privatização das ideias

A privatização das ideias

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Bruno BrazComentário

Nosso capi­tal cul­tu­ral é com­posto pelos pro­du­tos da mente humana: lin­gua­gem, arte, his­tó­rias, música e ide­o­lo­gias. Hoje, redu­zi­dos à sim­ples cate­go­rias de obje­tos que pos­suí­mos, são espe­ci­al­mente pro­du­zi­das para aten­der ao desejo do grande público con­su­mi­dor. Estas “fun­ções lúdi­cas” foram se atro­fi­ando após a divi­são do tra­ba­lho e, prin­ci­pal­mente, ao longo da revo­lu­ção indus­trial, con­forme criá­va­mos meios de pro­du­ção para subs­ti­tuí-las em massa. Uma a uma, tor­na­ram-se ati­vi­da­des remu­ne­ra­das — “mer­ca­do­rias” num cres­cente car­dá­pio de ser­vi­ços.

Algo pare­cido acon­te­ceu com nos­sas his­tó­rias, len­das e con­tos. A tele­vi­são nos ofe­rece uma cole­tâ­nea de his­tó­rias pro­du­zi­das por espe­ci­a­lis­tas para subs­ti­tuir o que já tínha­mos antes, atra­vés da famí­lia e da comu­ni­dade. Os pro­du­to­res, então, toma­ram essas his­tó­rias para si. 

Anti­ga­mente, nem se ima­gi­nava que alguém pudesse ser “dono” de uma his­tó­ria. Os con­tos, len­das e his­tó­rias nunca foram pas­sí­veis de pro­pri­e­dade, pois fazem parte do vasto patrimô­nio cul­tu­ral espe­cí­fico de cada povo. O que empre­sas como a Dis­ney fazem é explo­rar esse patrimô­nio, pri­va­ti­zando algu­mas par­tes para con­vertê-las em dinheiro.

E quan­tos de nós usam tor­rents, Pop­corn­Time, links no Pira­te­Bay e afins sem o menor remorso? De acordo com a defi­ni­ção legal, somos todos ladrões. A indus­tria de entre­te­ni­mento acre­dita que você só não se con­si­dera um ladrão devido a uma falha moral ou ética. Tal­vez você seja igno­rante, ingê­nuo ou é sim­ples­mente mau — é o que eles pen­sam. Mas tal­vez haja uma outra expli­ca­ção, algo que se baseie em nosso ins­tinto moral. Tal­vez o “rou­bar” não esteja exclu­si­va­mente con­di­ci­o­nado a uma falha ética, mas ao pró­prio con­ceito de pro­pri­e­dade inte­lec­tual.

O con­ceito de plá­gio e direi­tos auto­rais é, no fundo, um reflexo da pre­o­cu­pa­ção em pro­du­zir algo iné­dito. A “sim­ples cópia” é um pecado para o capi­ta­lismo, que se vê na obri­ga­ção de sem­pre ofe­re­cer algo novo para o con­su­mi­dor. Mas não se trata só disso, é claro. O desen­vol­vi­mento do capi­ta­lismo foi acom­pa­nhado pela ascen­são da figura do “autor moderno”. A noção de direi­tos auto­rais se esta­be­le­ceu visando recom­pen­sar a ori­gi­na­li­dade, ino­va­ção e pro­pri­e­dade auto­ral por seu res­pec­tivo valor mone­tá­rio. Artis­tas e inven­to­res nunca foram con­si­de­ra­dos “donos” de suas ideias, ape­nas tinham o direito de lucrar com os fru­tos do seu tra­ba­lho. Minha inten­ção é reve­lar esta pri­va­ti­za­ção das ideias que ocorre atu­al­mente e, a par­tir daí, des­cons­truí-la sob duas pers­pec­ti­vas: prá­tica e moral.

o dinheiro pode comprar as melhores ideias

Na prá­tica, ao man­ter direi­tos exclu­si­vos sobre a mesma coisa por muito tempo, difi­cul­ta­mos qual­quer ino­va­ção ao invés de pro­movê-las. Isso ocorre por­que a arte, música e tec­no­lo­gia são cumu­la­ti­vas, isto é, cres­cem com base no que já exis­tia antes. Trata-se de um pro­cesso his­tó­rico de cons­tante cri­a­ção e autor­re­fe­rên­cia.

A Era Digi­tal criou a pos­si­bi­li­dade de ree­di­tar músi­cas e fil­mes, com­bi­nando-os em um novo mate­rial que pode ser mani­pu­lado de inú­me­ras for­mas, ou seja, qual­quer “pro­duto aca­bado” pode ser uti­li­zado como “maté­ria prima” para criar algo novo, num ciclo cri­a­tivo ili­mi­tado. Infe­liz­mente, esse tipo de expres­são artís­tica é con­si­de­rada ile­gal pelas leis da pro­pri­e­dade inte­lec­tual. Quando tra­tada como pro­pri­e­dade pri­vada, qual­quer cri­a­ção artís­tica que se baseie na cul­tura exis­tente deve, neces­sa­ri­a­mente, que­brar as regras ou acei­tar estas duras limi­ta­ções. Assim, quando a esfera cul­tu­ral for com­ple­ta­mente pri­va­ti­zada, será impos­sí­vel criar qual­quer tipo de arte sem pedir per­mis­são.

O mesmo acon­tece com o desen­vol­vi­mento tec­no­ló­gico à medida que a livre uti­li­za­ção de novas des­co­ber­tas é limi­tada por ques­tões legais de paten­tes. No pas­sado (nem tão remoto assim), o pro­gresso cien­tí­fico se pau­tava mais na cola­bo­ra­ção que na com­pe­ti­ção. Nesse con­texto, pes­qui­sa­do­res com­par­ti­lha­vam seus resul­ta­dos em perió­di­cos (jour­nals) ou até infor­mal­mente, pro­te­gi­dos por seus salá­rios con­tra a ten­ta­ção de trans­for­mar os fru­tos do seu tra­ba­lho em lucro finan­ceiro. Hoje, per­cebe-se que o finan­ci­a­mento de pes­qui­sas depende, em grande parte, de gran­des orga­ni­za­ções, indu­zindo o meio aca­dê­mico a cul­ti­var um inte­resse exclu­sivo em criar novas paten­tes ou pro­du­zir “novos” arti­gos cien­tí­fi­cos. O motivo de tanto sigilo no meio cien­tí­fico vem do ganho poten­cial ine­rente às novas dro­gas, mate­ri­ais e orga­nis­mos trans­gê­ni­cos. Nesse caso, a pro­pri­e­dade inte­lec­tual atrasa o desen­vol­vi­mento cien­tí­fico em prol de inte­res­ses finan­cei­ros.

Pelo aspecto moral, sabe­mos intui­ti­va­mente que as ideias não sur­gem “do nada”. For­ma­mos novas ideias a par­tir da com­bi­na­ção de ele­men­tos do nosso capi­tal cul­tu­ral indi­vi­dual que, por sua vez, é dire­ta­mente influ­en­ci­ado pela rela­ção dia­lé­tica que esta­be­le­ce­mos com o meio.

Quando temos alguma ideia, será que é mesmo ori­gi­nal? Tal­vez seja ape­nas uma vari­a­ção de mode­los já exis­ten­tes. Todas as his­tó­rias deri­vam das inte­ra­ções entre seu cri­a­dor e o meio (outras pes­soas e even­tos). Há muito mérito em expressá-las de forma única, tocante e atem­po­ral, mas será mesmo neces­sá­rio decla­rar-se “dono” de suas cri­a­ções? A inten­ção cons­ci­ente em atri­buir sig­ni­fi­ca­dos à sua obra se torna des­ne­ces­sá­ria à medida que o autor assume o papel de “cana­li­zar”, não de “criar” — a cri­a­ti­vi­dade vem de algo maior que nós mes­mos.

E quanto à música? Con­se­gui­mos criá-la “do nada”? Será mesmo que cri­a­mos novas melo­dias e con­ta­mos novas his­tó­rias? Ou ape­nas rear­ran­ja­mos os ele­men­tos den­tro da infi­ni­dade de obras exis­ten­tes? Pode­mos dizer o mesmo sobre as inven­ções tec­no­ló­gi­cas, cri­a­das a par­tir de uma com­plexa matriz cri­a­tiva ins­pi­rada por ide­ais cul­tu­rais. Como diria Lewis Mum­ford, “a patente é um meca­nismo que per­mite a um homem rei­vin­di­car retorno finan­ceiro por ser o último elo da cor­rente em um com­pli­cado pro­cesso social que resul­tou na inven­ção.

Rou­bar é se decla­rar dono do que não é seu, por­tanto, demar­car parte da nossa herança cul­tu­ral cole­tiva é rou­bar de todos nós. Assim, a nova gera­ção que faz down­load de músi­cas e fil­mes está ape­nas ques­ti­o­nando a atual pri­va­ti­za­ção do nosso capi­tal inte­lec­tual. Sabe­mos, intui­ti­va­mente, que nin­guém tem o direito moral de pos­suir uma ideia.

 

Desconstruindo o conceito de “propriedade”

 

Vale lem­brar que “pro­pri­e­dade” é ape­nas um acordo social que garante direito de uso exclu­sivo de algo a alguém. Esses direi­tos vão depen­der do objeto e da soci­e­dade em que estão inse­ri­dos.

É ten­ta­dor dizer que as rique­zas da nossa herança cul­tu­ral deve­riam ser “pro­pri­e­dade pública”, mas o pró­prio uso desse termo já reforça um falso pres­su­posto de que a pala­vra “pro­pri­e­dade” pode se apli­car a tudo. O que estou defen­dendo aqui é uma ®evo­lu­ção de(o) ser humano que vai muito além da mera tran­si­ção Mar­xista de “pro­pri­e­dade pri­vada” para “bens comuns”a pró­pria noção de “pro­pri­e­dade” se tor­nará um con­ceito ultra­pas­sado.

É evi­dente que as coi­sas da natu­reza, cul­tura e cons­ci­ên­cia (ou espí­rito), que ten­ta­mos sub­ju­gar para trans­formá-las em pro­pri­e­dade, se cur­vam ape­nas em nossa per­cep­ção, mas não na rea­li­dade. Somente aos nos­sos olhos é que se tor­nam obje­tos, dei­xando de ser “maior que todos nós” para se tor­nar “menor” — do mis­té­rio acerca do des­co­nhe­cido ao catá­logo de pro­du­tos. Ora, e o que sig­ni­fica cha­mar algo de “meu”? Por acaso muda­mos sua essên­cia por acre­di­tar que a pos­suí­mos? Tudo o que cha­ma­mos de “pro­pri­e­dade inte­lec­tual” (paten­tes, fra­ses, tex­tos, ima­gens, sons) com­põe este uni­verso cul­tu­ral que, cada vez mais, divi­di­mos e tor­na­mos par­ti­cu­lar. O que sig­ni­fica “tor­nar algo par­ti­cu­lar”, torná-lo pro­pri­e­dade de alguém? O que, de fato, muda? Uma música sabe quando seus royal­ties são trans­fe­ri­dos? Uma his­tó­ria sabe quando se livrou dos direi­tos auto­rais?

O que mudou está ape­nas em nossa per­cep­ção cole­tiva. Afi­nal, o con­ceito de pro­pri­e­dade é uma con­ven­ção social, um acordo que garante direi­tos exclu­si­vos de uso a alguém. Con­tudo, pare­ce­mos ter esque­cido dessa defi­ni­ção e, assim, ima­gi­na­mos que a pro­pri­e­dade nos per­tence de modo essen­cial. Pen­sa­mos na pro­pri­e­dade como parte de nós mes­mos e, ao pos­suí-la, nos tor­na­mos mais, mai­o­res e melho­res.

O acordo social que define a pro­pri­e­dade é garan­tido atra­vés da força. Se eu infrin­gir esse acordo, diga­mos, ao inva­dir suas ter­ras, você pode ame­a­çar ou me expul­sar à força cha­mando a polí­cia (neste caso, um ins­tru­mento) para garan­tir seus direi­tos soci­al­mente defi­ni­dos de exclu­si­vi­dade. A pro­pri­e­dade implica em rela­ções de poder entre seres huma­nos, mas o que difi­cil­mente reco­nhe­ce­mos é que tam­bém implica em rela­ções de força e con­trole sobre o meio — o uni­verso.

Mudar o con­ceito de “posse” e aban­do­nar essa cres­cente con­ver­são do uni­verso em pro­pri­e­dade requer uma con­cep­ção fun­da­men­tal­mente dife­rente das rela­ções que temos com o mundo. Requer desa­pego, fron­tei­ras mais flui­das e con­fi­ança no que antes cha­má­va­mos de “pro­vi­dên­cia”. Enfim, pode­mos esta­be­le­cer uma rela­ção entre essa insa­ciá­vel “apro­pri­a­ção de tudo” e o “con­trole abso­luto” do pro­grama tec­no­ló­gico base­ado no tão alme­jado “equa­ci­o­na­mento per­feito da natu­reza” pela Ciên­cia.

Roubo de ideias

Nosso sis­tema soci­o­e­conô­mico e modo de vida são inse­pa­rá­veis da con­cep­ção que temos sobre a rea­li­dade. No fundo, mui­tos dos nos­sos “porquês da vida” se vol­tam para a “con­quista”, seja da natu­reza ou do des­co­nhe­cido. Uma con­quista que se tra­duz em obter; um obter que sig­ni­fica pos­suir. Atri­buir direi­tos de pro­pri­e­dade a toda rea­li­dade é, de fato, nos decla­rar donos e mes­tres do uni­verso.

Temos, então, um mundo rotu­lado, quan­ti­fi­cado e subor­di­nado à pro­pri­e­dade humana. Um mundo em que o valor é defi­nido em ter­mos de dinheiro — uma abs­tra­ção humana para repre­sen­tar os inte­res­ses de um “Eu sepa­rado”.

E a esfera pos­ses­siva con­ti­nua a cres­cer. A Cater­pil­lar é dona de um certo tom de ama­relo, a UPS, de mar­rom. Ué, mas as cores fazem parte do espec­tro ele­tro­mag­né­tico, certo? Será que essas empre­sas cri­a­ram tais cores ou só demar­ca­ram, regis­tra­ram e toma­ram como posse? A Har­ley-David­son fez o mesmo com o som de seus moto­res. À medida que pode­mos digi­ta­li­zar música, ima­gens e tex­tos, a pro­pri­e­dade inte­lec­tual se resume em “pos­suir núme­ros” — eis o pró­ximo passo após a con­ver­são do mundo em núme­ros. Che­ga­mos ao ponto de pri­va­ti­zar os ele­men­tos fun­da­men­tais da rea­li­dade: ondas ele­tro­mag­né­ti­cas, núme­ros, DNA e sons. Con­si­derá-los como “pro­pri­e­dade inte­lec­tual” evi­den­cia a nossa arro­gân­cia, nossa pre­ten­são em domi­nar o que já exis­tia muito antes do Homem — nós só “temos” o que já estava aqui como subs­trato da rea­li­dade.

O impor­tante é, jus­ta­mente, que pos­sa­mos des­con­ta­mi­nar o mundo des­ses pro­ces­sos abso­lu­ta­mente anti­na­tu­rais de pri­va­ti­za­ção das ideias, pen­sa­men­tos e solu­ções. Nós deve­mos nos sen­tir parte de um movi­mento gera­dor de ideias. E que melhor recom­pensa a essas gran­des ideias que sim­ples­mente ser o canal para que elas se ins­ta­lem no mundo?

Bruno Braz
Escrevo pra descobrir o que sei e aprender o que não sei; pra dar vazão e um pouco de ordem ao turbilhão de coisas que me passam pela cabeça e ficam sem ser ditas; pra dar meu empurrãozinho nessa roda da vida e, quem sabe, ainda inspirar alguém.

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