1. Somos “maus”.

Por mais que algumas doutrinas defendam a natureza fundamentalmente benigna do ser humano, tenho dificuldade em aceitar essa proposição. Ocorre que, em todos os cantos do planeta em que seres humanos se organizaram para formar tribos, comunidades mais desenvolvidas ou civilizações, a violência e o sofrimento foram sempre dois denominadores comuns.

Na verdade, reconhecer esse fato não é pessimismo. Ao contrário, a melhor chance de um futuro promissor está justamente em pararmos de negar nossa natureza essencialmente agressiva e hostil.

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É que reconhecer nossa natureza fundamentalmente violenta não significa negar que o ser humano pode ir além do que lhe impõem sua índole biológica. Na verdade, apenas a exata consciência desse aspecto pouco agradável de nossa índole garante uma chance de criarmos estruturas culturais e emocionais capazes de nos levar para além do determinismo genético.

Em resumo, nossa força reside justo em estarmos conscientes da extensão de nossa  fraqueza.

E, nesse ponto, é bem ilustrativo o que Slavoj Zizek diz sobre marxismo e capitalismo. Para ele, o comunismo falhou justamente porque, perdido em considerações objetivas a respeito da organização dos meios de produção, esqueceu-se de um elemento subjetivo fundamental para toda organização econômica, elemento esse que o capitalismo eficientemente utiliza como seu “combustível”.

É que, ainda segundo Zizek, o ser humano não está satisfeito quando recebe, como contraprestação de seu trabalho, o melhor carro e a melhor televisão possíveis em seu sistema econômico. O ser humano apenas se satisfaz, e isso serve de estímulo para que trabalhe, quando tem um carro e uma televisão melhores do que as de seu vizinho. Há, aí, um componente de maldade, de prazer comparativo com a situação de inferioridade, ainda que tênue, do outro ser humano. Por isso, as exortações pela injustiça do mundo talvez empolguem nossa consciência moral na exata proporção em que fazem bocejar o nosso inconsciente mais atávico – e não nos iludamos, não é a razão que nos comanda, a razão é uma fria camada justificadora das decisões que o inconsciente nos impõe.

2. Ser “mau” é “bom”.

Porém, admitir que temos uma tendência ao “mal” não significa que nos conformemos com o que é estabelecido pela nossa herança filogenética. Isso é tão equivocado quando seguirmos o caminho diametralmente oposto, que seria o de nos iludirmos com a ideia de que, algum dia, poderemos nos livrar dessa tendência e abraçar uma pureza moral que nos torne angelicais e puros como os querubins. Aqui vale lembrar não somente de que a pureza é a perversão da inocência, como também daquela sabedoria sardônica de Molière, segundo a qual o mal comedido é muito mais desejável do que a virtude obsessiva.

E um dos motivos pelos quais eliminar nossa propensão à violência seria não apenas faticamente impossível como também humanamente indesejável reside no fato de que o impulso à violência está intrinsecamente vinculado à nossa sexualidade. E a sexualidade é a depositária da libido, da energia animal que confere cor à vida.

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De que em nós há uma vinculação estreita entre sexualidade e violência não há dúvida alguma, e recomendo a quem não está convencido disso que leia a digressão de Carl Sagan em seu livro “Os Dragões do Éden”. Essa vinculação é perceptível em duas características do erotismo: a relação de domínio e a necessidade de transgressão.

Por relação de domínio no âmbito sexual não se está falando de taras sadomasoquistas, mas daquilo que Philip Roth conseguiu resumir muito bem naquele trecho de Animal Agonizante que tempos atrás transcrevi em meu blog: o perpétuo desequilíbrio de forças, a desestabilização radical onde impera a relação de domínio quando se está entre quatro paredes. Em uma relação sexual, mesmo quando há uma troca intensa e quase simultânea de afeto, ainda assim sempre se delineia uma relação de dominador e de dominado, independentemente dos papeis sexuais de cada participante. A base do prazer está em ser submetido à potência do outro (homem ou mulher) ou de impor ao outro a nossa potência (seja, novamente, homem ou mulher).

Já quanto à transgressão como elemento necessário da excitação erótica, ainda pretendo falar a respeito lá no PdH, quando escrever sobre os quadrinhos pornôs de Horácio Altuna. Por hora, basta lembrar dos ensaios de Georges Bataille sobre o erotismo como transgressão do “interdito”, entendendo-se transgressão como “a violência exercida por um ser capaz de razão”.

3. O script intrometido.

Sintetizando tudo o que se disse até aqui, o ser humano é um animal propenso à violência e, portanto, à produção de sofrimento; admitir isso não é ser catastrofista mas, ao contrário, é dar o primeiro passo na direção de uma abordagem adulta da situação humana; e seja qual for a solução para nossa propensão ao “mal”, está fora de cogitação a erradicação completa desse aspecto dessa natureza, pois trata-se de um aspecto indissociável de nossa “programação original”, inclusive de nossa sexualidade.

Essa última metáfora é oportuna. Sem querer simplificar a complexidade de nossa natureza, é razoável dizer que a violência faz parte da “linguagem de programação” original do ser humano. Agredir, fugir, dominar, ser dominado: são as formas fundamentais pelas quais o animal em nós se relaciona com o ambiente e os outros seres. E é uma linguagem de programação poderosa, por estar estreitamente associada a funções orgânicas, à excitação sexual e ao instinto de vida.

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Qualquer ataque frontal na operacionalidade dessa “linguagem de programação” produz desajustes inevitáveis em todo o “sistema”. Esse talvez seja um dos méritos da psicanálise: ter investigado e documentado a forma como a repressão do “instinto criminoso” em nós resulta no efeito colateral chamado “neurose”.

Se qualquer abordagem frontal causa desajustes indesejados, talvez uma abordagem menos intrusiva seria mais eficaz. Nisso talvez ainda seja de alguma utilidade a comparação com os conceitos de programação: em engenharia de software, há algo denominado “linguagem de script”. É uma linguagem de programação executada do interior de outra linguagem de programação. Por meio de um programa feito em linguagem de script, é possível até mesmo, em certa condições, explorar as vulnerabilidades de um sistema para modificar seu funcionamento.

Assim, se a violência compõe a linguagem de programação fundamental de nossa natureza, é preciso uma linguagem de script que, sem interferir demasiadamente no sistema, explore suas vulnerabilidades para se instalar como um invasor e, na sequência, alterar determinados aspectos de seu funcionamento que são indesejáveis, por produzirem sofrimento em nós e nos outros seres vivos.

Ocorre que já inventamos essa linguagem de script. Ela tem alguns séculos, e está sendo cuidadosamente depurada por algumas tradições culturais e religiosas. Ela não é algo essencialmente natural, e sim “artificial”, no sentido de que é algo elaborado pela cultura e não pela natureza, mas consegue explorar a vulnerabilidade do sistema pois está baseada em uma característica fundamental de nossa condição biológica.

Essa linguagem de script é o que chamamos de amor.

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E não falo do amor romântico, apesar de ele ser um dos componentes desse script. Falo, descaradamente e sem qualquer vinculação religiosa consciente, do amor tal qual está descrito no Novo Testamento.

A compreensão desse conceito e a aceitação desse script como um meio eficiente para lidarmos com nossa natureza agressiva dispensa adesão a qualquer religião. Você até pode ser um ateu e ainda assim compreender e aceitar essa proposta: o amor como um script criado pela humanidade não para combater, mas para manter em níveis controlados nossa propensão à violência.

escrito por:

Victor Lisboa

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