maldade inerente ao homem

A maldade inerente ao homem

Em Consciência, Sociedade, Tempo de Saber por Bruno BrazComentário

Entre as tec­no­lo­gias do fogo, da pedra e dos sím­bo­los, a tri­lha do pro­gresso segue com­posta por um con­trole cada vez maior sobre o meio ambi­ente e a natu­reza do homem, na espe­rança de que um dia se torne abso­luto. Ainda que mui­tos já não acre­di­tem mais na cura defi­ni­tiva para todas as doen­ças, o sofri­mento e a morte, ou seja, a vitó­ria defi­ni­tiva sobre a natu­reza, o Pro­grama Tec­no­ló­gico ainda sobre­vive nas entre­li­nhas de ati­tu­des e pres­su­pos­tos atu­ais, como resquí­cios do sonho de uma uto­pia tec­no­ló­gica: a vida se tor­nará cada vez melhor, mais segura, con­ve­ni­ente, efi­ci­ente, moderna, limpa, auto­ma­ti­zada e está­vel.

Por trás dessa crença, há o pres­su­posto de que esta­mos no cami­nho certo — e mais, de que esta­mos “quase lá”. Assu­mi­mos que a vida sel­va­gem é, como Tho­mas Hob­bes coloca, “soli­tá­ria, pobre, sór­dida, bru­tal e curta”. A força com a qual nos agar­ra­mos a esse pre­con­ceito revela o quanto, na ver­dade, depen­de­mos dele como jus­ti­fi­ca­tiva para sus­ten­tar toda a ide­o­lo­gia do pro­gresso. Nosso con­ceito de pro­gresso só faz sen­tido se esti­ver­mos ascen­dendo de um estado “pior” a um outro “melhor”, do “caos” à “ordem” — do reino natu­ral ao reino humano. Con­se­quen­te­mente, deve­mos acre­di­tar que a natu­reza, tanto do meio quanto do homem, é ori­gi­nal­mente má e, como reflexo direto, nos vol­ta­mos ao con­trole: tec­no­lo­gia para con­tro­lar o meio, cul­tura para con­tro­lar a natu­reza do homem.

Igno­ra­mos o fato de que todo esse esforço para man­ter a vida e o mundo sob con­trole tam­bém tem suas con­sequên­cias. À medida que bus­ca­mos, cole­ti­va­mente, domi­nar e sub­ju­gar a natu­reza atra­vés da ciên­cia e da tec­no­lo­gia, o con­trole (como obje­tivo) tam­bém nos afeta indi­vi­du­al­mente. Surge a neces­si­dade de nos con­tro­lar­mos cada vez mais, entre cor­pos, emo­ções, impul­sos e ape­ti­tes — todos sob con­trole.

Thomas Hobbes

Tho­mas Hob­bes

Mas, por quê? Por­que tal como uma ver­são per­so­na­li­zada da visão Hob­be­si­ana da natu­reza, acre­di­ta­mos que nosso “Eu natu­ral” tam­bém é mau. As “tec­no­lo­gias psi­co­ló­gi­cas” que usa­mos para auto­con­trole são mui­tas, inter­na­li­za­das desde a infân­cia: culpa, força de von­tade, dis­ci­plina, ver­go­nha, moti­va­ção, ame­a­ças e recom­pen­sas. Deve­mos nos guiar e con­tro­lar, do mesmo modo que faze­mos com a natu­reza (via tec­no­lo­gia) para torná-la boa — a natu­reza sel­va­gem deve se tor­nar um jar­dim orde­nado. As simi­la­ri­da­des entre as duas afir­ma­ções sobre a suposta “mal­dade ine­rente”, tanto da natu­reza sel­va­gem quanto do homem incon­tro­lá­vel, não são mera coin­ci­dên­cia.

Na reli­gião, esse pres­su­posto foi incor­po­rado ao con­ceito de Pecado Ori­gi­nal e à ideia, pre­sente em todas as reli­giões ins­ti­tu­ci­o­nais, de que a espi­ri­tu­a­li­dade con­siste numa cons­tante bata­lha para nos tor­nar­mos alguém melhor. Luta­mos para nos ele­var, das ten­ta­ções da carne ao reino do espí­rito; para domi­nar­mos nos­sos impul­sos ani­mais; para pra­ti­car­mos mode­ra­ção e auto­con­trole. Em outras pala­vras, nos “con­tro­la­mos” de acordo com um código moral. Seja no Hin­duísmo, Cris­ti­a­nismo ou qual­quer outra reli­gião, a dou­trina básica prega que deve­mos nos esfor­çar se qui­ser­mos ser bons.

A noção de Pecado Ori­gi­nal é a base de mui­tas igre­jas cris­tãs atu­ais, ainda que já tenha sido ques­ti­o­nada fer­vo­ro­sa­mente. Os fun­da­do­res do Pro­tes­tan­tismo, Lutero e Cal­vino, acre­di­ta­vam na “total depra­va­ção do homem” e, por­tanto, na con­di­ção ine­rente do ser humano como “peca­dor”. Esse tipo de men­ta­li­dade foi cru­cial, pois se tor­nou a base de todo o dogma de Cristo como “sal­va­dor super­na­tu­ral”, um agente divino exte­rior, nossa ver­da­deira e única sal­va­ção. Abraham Mas­low faz uma obser­va­ção inte­res­sante acerca disso:

Qual­quer dou­trina de total depra­va­ção ine­rente ao homem, ou difa­ma­ção de seu estado natu­ral, acaba nos levando a uma inter­pre­ta­ção sobre-humana da bon­dade, san­ti­dade, vir­tude, altruísmo, etc. Se tais qua­li­da­des não podem ser expli­ca­das pela natu­reza do homem — e pre­ci­sam, obri­ga­to­ri­a­mente, ser expli­ca­das — então devem ser atri­buí­das a algo exte­rior. Quanto pior for o homem, quanto menos ele achar de si mesmo, mais neces­sá­rio se torna um deus. Mas não é só a reli­gião que se baseia na ‘depra­va­ção do ser humano’, isto vai da teo­lo­gia à psi­co­lo­gia ateísta.”

O pecado original

O pecado ori­gi­nal

Per­ceba a iro­nia: ape­sar dos pro­tes­tan­tes orto­do­xos cri­ti­ca­rem o Darwi­nismo, ao ponto de que­rer retirá-lo das esco­las, sua visão de que o pecado é ine­rente ao homem está com­ple­ta­mente de acordo com a ver­são Neo-Darwi­ni­ana sobre a ori­gem e evo­lu­ção da vida. Elas se encai­xam per­fei­ta­mente! Veja só: no Darwi­nismo, a natu­reza como um todo, incluindo a natu­reza do homem, não é nada ami­gá­vel. É uma natu­reza domi­nada pela com­pe­ti­ção, na qual o maior pro­pó­sito e moti­va­ção da vida é sobre­vi­ver e repro­du­zir. A cola­bo­ra­ção, se hou­ver alguma, é ape­nas coin­ci­dên­cia, resul­tado de um ali­nha­mento de inte­res­ses. Afi­nal, cola­bo­rar pode ser razoá­vel, mas indu­zir outros orga­nis­mos a te aju­dar enquanto você poupa ener­gia, é ainda melhor — aliás, esse tipo de men­ta­li­dade não te parece fami­liar?

Richard Daw­kins diz algo mais ou menos assim: “a sele­ção natu­ral favo­rece os genes que con­tro­lam seu ‘veí­culo de sobre­vi­vên­cia’ — isto é, seu pró­prio orga­nismo — a fim de tirar o maior pro­veito do meio ambi­ente. Isso inclui tirar o maior pro­veito de outros veí­cu­los de sobre­vi­vên­cia, sejam eles da mesma espé­cie ou não.” Que tal? Parece que o Darwi­nismo tam­bém des­creve uma certa “depra­va­ção ine­rente” aos seres vivos, não é? O que tam­bém não deve­ria ser nenhuma sur­presa, já que tanto o Darwi­nismo quanto o Pecado Ori­gi­nal resul­tam dos mes­mos con­cei­tos, enrai­za­dos e refor­ça­dos cul­tu­ral­mente, sobre o Eu e o uni­verso.

A defi­ni­ção do Eu, atu­al­mente implí­cita nas teo­rias domi­nan­tes da bio­gê­nese e evo­lu­ção, diz que cada um de nós é um ser dis­creto, isto é, “sepa­rado do todo”, que luta con­tra os demais para sobre­vi­ver e se repro­du­zir. Sob essa ótica, do está­gio uni­ce­lu­lar até o pre­sente, os orga­nis­mos bem-suce­di­dos são aque­les mais capa­zes de cui­dar dos pró­prios inte­res­ses em detri­mento dos rivais, que, nesse caso, podem ser qual­quer coisa ou ser vivo em com­pe­ti­ção pelos mes­mos recur­sos. Qual­quer orga­nismo pro­gra­mado gene­ti­ca­mente para expres­sar com­por­ta­men­tos que ponham em risco suas chan­ces de sobre­vi­vên­cia e repro­du­ção — como, por exem­plo, com­par­ti­lhar recur­sos sem a garan­tia de que há o bas­tante para si mesmo — terá menos chan­ces de se repro­du­zir e, con­se­quen­te­mente, tais genes ten­dem a desa­pa­re­cer. Em outras pala­vras, somos pro­gra­ma­dos — a pró­pria vida é pro­gra­mada — para nos bene­fi­ciar à custa dos outros. Pois bem, con­cor­da­mos que essa defi­ni­ção é, no mínimo, “nada ami­gá­vel”, não é? Se o egoísmo é da nossa natu­reza, fica claro o porquê pre­ci­sa­mos de leis, morais e auto­con­trole para domi­nar essa ten­dên­cia e nos tor­nar “civi­li­za­dos”.

A ciên­cia e reli­gião con­ven­ci­o­nais afir­mam que somos maus por natu­reza e, por­tanto, assim como con­tro­la­mos a natu­reza, deve­mos con­tro­lar, geren­ciar, aper­fei­çoar e domi­nar nossa pró­pria natu­reza pra nos tor­nar­mos bons. E até a eco­no­mia se encaixa nisso tudo, por sua pre­missa de que somos movi­dos à maxi­mi­zar nos­sos pró­prios inte­res­ses. Se a san­tís­sima trin­dade (ciên­cia, reli­gião e eco­no­mia) é unâ­nime, fica evi­dente o quanto esta dou­trina do “mal ine­rente à natu­reza do homem” já está pro­fun­da­mente enrai­zada. Não é à toa que acei­ta­mos essa ideia tão facil­mente, uma vez que toda a ide­o­lo­gia da civi­li­za­ção oci­den­tal — pro­gresso e ascen­são — depende disso. Assim, a tal dou­trina se man­tém implí­cita em mui­tos dos nos­sos pres­su­pos­tos e refle­xões sobre o que é ver­dade, além de se incor­po­rar em nosso sis­tema econô­mico, gerando exa­ta­mente o com­por­ta­mento que acre­di­ta­mos, por engano, ser natu­ral.

Por estar tão pro­fun­da­mente incor­po­rada à nossa mito­lo­gia, ide­o­lo­gia, cul­tura e eco­no­mia, a “dou­trina do pecado ori­gi­nal” se torna, de fato, “cor­reta” — uma vez que esta­mos imer­sos em nossa cul­tura. Está “cor­reta” de acordo com nossa infra­es­tru­tura ide­o­ló­gica e as moti­va­ções asso­ci­a­das às nos­sas ins­ti­tui­ções cul­tu­rais.

Hob­bes escre­veu “Levi­atã” muito antes de Darwin con­ce­ber a teo­ria da evo­lu­ção por sele­ção natu­ral. A ideia de que “a natu­reza (humana) é má” sur­giu antes de Darwin, antes de Hob­bes, antes de Lutero e Cal­vino. Está implí­cita no pró­prio dua­lismo, com ori­gem na cha­mada Revo­lu­ção Neo­lí­tica (Agrí­cola), ou tal­vez até antes, mesmo que sua com­pleta arti­cu­la­ção só tenha ocor­rido após a Revo­lu­ção Cien­tí­fica.

O dua­lismo, este sim, deve ser con­si­de­rado o ver­da­deiro Pecado Ori­gi­nal — veja o pró­ximo artigo. Por ora, vale a refle­xão sobre as con­sequên­cias dessa ver­são dis­tor­cida da natu­reza humana que esta­mos acos­tu­ma­dos a acei­tar como ver­dade.


[publi­cado pelo autor tam­bém em seu site pes­soal]

Bruno Braz
Escrevo pra descobrir o que sei e aprender o que não sei; pra dar vazão e um pouco de ordem ao turbilhão de coisas que me passam pela cabeça e ficam sem ser ditas; pra dar meu empurrãozinho nessa roda da vida e, quem sabe, ainda inspirar alguém.

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