sen­tante.


E, do mesmo modo que outrora a Ale­ma­nha de Hitler, o bom cris­tão, se jul­gava vitima da usura e dos cos­tu­mes dele­té­rios do povo judeu, cer­ta­mente pode­rão ainda os pales­ti­nos rei­vin­di­ca­rem-se víti­mas de Israel e jus­ti­fi­car mais vio­lên­cia.

A his­tó­ria da vio­lên­cia se repete como uma obses­são com­pul­siva, mas a força deixa a his­tó­ria mal con­tada. É como se nesse cir­culo vici­oso hou­vesse algum ganho, um pra­zer oculto. Como no bri­lhante Esse obs­curo objeto do desejo, de Luiz Buñuel.

O Narciso

O Nar­ciso

O círculo vicioso de sangue

Essa his­tó­ria revela que a vitima, exi­bindo orgu­lhosa suas feri­das, é, na ver­dade, um Nar­ciso a quem o papel de vítima con­vêm. Para esse Nar­ciso sin­gu­lar a única vio­lên­cia que existe é a do outro e qual­quer ação alheia será neces­sa­ri­a­mente inter­pre­tada como agres­são. Pois, se o outro não for o seu car­rasco, como poderá a vitima reco­nhe­cer-se como tal? E nada mais ater­ra­dor para Nar­ciso que a pró­pria dis­so­lu­ção. Mas a vio­lên­cia que ele vê no outro não é mais do que uma pro­je­ção de si mesmo. Uma pro­je­ção que jus­ti­fica seu pró­prio exer­cí­cio bélico. Um exer­cí­cio pato­ló­gico de mas­tur­ba­ção polí­tica. Pato­ló­gico por­que absorve toda a força do estado que faz da guerra um motor econô­mico, matando cri­an­ças ao invés de esper­ma­to­zoi­des.

O que pode­ria gerar a saída desse cir­culo vici­oso? Tal­vez o que fez o per­so­na­gem de Edward Nor­ton em O Clube da Luta, de David Fin­cher: ata­car a si mesmo. Quer dizer, dei­xar pôr toda a culpa no outro, com se o pro­blema de segu­rança norte-ame­ri­cano tivesse sua ori­gem no ter­ro­rismo árabe, como se a expan­são isra­e­lita fosse a ori­gem exclu­siva das des­gra­ças pales­ti­nas, como se a sobe­ra­nia de Israel depen­desse do ani­qui­la­mento dos pales­ti­nos.


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