Há um conceito interessante, desenvolvido nos anos 1990, chamado janela de Overton, cunhado para entender como acontecem transformações em sociedades democráticas. Essa janela designa o arco do que é politicamente aceitável em uma sociedade a cada dado momento. Nas duas bordas, estão as ideias ainda não totalmente aceitas, mas passíveis de entrar na janela através da ação política. Na medida em que você vai se afastando da janela em cada um dos lados, você vai chegando às ideias consideradas absurdas, inexequíveis ou extremistas. Aqui vai uma boa representação gráfica da janela de Overton:

A janela de Overton, claro, não é estática. As ideias consideradas aceitáveis vão mudando com o tempo e a localização da janela vai se movendo para a direita ou para a esquerda, conforme a ação política. Um exemplo recente é a campanha de Bernie Sanders, que moveu para a esquerda a janela do aceitável no tema da saúde: há uns quatro anos, o conceito de um sistema de saúde público e universal (o que chamamos em inglês de “single payer”) soava absurdo nos EUA, coisa de comunista perigoso. Depois da campanha de Bernie, a saúde universal e pública passou a ser ideia tranquilamente situada dentro da janela de Overton – está na ordem do dizível, já não é escândalo. E uma porcentagem crescente de americanos a apoia.

Um dos piores legados da esquerda dos últimos 15 anos no Brasil foi a prática de se adaptar à janela de Overton tal como ela existe, em vez de tentar movê-la. Esse conformismo se escondia atrás daquela famosa palavrinha, governabilidade. “Ah, não temos como fazer reforma agrária por causa da governabilidade”. “Não temos como fazer reforma tributária por causa da governabilidade” etc.

Um exemplo clássico de adaptação à janela e da recusa a tentar movê-la aconteceu no primeiro mês do governo Dilma. O então secretário nacional de drogas, Pedro Abramovay, deu uma entrevista a O Globo propondo penas alternativas para pequenos traficantes. Foi sumariamente demitido. A lógica subjacente à demissão era clara: “ah, a sociedade jamais vai aceitar que não encarceremos traficantes”.

Aonde estou indo com tudo isso? A esquerda hoje no Brasil não consegue mais empurrar essa janela para o seu lado, e isso vem desde muito antes do impeachment. Quem consegue mover a janela de Overton hoje entre nós é a direita. Tome o caso da Reforma da Previdência: imagino que todos ou quase todos aqui concordamos que a reforma proposta por Temer é péssima. Mas a única resposta da esquerda para ela é defender o status quo, deixar as coisas como estão. Mesma coisa com a CLT. Mesma coisa com qualquer outro tema. 15 anos chamando de utópicos e sonhadores todos os que ousavam propor algo fora da janela do aceitável deixaram a esquerda conservadora e bolorenta, sem ideias, limitada a esse paralisante “nenhum direito a menos.”

A última vez que a janela de Overton foi chacoalhada no Brasil, em direção libertária e emancipatória? Junho de 2013. Foi Junho que mostrou que essa janela é infinitamente móvel. É por isso que a cisão que realmente me importa no Brasil não é aquela que separa os que foram contra e os que foram a favor do impeachment. Essa cisão é muito pouco importante no frigir geral dos ovos. A cisão que importa mesmo se dá entre aqueles que estão e aqueles que não estão dispostos a defender e honrar a memória e o legado de Junho.

Estou convicto que o caminho que quero trilhar é por aí.

Idelber Avelar
Leciono literatura,escrevo ensaios. Editei o Biscoito Fino http://idelberavelar.com . Torcedor do Galo e membro do MPII (Minorias com Projetos Ideológicos Irreais)
  • Caio

    Acontece que as reformas do governos são inaceitáveis e impopulares, ou seja a janela não está no aceitável porque nossa democracia representativa monta um congresso com voto de legenda, por exemplo o Tiririca que puxou 5 deputados do partido dele, mas somos impotentes demais para destitui-lo.

    • Roberto

      Na verdade 96% dos deputados eleitos também são os mais votados em seus estados!

  • Beto Muraro

    Se um país onde a mídia toda tem orientação direitista essas reformas já são impopulares, imagine um governo de esquerda, recém eleito, tentando aplicar reformas. A população, em geral, sempre tem o viés voltado para o Status Quo, como a própria janela pode provar. Talvez essa seja a grande diferença no nível de “governabilidade” entre as duas politicas de governo.

    • Emanuel Oliveira

      “Recém eleito” mais de 10 anos de poder, dava pra ter feito algo.

      • Beto Muraro

        Bom, só de eleições diretas, o “outro lado” governou por 18 anos. Não nego que essa governabilidade tenha sido para se manter no poder. Só reitero que os interesses de direita, sem sua maioria, pertencem à classe dominante.

        • Nicolas Ribeiro

          Brasil não tem direita, PSDB e PT brigam tanto pq disputam o mesmo público. O próprio Aécio uma vez disse “não me coloque na direita” , mas vcs não enxergam isso.

          • Roberto

            O brasil não tem partidos oficialmente de direitas, mas temos os políticos conservadores que formam a maioria do congresso e aparentemente são maioria nas outras esferas de governo do pais!

            O PSDB é, por nome, social-democrata, mas sempre teve maioria contraria a pautas como aborto, casamento gay e legalização das drogas, por exemplo.

            FHC é um ponto fora da curva, mas mesmo assim é direitista no sentido econômico da corrente!

  • Muito interessante o tema do artigo, Idelber! Continue!