Edmund Burke foi quem primeiro fez uma apropriada distinção entre o sublime e o belo, esclarecendo que o sublime está além do que é esteticamente belo, pois incorpora também o que é monstruoso. O sublime, na verdade, é a fusão do belo ao horrível, submetido a uma perspectiva na qual até mesmo o horror deslumbra à consciência do observador. Parte desse deslumbramento deve-se à percepção do gigantismo e complexidade de uma estrutura capaz de sustentar, em si mesma, não só a presença dos opostos, mas os conflitos daí decorrentes. O sublime é uma contradição em termos e, por isso, representa o ilógico inerente à vida real.

Mas isso é viajar na maionese. O importante é que o sublime está aqui e agora, enquanto você lê este texto – e, mesmo assim, sua mente o ignora.

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Vivendo a mais mesquinha das vidas ou experimentando a mais pungente dor, não importa: o sublime sempre nos acompanha. Em seu cotidiano, o ser humano depara-se com ele a cada segundo. Mesmo o mais medíocre dos homens, submetido à mais abjeta das rotinas, encontra o sublime diversas vezes durante um só dia. Essa experiência se apresenta a nós continuamente, inclusive através de eventos comezinhos. A morte é sublime, o gozo é sublime, a agressão gratuita e hedionda é sublime, a trajetória de qualquer vida é, em última análise, a expressão do sublime.

Mas isso é divagação pretensiosa. O importante é que o sublime está aqui e agora, enquanto você lê este texto, e, mesmo assim, sua mente o ignora.

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O sublime, por jamais se enquadrar nas nossas expectativas mundanas sobre como as coisas deveriam ser, aniquila expectativas e desnorteia. E é contra esse contato direto com o real e seus indesejados efeitos que os homens têm se protegido no decorrer de sua história. Rigorosamente falando, a civilização é o resultado de reiteradas tentativas de distanciar os homens da percepção rotineira do sublime. Os outros animais vivem mergulhados na experiência do sublime, mas felizmente não possuem a consciência que tornaria essa vivência intolerável. Nós, porém, possuímos esse “nervo exposto”, a consciência, e tratamos logo de sufocar o conhecimento dessa realidade.

Mas isso é elucubração pseudofilosófica. O importante é que o sublime está aqui e agora, enquanto você lê este texto, e mesmo assim sua mente o ignora.

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No dia-a-dia, fugimos do sublime. Essa fuga consiste em ignorar as manifestações do que Nietzsche chamava de “caráter horrível e problemático da existência” – e ignorar, principalmente, que um dia o fim inexorável de nossa consciência chegará, o que em tese tornaria injustificável qualquer escusa para não vivenciarmos o sublime em sua totalidade, sempre que nos é apresentado. O conforto criado pela ciência, que nos permite supor uma vida falsamente segura, é a máxima conquista humana contra o sublime. Para Nietzsche, apenas a arte trágica, a arte comprometida em expressar o mistério da vida, dava conta de lidar com o sublime.


Mas isso é diletantismo afetado. O importante é que o sublime está aqui e agora, enquanto você lê este texto, e mesmo assim sua mente o ignora.

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O sublime também decorre de nossa mortalidade. Se fôssemos imortais, a experiência ordinária do cotidiano não seria sublime, pois a perspectiva da morte insere em cada momento e coisa o espanto de que um dia não mais haverá momentos e coisas para nós. Portanto, as doutrinas religiosas que prometem uma vida para além desta são instrumentos eficientes da fuga. Por falar em religiosidade, as religiões atuais, monoteístas e patriarcais, ao invés de simbolizar o sublime em seus ritos e cultos (como as pagãs e politeístas faziam – o que as aproximava das manifestações artísticas), dedicam-se a atender a necessidade humana de escapar do contato direto com ele. E talvez seja esse o motivo pelo qual tais religiões relegam à mulher e ao desejo erótico um papel secundário ou pecaminoso. É que, por sua natureza, os homens tendem a associar o sublime à mulher e à atração sexual que ela produz. Para nós, o sexo oposto foi a primeira experiência com o sublime: o parto, a sujeição total à mãe no primeiro ano de vida e, posteriormente, as primeiras volições sexuais. Por tal razão, a forma como um homem lida com as mulheres costuma revelar a natureza de sua postura em relação ao sublime.

Mas isso é pirar na batatinha. O importante é que o sublime é também expressão da própria condição humana, e ignorar o sublime em demasia significa cegar-se para uma parcela de si próprio.

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Quando um problema passageiro consome toda a sua atenção, quando você se aborrece demais com uma pequena ofensa, quando você se ocupa exageradamente consigo próprio, quando você projeta para futuro o momento em que se sentirá completo, quando você suspira porque o horário de fim da aula ou do trabalho ainda não chegou, é porque o seu espírito virou um quarto escuro e fechado, com portas trancadas e janelas cerradas. E, fora desse quarto, imenso, eterno, está o sublime – esperando por você.

Você não precisa resolver todos os problemas passageiros, desforrar-se das pequenas ofensas, ocupar-se tanto consigo próprio, aguardar uma ilusória completude. Você não precisa esperar o fim da aula ou do trabalho, para estar integralmente vivo: abra suas janelas, abra a sua porta, deixe a luz entrar nesse quarto. O sublime está do lado de fora, aqui e agora, esperando por você.


escrito por:

Victor Lisboa

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