a fuga do sublime

A Fuga do Sublime

Em Comportamento por Victor LisboaComentário

Edmund Burke foi quem pri­meiro fez uma apro­pri­ada dis­tin­ção entre o sublime e o belo, escla­re­cendo que o sublime está além do que é este­ti­ca­mente belo, pois incor­pora tam­bém o que é mons­tru­oso. O sublime, na ver­dade, é a fusão do belo ao hor­rí­vel, sub­me­tido a uma pers­pec­tiva na qual até mesmo o hor­ror des­lum­bra à cons­ci­ên­cia do obser­va­dor. Parte desse des­lum­bra­mento deve-se à per­cep­ção do gigan­tismo e com­ple­xi­dade de uma estru­tura capaz de sus­ten­tar, em si mesma, não só a pre­sença dos opos­tos, mas os con­fli­tos daí decor­ren­tes. O sublime é uma con­tra­di­ção em ter­mos e, por isso, repre­senta o iló­gico ine­rente à vida real.

Mas isso é via­jar na mai­o­nese. O impor­tante é que o sublime está aqui e agora, enquanto você lê este texto — e, mesmo assim, sua mente o ignora.

menino

Vivendo a mais mes­qui­nha das vidas ou expe­ri­men­tando a mais pun­gente dor, não importa: o sublime sem­pre nos acom­pa­nha. Em seu coti­di­ano, o ser humano depara-se com ele a cada segundo. Mesmo o mais medío­cre dos homens, sub­me­tido à mais abjeta das roti­nas, encon­tra o sublime diver­sas vezes durante um só dia. Essa expe­ri­ên­cia se apre­senta a nós con­ti­nu­a­mente, inclu­sive atra­vés de even­tos come­zi­nhos. A morte é sublime, o gozo é sublime, a agres­são gra­tuita e hedi­onda é sublime, a tra­je­tó­ria de qual­quer vida é, em última aná­lise, a expres­são do sublime.

Mas isso é diva­ga­ção pre­ten­si­osa. O impor­tante é que o sublime está aqui e agora, enquanto você lê este texto, e, mesmo assim, sua mente o ignora.

fuga-sublime-morte

O sublime, por jamais se enqua­drar nas nos­sas expec­ta­ti­vas mun­da­nas sobre como as coi­sas deve­riam ser, ani­quila expec­ta­ti­vas e des­nor­teia. E é con­tra esse con­tato direto com o real e seus inde­se­ja­dos efei­tos que os homens têm se pro­te­gido no decor­rer de sua his­tó­ria. Rigo­ro­sa­mente falando, a civi­li­za­ção é o resul­tado de rei­te­ra­das ten­ta­ti­vas de dis­tan­ciar os homens da per­cep­ção roti­neira do sublime. Os outros ani­mais vivem mer­gu­lha­dos na expe­ri­ên­cia do sublime, mas feliz­mente não pos­suem a cons­ci­ên­cia que tor­na­ria essa vivên­cia into­le­rá­vel. Nós, porém, pos­suí­mos esse “nervo exposto”, a cons­ci­ên­cia, e tra­ta­mos logo de sufo­car o conhe­ci­mento dessa rea­li­dade.

Mas isso é elu­cu­bra­ção pseu­do­fi­lo­só­fica. O impor­tante é que o sublime está aqui e agora, enquanto você lê este texto, e mesmo assim sua mente o ignora.

homem

No dia-a-dia, fugi­mos do sublime. Essa fuga con­siste em igno­rar as mani­fes­ta­ções do que Nietzs­che cha­mava de “cará­ter hor­rí­vel e pro­ble­má­tico da exis­tên­cia” — e igno­rar, prin­ci­pal­mente, que um dia o fim ine­xo­rá­vel de nossa cons­ci­ên­cia che­gará, o que em tese tor­na­ria injus­ti­fi­cá­vel qual­quer escusa para não viven­ci­ar­mos o sublime em sua tota­li­dade, sem­pre que nos é apre­sen­tado. O con­forto cri­ado pela ciên­cia, que nos per­mite supor uma vida fal­sa­mente segura, é a máxima con­quista humana con­tra o sublime. Para Nietzs­che, ape­nas a arte trá­gica, a arte com­pro­me­tida em expres­sar o mis­té­rio da vida, dava conta de lidar com o sublime.


Mas isso é dile­tan­tismo afe­tado. O impor­tante é que o sublime está aqui e agora, enquanto você lê este texto, e mesmo assim sua mente o ignora.

mulher

O sublime tam­bém decorre de nossa mor­ta­li­dade. Se fôs­se­mos imor­tais, a expe­ri­ên­cia ordi­ná­ria do coti­di­ano não seria sublime, pois a pers­pec­tiva da morte insere em cada momento e coisa o espanto de que um dia não mais haverá momen­tos e coi­sas para nós. Por­tanto, as dou­tri­nas reli­gi­o­sas que pro­me­tem uma vida para além desta são ins­tru­men­tos efi­ci­en­tes da fuga. Por falar em reli­gi­o­si­dade, as reli­giões atu­ais, mono­teís­tas e patri­ar­cais, ao invés de sim­bo­li­zar o sublime em seus ritos e cul­tos (como as pagãs e poli­teís­tas faziam — o que as apro­xi­mava das mani­fes­ta­ções artís­ti­cas), dedi­cam-se a aten­der a neces­si­dade humana de esca­par do con­tato direto com ele. E tal­vez seja esse o motivo pelo qual tais reli­giões rele­gam à mulher e ao desejo eró­tico um papel secun­dá­rio ou peca­mi­noso. É que, por sua natu­reza, os homens ten­dem a asso­ciar o sublime à mulher e à atra­ção sexual que ela pro­duz. Para nós, o sexo oposto foi a pri­meira expe­ri­ên­cia com o sublime: o parto, a sujei­ção total à mãe no pri­meiro ano de vida e, pos­te­ri­or­mente, as pri­mei­ras voli­ções sexu­ais. Por tal razão, a forma como um homem lida com as mulhe­res cos­tuma reve­lar a natu­reza de sua pos­tura em rela­ção ao sublime.

Mas isso é pirar na bata­ti­nha. O impor­tante é que o sublime é tam­bém expres­são da pró­pria con­di­ção humana, e igno­rar o sublime em dema­sia sig­ni­fica cegar-se para uma par­cela de si pró­prio.

aranha

Quando um pro­blema pas­sa­geiro con­some toda a sua aten­ção, quando você se abor­rece demais com uma pequena ofensa, quando você se ocupa exa­ge­ra­da­mente con­sigo pró­prio, quando você pro­jeta para futuro o momento em que se sen­tirá com­pleto, quando você sus­pira por­que o horá­rio de fim da aula ou do tra­ba­lho ainda não che­gou, é por­que o seu espí­rito virou um quarto escuro e fechado, com por­tas tran­ca­das e jane­las cer­ra­das. E, fora desse quarto, imenso, eterno, está o sublime — espe­rando por você.

Você não pre­cisa resol­ver todos os pro­ble­mas pas­sa­gei­ros, des­for­rar-se das peque­nas ofen­sas, ocu­par-se tanto con­sigo pró­prio, aguar­dar uma ilu­só­ria com­ple­tude. Você não pre­cisa espe­rar o fim da aula ou do tra­ba­lho, para estar inte­gral­mente vivo: abra suas jane­las, abra a sua porta, deixe a luz entrar nesse quarto. O sublime está do lado de fora, aqui e agora, espe­rando por você.


Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

Compartilhe