Uma intuição psicanalítica

É conhecida em psicanálise a descrição da personalidade narcísica, em que o indivíduo trata a si mesmo como objeto de desejo. A sintomatologia é observável sobretudo na relação com o corpo: o narcisista olha o próprio corpo, toca e acaricia obtendo daí uma satisfação plena.

Você, que se masturba, como todo mundo, deve estar pensando: preciso de um psicanalista. Calma, embora a masturbação tenha algo de narcísico, isso só é uma perversão em sentido patológico quando absorve toda a vida sexual do indivíduo. Pode continuar, numa boa. Divirta-se, não vai crescer cabelo na mão.

Uma coisa mais interessante do que a masturbação, pelo menos do ponto de vista político, é a ligação que o narcisismo tem com a personalidade autoritária e com a vitimização. E Freud já mostrou como as neuroses individuais se tornam coletivas quando indivíduos tão diferentes quanto eu, você, um pai de família respeitável, um jovem de esquerda ou um velho burguês conservador, se transformam em massa, unida por um aglutinante. Esse aglutinante pode ser um líder, na figura de um homem, um Deus, ou um conjunto de ideias. Desde que possam produzir um sentimento de unidade e pertencimento, ainda que de modo sensivelmente irracional. E o que melhor para produzir esse sentimento de unidade narcísica do que um inimigo em comum? Principalmente quando se pode dizer que somos suas vitimas e precisamos combatê-lo.

Narcisismo e autoritarismo

Uma personalidade narcísica é autoritária porque quer se impor a todo o custo, mas o autoritário jamais percebe a si mesmo como cruel ou atroz, não importa o quão violento sejam os seus atos. E como o poderia? A vaidade inerente ao narcisismo o impede de considerar essa violência perniciosa. O agressor chega, francamente, a considerar-se um benfeitor.

Foi em nome da purificação, uma ideia sublime, que o nazismo assassinou milhões de judeus na nossa história recente. É em nome de ideais não menos elevados que Israel (o qual podemos questionar se realmente representa o povo judeu) massacra a Palestina. Nenhuma dessas chacinas foi concebida como tal por quem as perpetrou. “Quando atiramos sobre uma casa em Gaza, é também para que os habitantes de Gaza possam ter uma vida melhor”, diz Moshe Feiglin, vice presidente do Knesset, o parlamento israelense. Também o povo palestino poderá acrescentar que seus ataques, menos efetivos meramente por questões de capacidade bélica, têm a intenção não de matar judeus, mas de mostrar-lhes uma verdade clara.

Pode se masturbar, ninguém se opõe.
Pode se masturbar, ninguém se opõe.

A vaidade das vítimas

A consequência dessa pureza de intenções vê-se no modo como hoje Israel e seus aliados norte-americanos formam o “eixo das vítimas” (eu copiei a expressão de Slavoj Žižek em Violência: seis reflexões laterais). O estado de Israel é a justa retribuição devida às vitimas do holocausto e qualquer um que se oponha à sua expansão é logo antissemita. Assim como os Estados Unidos da América é a vitima do terrorismo do mundo islâmico. E quem quer que tenha se oposto à suas investidas contra o Afeganistão após os atentados de 11 de setembro de 2001 ou contra o Iraque em março de 2003, foi taxado de inimigo da liberdade. Liberdade, outra ideia bonita, da qual só o narcísico pode se reivindicar o único e verdadeiro representante.


E, do mesmo modo que outrora a Alemanha de Hitler, o bom cristão, se julgava vitima da usura e dos costumes deletérios do povo judeu, certamente poderão ainda os palestinos reivindicarem-se vítimas de Israel e justificar mais violência.

A história da violência se repete como uma obsessão compulsiva, mas a força deixa a história mal contada. É como se nesse circulo vicioso houvesse algum ganho, um prazer oculto. Como no brilhante Esse obscuro objeto do desejo, de Luiz Buñuel.

O Narciso
O Narciso

O círculo vicioso de sangue

Essa história revela que a vitima, exibindo orgulhosa suas feridas, é, na verdade, um Narciso a quem o papel de vítima convêm. Para esse Narciso singular a única violência que existe é a do outro e qualquer ação alheia será necessariamente interpretada como agressão. Pois, se o outro não for o seu carrasco, como poderá a vitima reconhecer-se como tal? E nada mais aterrador para Narciso que a própria dissolução. Mas a violência que ele vê no outro não é mais do que uma projeção de si mesmo. Uma projeção que justifica seu próprio exercício bélico. Um exercício patológico de masturbação política. Patológico porque absorve toda a força do estado que faz da guerra um motor econômico, matando crianças ao invés de espermatozoides.

O que poderia gerar a saída desse circulo vicioso? Talvez o que fez o personagem de Edward Norton em O Clube da Luta, de David Fincher: atacar a si mesmo. Quer dizer, deixar pôr toda a culpa no outro, com se o problema de segurança norte-americano tivesse sua origem no terrorismo árabe, como se a expansão israelita fosse a origem exclusiva das desgraças palestinas, como se a soberania de Israel dependesse do aniquilamento dos palestinos.


escrito por:

João Botton

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