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A Vagina Atômica — a ameaça do corpo feminino

Em Consciência, Sociedade por Lara VascoutoComentário

Cuidado que um dia ela explode.

Antes de come­çar a escre­ver esse texto, eu dei uma boa olhada no meu corpo nu na frente do espe­lho. Que­ria poder te dizer que des­co­bri algo sur­pre­en­dente na ima­gem que vi refle­tida, mas a ver­dade é que não iden­ti­fi­quei nada de excep­ci­o­nal no meu corpo. Como pra­ti­ca­mente todos os outros cor­pos nesse pla­neta, o meu tem per­nas, bra­ços, tronco, cabeça. Já as par­tes e con­tor­nos que eu tenho em comum com 50% da popu­la­ção no mundo tam­bém não têm nada demais. A região da minha vagina tem pêlos, como qual­quer outra. Meus seios são redon­dos, como qual­quer outro. Mesmo assim, são eles que qua­li­fi­cam o meu corpo como algo obs­ceno, inde­cente e peri­goso, algo que deve ser coberto tanto para a minha pro­te­ção — afi­nal, se alguém me asse­dia ou me estu­pra é por­que eu não me cobri direito — quanto para a pro­te­ção dos pobres homens desa­vi­sa­dos, que vão direto para o inferno por se dei­xa­rem sedu­zir pelas mulhe­res trai­ço­ei­ras e malig­nas que empu­nham armas impu­ras con­tra eles — seus pei­tos, suas cur­vas, suas vagi­nas.

Seria até legal poder usar os peitos para espetar pervertidos, mas lamentavelmente isso é só um sutiã.

Seria até legal poder usar os pei­tos para espe­tar per­ver­ti­dos, mas lamen­ta­vel­mente isso é só um sutiã.

Eu acho que eu sei o que você está pen­sando. “Mas não faz sen­tido! Se o corpo femi­nino é tão temido, como você explica a vene­ra­ção des­ses cor­pos em toda a mídia? Não dá pra abrir uma revista sem dar de cara com uma bunda!”. Pois é, a sua dúvida faz todo sen­tido. E já que você falou de bunda, vou usá-la como exem­plo. Faz um favor pra mim, abre essa revista que você men­ci­o­nou e dê uma boa olhada na tal da bunda. Mas olha mesmo, com aten­ção. Pronto? Agora me res­ponde: essa bunda tinha celu­lite? Estrias, por acaso? Era uma bunda flá­cida? Meio molen­gona? Tinha espi­nhas? Man­chas? Pin­tas? Era chata e sem graça?

Eu vou me arris­car aqui e chu­tar que a res­posta para todas essas per­gun­tas é um grande e res­so­nante “NÃO”. E vou mais longe! Eu não vi essa bunda que você men­ci­o­nou, mas me arrisco a dizer que era uma bunda bem duri­nha e redonda, sem nenhuma mácula para satis­fa­zer os inve­jo­sos. Eu sei disso por­que é assim que todas as bun­das femi­ni­nas cos­tu­mam ser retra­ta­das: tão per­fei­tas que bei­ram o impos­sí­vel. E na mai­o­ria das vezes, são impos­sí­veis mesmo.

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Entenda, o que é vene­rado em toda a mídia é uma ide­a­li­za­ção do corpo femi­nino, algo que pra­ti­ca­mente não existe. Isso não quer dizer que algu­mas mulhe­res não quase alcan­cem essa “per­fei­ção”, mas elas são uma peque­nís­sima mino­ria em meio a uma vasta mai­o­ria de mulhe­res que car­re­gam em seus cor­pos peles flá­ci­das, celu­li­tes, pin­tas, man­chas, estrias, espi­nhas, cur­vas demais, cur­vas de menos, pêlos, pêlos e mais pêlos. Além disso, o corpo femi­nino que é vene­rado na mídia é obje­ti­fi­cado — isto é, as mulhe­res ali retra­ta­das são muito mais um con­junto ape­ti­toso de pei­tos e bun­das do que um ser humano pen­sante. Levando-se esses dois fato­res em con­si­de­ra­ção, pode­mos con­cluir que o que é vene­rado pela mídia não é o corpo femi­nino, mas sim o corpo femi­nino como objeto sexual. Como todo bom objeto, esse corpo está sem­pre den­tro dos padrões pré-esta­be­le­ci­dos e é abso­lu­ta­mente pas­sivo, por isso ele não chega a ser ofen­sivo ou inde­cente — afi­nal, os valo­res tra­di­ci­o­nais soci­e­tais (pro­fun­da­mente machis­tas, diga-de de pas­sa­gem) ditam que é assim que as mulhe­res devem ser: sem­pre den­tro dos padrões esta­be­le­ci­dos e exul­tando pas­si­vi­dade.

No entanto, quando o corpo femi­nino sai dos padrões ide­a­li­za­dos pela mídia e aban­dona a pas­si­vi­dade, ele passa rapi­da­mente de vene­rá­vel para obs­ceno, inde­cente e peri­goso. Um bom exem­plo disso é o que acon­te­ceu ano pas­sado em uma expo­si­ção de arte da Mall Gal­le­ries, em Lon­dres. Nessa oca­sião, um qua­dro da artista plás­tica Leena McCall foi reti­rado da expo­si­ção, por­que os fre­quen­ta­do­res recla­ma­ram que o seu con­teúdo era “por­no­grá­fico” e “nojento”, o que pode­ria cau­sar per­tur­ba­ção em cri­an­ças e adul­tos.

Eis o ofen­sor:

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Apa­ren­te­mente, o fato de a vulva da modelo do qua­dro fazer uma apa­ri­ção dis­creta na pin­tura foi o sufi­ci­ente para ofen­der pro­fun­da­mente alguns fre­quen­ta­do­res da expo­si­ção. Essas mes­mas pes­soas pro­va­vel­mente pas­sa­ram impas­sí­veis por algum out­door mos­trando alguma gos­to­sona com a lin­ge­rie enfi­ada no fiofó no cami­nho para a expo­si­ção, mas a visão de uma mulher con­fi­ante, de olhar desa­fi­a­dor e inte­li­gente, osten­tando a sua vulva peluda com orgu­lho foi o sufi­ci­ente para fazê-los subir nas taman­cas. Basi­ca­mente, o corpo femi­nino retra­tado no qua­dro de Leena McCall ofende por­que ele é um corpo femi­nino real — ele não é um objeto impas­sí­vel e, com seus pêlos à mos­tra, não cor­res­ponde ao ideal do corpo per­feito.

E isso nos leva à vagina atô­mica — isto é, à visão dis­se­mi­nada na soci­e­dade de que o corpo femi­nino (o real — que fala, pensa e res­pira) é uma ame­aça e pre­cisa ser con­tido a todo custo. Nesse con­texto, tudo o que revela a sua con­di­ção de não-objeto sexual é rapi­da­mente calado e repri­mido. Exem­plos dessa repres­são podem ser encon­tra­dos facil­mente em redes soci­ais como o Ins­ta­gram, por exem­plo, que vive blo­que­ando con­tas que pos­tam fotos con­trá­rias à noção ide­a­li­zada de objeto sexual do corpo femi­nino. Por exem­plo…

Os pêlos pubi­a­nos, tão reais e tão pouco ide­a­li­za­dos, são ter­mi­nan­te­mente proi­bi­dos por lá:

A revista australiana Sticks and Stones teve sua conta do Instagram bloqueada quando postou essa foto de duas modelos de biquini mostrando pêlos na virilha.

A revista aus­tra­li­ana Sticks and Sto­nes teve sua conta do Ins­ta­gram blo­que­ada quando pos­tou essa foto de duas mode­los de biquini mos­trando pêlos na viri­lha.

Ama­men­tar em público, então — jezuis, quanta inde­cên­cia:

O Instagram também bloqueou contas de usuárias que postaram fotos de amamentação - sabe, aquele negócio que nos mantém vivos quando bebês?

O Ins­ta­gram tam­bém blo­queou con­tas de usuá­rias que pos­ta­ram fotos de ama­men­ta­ção — sabe, aquele negó­cio que nos man­tém vivos quando bebês?

Mens­tru­a­ção — uma fun­ção abso­lu­ta­mente nor­mal do corpo femi­nino — tam­bém é con­si­de­rado con­teúdo obs­ceno:

A artista Rupi Kaur teve sua conta deletada após postar a foto de uma mulher completamente vestida com as calças sujas de sangue mentrual.

A artista Rupi Kaur teve sua conta dele­tada após pos­tar a foto de uma mulher com­ple­ta­mente ves­tida com as cal­ças sujas de san­gue men­trual.

Cor­pos fora do padrão ide­a­li­zado são con­teúdo proi­bido no apli­ca­tivo de fotos:

A estudante Samm Newman teve sua conta deletada após postar uma foto sua de calcinha e sutiã.

A estu­dante Samm New­man teve sua conta dele­tada após pos­tar uma foto sua de cal­ci­nha e sutiã.

E cor­pos pós-gra­vi­dez tam­bém são vis­tos como inde­cen­tes pelas polí­ti­cas do Ins­ta­gram:

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Várias fotos de bar­ri­gas pós-gra­vi­dez tam­bém foram dele­ta­das pelo apli­ca­tivo.

 

Tudo isso, vale dizer, enquanto fotos como as abaixo cir­cu­lam livre­mente pelo apli­ca­tivo sem qual­quer tipo de res­tri­ção:

Gos­tosa pode.

 

Esse sangue tá de boa.

Esse san­gue tá de boa.

Depiladinha assim, claro que pode, né!

Depi­la­di­nha assim, claro que pode, né!

Opa, vulva depilada tá permitido.

Opa, vulva depi­lada tá per­mi­tido.

San­gue de homi tá tran­quis.

 

Em todos os casos de con­tas blo­que­a­das cita­dos acima, as usuá­rias colo­ca­ram a boca no trom­bone e o Ins­ta­gram rapi­da­mente se des­cul­pou e reins­tau­rou suas con­tas com as fotos ofen­so­ras. Mas o fato de elas terem sido dele­ta­das em pri­meiro lugar diz muito sobre o tipo de mundo em que vive­mos. Um mundo que não aceita o corpo femi­nino como ele é. Ou melhor, um mundo que só aceita o corpo femi­nino quando ele é pas­sivo e obe­dece deter­mi­na­dos padrões exter­nos, dei­xando, assim, de per­ten­cer às pró­prias mulhe­res que o pos­suem. Pode pare­cer bes­teira falar de fotos dele­ta­das no Ins­ta­gram, mas não é. Em todo o mundo, as mulhe­res sofrem com a cen­sura de seus cor­pos. Seja na Índia rural, onde as meni­nas não têm acesso a absor­ven­tes (pra­ti­ca­mente um pro­duto de luxo) e são obri­ga­das as dei­xar a escola quando come­çam a mens­truar; seja na Somá­lia, onde a sexu­a­li­dade femi­nina é tão ina­cei­tá­vel que a muti­la­ção geni­tal é prá­tica comum; seja no Bra­sil, onde andar na rua de minis­saia é “pedir para ser asse­di­ada”.

Por isso, vamos enten­der de uma vez por todas. A cen­sura e o con­trole são reais. Já a vagina atô­mica, sinto dizer, não é.

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