O acúmulo de artefatos culturais cria novas necessidades e dependências. Quem diz isso não sou eu, mas grande parte dos estudiosos do tema. Depois do fogo, perdemos o gosto por mascar uma costela sangrando (não totalmente, mas…), bastou surgir a roda, para ganharmos o mundo e levarmos a casa (não mais) nas costas.

Esses avanços que sempre representaram novas formas de organização e, para muitos, o próprio progresso da humanidade, atingiram ares dramáticos nos últimos 150 anos. Neste período de mudanças aceleradas, temos no retrato atual a conectividade, o compartilhamento, a instantaneidade da vida como metáforas; e a informação e o conhecimento como as grandes deusas a quem cultuar.

Se antes da roda sequer pensávamos em visitar aquele primo distante (que, às vezes, na pré-história, poderia ser tão distante que ainda seria um macaco), hoje não vivemos mais sem o transporte de alta velocidade. Também não sabemos mais viver sem o telefone, o sinal de internet 4G, as mídias sociais. Certamente nossos filhos vão perguntar porque nas antigas estradas pedagiadas existiam cabines de atendimento com telefones. Primitivismo, responderemos.

tecnologia da dependência

Pode parecer o paraíso, mas há um lado obscuro desse novo universo compartilhado e imersivo. O estilo de vida off-line está em extinção, e isso não é bom para quem está louco para curtir um fim de semana descansando, mas não pode deixar o telefone desligado por conta de clientes ou patrões que precisam de assistência 24 horas. O meio que flexibiliza nosso tempo ao nos permitir responder emails de trabalho na beira da praia também é um vilão quando precisamos sumir por uns tempos. Em breve, com as novas tecnologias de baterias de longa duração, nem desligados poderemos nos justificar.

Assim como não poderemos mais mentir sobre nossa localização, ao menos não em aparelhos de comunicação móveis. Falta pouco para as operadoras e provedoras de sinal vincularem o uso do dispositivo com a geolocalização obrigatória. Este sim, o verdadeiro “Big Brother”. Sem recompensa, só vigilância.

Existe uma clara tendência à miniaturização e a proliferação de sistemas sem fio de intercomunicação. Plataformas que se identificam e trocam informações rapidamente de forma autônoma. Inteligências artificiais com crescente nível de complexificação de processamentos. Em breve, não precisaremos mais definir o que comprar no mercado, a geladeira dará conta disso, também não precisaremos calcular distâncias ou os caminhos para chegar em algum lugar, não precisaremos saber se nossos filhos tem lição de casa, a TV do quarto só será ligada, após completarem o tema.

Nos acostumaremos, como sempre aconteceu. Das ações triviais do cotidiano terceirizaremos as mais complexas, como calcular estruturas de nossas moradias, escolher adequadamente nossas dietas, elaborar matérias de futurologia para revistas. Provavelmente, voltaremos a ser macacos, iguais àqueles nossos primos, para quem não ligamos mais. Talvez um tanto menos filosóficos, e um tanto menos preocupados, será que mais felizes?


Você pode querer ler também:

A Revolução da Inteligência Artificial
As 7 doenças que estão matando nossa humanidade

escrito por:

Felipe Gue Martini

JUNTE-SE À NOSSA NEWSLETTER
Junte-se a outros 2.000 visitantes que recebem nossa newsletter e garanta, semanalmente, artigos sobre ciência, filosofia, comportamento e sociedade diretamente em seu e-mail!
Nós odiamos spam. Seu e-mail não será vendido ou compartilhado com mais ninguém.