Entre as tecnologias do fogo, da pedra e dos símbolos, a trilha do progresso segue composta por um controle cada vez maior sobre o meio ambiente e a natureza do homem, na esperança de que um dia se torne absoluto. Ainda que muitos já não acreditem mais na cura definitiva para todas as doenças, o sofrimento e a morte, ou seja, a vitória definitiva sobre a natureza, o Programa Tecnológico ainda sobrevive nas entrelinhas de atitudes e pressupostos atuais, como resquícios do sonho de uma utopia tecnológica: a vida se tornará cada vez melhor, mais segura, conveniente, eficiente, moderna, limpa, automatizada e estável.

Por trás dessa crença, há o pressuposto de que estamos no caminho certo – e mais, de que estamos “quase lá”. Assumimos que a vida selvagem é, como Thomas Hobbes coloca, “solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”. A força com a qual nos agarramos a esse preconceito revela o quanto, na verdade, dependemos dele como justificativa para sustentar toda a ideologia do progresso. Nosso conceito de progresso só faz sentido se estivermos ascendendo de um estado “pior” a um outro “melhor”, do “caos” à “ordem” — do reino natural ao reino humano. Consequentemente, devemos acreditar que a natureza, tanto do meio quanto do homem, é originalmente má e, como reflexo direto, nos voltamos ao controle: tecnologia para controlar o meio, cultura para controlar a natureza do homem.

Ignoramos o fato de que todo esse esforço para manter a vida e o mundo sob controle também tem suas consequências. À medida que buscamos, coletivamente, dominar e subjugar a natureza através da ciência e da tecnologia, o controle (como objetivo) também nos afeta individualmente. Surge a necessidade de nos controlarmos cada vez mais, entre corpos, emoções, impulsos e apetites — todos sob controle.

Thomas Hobbes
Thomas Hobbes

Mas, por quê? Porque tal como uma versão personalizada da visão Hobbesiana da natureza, acreditamos que nosso “Eu natural” também é mau. As “tecnologias psicológicas” que usamos para autocontrole são muitas, internalizadas desde a infância: culpa, força de vontade, disciplina, vergonha, motivação, ameaças e recompensas. Devemos nos guiar e controlar, do mesmo modo que fazemos com a natureza (via tecnologia) para torná-la boa — a natureza selvagem deve se tornar um jardim ordenado. As similaridades entre as duas afirmações sobre a suposta “maldade inerente”, tanto da natureza selvagem quanto do homem incontrolável, não são mera coincidência.

Na religião, esse pressuposto foi incorporado ao conceito de Pecado Original e à ideia, presente em todas as religiões institucionais, de que a espiritualidade consiste numa constante batalha para nos tornarmos alguém melhor. Lutamos para nos elevar, das tentações da carne ao reino do espírito; para dominarmos nossos impulsos animais; para praticarmos moderação e autocontrole. Em outras palavras, nos “controlamos” de acordo com um código moral. Seja no Hinduísmo, Cristianismo ou qualquer outra religião, a doutrina básica prega que devemos nos esforçar se quisermos ser bons.

A noção de Pecado Original é a base de muitas igrejas cristãs atuais, ainda que já tenha sido questionada fervorosamente. Os fundadores do Protestantismo, Lutero e Calvino, acreditavam na “total depravação do homem” e, portanto, na condição inerente do ser humano como “pecador”. Esse tipo de mentalidade foi crucial, pois se tornou a base de todo o dogma de Cristo como “salvador supernatural”, um agente divino exterior, nossa verdadeira e única salvação. Abraham Maslow faz uma observação interessante acerca disso:

“Qualquer doutrina de total depravação inerente ao homem, ou difamação de seu estado natural, acaba nos levando a uma interpretação sobre-humana da bondade, santidade, virtude, altruísmo, etc. Se tais qualidades não podem ser explicadas pela natureza do homem — e precisam, obrigatoriamente, ser explicadas — então devem ser atribuídas a algo exterior. Quanto pior for o homem, quanto menos ele achar de si mesmo, mais necessário se torna um deus. Mas não é só a religião que se baseia na ‘depravação do ser humano’, isto vai da teologia à psicologia ateísta.”

O pecado original
O pecado original

Perceba a ironia: apesar dos protestantes ortodoxos criticarem o Darwinismo, ao ponto de querer retirá-lo das escolas, sua visão de que o pecado é inerente ao homem está completamente de acordo com a versão Neo-Darwiniana sobre a origem e evolução da vida. Elas se encaixam perfeitamente! Veja só: no Darwinismo, a natureza como um todo, incluindo a natureza do homem, não é nada amigável. É uma natureza dominada pela competição, na qual o maior propósito e motivação da vida é sobreviver e reproduzir. A colaboração, se houver alguma, é apenas coincidência, resultado de um alinhamento de interesses. Afinal, colaborar pode ser razoável, mas induzir outros organismos a te ajudar enquanto você poupa energia, é ainda melhor — aliás, esse tipo de mentalidade não te parece familiar?

Richard Dawkins diz algo mais ou menos assim: “a seleção natural favorece os genes que controlam seu ‘veículo de sobrevivência’ — isto é, seu próprio organismo — a fim de tirar o maior proveito do meio ambiente. Isso inclui tirar o maior proveito de outros veículos de sobrevivência, sejam eles da mesma espécie ou não.” Que tal? Parece que o Darwinismo também descreve uma certa “depravação inerente” aos seres vivos, não é? O que também não deveria ser nenhuma surpresa, já que tanto o Darwinismo quanto o Pecado Original resultam dos mesmos conceitos, enraizados e reforçados culturalmente, sobre o Eu e o universo.

A definição do Eu, atualmente implícita nas teorias dominantes da biogênese e evolução, diz que cada um de nós é um ser discreto, isto é, “separado do todo”, que luta contra os demais para sobreviver e se reproduzir. Sob essa ótica, do estágio unicelular até o presente, os organismos bem-sucedidos são aqueles mais capazes de cuidar dos próprios interesses em detrimento dos rivais, que, nesse caso, podem ser qualquer coisa ou ser vivo em competição pelos mesmos recursos. Qualquer organismo programado geneticamente para expressar comportamentos que ponham em risco suas chances de sobrevivência e reprodução — como, por exemplo, compartilhar recursos sem a garantia de que há o bastante para si mesmo — terá menos chances de se reproduzir e, consequentemente, tais genes tendem a desaparecer. Em outras palavras, somos programados — a própria vida é programada — para nos beneficiar à custa dos outros. Pois bem, concordamos que essa definição é, no mínimo, “nada amigável”, não é? Se o egoísmo é da nossa natureza, fica claro o porquê precisamos de leis, morais e autocontrole para dominar essa tendência e nos tornar “civilizados”.

A ciência e religião convencionais afirmam que somos maus por natureza e, portanto, assim como controlamos a natureza, devemos controlar, gerenciar, aperfeiçoar e dominar nossa própria natureza pra nos tornarmos bons. E até a economia se encaixa nisso tudo, por sua premissa de que somos movidos à maximizar nossos próprios interesses. Se a santíssima trindade (ciência, religião e economia) é unânime, fica evidente o quanto esta doutrina do “mal inerente à natureza do homem” já está profundamente enraizada. Não é à toa que aceitamos essa ideia tão facilmente, uma vez que toda a ideologia da civilização ocidental — progresso e ascensão — depende disso. Assim, a tal doutrina se mantém implícita em muitos dos nossos pressupostos e reflexões sobre o que é verdade, além de se incorporar em nosso sistema econômico, gerando exatamente o comportamento que acreditamos, por engano, ser natural.

Por estar tão profundamente incorporada à nossa mitologia, ideologia, cultura e economia, a “doutrina do pecado original” se torna, de fato, “correta” — uma vez que estamos imersos em nossa cultura. Está “correta” de acordo com nossa infraestrutura ideológica e as motivações associadas às nossas instituições culturais.

Hobbes escreveu “Leviatã” muito antes de Darwin conceber a teoria da evolução por seleção natural. A ideia de que “a natureza (humana) é má” surgiu antes de Darwin, antes de Hobbes, antes de Lutero e Calvino. Está implícita no próprio dualismo, com origem na chamada Revolução Neolítica (Agrícola), ou talvez até antes, mesmo que sua completa articulação só tenha ocorrido após a Revolução Científica.

O dualismo, este sim, deve ser considerado o verdadeiro Pecado Original — veja o próximo artigo. Por ora, vale a reflexão sobre as consequências dessa versão distorcida da natureza humana que estamos acostumados a aceitar como verdade.


[publicado pelo autor também em seu site pessoal]

escrito por:

Bruno Braz

Escrevo pra descobrir o que sei e aprender o que não sei; pra dar vazão e um pouco de ordem ao turbilhão de coisas que me passam pela cabeça e ficam sem ser ditas; pra dar meu empurrãozinho nessa roda da vida e, quem sabe, ainda inspirar alguém.


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