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A Valsa dos Partidos

Em Consciência, Política por Ricardo MarinoComentário

Nesse pri­meiro de abril lem­bra­mos os cin­quenta anos do golpe. Vi uma série de repor­ta­gens e maté­rias sobre o evento, sobre as cau­sas e as supos­tas cau­sas, mas pouco vi sobre onde che­ga­mos desde então. Não sou his­to­ri­a­dor, não tenho cali­bre para escre­ver nada a res­peito da his­tó­ria polí­tica, mas gosto de esta­tís­tica e de ana­li­sar dados colo­ri­dos. Por isso, gos­ta­ria de com­par­ti­lhar com vocês o resul­tado da apli­ca­ção de algu­mas téc­ni­cas esta­tís­ti­cas inte­res­san­tes no estudo e aná­lise do que tem sido a polí­tica bra­si­leira desde o fim desse período som­brio de nossa his­tó­ria até os dias de hoje. Que­ria com­par­ti­lhar a esta­tís­tica da câmara dos depu­ta­dos, os movi­men­tos, flu­xos e ten­dên­cias, desde o governo Col­lor até a pre­si­dên­cia de Dilma. Esse post é imenso, e extre­ma­mente incom­pleto. Pre­ciso da ajuda de vocês para enten­der a mai­o­ria do que obser­vei. Se você achou o post longo, basta ler o começo para enten­der como os grá­fi­cos fun­ci­o­nam e se diver­tir nos vídeos.

Como expli­quei nos posts ante­ri­o­res sobre o assunto, esse não é um blog de polí­tica e esse não é um post polí­tico. Comen­tá­rios cul­pando os petra­lhas ou a pri­va­ta­ria tucana não são tão bem-vin­dos quanto aná­li­ses refle­ti­das sobre os dados que vou apre­sen­tar. E tento man­ter meus comen­tá­rios sem­pre no lado da esta­tís­tica da coisa, não insiro nenhuma infor­ma­ção sobre a ide­o­lo­gia dos par­ti­dos nos dados e não faço juízo de valo­res das deci­sões dos gover­nos de cada par­tido.

Antes de apre­sen­tar os dados, pre­ciso expli­car o que são esses dados. Como nos posts ante­ri­o­res, eu uso como dados ape­nas os votos pro­fe­ri­dos pelos depu­ta­dos da câmara nos pro­je­tos de leis envol­vi­dos naquele ano. Cada grá­fico repre­senta os depu­ta­dos daquele man­dato como pon­tos colo­ri­dos, sendo a cor refe­rente ao par­tido. Pon­tos pró­xi­mos sig­ni­fi­cam depu­ta­dos que vota­ram de forma seme­lhante. Pon­tos dis­tan­tes sig­ni­fi­cam depu­ta­dos que vota­ram de forma muito dife­rente. Dessa forma, pode­mos iden­ti­fi­car blo­cos e estru­tu­ras na polí­tica. Sim­pli­fi­cando bas­tante, você pode ima­gi­nar o grá­fico divi­dido em qua­tro qua­dran­tes, a posi­ção dos depu­ta­dos e par­ti­dos nesse qua­drante diz bas­tante sobre o lugar deles no cená­rio polí­tico:

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Ou seja, nesse grá­fico os eixos não impor­tam, o impor­tante é a dis­tân­cia entre os depu­ta­dos, essa sim sig­ni­fica alguma coisa. Eu pen­sei em mos­trar as matri­zes, como da outra vez, por­que gosto bas­tante delas e por­que elas repre­sen­tam a infor­ma­ção com­pleta enquanto esse grá­fico é uma pro­je­ção em duas dimen­sões de um pro­blema a N dimen­sões. Por moti­vos que eu pre­tendo algum dia ter­mi­nar um post expli­cando, eu não perco tanta infor­ma­ção quanto vocês ima­gi­nam pas­sando de N a duas dimen­sões, essa é uma das mara­vi­lhas da téc­nica de aná­lise de com­po­nen­tes prin­ci­pais. Esse fato é resul­tado da intensa pola­ri­za­ção da estru­tura polí­tica, mas isso eu dis­cuto em outro post. Em cada grá­fico, con­tei ape­nas depu­ta­dos que vota­ram em mais de 30% das elei­ções em todos os anos daquela legis­la­tura, a ideia é des­con­si­de­rar suplen­tes e gente que aban­do­nou o barco para fazer qual­quer outra coisa. Já tenho pou­cas vota­ções, se eu os incluísse cor­re­ria o risco de admi­tir um circo de esta­tís­tica de pés­sima qua­li­dade sujando meus dados, não podia cor­rer esse risco.

E quais os dados desse grá­fico? Usei ape­nas os votos de cada mem­bro do con­gresso, ou seja, se eles dis­se­ram “Sim” ou “Não” às pro­pos­tas que esta­vam em vota­ção no ple­ná­rio. Pela estru­tura dessa conta, pouco importa se é sim ou se é não, eu estou inte­res­sado ape­nas em quando depu­ta­dos votam de forma pare­cida ou diver­gente. Para quem gosta da mate­má­tica envol­vida, uma frase ape­nas (que você pode igno­rar se não enten­der): esse grá­fico são as coor­de­na­das dos dois com­po­nen­tes prin­ci­pais, ou seja, as coor­de­na­das dos auto­ve­to­res da matriz de cor­re­la­ção asso­ci­a­dos aos dois mai­o­res auto­va­lo­res, pon­de­ra­dos pelos auto­va­lo­res.

Mas você, como eu e o Datena, quer as ima­gens. Sem mais, come­ça­mos com o pri­meiro, e mais tur­bu­lento, man­dato da nova demo­cra­cia bra­si­leira.

Governo Collor/Itamar: 1991–1994

É com­pli­cado come­çar com esse período, por­que ele é um dos mais com­ple­xos e inte­res­san­tes. Os pon­tos que levanto aqui levam em conta os perío­dos seguin­tes, e o con­traste que ele apre­senta com os perío­dos de demo­cra­cia mais está­vel.

O ano 91 apre­senta uma polí­tica bem esparsa e pouco pola­ri­zada. Per­ce­be­mos a região do governo domi­nada pelos her­dei­ros polí­ti­cos dos par­ti­dos decor­ren­tes do Arena: PP e PFL domi­nando essa região repre­sen­tando a “base ali­ada”. É com­pli­cado falar de governo e opo­si­ção em um man­dato em que o pre­si­dente era de um par­tido mino­ri­tá­rio, tão pequeno que foi excluído da aná­lise, apre­sen­tou ape­nas qua­tro depu­ta­dos na câmara e eu não que­ria gas­tar uma cor com o PRN, cores são pre­ci­o­sas nes­ses grá­fi­cos.

De 91 para 92 nota­mos uma pola­ri­za­ção em um regime trí­plice curi­oso. O governo é con­tras­tado com duas opo­si­ções, de um lado o bloco PMDB-PSDB e do outro PT-PDT-PCdoB. Ainda que opo­si­ci­o­nis­tas, esses blo­cos diver­gem entre si, cri­ando essa tri­pla estru­tura de poder que não dura muito tempo.

De 92 a 93 ocorre uma grande revi­ra­volta no cená­rio polí­tico, o que ima­gino ser resul­tado da depo­si­ção do pre­si­dente em dezem­bro de 92. O resul­tado é uma espé­cie de governo de coa­li­zão: base ali­ada e opo­si­ção se apro­xi­mam nas vota­ções da câmara dos depu­ta­dos. Eu nunca ouvi falar de tal pro­cesso, nem sei se era com­ple­ta­mente conhe­cido, mas a esta­tís­tica é clara: situ­a­ção e opo­si­ção vota­ram de forma pro­fun­da­mente seme­lhante em 1993 con­tras­tando dras­ti­ca­mente com o com­por­ta­mento apre­sen­tado nos anos ante­ri­o­res (e pos­te­ri­o­res, como vere­mos).

Não me arrisco nas cau­sas da coa­li­zão, deixo a quem sabe do assunto. Pode­ria chu­tar que a queda do pre­si­dente e o temor de uma volta da dita­dura pode­ria ter impul­si­o­nado os par­la­men­ta­res a acer­ta­rem suas dife­ren­ças e terem votado, durante 1993, de forma seme­lhante em pro­je­tos impor­tan­tes, ou a busca do pre­si­dente Ita­mar pelo apoio dos par­ti­dos mais à esquerda; mas posso estar, e pro­va­vel­mente estou, com­ple­ta­mente errado.

No final de 93, per­ce­be­mos o PMDB migrando para a zona gover­nista. Não quero estra­gar o sus­pense dos pró­xi­mos vídeos, mas revelo que ele não sairá de lá tão cedo.

E onde está 1994?


Eu tam­bém gos­ta­ria de saber! Os dados que obtive da câmara mos­tram a con­ver­gên­cia de dois fato­res tris­tes para minha aná­lise: em 94 houve um número extre­ma­mente redu­zido de vota­ções totais e uma pro­por­ção par­ti­cu­lar­mente ele­vada de vota­ções secre­tas, ape­nas 17 vota­ções aber­tas den­tre as 84 vota­ções totais. Como base de com­pa­ra­ção, tome­mos os anos vizi­nhos: 93 teve 75 vota­ções aber­tas e 179 totais, 95 teve 138 vota­ções aber­tas e 248 totais. A pista para enten­der esse mis­té­rio tal­vez esteja no ano que é o segundo colo­cado em maté­ria de pou­cas vota­ções aber­tas: 2002 (41 vota­ções aber­tas e 116 totais). Apa­ren­te­mente em anos de elei­ção em que há mudança de governo, há pou­cas vota­ções e, den­tro delas, uma pro­por­ção muito baixa de aber­tas. Não con­firmo que essa seja a razão, ambos tam­bém são anos em que o Bra­sil ganhou a copa do mundo, deixo os núme­ros aqui para vocês e aguardo inter­pre­ta­ções.

Uma pala­vra no código de cores. Os par­ti­dos pro­gres­sis­tas são todos deno­ta­dos na cor rosa por­que, no futuro, irão se fun­dir. Isso foi uma deci­são esté­tica, falta cores no espec­tro visí­vel para tan­tos par­ti­dos no Bra­sil. É impor­tante tam­bém notar que o laranja, ape­sar de mesmo nome, não é o atual PSD, o “par­tido do Kas­sab”. Este PSD será extinto e o novo PSD irá se apro­priar do nome, ele tam­bém se apro­pria da cor por­que meu código de gerar esses grá­fi­cos é indi­fe­rente às suti­le­zas da polí­tica bra­si­leira.

Governo FHC I: 1995–1998

O pri­meiro man­dato de Fer­nando Hen­ri­que Car­doso repre­senta uma grande esta­bi­li­za­ção na polí­tica naci­o­nal, defi­ni­ção razo­a­vel­mente clara de governo e opo­si­ção com uma forte base ali­ada com­posta dos par­ti­dos pro­gres­sis­tas, do PFL, do PSDB e uma grande fatia do PMDB. Os movi­men­tos durante esse período são sua­ves e eu não pude per­ce­ber nenhum fenô­meno mar­cante na dança dos par­ti­dos durante esse ano. Per­ce­be­mos um fato que se repe­tirá nos man­da­tos seguin­tes, parece ser uma lei da polí­tica bra­si­leira: a cada man­dato, a base ali­ada começa coesa e ter­mina difusa. Nesse man­dato, per­ce­be­mos esse efeito mais claro no último ano. Minha inter­pre­ta­ção é tão boa quanto a sua ou pior, mas isso pode repre­sen­tar a incer­teza dos par­la­men­ta­res quanto ao apoio que deve ser atri­buído em ano de elei­ção. A difu­são em 1998 é fraca com­pa­rada a 2002, o que pode ser expli­cado pela vitó­ria esma­ga­dora de FHC nas elei­ções de 1998, ou pode tam­bém ser expli­cada pelo fato de 98 ser a aná­lise de mais de 100 vota­ções enquanto 2002 ape­nas de 41. Ou seja, não tenho uma expli­ca­ção muito con­vin­cente para esse com­por­ta­mento.

Olhando esse grá­fico, eu lem­bro do PMDB do senado em 2012, que estu­dei em outro post. Ainda que faça parte da situ­a­ção essen­ci­al­mente, ele é razo­a­vel­mente difuso e dança de acordo com o resto do con­junto. É fácil ver que o PMDB parece ser equi­va­lente ao sis­tema total, ape­nas em escala menor. Para con­fir­mar essa sus­peita, pre­ci­sa­mos do tira-teima, veja­mos esse mesmo grá­fico colo­cando o PMDB em des­ta­que.

Esse grá­fico mos­tra que durante o governo FHC I, como vai o PMDB, assim vai o Bra­sil. Fica a per­gunta se o PMDB segue os movi­men­tos da câmara ou se os define, mas uma coisa é clara: essa cauda do par­tido indica uma opo­si­ção enrus­tida em alguns de seus mem­bros.

O maior pro­blema desse período tam­bém é minha pro­funda falta de conhe­ci­mento das mano­bras polí­ti­cas da época. O ideal é obser­var o grá­fico, encon­trar fenô­me­nos e ten­tar expli­car com as mano­bras, mas con­fesso que as mano­bras aju­dam a ter algo para pro­cu­rar. Fato é que entre meus sete e onze anos eu não assisti tanto ao Jor­nal Naci­o­nal, então minha con­clu­são final é: período tran­quilo, bem defi­nido com opo­si­ção redu­zida e forte base ali­ada, sendo o PMDB o par­tido menos coeso, mais dinâ­mico e quase dis­tri­buído pro­por­ci­o­nal­mente em torno do espec­tro.

Governo FHC II: 1999–2002

Esse período apre­senta um dilema na aná­lise. Olhando de forma ingê­nua, pode­mos achar que a base ali­ada se desin­te­grou pouco a pouco con­forme o governo avan­çava. Enquanto isso é coe­rente com o que leio do segundo man­dato do governo FHC, o ano 2002 é par­ti­cu­lar­mente pro­ble­má­tico: até o PT parece se dis­per­sar! Mas deve­mos lem­brar que esse ano pos­sui um número anô­malo de vota­ções, ape­nas 41, isso pode ser a maior causa da falta de coe­são de todos os par­ti­dos. Usando um número tão pequeno de vota­ções, pode­mos obter um resul­tado que não con­ver­giu bem para a real coe­são par­ti­dá­ria, e cer­ta­mente não tanto quanto os anos ante­ri­o­res.


Nota­mos, con­tudo, a con­ti­nu­a­ção da forte pola­ri­za­ção governo-opo­si­ção, sendo a base ali­ada PSDB, PFL, PMDB, PP/PPB e PTB, a opo­si­ção lide­rada pelo PT e con­tendo PCdoB, PDT e PV, com o PL em terra de nin­guém entre os dois mun­dos. Nova­mente, se alguém é um enten­dido no período, pre­ciso de um norte para ana­li­sar esses resul­ta­dos. A olho nu, não enxergo nada par­ti­cu­lar­mente impor­tante além da con­ti­nu­a­ção do fenô­meno de desin­te­gra­ção da base ali­ada no decor­rer de um man­dato. A explo­são parece par­ti­cu­lar­mente acen­tu­ada em 2002, mas não posso dizer o quanto disso é um efeito real ou da esta­tís­tica pre­cá­ria que pos­suo. Pen­sei em fazer como 1994, que omiti, mas 41 parece mais justo que 17. Toda essa esta­tís­tica não é de pri­meira qua­li­dade, o fato de ter menos vota­ções que depu­ta­dos pesa, mas é o que tem para hoje. Faze­mos o que pode­mos com o que temos.

O período seguinte é o governo Lula, mas pre­firo estu­dar a fundo a tran­si­ção FHC-Lula. Por si, ela valia um post, e é pro­va­vel­mente a parte mais inte­res­sante desse post todo.

Transição FHC-Lula: 2001–2004

Lem­brando que Lula foi eleito em 2002 e assu­miu em 2003, o que é espe­rado em nos­sos grá­fi­cos? De forma ingê­nua, pode­mos espe­rar que os blo­cos opo­si­ção e governo tro­quem de lugar, como em uma qua­dri­lha demo­crá­tica, ima­gi­na­mos que o movi­mento dia­go­nal será intenso e que pouca gente ficará no mesmo lugar. E esta­ría­mos erra­dos.

E difí­cil ana­li­sar duas legis­la­tu­ras dife­ren­tes, pois me parece injusto com­pa­rar quem saiu com quem entrou. Para evi­tar esse pro­blema, reduzo o espaço amos­tral: nessa seção, ana­liso ape­nas os depu­ta­dos que se ree­le­ge­ram em 2002, ou seja, esta­vam pre­sen­tes tanto em FHC II quanto em Lula I. Dessa forma, con­sigo segui-los durante os anos 2001–2004 sem me per­der ou sem come­ter injus­ti­ças. Veja­mos o que acon­tece:

É muita coisa para seguir, mas con­se­gui­mos dis­tin­guir parte do com­por­ta­mento espe­rado, e parte de um com­por­ta­mento curi­oso. Enquanto há de fato uma troca entre opo­si­ção e governo, PSDB-PFL dan­çam qua­dri­lha com PT-PCdoB-PDT-PL-PDT, tro­cando de luga­res no jogo demo­crá­tico quando o governo é assu­mido pelo pre­si­dente Lula. Mas há diver­sos outros par­ti­dos no balaio, e é fas­ci­nante como o movi­mento do PMDB-PP/PPB-PTB é dras­ti­ca­mente dife­rente dos outros par­ti­dos. Enquanto o pri­meiro grupo troca de lugar, o segundo esta­ci­ona e trata a mudança de governo com a natu­ra­li­dade de uma quarta-feira. Para dei­xar esse fenô­meno explí­cito, e pro­var que não estou inven­tando, repro­duzo esse mesmo grá­fico em dois: um com os par­ti­dos “ide­o­ló­gi­cos” (PT, PSDB, PFL, PCdoB, PDT, PL) em des­ta­que e outro com os “gover­nis­tas” em des­ta­que.

Não quero inse­rir juí­zos de valor nessa aná­lise, quero bas­tante me con­ter, mas con­ve­nha­mos, esses grá­fi­cos não pare­cem ser do mesmo período. Lem­brando o que esse grá­fico repre­senta: em 2001, os depu­ta­dos do PMDB, PP/PPB e PTB vota­vam pro­fun­da­mente ali­nha­dos com os votos do PSDB/PFL. Em 2003, esses mes­mos depu­ta­dos vota­vam exa­ta­mente como o PT votava! Cer­ta­mente houve uma mudança na ori­en­ta­ção par­ti­dá­ria, nas ali­an­ças polí­ti­cas, mas eu quero enfa­ti­zar que esse grá­fico segue as mes­mas pes­soas. Em uma dife­rença de meses eles pas­sa­ram de segui­do­res fiéis da direita tucana a apoi­a­do­res incon­di­ci­o­nais de todas as pro­pos­tas petis­tas de esquerda no ple­ná­rio. O fenô­meno é fas­ci­nante, e a mate­má­tica é impla­cá­vel: esses depu­ta­dos pas­sa­ram por alguma expe­ri­ên­cia reve­la­dora, como Saulo de Tarso, que os com­pe­liu a se faze­rem uma nova pes­soa, um novo homem ou mulher, dei­xando para trás ideias que pre­ga­ram durante no mínimo qua­tro anos, e poli­ti­ca­mente desde 1993.

Obser­vando o grá­fico com o foco nos ide­o­ló­gi­cos, per­ce­be­mos o iní­cio da der­ro­cada do PSDB. Notem que tanto PSDB quanto PFL dei­xam um “ras­tro” de depu­ta­dos na base ali­ada, pon­tos azuis e roxos que se recu­sam a aban­do­nar o barco quando afunda e pre­fe­rem ape­nas pular para a nova embar­ca­ção ver­me­lha que anco­rou nas águas gover­nis­tas. Entre o pri­meiro e segundo ano do governo, per­ce­be­mos que esse ras­tro de depu­ta­dos tuca­nos e frente-libe­rais é rapi­da­mente absor­vido em uma fago­ci­tose polí­tica que não deixa tra­ços. Foram elei­tos pelo PSDB e PFL, essa foi a sigla que finan­ciou suas cam­pa­nhas de ree­lei­ção; mas entre mai­o­ria na câmara e inte­gri­dade ide­o­ló­gica aca­ba­ram fazendo uma esco­lha bem defi­nida. Fos­sem um ou dois eu pode­ria sus­pei­tar de um avi­va­mento esquer­dista indi­vi­dual, mas a quan­ti­dade traz des­con­fi­ança.

Governo Lula I: 2003–2006

Estu­da­mos esse governo em outro post, mas agora temos muito mais base de com­pa­ra­ção com os gover­nos ante­ri­o­res. Enquanto naquele post eu disse que o com­por­ta­mento de cor­re­la­ção entre as duas meta­des do pri­meiro governo Lula era com­pa­tí­vel com a nar­ra­tiva de um men­sa­lão, revejo essa aná­lise à luz dos dados dos gover­nos tuca­nos ante­ri­o­res. Parte desse movi­mento pode ser ape­nas esse fenô­meno natu­ral de desin­te­gra­ção da base ali­ada ao longo de uma can­di­da­tura. Ainda, o movi­mento petista em 2005 é ligei­ra­mente dife­rente da dis­per­são nor­mal, há um iso­la­mento do PT em rela­ção aos outros par­ti­dos da base ali­ada. Curi­o­sa­mente, o PT volta ao cen­tro da base ali­ada em 2006. Levanto duas pos­si­bi­li­da­des de expli­ca­ção:

O escân­dalo do men­sa­lão iso­lou o PT em 2005, mas em 2006 a poeira havia bai­xado e a con­di­ção de nor­ma­li­dade se rees­ta­be­le­ceu.

A desin­te­gra­ção da base ali­ada é um fenô­meno natu­ral, mas em 2006 as elei­ções pre­si­den­ci­ais esta­vam pra­ti­ca­mente cer­tas e a base ali­ada não arris­cou fazer com­pro­mis­sos com a opo­si­ção para poder mudar de barco caso afun­dasse.

Ou qual­quer outra expli­ca­ção que vocês encon­tra­rem, não coloco minha mão no fogo por nenhuma aná­lise polí­tica minha e quero dei­xar isso bem claro. É fun­da­men­tal notar o cami­nhar da opo­si­ção durante esse man­dato. A polí­tica bra­si­leira desde 2003 tem sido a his­tó­ria da der­ro­cada dos par­ti­dos de direita. Com­pare a força opo­si­ci­o­nista (dis­tân­cia da base ali­ada e coe­são par­ti­dá­ria) petista durante o governo FHC e a força da opo­si­ção ao governo Lula. Não se enga­nem, notem a escala dos eixos, a dis­tân­cia hori­zon­tal é muito mais impor­tante que a ver­ti­cal. Mate­ma­ti­ca­mente falando, nesse período PSDB e PFL vota­ram de maneira dis­persa e não con­fron­tam a base ali­ada na mesma ordem de gran­deza que a opo­si­ção de perío­dos ante­ri­o­res. Houve uma ten­ta­tiva de coe­são em 2005, pro­va­vel­mente resul­tado do escân­dalo polí­tico dando força à opo­si­ção, mas 2006 ama­nhe­ceu um novo ano e o PSDB explo­diu na dire­ção da base ali­ada.

Governo Lula II: 2007–2010

Lula foi uma pode­rosa cola na base ali­ada durante seus oito anos de man­dato, e par­ti­cu­lar­mente nos qua­tro últi­mos. A pre­sença do PMDB se revela mais uma vez fun­da­men­tal para o poder da base ali­ada: se os ver­des esti­ves­sem no outro canto do grá­fico, o PT pas­sa­ria pou­cas leis durante o man­dato de Lula. A base ali­ada é com­posta majo­ri­ta­ri­a­mente de PT-PP-PMDB-PR, enquanto opo­si­ção é PSDB-PFL/DEM.

Se a opo­si­ção ter­mi­nou o pri­meiro man­dato de Lula ani­nhando-se na base ali­ada, ela começa nova­mente bem longe e sufi­ci­en­te­mente coesa, para ir nova­mente se apro­xi­mando e se difun­dindo. É notó­ria a pre­sença do PSOL, seus três depu­ta­dos como um sis­tema ter­ná­rio de estre­las pas­seiam pelo espec­tro repre­sen­tando a coe­são do par­tido e seu cará­ter opo­si­ci­o­nista.

Per­ce­be­mos a crise do PFL nes­ses dados, não ape­nas por sua mudança de nome para DEM. Note o que é esse mesmo período, focando ape­nas os frente-libe­ra­lis­tas:

Não ape­nas esse par­tido, cen­tral na base opo­si­ci­o­nista desde 2003, visita cons­tan­te­mente a base ali­ada; ele pouco a pouco se dis­persa e cede à ten­ta­ção de abra­çar a zona gover­nista. O PSDB segue em parte, na natu­ral apro­xi­ma­ção entre base ali­ada e opo­si­ção que parece ocor­rer ao final de cada man­dato. O movi­mento do DEM se com­ple­tará no governo Dilma, e sua tra­je­tó­ria de 1991 a 2013 não terá final feliz.

Che­ga­mos aos dias de hoje, e o governo Dilma apre­senta uma esta­tís­tica rica e, em minha opi­nião, mais inte­res­sante que a dos pre­de­ces­so­res. O pri­meiro fenô­meno obser­vado é o sur­gi­mento do PSD, que não é o mesmo PSD de antes, a falta de ori­gi­na­li­dade no nome reflete minha falta de ori­gi­na­li­dade nas cores. Esse novo PSD é o tal “par­tido do Kas­sab”, e se alas­tra na região cen­tral do espec­tro polí­tico como uma epi­de­mia que varre o DEM e pesca alguns par­la­men­ta­res da base. Os demo­cra­tas hesi­tan­tes do governo Lula encon­tram casa nesse novo PSD, e vale estu­dar esse fenô­meno com mais cui­dado para deter­mi­nar exa­ta­mente de onde são recru­ta­dos os novos inte­gran­tes desse par­tido.

A cri­a­ção do PSD con­suma o des­tino do PFL/DEM, e com­pleta sua tra­je­tó­ria de majo­ri­tá­rio na base ali­ada em 1991 a uma som­bra do que já foi em 2013.

Outro fenô­meno inte­res­sante apa­rece durante o governo Dilma. Em outras legis­la­tu­ras, pude­mos obser­var a difu­são da base ali­ada como um pro­cesso natu­ral, mas há algo dife­rente no governo Dilma. Não é uma sim­ples difu­são, em 2012, o PT é iso­lado na base ali­ada, enquanto o res­tante dos par­ti­dos migra para uma região cen­tral for­mando uma segunda base gover­nista. Pela pri­meira vez desde 1992 temos nova­mente uma estru­tura com três polos de poder polí­tico: PT-PCdoB no topo da base ali­ada, o grande bloco gover­nista PMDB-PP-PTB-PSD e o que cha­má­va­mos de opo­si­ção PSDB-DEM.

Nesse con­texto em que as diver­gên­cias entre o bloco cen­tral e o PT são gran­des, vale ques­ti­o­nar nos­sas noções anti­gas de opo­si­ção e base ali­ada. Ainda que o vice-pre­si­dente seja pee­me­de­bista, as cor­re­la­ções entre PMDB e PT pare­cem se dete­ri­o­rar bas­tante con­forme Dilma vai gover­nando. A base ali­ada não se torna exa­ta­mente difusa com o tempo, ela se pola­riza em duas, como se o PMDB deci­disse for­mar sua pró­pria base ali­ada e não con­vi­dasse Dilma para a festa.

Conclusões?

Não tenho con­clu­sões pró­prias desse expe­ri­mento. Os grá­fi­cos estão cor­re­tos e minhas aná­li­ses pro­va­vel­mente erra­das, peço nova­mente a con­tri­bui­ção de vocês para lerem esses dados e apon­ta­rem o que esqueci ou inven­tei. Como isso é ciên­cia, divulgo o con­junto dos dados usa­dos e os dados bru­tos, bem como os vídeos para down­load aqui. Façam suas pró­prias aná­li­ses, ques­ti­o­nem meus grá­fi­cos e com­ba­tam minhas afir­ma­ções, ana­li­sem como acha­rem ade­quado e justo; esse é o único jeito de se fazer ciên­cia, o único de se che­gar a uma res­posta certa.

Minto, tal­vez tenha uma con­clu­são. Os grá­fi­cos que apre­sen­tei colo­cam em xeque uma noção polí­tica que ten­ta­mos usar no Bra­sil, mas falha­mos: nossa ten­ta­tiva de rotu­lar par­ti­dos e par­la­men­ta­res como de esquerda ou de direita. Em uma con­versa de bar, se você per­gun­tar sobre par­la­men­ta­res de direita, pro­va­vel­mente ouvirá como res­posta a ban­cada evan­gé­lica, Jair Bol­so­naro, Paulo Maluf; entre outros. Jair Bol­so­naro e Maluf são do PP (base ali­ada), enquanto em 2013 foram con­si­de­ra­dos líde­res da ban­cada (evan­gé­lica) os par­la­men­ta­res João Cam­pos (PSDB-GO), Anthony Garo­ti­nho (PRRJ), Edu­ardo Cunha (PMDB-RJ), Lin­coln Por­tela (PR-MG) e o sena­dor Magno Malta (PR-ES) (Wiki­pé­dia), nota­mos que ape­nas o pri­meiro deles per­tence a um par­tido dito de direita, os outros todos são mem­bros de par­ti­dos pro­fun­da­mente enrai­za­dos na base ali­ada petista, nomi­nal­mente um governo de esquerda. Junte isso ao FHC, grande caci­que do PSDB, defen­dendo aber­ta­mente a lega­li­za­ção da maco­nha para ter uma ima­gem colo­rida do que é a polí­tica bra­si­leira.

À luz dos dados, e da valsa que foi acom­pa­nhar o espec­tro polí­tico durante 22 anos, não con­sigo mais usar ter­mos ide­o­ló­gi­cos para a polí­tica bra­si­leira. Não é desi­lu­são, é esta­tís­tica; esses dados são isen­tos de ide­o­lo­gia e mos­tram com quem cada par­la­men­tar votou. Essa dança de pon­tos parece ser mais facil­mente expli­cada como con­jun­tos de par­la­men­ta­res que con­se­gui­ram ali­an­ças ou não con­se­gui­ram ali­an­ças, suas opi­niões em pro­gra­mas soci­ais, dívida pública, direi­tos con­tra­cep­ti­vos, pri­va­ti­za­ções ou dire­ção econô­mica não pare­cem valer dois cen­ta­vos, já que um mesmo par­la­men­tar pode em 2002 apoiar azul e em 2003 votar exa­ta­mente como ver­me­lho.

Isso me parece um resul­tado natu­ral de nossa cul­tura polí­tica. Não vota­mos em par­ti­dos, vota­mos em indi­ví­duos, em par­la­men­ta­res indi­vi­du­ais. Nessa lógica, o indi­ví­duo ganha força sobre o par­tido, o que traz a riqueza des­ses grá­fi­cos. Se essa aná­lise fosse feita na França ou nos EUA, os grá­fi­cos nos mata­riam de tédio, os par­ti­dos pos­suem muita força e um par­la­men­tar que sai da linha não é facil­mente per­do­ado, todo grá­fico seria com­posto de blo­cos extre­ma­mente coe­sos e dis­tan­tes. A quan­ti­dade de par­ti­dos e sua dis­tri­bui­ção de tama­nho seriam tam­bém muito dife­ren­tes: nos dois paí­ses men­ci­o­na­dos eu pode­ria fazer este grá­fico em preto-e-branco, enquanto aqui falta frequên­cia no espec­tro visí­vel para tanto par­tido; se eu pre­ci­sasse repre­sen­tar o PSC eu teria que usar infra­ver­me­lho.

Reto­mando a ori­gem deste post, temos o golpe de 1964. Nele, alguma direita acu­sou a esquerda de uma ten­ta­tiva de golpe e, para evitá-lo, tomou a ini­ci­a­tiva. Atu­al­mente, essa noção está tão longe de nossa polí­tica quanto os gols de Pelé daquela época estão de nossa sele­ção. Se levan­ta­rem em nossa con­versa de bar recla­ma­ções sobre o direi­tismo de Jair Bol­so­naro, pode­mos argu­men­tar que o par­tido de Bol­so­naro foi esta­tis­ti­ca­mente indis­tin­guí­vel do PT durante o governo Lula. Suas decla­ra­ções pouco impor­tam, seu impacto é nos votos. Nessa dis­cus­são pode­mos ouvir que o PSOL é o único par­tido ver­da­dei­ra­mente de esquerda do Bra­sil, e pode­mos res­pon­der que ele foi esta­tis­ti­ca­mente mais pró­ximo do PSDB que do PT ou do PCdoB durante todo o governo Lula e em 2011 os três depu­ta­dos pso­lis­tas foram quase esta­tis­ti­ca­mente indis­tin­guí­veis de um típico depu­tado tucano. E se isso é uma con­versa de bar, pre­ciso per­gun­tar: há direita no Bra­sil? Há esquerda? Não tenho res­pos­tas para essa per­gunta, essa hipó­tese não foi neces­sá­ria para minha aná­lise. Tenho par­ti­dos ver­me­lhos, azuis, ver­des, rosa, cinza e laran­jas sur­gindo, mor­rendo, bri­gando, val­sando e com­pondo com com­ple­xi­dade e riqueza sinis­tras a câmara dos depu­ta­dos, e, nela, defi­nindo os rumos dessa nação.

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