A Maldade Humana

Em Comportamento, Consciência, O MELHOR DO AZ por Victor LisboaComentários

1. Somos “maus”.

Por mais que algu­mas dou­tri­nas defen­dam a natu­reza fun­da­men­tal­mente benigna do ser humano, tenho difi­cul­dade em acei­tar essa pro­po­si­ção. Ocorre que, em todos os can­tos do pla­neta em que seres huma­nos se orga­ni­za­ram para for­mar tri­bos, comu­ni­da­des mais desen­vol­vi­das ou civi­li­za­ções, a vio­lên­cia e o sofri­mento foram sem­pre dois deno­mi­na­do­res comuns.

Na ver­dade, reco­nhe­cer esse fato não é pes­si­mismo. Ao con­trá­rio, a melhor chance de um futuro pro­mis­sor está jus­ta­mente em parar­mos de negar nossa natu­reza essen­ci­al­mente agres­siva e hos­til.

risosarcos

É que reco­nhe­cer nossa natu­reza fun­da­men­tal­mente vio­lenta não sig­ni­fica negar que o ser humano pode ir além do que lhe impõem sua índole bio­ló­gica. Na ver­dade, ape­nas a exata cons­ci­ên­cia desse aspecto pouco agra­dá­vel de nossa índole garante uma chance de cri­ar­mos estru­tu­ras cul­tu­rais e emo­ci­o­nais capa­zes de nos levar para além do deter­mi­nismo gené­tico.

Em resumo, nossa força reside justo em estar­mos cons­ci­en­tes da exten­são de nossa  fra­queza.

E, nesse ponto, é bem ilus­tra­tivo o que Sla­voj Zizek diz sobre mar­xismo e capi­ta­lismo. Para ele, o comu­nismo falhou jus­ta­mente por­que, per­dido em con­si­de­ra­ções obje­ti­vas a res­peito da orga­ni­za­ção dos meios de pro­du­ção, esque­ceu-se de um ele­mento sub­je­tivo fun­da­men­tal para toda orga­ni­za­ção econô­mica, ele­mento esse que o capi­ta­lismo efi­ci­en­te­mente uti­liza como seu “com­bus­tí­vel”.

É que, ainda segundo Zizek, o ser humano não está satis­feito quando recebe, como con­tra­pres­ta­ção de seu tra­ba­lho, o melhor carro e a melhor tele­vi­são pos­sí­veis em seu sis­tema econô­mico. O ser humano ape­nas se satis­faz, e isso serve de estí­mulo para que tra­ba­lhe, quando tem um carro e uma tele­vi­são melho­res do que as de seu vizi­nho. Há, aí, um com­po­nente de mal­dade, de pra­zer com­pa­ra­tivo com a situ­a­ção de infe­ri­o­ri­dade, ainda que tênue, do outro ser humano. Por isso, as exor­ta­ções pela injus­tiça do mundo tal­vez empol­guem nossa cons­ci­ên­cia moral na exata pro­por­ção em que fazem boce­jar o nosso incons­ci­ente mais atá­vico – e não nos ilu­da­mos, não é a razão que nos comanda, a razão é uma fria camada jus­ti­fi­ca­dora das deci­sões que o incons­ci­ente nos impõe.

2. Ser “mau” é “bom”.

Porém, admi­tir que temos uma ten­dên­cia ao “mal” não sig­ni­fica que nos con­for­me­mos com o que é esta­be­le­cido pela nossa herança filo­ge­né­tica. Isso é tão equi­vo­cado quando seguir­mos o cami­nho dia­me­tral­mente oposto, que seria o de nos ilu­dir­mos com a ideia de que, algum dia, pode­re­mos nos livrar dessa ten­dên­cia e abra­çar uma pureza moral que nos torne ange­li­cais e puros como os que­ru­bins. Aqui vale lem­brar não somente de que a pureza é a per­ver­são da ino­cên­cia, como tam­bém daquela sabe­do­ria sardô­nica de Molière, segundo a qual o mal come­dido é muito mais dese­já­vel do que a vir­tude obses­siva.

E um dos moti­vos pelos quais eli­mi­nar nossa pro­pen­são à vio­lên­cia seria não ape­nas fati­ca­mente impos­sí­vel como tam­bém huma­na­mente inde­se­já­vel reside no fato de que o impulso à vio­lên­cia está intrin­se­ca­mente vin­cu­lado à nossa sexu­a­li­dade. E a sexu­a­li­dade é a depo­si­tá­ria da libido, da ener­gia ani­mal que con­fere cor à vida.

sexodomingo

De que em nós há uma vin­cu­la­ção estreita entre sexu­a­li­dade e vio­lên­cia não há dúvida alguma, e reco­mendo a quem não está con­ven­cido disso que leia a digres­são de Carl Sagan em seu livro “Os Dra­gões do Éden”. Essa vin­cu­la­ção é per­cep­tí­vel em duas carac­te­rís­ti­cas do ero­tismo: a rela­ção de domí­nio e a neces­si­dade de trans­gres­são.

Por rela­ção de domí­nio no âmbito sexual não se está falando de taras sado­ma­so­quis­tas, mas daquilo que Phi­lip Roth con­se­guiu resu­mir muito bem naquele tre­cho de Ani­mal Ago­ni­zante que tem­pos atrás trans­crevi em meu blog: o per­pé­tuo dese­qui­lí­brio de for­ças, a deses­ta­bi­li­za­ção radi­cal onde impera a rela­ção de domí­nio quando se está entre qua­tro pare­des. Em uma rela­ção sexual, mesmo quando há uma troca intensa e quase simul­tâ­nea de afeto, ainda assim sem­pre se deli­neia uma rela­ção de domi­na­dor e de domi­nado, inde­pen­den­te­mente dos papeis sexu­ais de cada par­ti­ci­pante. A base do pra­zer está em ser sub­me­tido à potên­cia do outro (homem ou mulher) ou de impor ao outro a nossa potên­cia (seja, nova­mente, homem ou mulher).

Já quanto à trans­gres­são como ele­mento neces­sá­rio da exci­ta­ção eró­tica, ainda pre­tendo falar a res­peito lá no PdH, quando escre­ver sobre os qua­dri­nhos pornôs de Horá­cio Altuna. Por hora, basta lem­brar dos ensaios de Geor­ges Bataille sobre o ero­tismo como trans­gres­são do “inter­dito”, enten­dendo-se trans­gres­são como “a vio­lên­cia exer­cida por um ser capaz de razão”.

3. O script intrometido.

Sin­te­ti­zando tudo o que se disse até aqui, o ser humano é um ani­mal pro­penso à vio­lên­cia e, por­tanto, à pro­du­ção de sofri­mento; admi­tir isso não é ser catas­tro­fista mas, ao con­trá­rio, é dar o pri­meiro passo na dire­ção de uma abor­da­gem adulta da situ­a­ção humana; e seja qual for a solu­ção para nossa pro­pen­são ao “mal”, está fora de cogi­ta­ção a erra­di­ca­ção com­pleta desse aspecto dessa natu­reza, pois trata-se de um aspecto indis­so­ciá­vel de nossa “pro­gra­ma­ção ori­gi­nal”, inclu­sive de nossa sexu­a­li­dade.

Essa última metá­fora é opor­tuna. Sem que­rer sim­pli­fi­car a com­ple­xi­dade de nossa natu­reza, é razoá­vel dizer que a vio­lên­cia faz parte da “lin­gua­gem de pro­gra­ma­ção” ori­gi­nal do ser humano. Agre­dir, fugir, domi­nar, ser domi­nado: são as for­mas fun­da­men­tais pelas quais o ani­mal em nós se rela­ci­ona com o ambi­ente e os outros seres. E é uma lin­gua­gem de pro­gra­ma­ção pode­rosa, por estar estrei­ta­mente asso­ci­ada a fun­ções orgâ­ni­cas, à exci­ta­ção sexual e ao ins­tinto de vida.

spider

Qual­quer ata­que fron­tal na ope­ra­ci­o­na­li­dade dessa “lin­gua­gem de pro­gra­ma­ção” pro­duz desa­jus­tes ine­vi­tá­veis em todo o “sis­tema”. Esse tal­vez seja um dos méri­tos da psi­ca­ná­lise: ter inves­ti­gado e docu­men­tado a forma como a repres­são do “ins­tinto cri­mi­noso” em nós resulta no efeito cola­te­ral cha­mado “neu­rose”.

Se qual­quer abor­da­gem fron­tal causa desa­jus­tes inde­se­ja­dos, tal­vez uma abor­da­gem menos intru­siva seria mais efi­caz. Nisso tal­vez ainda seja de alguma uti­li­dade a com­pa­ra­ção com os con­cei­tos de pro­gra­ma­ção: em enge­nha­ria de soft­ware, há algo deno­mi­nado “lin­gua­gem de script”. É uma lin­gua­gem de pro­gra­ma­ção exe­cu­tada do inte­rior de outra lin­gua­gem de pro­gra­ma­ção. Por meio de um pro­grama feito em lin­gua­gem de script, é pos­sí­vel até mesmo, em certa con­di­ções, explo­rar as vul­ne­ra­bi­li­da­des de um sis­tema para modi­fi­car seu fun­ci­o­na­mento.

Assim, se a vio­lên­cia com­põe a lin­gua­gem de pro­gra­ma­ção fun­da­men­tal de nossa natu­reza, é pre­ciso uma lin­gua­gem de script que, sem inter­fe­rir dema­si­a­da­mente no sis­tema, explore suas vul­ne­ra­bi­li­da­des para se ins­ta­lar como um inva­sor e, na sequên­cia, alte­rar deter­mi­na­dos aspec­tos de seu fun­ci­o­na­mento que são inde­se­já­veis, por pro­du­zi­rem sofri­mento em nós e nos outros seres vivos.

Ocorre que já inven­ta­mos essa lin­gua­gem de script. Ela tem alguns sécu­los, e está sendo cui­da­do­sa­mente depu­rada por algu­mas tra­di­ções cul­tu­rais e reli­gi­o­sas. Ela não é algo essen­ci­al­mente natu­ral, e sim “arti­fi­cial”, no sen­tido de que é algo ela­bo­rado pela cul­tura e não pela natu­reza, mas con­se­gue explo­rar a vul­ne­ra­bi­li­dade do sis­tema pois está base­ada em uma carac­te­rís­tica fun­da­men­tal de nossa con­di­ção bio­ló­gica.

Essa lin­gua­gem de script é o que cha­ma­mos de amor.

amor

E não falo do amor român­tico, ape­sar de ele ser um dos com­po­nen­tes desse script. Falo, des­ca­ra­da­mente e sem qual­quer vin­cu­la­ção reli­gi­osa cons­ci­ente, do amor tal qual está des­crito no Novo Tes­ta­mento.

A com­pre­en­são desse con­ceito e a acei­ta­ção desse script como um meio efi­ci­ente para lidar­mos com nossa natu­reza agres­siva dis­pensa ade­são a qual­quer reli­gião. Você até pode ser um ateu e ainda assim com­pre­en­der e acei­tar essa pro­posta: o amor como um script cri­ado pela huma­ni­dade não para com­ba­ter, mas para man­ter em níveis con­tro­la­dos nossa pro­pen­são à vio­lên­cia.

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

Compartilhe