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A tecnologia da dependência

Em Comportamento, Consciência por Felipe Gue MartiniComentário

O acú­mulo de arte­fa­tos cul­tu­rais cria novas neces­si­da­des e depen­dên­cias. Quem diz isso não sou eu, mas grande parte dos estu­di­o­sos do tema. Depois do fogo, per­de­mos o gosto por mas­car uma cos­tela san­grando (não total­mente, mas…), bas­tou sur­gir a roda, para ganhar­mos o mundo e levar­mos a casa (não mais) nas cos­tas.

Esses avan­ços que sem­pre repre­sen­ta­ram novas for­mas de orga­ni­za­ção e, para mui­tos, o pró­prio pro­gresso da huma­ni­dade, atin­gi­ram ares dra­má­ti­cos nos últi­mos 150 anos. Neste período de mudan­ças ace­le­ra­das, temos no retrato atual a conec­ti­vi­dade, o com­par­ti­lha­mento, a ins­tan­ta­nei­dade da vida como metá­fo­ras; e a infor­ma­ção e o conhe­ci­mento como as gran­des deu­sas a quem cul­tuar.

Se antes da roda sequer pen­sá­va­mos em visi­tar aquele primo dis­tante (que, às vezes, na pré-his­tó­ria, pode­ria ser tão dis­tante que ainda seria um macaco), hoje não vive­mos mais sem o trans­porte de alta velo­ci­dade. Tam­bém não sabe­mos mais viver sem o tele­fone, o sinal de inter­net 4G, as mídias soci­ais. Cer­ta­mente nos­sos filhos vão per­gun­tar por­que nas anti­gas estra­das peda­gi­a­das exis­tiam cabi­nes de aten­di­mento com tele­fo­nes. Pri­mi­ti­vismo, res­pon­de­re­mos.

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Pode pare­cer o paraíso, mas há um lado obs­curo desse novo uni­verso com­par­ti­lhado e imer­sivo. O estilo de vida off-line está em extin­ção, e isso não é bom para quem está louco para cur­tir um fim de semana des­can­sando, mas não pode dei­xar o tele­fone des­li­gado por conta de cli­en­tes ou patrões que pre­ci­sam de assis­tên­cia 24 horas. O meio que fle­xi­bi­liza nosso tempo ao nos per­mi­tir res­pon­der emails de tra­ba­lho na beira da praia tam­bém é um vilão quando pre­ci­sa­mos sumir por uns tem­pos. Em breve, com as novas tec­no­lo­gias de bate­rias de longa dura­ção, nem des­li­ga­dos pode­re­mos nos jus­ti­fi­car.

Assim como não pode­re­mos mais men­tir sobre nossa loca­li­za­ção, ao menos não em apa­re­lhos de comu­ni­ca­ção móveis. Falta pouco para as ope­ra­do­ras e pro­ve­do­ras de sinal vin­cu­la­rem o uso do dis­po­si­tivo com a geo­lo­ca­li­za­ção obri­ga­tó­ria. Este sim, o ver­da­deiro “Big Brother”. Sem recom­pensa, só vigi­lân­cia.

Existe uma clara ten­dên­cia à mini­a­tu­ri­za­ção e a pro­li­fe­ra­ção de sis­te­mas sem fio de inter­co­mu­ni­ca­ção. Pla­ta­for­mas que se iden­ti­fi­cam e tro­cam infor­ma­ções rapi­da­mente de forma autô­noma. Inte­li­gên­cias arti­fi­ci­ais com cres­cente nível de com­ple­xi­fi­ca­ção de pro­ces­sa­men­tos. Em breve, não pre­ci­sa­re­mos mais defi­nir o que com­prar no mer­cado, a gela­deira dará conta disso, tam­bém não pre­ci­sa­re­mos cal­cu­lar dis­tân­cias ou os cami­nhos para che­gar em algum lugar, não pre­ci­sa­re­mos saber se nos­sos filhos tem lição de casa, a TV do quarto só será ligada, após com­ple­ta­rem o tema.

Nos acos­tu­ma­re­mos, como sem­pre acon­te­ceu. Das ações tri­vi­ais do coti­di­ano ter­cei­ri­za­re­mos as mais com­ple­xas, como cal­cu­lar estru­tu­ras de nos­sas mora­dias, esco­lher ade­qua­da­mente nos­sas die­tas, ela­bo­rar maté­rias de futu­ro­lo­gia para revis­tas. Pro­va­vel­mente, vol­ta­re­mos a ser maca­cos, iguais àque­les nos­sos pri­mos, para quem não liga­mos mais. Tal­vez um tanto menos filo­só­fi­cos, e um tanto menos pre­o­cu­pa­dos, será que mais feli­zes?


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