Ser psicólogo não é fácil. Requer uma alta dose de paciência para aguentar as expectativas que as pessoas tem sobre a persona psicólogo, e os mitos cultivados sobre a prática da psicologia.

Em parte, compreendo. No primeiro período eu era um desses leigos que entrava na universidade cheio de ideias esdrúxulas, ainda que as minhas fossem menos estranhas do que a da maioria dos estudantes (e profissionais, algumas vezes). Minha maior expectativa era aprender uma boa dose de psicologia científica ao longo do curso. Não foi o que aconteceu.

Para começar, no primeiro período, não aprendemos quase nada de método científico na disciplina intitulada Metodologia Científica. Vimos um texto de Karl Popper para em seguida aprendermos como a física quântica tinha a ver com a psicologia e como essa área da física, que estuda partículas subatômicas, tinha provado que espíritos e reencarnação existiam.

Isso tudo foi como um nocaute pra mim, afinal, estava percebendo que todo tipo de crenças aleatórias e nada sistemáticas também tinham se alastrado pela academia.

Desde então, em meio a uma série de polêmicas acadêmicas, sobre a pertinência e validade do estudo científico para a área (sim, incrivelmente, o Brasil ainda discute se o método científico pode ser usado para fazer pesquisas na psicologia), reforcei minha aspiração de trabalhar na área de pesquisa e também de desfazer muitos dos mitos públicos sobre a psicologia.

Popper
“Meu Deus! Isso não é ciência e tampouco segue a metodologia científica! O que diabos vocês estão fazendo com a psicologia?”

Inclusive, no presente, a situação – pelo menos na minha universidade – parece estar dando novos passos para a mudança: faço parte do Laboratório de Psicometria e Psicologia Positiva (LP3), grupo de pesquisa recém criado e já funcionando a todo vapor. Inclusive, estamos rodando uma Escala de Atitude em Relação à Ciência para justamente ter um panorama mais confiável sobre como se dá a aceitação da ciência no público em geral e nos grupos de psicólogos e estudantes da área.

E do nosso lado nessa iniciativa estão pesquisadores gabaritados pelo mundo todo, como Scott O. Lilienfeld, que, por sinal, escreveu um artigo de 2012, Public Skepticism of Psychology, uma lista de mitos com uma discussão dos mais populares mitos veiculados pela mídia – mas que também estão muito presentes no próprio ambiente acadêmico.

“Psicologia é senso comum”

Nunca vi isso sendo dito de maneira tão direta, mas os comportamentos indiretos denunciam essa conclusão.

Psicólogos são constantemente chamados em programas de auditórios para falar sobre BBB ou qualquer sorte de relação amorosa ou outra trivialidade (ou sobre assuntos que dependem da experiência de algum psicoterapeuta, o que leva o público a achar que psicologia se resume à psicoterapia), como se a formação em psicologia fosse o fazer de um catálogo de disciplinas relacionadas a relações amorosas, traição e coisas do tipo. Até os neurocientistas recentemente entraram para o rol de convidados técnicos para falar de questões simplórias.

O LP3 é uma das iniciativas nacionais que mostra ser possível fazer pesquisas científicas na psicologia.
O LP3 é uma das iniciativas nacionais que mostra ser possível fazer pesquisas científicas na psicologia.

Nos círculos sociais também não é raro enfrentar perguntas bem capciosas, acompanhadas, ainda, daquele famoso bordão: “você, como psicólogo, deve saber que [insira qualquer crença do senso comum aqui]”.

Enfim, críticas mais sérias parecem partir do fato da pesquisa em psicologia não se dedicar a assuntos realmente relevantes – como o jornalista John Horgan já fez algumas vezes no New York Times.

Desfazer esse balaio de gato é simplesmente uma tarefa hercúlea, quando nem a própria população de estudantes consegue fugir dessas opiniões. Veja os resultados de uma pesquisa feita em salas de aula de cursos de psicologia nos EUA, sobre quantos deles acreditavam em algumas das mais populares lendas psi.

– Ter ataques de raiva nos torna mais calmos (66%)

– Pessoas tem comportamentos estranhos em noites de lua cheia (65%)

– Esquizofrênicos tem múltipla personalidade (77%)

– A memória humana funciona como uma fita cassete, com dados gravados fixamente (27%)

E, pasme, autoridades do judiciário compartilham dessas concepções errôneas. Um estudo mostrou que 40% acreditam, por exemplo, que ouvir composições de Mozart aumenta a inteligência.

“A Psicologia não é uma ciência”

É claro que a psicologia não pode usar o mesmo método que a física, por exemplo. Nem a física pode usar o mesmo método que a paleontologia, digamos. Ciências Humanas, Físicas e Biológicas se utilizam do método científico, mas por uma questão de diferença no tipo de objeto de estudo, não podem usá-lo da mesma maneira.

Entrar nas peculiaridades do método em cada área daria um novo texto, mas o que posso dizer sucintamente é que todas as áreas pretensamente científicas devem fazer pesquisas utilizando estratégias metodológicas que:

(i) diminuam a possibilidade de produzir conclusões errôneas, ou seja, que possa haver uma teoria totalmente pautada em evidências – ainda que possa haver mudanças nessa teoria ou mesmo que ela possa ser derrubada mais tarde por novos estudos.

Há também a expectativa de

(ii) diminuir o viés de confirmação, um fenômeno psicológico que age na maneira cotidiana de pensar, mas que também pode ter intensos impactos na maneira de investigar dados, fenômenos e criar teorias.

Pinkman

Antes que me acusem de ser apaixonado pela ciência, no sentido mais ingênuo da coisa, queria dizer que esses escudos contra erros não são indestrutíveis como um escudo de adamantium – os próprios métodos já preveem esse erro provável nas análises. É possível fazer isso graças a análises estatísticas sofisticadas utilizadas na Psicometria, que é a área que estuda a possibilidade teórica e prática de se medir atributos psicológicos através de respostas em escalas.

Pode parecer meio fascista (sim, realmente já ouvi críticas assim) querer “medir” fatores psicológicos, mas o que se faz é só a construção de uma rede de conceitos empiricamente testáveis (pelas escalas), formando a chamada rede nomológica. É o mesmo que se faz na filosofia: pegue uma série de conceitos, dê definições a eles e comece a relacioná-los uns com os outros – filosoficamente apenas, não estatisticamente. No fundo, todas as formas de conhecimento criam essas redes.

E existem também os métodos experimentais double blind, randomizados e etc, só pra citar alguns. Isto é, temos aí um bom corpo de ferramentas para fazer um trabalho científico na psicologia.

“Os indivíduos são únicos, logo, é inútil generalizar com teorias”

Está aí um dos mantras mais recitados no senso comum e na academia (lamentavelmente), geralmente por vertentes pós-modernas da psicologia ou por psicanalistas (apesar deles também usarem teorias generalizantes).

Mas isso não é tão absurdo. Ninguém pode ser capaz de discordar de que somos, em algum sentido, seres únicos. Aliás, isso não se restringe a nós, humanos. Animais também são únicos em certo sentido cabível aos animais não-humanos. Entretanto, também é inegável que existe uma estrutura de fatores psicológicos comuns.

Na medicina, é isso que permite que os melhores medicamentos funcionem para a maioria da população, não para 100% das pessoas. Os índices de sucesso nunca serão absolutos. O mesmo vale para psicofármacos e para psicoterapias. Por mais que vários estudos mostrem que, por exemplo, a terapia cognitivo-comportamental (TCC) é ótima para transtornos de ansiedade, não é realista esperar que ela funcione para todas as pessoas.

Entretanto, o fato de podermos testar determinada intervenção ou teoria e ver que ela descreve com sucesso uma amostra de indivíduos, é sinal de que estamos investigando algo que é pela maioria dos indivíduos e que é seguro generalizar para a população (não só pra aquela amostra).

Na verdade, em qualquer prática científica precisamos pressupor que haja a individualidade, mas que existe também uma estrutura comum que permita a generalização de resultados. Caso contrário, a própria noção de um método de investigação perde o sentido. Não haveria mais necessidade de pesquisas quantitativas ou de testagem de teorias, só seria lícito fazer estudos de casos individuais.

“A Psicologia não pode prever comportamentos”

Essa critica anda de mãos dadas com a anterior. Se você pensa conforme o mito acima, com certeza achará impossível fazer qualquer predição sobre o comportamento humano.

Um dos argumentos por trás dessa crença é a crítica à natureza probabilística das predições sobre o comportamento humano. Alguns críticos enxergam isso como disfarce para a pseudociência, para a permissão para afirmar qualquer coisa sem critérios apurados.

No entanto, o uso da probabilidade está longe de ser uma característica alheia à ciência. As áreas mais incontestavelmente científicas usam cálculos probabilísticos para prever fenômenos. Temos nesse grupo a grande representante das ciências exatas, a Física. No campo da Mecânica Quântica (MQ) essa ferramenta matemática é essencial, é a base para tudo que se fala a respeito de partículas subatômicas – sim, ao contrário do que a auto-ajuda tem tentado fazer ultimamente, a MQ é uma área bem ‘matemática’, por assim dizer.

A própria Teoria dos Jogos, aprimorada pelo matemático John Nash, conhecido pelo público em geral graças ao filme Uma Mente Brilhante, é usada para prever (probabilisticamente) decisões de agentes sociais frente a cenários de tomada de decisão. Nash ganhou o prêmio Nobel por isso, portanto, presume-se que não estamos falando de pseudociência.

Afinal, a psicologia é útil para a sociedade?

The Mentalist analisando
Ser psicólogo não é sentar e ficar analisando pessoas.

No final das contas, todos esses ‘mitos-críticas’ tem por trás uma noção bem intuitiva – e errada: a psicologia não é útil.

A reação mais amena talvez seja a de quem reduz a psicologia à psicoterapia, ignorando toda uma multiplicidade de pesquisas. Assim, a psicoterapia seria supostamente a parte mais útil de todo um conjunto de produções sem utilidade.

Sabendo disso, Lilienfeld listou alguns dos benefícios que a psicologia já legou à sociedade.

Veja, por exemplo, a psicologia comportamental ou behaviorismo. As pesquisas realizadas por psicólogos como Watson, Skinner e , mais recentemente, Skinner, servem até hoje de base para tratamentos eficazes tanto em termos de psicoterapia quanto em relação à intervenção nas habilidades sociais de indivíduos com autismo.

Outro ramo diretamente beneficiado pela psicologia científica é a criação de testes usados no recrutamento de pessoas em empresas, além dos de inteligência, personalidade, construtos como sentido de vida, felicidade, afetos positivos e negativos, que tanto ajudam no entendimento da população em termos de atendimento clínico e no sentido mais amplo mesmo que se queira entender. Em geral, esse é um tema espinhoso nos cursos de psicologia, mas o fato é que os testes – com todas as suas limitações – e o desenvolvimento de técnicas para refinar sua estrutura beneficiam uma ampla gama de setores da sociedade, do mercado de trabalho ao atendimento psicológico clínico.

O ramo da pesquisa social aplicada tem muito a acrescentar no modo como a polícia e os tribunais encaram depoimentos de testemunhas, mesmo o das oculares. Nossa memória é altamente maleável e influenciável por sugestões, pela opinião alheia.

As próprias armadilhas do processo irracional de tomada de decisões – que julgamos ser muito racional – modificaram perenemente o modo como os economistas viam o comportamento do consumidor – de um sujeito racional para a cultura clássica, migramos para uma compreensão mais caótica do indivíduo em termos de suas escolhas no mercado.

Enfim, as influências da pesquisa em psicologia ultrapassam seu próprio território. Mais do que o desenvolvimento de pesquisas se valendo do método científico em si, seus resultados, aplicações e frutos falam por si mesmos sobre a coerência e validade desse projeto.

(se você quer participar de uma pesquisa que envolve psicologia e ciência, por favor, clique num dos links a seguir e responda ao questionário do Laboratório de Psicometria e Psicologia Positiva: se você estuda psicologia ou já é um profissional da área, clique aqui, se não se encaixa nesse perfil, aqui)


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escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


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