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A esquerda contra o povo: a crise invisível e o adesismo militante

Em Consciência, Política, Sociedade por Guilherme AssisComentários

1.

Em cer­tos momen­tos, recor­rer à dia­lé­tica é peda­gó­gico: épo­cas de con­fu­são e incer­teza geram a maior neces­si­dade e apego às cer­te­zas e res­pos­tas “defi­ni­ti­vas”. Quando, em meio ao caos, vemos no hori­zonte um sujeito sendo acla­mado como herói ou um dis­curso sendo pro­cla­mado abso­luto, é hora de dar um passo para trás e res­pi­rar fundo.

Eu des­co­bri quem era Glenn Gre­enwald da maneira mais posi­tiva pos­sí­vel: como jor­na­lista envol­vido no imbró­glio de Edward Snow­den, ame­a­çado e per­se­guido por publi­car (“vazar”, no lin­gua­jar ofi­ci­a­lesco) infor­ma­ções “con­fi­den­ci­ais” que impli­ca­vam o governo ame­ri­cano em um esquema auto­ri­tá­rio e assus­ta­dor de moni­to­ra­mento com­pul­sivo. Gre­enwald ficou “fichado” na minha mente com todas as boas hash­tags: pro­gres­sista, cora­joso, com­ba­tivo, etc.

Nos últi­mos dias, ele vol­tou ao meu radar: um texto, pro­du­zido em con­junto com David Miranda e Andrew Fish­man, vira­li­zou entre ami­gos e conhe­ci­dos, alcan­çando o posto de “defi­ni­tivo”, “explica total­mente a situ­a­ção bra­si­leira”, etc. É uma aná­lise sobre a situ­a­ção polí­tica no país — sobre a “crise” do governo Dilma e as res­pos­tas por ela gera­das.

Há, antes de tudo, um ele­mento leve­mente feti­chista no pro­cesso de legi­ti­ma­ção do artigo: “olhem, é um gringo falando, podem con­fiar, ele é isento, botem fé”. Uma afe­ti­vi­dade com­pa­rá­vel àquela por trás da vira­li­za­ção das inú­me­ras “car­tas aber­tas” de estran­gei­ros expli­cando “os pro­ble­mas do bra­sil”, nesse caso com sinal oposto.

Infe­liz­mente, o texto de Gre­enwald é extre­ma­mente super­fi­cial, cheio de meias-ver­da­des, e acaba sendo uma repro­du­ção mais “chi­que” do dis­curso senso-comum pro­du­zido nos mais diver­sos rin­cões do petismo mór­bido e do esquer­dismo con­ser­va­dor. Esse meu artigo é uma ten­ta­tiva de res­posta ao texto de Gre­enwald e alguns pal­pi­tes irres­pon­sá­veis sobre a fami­ge­rada “situ­a­ção do país”.

2.

Antes de tudo, eis o texto. (Aqui, para quem pre­fe­rir em inglês, no ori­gi­nal).

Come­ça­mos com uma con­tex­tu­a­li­za­ção básica (o artigo era, ao menos ini­ci­al­mente, des­ti­nado a lei­to­res estran­gei­ros, embora tenha se tor­nado esse ele­mento mágico legi­ti­ma­dor para cer­tos gru­pos aqui): Bra­sil está em crise, olim­pía­das em breve, o mundo está de olho, etc.

Já no ter­ceiro pará­grafo ini­cia-se um pro­cesso nar­ra­tivo que vai per­du­rar por todo o texto:

Porém, uma dife­rença sig­ni­fi­cante em rela­ção aos EUA é que a agi­ta­ção no Bra­sil não se limita a ape­nas um polí­tico. O con­trá­rio é ver­dade, con­forme Romero comenta: “quase todas as fren­tes do sis­tema polí­tico estão sob uma nuvem de escân­dalo”. O que inclui não ape­nas o PT, par­tido tra­ba­lhista de cen­tro-esquerda da pre­si­denta — atra­ves­sado por casos sérios de cor­rup­ção — mas tam­bém a grande mai­o­ria dos gru­pos polí­ti­cos e econô­mi­cos de cen­tro e de direita que agem para des­truir o PT e que estão afun­dando em uma quan­ti­dade ao menos igual de cri­mi­na­li­dade.”

Uma quan­ti­dade ao menos igual de cri­mi­na­li­dade.” Seria insano afir­mar que os par­ti­dos polí­ti­cos bra­si­lei­ros pre­zam pelo res­peito às regras e repu­bli­ca­nismo, mas o que sig­ni­fica essa infor­ma­ção e de onde ela vem? Os ran­kings de cor­rup­ção efe­ti­va­mente impu­tam escân­da­los e absur­dos aos mon­tes à opo­si­ção (PSDB e DEM estão longe de serem “lim­pos”), mas o que sig­ni­fica “quan­ti­dade ao menos igual”?

O escân­dalo mais espe­ta­cu­lar da atu­a­li­dade, nas man­che­tes e men­tes de todos, é a der­ro­cada e implo­são da Petro­bras. Citando algum anô­nimo do twit­ter, “Como uma empresa que con­trola um mono­pó­lio pro­du­tivo pode ter tama­nho pre­juízo?”. A esti­ma­tiva do mon­tante des­vi­ado até agora chega a 42 bilhões de reais — e nin­guém acha que tudo já foi des­co­berto, e essa quan­tia não inclui os recur­sos per­di­dos em nego­ci­a­tas sus­pei­tas, ine­fi­ci­ên­cia decor­rente de deci­sões cor­rom­pi­das, etc.

Con­si­de­rando essa mon­ta­nha de dinheiro, é fácil enten­der o foco no PT: é o par­tido res­pon­sá­vel pelo con­trole da esta­tal desde 2003, a atual pre­si­dente sen­tou no seu con­se­lho por anos, etc. Ainda que polí­ti­cos da opo­si­ção obvi­a­mente tam­bém tenham come­tido as suas fal­ca­truas e mesmo par­ti­ci­pado do “petro­lão”, por pura lógica sub­me­tida aos fatos  (o PT é quem exerce maior con­trole sobre recur­sos há 14 anos no Bra­sil )  o par­tido do governo estará no cen­tro de comando dos escân­da­los mais vis­to­sos e impac­tan­tes.

Segui­mos. Gre­enwald comenta uma certa “miti­fi­ca­ção” dos pro­tes­tos con­tra a pre­si­dente Dilma, carac­te­ri­za­dos de maneira utó­pica. Estou de acordo — nova­mente, qual­quer nar­ra­tiva que apre­senta sal­va­do­res da pátria abne­ga­dos me gera des­con­fi­ança.

A carac­te­ri­za­ção dos pro­tes­tos ignora o con­texto his­tó­rico da polí­tica no Bra­sil e, mais impor­tante, uma série de ques­tões crí­ti­cas: quem está por trás dos pro­tes­tos, quão repre­sen­ta­ti­vos eles são em rela­ção à popu­la­ção bra­si­leira e quais são seus ver­da­dei­ros inte­res­ses?

Esse dis­curso, porém, me é extre­ma­mente incô­modo. Come­ça­mos aqui outra grande ten­dên­cia (tanto do texto de Gre­enwald quanto das defe­sas gover­nis­tas): o “quem ganha com isso, quem comanda isso?”.

É uma decor­rên­cia nega­tiva de certa detur­pa­ção de aná­li­ses mar­xis­tas: a his­tó­ria não pode ocor­rer de maneira lar­ga­mente caó­tica, ale­a­tó­ria e desor­ga­ni­zada. Se gru­pos sur­gem e se orga­ni­zam, “inte­res­ses” cla­ra­mente estão por trás disso. Como sem­pre, essa visão revela mais sobre quem a detém do que sobre os obser­va­dos: redu­zir toda massa a algum nível de controle/liderança demons­tra cla­ra­mente o olhar comum da esquerda quanto ao povo. Estão lá sem­pre para serem ope­ra­ci­o­na­li­za­dos. A ideia de que gente com inte­res­ses comuns saiu de casa e se encon­trou de maneira mais ou menos inde­pen­dente é sem­pre uma here­sia.

Gre­enwald em seguida comenta o golpe de 64, sua bru­ta­li­dade, o auxí­lio rece­bido de gover­nos estran­gei­ros inte­res­sa­dos no com­bate ao “comu­nismo” inci­pi­ente. Nada a recla­mar aqui.

O golpe em si e a dita­dura que se seguiu foram apoi­a­dos pelas oli­gar­quias regi­o­nais e por suas gran­des redes midiá­ti­cas, lide­ra­das pela Globo, a qual — de forma notá­vel — apre­sen­tou o golpe de 1964 como uma nobre der­rota de um governo esquer­dista cor­rupto (soa fami­liar?). Tanto o golpe quanto o regime dita­to­rial foram apoi­a­dos tam­bém pela extra­va­gante (e absur­da­mente branca) elite econô­mica do país, além de sua pequena classe média. Como opo­si­to­res da demo­cra­cia geral­mente fazem, as clas­ses altas viam a dita­dura como uma pro­te­ção con­tra as mas­sas de popu­la­ção pobre, com­posta majo­ri­ta­ri­a­mente por pes­soas negras e par­das.

Algu­mas coi­sas. A Rede Globo e diver­sos veí­cu­los midiá­ti­cos efe­ti­va­mente apoi­a­ram o governo mili­tar, mas a carac­te­ri­za­ção dessa emis­sora como “líder” do golpe é difí­cil. Embora o jor­nal “O Globo” exis­tisse desde os anos 20, a Rede Globo de Tele­vi­são, que real­mente pode ser cha­mada de “rede midiá­tica”, é ofi­ci­al­mente fun­dada em 1965, e ini­ci­al­mente foi um fra­casso de público, come­çando a rever­ter essa ten­dên­cia ape­nas com a con­tra­ta­ção de Wal­ter Clark, um pro­dí­gio na estru­tu­ra­ção da “grade tele­vi­siva”.

Além disso, a nar­ra­tiva “con­tra a cor­rup­ção” era bem menos intensa do que se faz pare­cer — seria mais apro­pri­ada na carac­te­ri­za­ção do fim do governo Getu­lio, esse sim acu­sado de ser um “mar de lama” (e envol­vido em escân­da­los absur­dos, como o fami­ge­rado aten­tado da rua Tone­leiro, no qual um asso­ci­ado do pre­si­dente orques­trou a ten­ta­tiva de homi­cí­dio de um rival polí­tico).

A carac­te­ri­za­ção do golpe como uma cons­pi­ra­ção exclu­si­va­mente eli­tista tam­bém peca por ine­xa­ti­dão — a rejei­ção ao comu­nismo era mais forte na classe média reli­gi­osa e con­ser­va­dora, mas per­pas­sava toda a soci­e­dade, e as fami­ge­ra­das “mar­chas da famí­lia com deus pela liber­dade” foram fenô­me­nos mas­si­vos, de grande ade­são. A pró­pria evo­lu­ção do regime aponta para isso: o par­tido da dita­dura, a ARENA, cons­tan­te­mente ven­cia elei­ções em regiões mais pobres (os “rin­cões”), enquanto a opo­si­ção do MDB era mais popu­lar entre a classe urbana, libe­ral, inte­lec­tual, etc.

Quanto às colo­ca­ções de Gre­enwald sobre a desi­gual­dade no Bra­sil, nada a dis­cor­dar nova­mente. É um pro­blema cen­tral e fato defi­ni­dor da nossa polí­tica e soci­e­dade.

O PARTIDO DE DILMA, PT, foi fun­dado em 1980 como um par­tido soci­a­lista de esquerda clás­sica.

Isso é uma carac­te­ri­za­ção errô­nea, sendo gen­til. Toda a “magia” do PT é exa­ta­mente fugir ao soci­a­lismo da esquerda “clás­sica”. O Par­tido dos Tra­ba­lha­do­res surge fugindo ao ofi­ci­a­lismo do PCB ainda sovié­tico, e se des­taca por suas raí­zes diver­sas e menos dog­má­ti­cas: sin­di­ca­tos com­ba­ti­vos, classe média libe­ral e inte­lec­tu­a­li­zada, par­ce­las pro­gres­sis­tas da igreja cató­lica, etc. Lula, o grande nome do par­tido, nunca foi parte desse soci­a­lismo clás­sico, e na ver­dade pouco se apro­vei­tou dessa iden­ti­dade. Mesmo em com­pa­ra­ção a outros líde­res esquer­dis­tas na Amé­rica Latina, a dife­rença se impõe: Cha­vez, por exem­plo, sem­pre se fir­mou na herança soci­a­lista e boli­va­ri­ana, algo que nunca foi cru­cial na fun­da­ção da per­sona de Lula.

De fato, Dilma, por von­tade pró­pria ou não, defen­deu medi­das de aus­te­ri­dade para resol­ver pro­ble­mas econô­mi­cos e pas­sar con­fi­ança aos mer­ca­dos estran­gei­ros, e jus­ta­mente nessa semana assi­nou uma dra­co­ni­ana lei “anti-ter­ro­rismo”.

Tenho difi­cul­da­des em enten­der o que sig­ni­fica “por von­tade pró­pria ou não”. Alguém tem o poder de lite­ral­mente obri­gar a pre­si­dente a tomar deci­sões? Carac­te­ri­zar os jogos e ces­sões polí­ti­cos como algo “fora da von­tade” da líder do país é mais um passo nessa nar­ra­tiva insi­di­osa que remove das pes­soas a agên­cia e as trans­forma em peças de um tabu­leiro fabu­laico estru­tu­ral.

É curi­oso, tam­bém, que Gre­enwald comente essas medi­das “en pas­sant” mas con­ti­nue carac­te­ri­zando Dilma como “governo de esquerda”, como se a iden­ti­dade petista se sobre­pu­sesse efe­ti­va­mente ao governo man­tido.

Enquanto no poder, o par­tido pro­mo­veu refor­mas soci­ais e econô­mi­cas que leva­ram bene­fí­cios gover­na­men­tais e opor­tu­ni­da­des para tirar milhões de bra­si­lei­ros da pobreza.

Fica a per­gunta: que refor­mas? É evi­dente que o governo petista efe­tuou mudan­ças no país — o Bolsa Famí­lia, uma emu­la­ção de renda mínima emer­gen­cial que per­mi­tiu a sobre­vi­vên­cia de milhões, é a mais óbvia. Tive­mos tam­bém avan­ços inclu­si­vos com as cotas raci­ais e soci­ais, o PROUNI, o FIES, e avan­ços ins­ti­tu­ci­o­nais pouco lou­va­dos como a Lei da Trans­pa­rên­cia.

O texto, porém, fala de “refor­mas”, e esse é basi­ca­mente o grande pecado do petismo. Apro­vei­tando o boom das com­mo­di­ties, uma arti­cu­la­ção polí­tica inve­já­vel (que envol­via, claro, o men­sa­lão, um esquema de com­pra de votos e domes­ti­ca­ção dos emba­tes demo­crá­ti­cos) e uma popu­la­ri­dade imensa, o governo petista teve um cená­rio pro­pí­cio para rea­li­zar refor­mas pro­fun­das. Nada acon­te­ceu, porém. Reforma tri­bu­tá­ria, tra­ba­lhista, pre­vi­den­ciá­ria, nada mudou. Mesmo a reforma agrá­ria — pauta his­tó­rica da ali­ança do petismo com os movi­men­tos sem-terra — pas­sou pelo maior período sem desa­pro­pri­a­ções de ter­ras na his­tó­ria do país, nesse último ano de governo Dilma. Gre­enwald parece se refe­rir mais a uma mito­lo­gia do que ao que real­mente ocor­reu.

Em seguida, Gre­enwald comenta a força da figura de Lula, a res­posta pre­con­cei­tu­osa das eli­tes ao seu per­so­na­gem popu­lar e “sem modos”, etc. Pouco a comen­tar, a não ser a lem­brança de que, em 2002, Lula foi eleito com um imenso apoio da classe média inte­lec­tu­a­li­zada.

Há muito tempo se cogita que Lula — um polí­tico que se opõe publi­ca­mente a medi­das de aus­te­ri­dade — pre­tende con­cor­rer nova­mente para a pre­si­dên­cia em 2018, depois de com­pleto o segundo man­dato de Dilma. For­ças anti-PT se sen­tem petri­fi­ca­das com a ideia de que Lula vença nova­mente.

A pala­vra “aus­te­ri­dade” é cos­tu­mei­ra­mente usada de manei­ras difí­ceis de defi­nir. Dilma efe­ti­va­mente foi eleita com um dis­curso “anti-aus­te­ri­dade” (algo que o autor pouco comenta), mas suas medi­das “aus­te­ras” são dúbias. Alguns cor­tes de bene­fí­cios, algu­mas demis­sões — mas já esta­mos nova­mente em meio a mur­mú­rios sobre aumento de cré­dito esta­tal, e os emprés­ti­mos a empre­sas com­pa­nhei­ras do governo via BNDES con­ti­nuam fluindo.

Quanto a Lula, o pre­si­dente real­mente voci­fe­rou con­tra o “ajuste”, mas é bom lem­brar que seu pri­meiro governo, com o minis­tro Anto­nio Palocci na fazenda, foi um exem­plo clás­sico do cha­mado “neo­li­be­ra­lismo”, segui­dor da orto­do­xia econô­mica, res­pei­ta­dor do famoso “tripé macro­e­conô­mico”.

E quanto ao “medo” de que Lula vença nova­mente: o ex-pre­si­dente tem hoje uma taxa de rejei­ção de 57% dos elei­to­res, o que o coloca pró­ximo de uma situ­a­ção de ine­gi­bi­li­dade.

Embora a classe oli­gár­quica da nação tenha usado o PSDB, par­tido de cen­tro-direita, de forma bem suce­dida como um con­tra­peso, o par­tido foi impo­tente para der­ro­tar o PT em qua­tro elei­ções pre­si­den­ci­ais con­se­cu­ti­vas. O voto é obri­ga­tó­rio, e os cida­dãos de baixa renda garan­ti­ram as vitó­rias do PT.

Nova­mente, recor­re­mos a “for­ças supe­ri­o­res” — a “classe oli­gár­quica” usa o PSDB. Reduz-se o jogo polí­tico e a his­tó­ria a uma dis­puta de for­ças basi­ca­mente oni­po­ten­tes e obs­cu­ras, negando orga­ni­ci­dade a qual­quer pro­cesso. (A per­gunta que fica­ria, claro, é quais “for­ças” con­tro­lam o PT?). Além disso, lem­bre­mos de novo que a carac­te­ri­za­ção aí posta é incom­pleta: na pri­meira elei­ção, em 2002, o PT vence com mui­tos votos da classe média urbana e libe­ral. É só em 2006, quando esse grupo os aban­dona, indig­nado com o escân­dalo do men­sa­lão, que a base elei­to­ral petista se con­verte for­te­mente nas clas­ses mais bai­xas (o “lúm­pen”, para alguns, ou “sub­pro­le­ta­ri­ado”, para pen­sa­do­res como André Sin­ger.)

A cor­rup­ção entre a classe polí­tica Bra­si­leira — incluindo o alto esca­lão do PT — é real e subs­tan­cial. Mas os plu­to­cra­tas bra­si­lei­ros, a mídia, e as clas­ses altas e médias estão explo­rando essa cor­rup­ção para atin­gir o que eles não con­se­gui­ram por anos de forma demo­crá­tica: remo­ver o PT do poder.

Sim. Chama-se polí­tica. Explo­ra­mos as fra­que­zas e defi­ci­ên­cias dos opo­si­to­res e rivais para tirar-lhes poder. Gre­enwald ignora con­ve­ni­en­te­mente o fato de que o PT foi por anos “o par­tido da ética”, e que sem­pre fez acu­sa­ções gra­vís­si­mas sobre a ido­nei­dade de seus rivais (boa parte delas com razão, diga-se.)

Ao con­trá­rio da des­cri­ção roman­ti­zada e mal infor­mada (para dizer o mínimo) de Chuck Todd e Ian Brem­mer de pro­tes­tos sendo levan­ta­dos “pelo Povo”, estes são, na ver­dade, inci­ta­dos pela mídia cor­po­ra­tiva inten­sa­mente con­cen­trada, homo­ge­nei­zada e pode­rosa, e com­pos­tos por (não exclu­si­va­mente, mas majo­ri­ta­ri­a­mente) pela parte mais rica e branca dos cida­dãos, que por muito tempo guar­da­ram ran­cor con­tra o PT e con­tra qual­quer pro­grama social que com­bate a pobreza.

Nova­mente, repete-se a nar­ra­tiva de que as pes­soas nas ruas estão lá majo­ri­ta­ri­a­mente por “inci­ta­ção” da mídia. Faz-se neces­sá­rio um ques­ti­o­na­mento óbvio: se a imprensa tem todo esse poder de coop­ta­ção e é tão oposta ao petismo, como o par­tido che­gou a con­se­guir ser eleito? O que foram esses anos de apro­va­ção recorde ao governo petista? Por que só agora as pes­soas se revol­ta­ram?

Além disso, Gre­enwald sali­enta que os pro­tes­tos são com­pos­tos de gente mais rica e branca do que a média do país. Isso é ver­dade — e nada sur­pre­en­dente. Mani­fes­ta­ções urba­nas como essas sem­pre foram ter­reno hege­mo­ni­ca­mente das clas­ses médias. Mesmo a luta por edu­ca­ção ou trans­porte cos­tuma ser pau­tada por gru­pos inte­lec­tu­a­li­za­dos dis­tan­tes da pobreza e mar­gi­na­li­za­ção. Uma com­pa­ra­ção sim­ples indica isso: o per­fil soci­o­e­conô­mico dos mani­fes­tan­tes pró e con­tra impe­a­ch­ment é extre­ma­mente seme­lhante.

Por fim, mar­tela-se a nar­ra­tiva de que as pes­soas pro­tes­tam por ran­cor, por ódio à ascen­são social dos pobres, etc. Essa ten­ta­tiva emo­tiva de trans­for­mar uma imensa insa­tis­fa­ção social em pura mal­dade e res­sen­ti­mento é a carta mais jogada no jar­gão petista. É óbvio que existe uma par­cela de eli­tismo e ódio de classe entre mani­fes­tan­tes, mas está longe de ser um fator pre­pon­de­rante. Insu­flam-se espan­ta­lhos como os “ricos que recla­mam do pobre no aero­porto” para refor­çar a vila­ni­za­ção da opo­si­ção, redu­zindo os crí­ti­cos do petismo a uma insu­fi­ci­ên­cia moral eli­tista e res­sen­tida — por con­traste, quem “gosta” de pobres só pode­ria estar ao lado do PT. Mais uma lei­tura que reduz o “pobre” à ins­tru­men­ta­li­za­ção e obje­ti­fi­ca­ção: é ape­nas figura retó­rica para bater nos rivais.

Lem­bre­mos, tam­bém, que a des­peito das pau­tas libe­rais e anti-estado de diver­sos movi­men­tos agi­ta­do­res, a grande mai­o­ria dos pro­tes­tan­tes exige mais ser­vi­ços públi­cos de qua­li­dade, apóia edu­ca­ção e saúde uni­ver­sais, etc. Até mesmo a opo­si­ção ao finan­ci­a­mento pri­vado de cam­pa­nha, pauta bas­tante “esquer­dista”, é majo­ri­tá­ria. Nota-se tam­bém que boa parte da classe polí­tica é rejei­tada for­te­mente, mesmo a opo­si­ção, o que se con­tra­põe à tese de que os pro­tes­tos seriam uma fer­ra­mente PSD­Bista para alçar-se ao poder.

A mídia cor­po­ra­tiva bra­si­leira age como os ver­da­dei­ros orga­ni­za­do­res dos pro­tes­tos e como rela­ções-públi­cas dos par­ti­dos de opo­si­ção. Os per­fis no Twit­ter de alguns dos repór­te­res mais influ­en­tes (e ricos) da Rede Globo con­tém inces­san­tes agi­ta­ções anti-PT.

A pre­sença da mídia na van­guarda dos movi­men­tos pode­ria ser atri­buída de forma con­vin­cente à fra­queza da opo­si­ção. Em um momento de caos e mudança, os par­ti­dos fora do poder são tam­bém rejei­ta­dos e se vêem para­li­sa­dos, man­cha­dos por suas cor­rup­ções pró­prias. A ener­gia cana­li­zada con­tra o governo encon­trará vazão em algum lugar — seja na mídia opor­tu­nista, seja em novos players (como o judi­ciá­rio).

Fica tam­bém a incre­du­li­dade quanto a esse foco na suposta riqueza de jor­na­lis­tas opo­si­to­res — um golpe abaixo da cin­tura, per­so­na­lista e basi­ca­mente irre­le­vante. Esse tipo de ata­que esti­mula o mesmo nível de res­posta daque­les que pin­tam todo e qual­quer defen­sor do petismo como lacaio finan­ci­ado por verba publi­ci­tá­ria fede­ral (e vale lem­brar que esses casos pos­suem indí­cios bem mais cla­ros de favo­re­ci­mento pelego).

Em seguida, Gre­enwald comenta a rea­ção da Globo aos vaza­men­tos de gra­va­ções de con­ver­sas entre Lula e Dilma, igno­rando o teor e as acu­sa­ções fei­tas e se con­cen­trando em ridi­cu­la­ri­zar o jor­nal naci­o­nal. Mais mala­ba­rismo retó­rico para fugir ao foco — Lula afi­nal estava cons­pi­rando para fugir à jus­tiça? Parece não impor­tar ao jor­na­lista.

Agora, ima­gine o que esses pro­tes­tos seriam se não fosse ape­nas a Fox, mas tam­bém a ABC, NBC, CBS, a revista Time, o New York Times e o Huf­fing­ton Post, todos apoi­ando o movi­mento do Tea Party. Isso é o que está acon­te­cendo no Bra­sil: as mai­o­res redes são con­tro­la­das por um pequeno número de famí­lias, vir­tu­al­mente todas vee­men­te­mente opos­tas ao PT e cujos veí­cu­los de comu­ni­ca­ção se uni­ram para ali­men­tar esses pro­tes­tos.

Nova­mente, isso é uma inver­dade. O governo petista inun­dou as emis­so­ras de ver­bas publi­ci­tá­rias inces­san­te­mente, e isso ren­deu fru­tos. A Rede Globo parece ter assu­mido uma pos­tura inva­ri­a­vel­mente opo­si­tora ulti­ma­mente, mas por vários anos houve rela­tiva paz entre a emis­sora e o governo. A Record, segunda maior emis­sora do país, era osten­si­va­mente ali­ada ao governo — isso fica evi­dente no fato de que o grupo é con­tro­lado pela Igreja Uni­ver­sal do Reino de Deus, cuja asso­ci­a­ção ao petismo era forte o sufi­ci­ente a ponto de que seu rom­pi­mento ofi­cial tenha sido notí­cia.

Lem­bre­mos, tam­bém, que em con­tra­po­si­ção a essa suposta opo­si­ção midiá­tica, o PT no governo irri­gou finan­cei­ra­mente diver­sos blogs “inde­pen­den­tes”, cuja inten­ção ini­cial seria que­brar o “mono­pó­lio de opi­nião”. O resul­tado, porém, foi o sur­gi­mento de uma classe assus­ta­dora de dis­se­mi­na­do­res de desin­for­ma­ção e difa­ma­ção, tra­ba­lhando quasi-aber­ta­mente sob soldo gover­na­men­tal e bus­cando des­truir opo­si­to­res e fazer a defesa incon­di­ci­o­nal do poder fede­ral.

Resu­mindo, os inte­res­ses mer­ca­do­ló­gi­cos repre­sen­ta­dos por esses veí­cu­los midiá­ti­cos são quase que total­mente pró-impe­a­ch­ment e estão liga­dos à his­tó­ria da dita­dura mili­tar. Segundo afirma Stepha­nie Nolen, cor­res­pon­dente no Rio para o cana­dense Globe and Mail: “Está claro que a maior parte das ins­ti­tui­ções do país estão ali­nha­das con­tra a pre­sidente”.

Essa con­clu­são sim­ples­mente ignora o que foi o governo petista. A ali­men­ta­ção do ren­tismo levou ban­cos a lucros recor­des. A ali­ança com gran­des empre­sas na polí­tica de “cam­peões naci­o­nais” e nos des­man­dos do BNDES criou mons­tros enor­mes e suga­do­res de recur­sos públi­cos, como o “fenô­meno” Eike Batista, a Fri­boi, e man­teve intac­tas as rela­ções espú­rias entre governo e mega-emprei­tei­ras (algo, aliás, pre­sente for­te­mente no país desde a dita­dura mili­tar). A ope­ra­ção lava-jato está ape­nas come­çando a des­ven­dar o labi­rinto de recur­sos e ali­an­ças esta­be­le­cido no governo petista, mas já é mais do que sufi­ci­ente para tor­nar risí­vel a hipó­tese de que os inte­res­ses “mer­ca­do­ló­gi­cos” seriam rivais ine­ren­tes do PT.

De forma sim­ples, essa é uma cam­pa­nha para sub­ver­ter as con­quis­tas demo­crá­ti­cas bra­si­lei­ras por gru­pos que por muito tempo odi­a­ram os resul­ta­dos de elei­ções demo­crá­ti­cas, mar­chando de forma enga­na­dora sob uma ban­deira anti-cor­rup­ção: bas­tante simi­lar ao golpe de 1964. De fato, mui­tos na direita do Bra­sil anseiam por uma res­tau­ra­ção da dita­dura, e gru­pos nes­ses pro­tes­tos “anti-cor­rup­ção” pedi­ram aber­ta­mente pelo fim da demo­cra­cia.

Nova­mente, as pes­qui­sas apon­tam que a grande mai­o­ria dos pre­sen­tes rejeita a hipó­tese da inter­ven­ção mili­tar. Sime­tri­ca­mente, indaga-se: a pre­sença de gru­pos mar­xis­tas que aber­ta­mente pre­gam con­tra a cha­mada “demo­cra­cia bur­guesa” e defen­dem a dita­dura do pro­le­ta­ri­ado des­qua­li­fica mani­fes­ta­ções de esquerda?

A afir­ma­ção de que “de forma sim­ples” con­clui-se que o obje­tivo das demons­tra­ções é “sub­ver­ter con­quis­tas demo­crá­ti­cas” é, tam­bém, uma pura expres­são ide­o­ló­gica, achismo. Cre­di­tar as pre­o­cu­pa­ções anti-cor­rup­ção a uma “des­culpa” sinis­tra para inte­res­ses som­brios é um ato de falta de cari­dade inter­pre­ta­tiva: ignora com­ple­ta­mente a posi­ção de gru­pos rivais e os reduz à cari­ca­tura mais baixa. Repete-se: o PT por mui­tos anos nave­gou usando a ban­deira da ética e da luta con­tra a cor­rup­ção. Era ape­nas fal­si­dade, tam­bém?

O número de pes­soas par­ti­ci­pando des­ses pro­tes­tos — enquanto milhões — é muito pequeno em rela­ção aos votos que ree­le­ge­ram Dilma (54 milhões). Em uma demo­cra­cia, gover­nos são elei­tos pelo voto, não por demons­tra­ções de opo­si­ção na rua — par­ti­cu­lar­mente quando os mani­fes­tan­tes vem de um seg­mento social rela­ti­va­mente limi­tado.

Repro­duz-se aqui outro argu­mento extre­ma­mente con­ser­va­dor ado­tado pela linha de frente petista: “dis­puta é nas urnas”. Reduz-se a demo­cra­cia e o jogo polí­tico a um ceri­mo­nial for­ma­lista e ins­ti­tu­ci­o­na­li­zado, carac­te­riza-se o embate público como mera “sub­ver­são”. Essa defesa da “lei e ordem” vinda de visões supos­ta­mente pro­gres­sis­tas e com­ba­ti­vas é assus­ta­dora. Des­monta-se a ideia de sobe­ra­nia popu­lar, de mudança, de mani­fes­ta­ção ativa, e pre­serva-se ape­nas uma visão minús­cula e anê­mica do que seria demo­cra­cia. (Além de tudo, vale lem­brar que a desa­pro­va­ção do governo Dilma bate na casa dos 90%, e 67% apóiam o impe­a­ch­ment, embora não este­jam todos esses na rua.)

Em seguida, Gre­enwald dedica-se a um “meme” que ganhou muita publi­ci­dade: a foto “impac­tante” da babá nos pro­tes­tos. Esquece-se ape­nas de incluir a fala da pró­pria mulher (ins­tru­men­ta­li­zada e obje­ti­fi­cada pela cla­que supos­ta­mente pro­gres­sista), que se disse mais inco­mo­dada pela expo­si­ção à que foi sub­me­tida por seus pre­ten­sos defen­so­res, e que se coloca a favor da queda da pre­si­dente, ainda que reco­nheça que a cor­rup­ção é geral.

ACREDITAR QUE AS FIGURAS polí­ti­cas agindo para o impe­a­ch­ment de Dilma estão sendo moti­va­das por uma autên­tica cru­zada anti-cor­rup­ção requer extrema inge­nui­dade ou igno­rân­cia. Para come­çar, as par­tes que seriam favo­re­ci­das pelo impe­a­ch­ment da Dilma estão pelo menos tão envol­vi­das quanto ela por escân­da­los de cor­rup­ção. Na mai­o­ria dos casos, até mais.

Sim. Nova­mente, chama-se polí­tica. Espan­tar-se com isso revela ou inge­nui­dade ou má-fé. Desde sem­pre gru­pos rivais uti­li­zam a fra­queza de seus opo­nen­tes para der­rubá-los. O que cabe­ria a uma soci­e­dade atenta é apro­vei­tar as picui­nhas do poder para atacá-lo, impor-lhe der­ro­tas, exi­gir mudan­ças. Infe­liz­mente, o que vemos é o con­trá­rio: ade­são irres­trita a um lado ou outro, sem o menor esforço para impor con­di­ções ao apoio. Vale lem­brar o apoio “crí­tico” do PSOL ao governo Dilma nas elei­ções em 2014, que sur­giu espon­ta­ne­a­mente, sem nenhum pen­sa­mento estra­té­gico, sem nenhum pedido de mudança ao PT. Nesse sen­tido, a tão cri­ti­cada Marina Silva ao menos exi­giu con­ces­sões antes de apoiar Aécio Neves.

Cinco dos mem­bros da comis­são de impe­a­ch­ment estão sendo tam­bém inves­ti­ga­dos por esta­rem envol­vi­dos no escân­dalo polí­tico. Isso inclui Paulo Maluf, que enfrenta um man­dato de pri­são da Inter­pol e não pode sair do país há anos; ele foi sen­ten­ci­ado na França três anos atrás por lava­gem de dinheiro.

Seria bom lem­brar que Paulo Maluf está na comis­são para defen­der a pre­si­dente Dilma e se opor ao impe­a­ch­ment, algo que Gre­enwald con­ve­ni­en­te­mente ignora. Mais: o Sena­dor Col­lor, ex-pre­si­dente que caiu tam­bém por indí­cios de cor­rup­ção, che­gou ao ponto de rom­per com seu par­tido pois era con­trá­rio à queda do governo. É claro que há cor­rup­tos a favor do impe­a­ch­ment, mas a banda de defesa do petismo está longe de ser idô­nea.

No con­gresso, o líder do movi­mento pelo impe­a­ch­ment, o extre­mista evan­gé­lico Edu­ardo Cunha, foi apon­tado como dono de múl­ti­plas con­tas secre­tas em ban­cos na Suíça, onde ele guar­dava milhões de dóla­res que os pro­mo­to­res acre­di­tam ser dinheiro rece­bido como suborno. Ele tam­bém é alvo de múl­ti­plas inves­ti­ga­ções cri­mi­nais em anda­mento.

Sim, Cunha é um pro­vá­vel cri­mi­noso. Mas Gre­enwald esquece de lem­brar que o PMDB, seu par­tido, sem­pre foi um fiel ali­ado do governo petista, e que sua opo­si­ção ao governo começa após uma ten­ta­tiva desas­trada de Dilma para “desi­dra­tar” o pmd­bismo fomen­tando o sur­gi­mento de novos par­ti­dos fisi­o­ló­gi­cos na base, como o PROS e o PSD. O tiro saiu pela cul­tra, e Cunha virou seu algoz. Cunha não é uma opo­si­ção “puro-san­gue” do anti­pe­tismo, mas cria do pró­prio PT.

Em seguida, comenta-se Ser­gio Moro:

O juiz, Sér­gio Moro, essa semana efe­ti­va­mente divul­gou para a mídia uma con­versa gra­vada, extre­ma­mente vaga, entre Dilma e Lula, o que a Globo e outras for­ças anti-PT ime­di­a­ta­mente retra­ta­ram como cri­mi­no­sas. Moro divul­gou a gra­va­ção da con­versa ape­nas algu­mas horas depois de ter sido feita.

Moro não “divul­gou” gra­va­ção nenhuma. O sigilo quanto às inves­ti­ga­ções foi levan­tado, o que está longe de ser algo excep­ci­o­nal — na lei bra­si­leira, a publi­ci­dade é norma, e o segredo, sim, deve ser esta­be­le­cido pela jus­tiça. A reve­la­ção dos docu­men­tos tem clara sig­ni­fi­cân­cia polí­tica, mas o meca­nismo pelo qual ela se deu é ins­ti­tu­ci­o­nal­mente razoá­vel.

Mas a con­versa gra­vada foi libe­rada pelo juiz Moro sem nenhum pro­cesso e, pior, com cla­ras inten­ções polí­ti­cas, não judi­ci­ais: ele estava furi­oso, uma vez que sua inves­ti­ga­ção sobre Lula seria fina­li­zada pela nome­a­ção dele ao gabi­nete de minis­tro feita por Dilma (minis­tros só podem ser inves­ti­ga­dos pelo Supremo Tri­bu­nal).

Antes de tudo: Gre­enwald se dedica ape­nas ao uso polí­tico das gra­va­ções e ignora o seu con­teúdo. É razoá­vel que um polí­tico use da nome­a­ção para um cargo para fugir de uma alçada da jus­tiça? Isso é comum? Mais: mesmo que não seja o caso, a con­fi­ança pública estará com esse polí­tico? Lem­bre­mos: a mulher de César deve pare­cer honesta, não basta ape­nas sê-lo.

Mais: a carac­te­ri­za­ção de Moro como “furi­oso” é curi­osa. Gre­enwald tem fon­tes quanto ao estado men­tal do Juiz? Ou é ape­nas con­jec­tura nar­ra­tiva, fic­ci­o­nal, ide­o­ló­gica?

A seguir, Gre­enwald comenta a pro­gres­siva bata­lha do judi­ciá­rio con­tra o PT. A con­duta de juí­zes bus­cando fama em sua atu­a­ção e as jus­ti­fi­ca­ti­vas mal ajam­bra­das por trás de um pedido de pri­são pre­ven­tiva são obvi­a­mente con­de­ná­veis, não temos dis­cor­dân­cia aqui. Vale lem­brar, porém, que no vaza­mento de certa con­versa, Lula acusa o Supremo Tri­bu­nal Fede­ral de ser “aco­var­dado”, além de ofen­der diver­sos outros pode­res e indi­ví­duos. Nada disso deve aju­dar na dis­po­si­ção de tais enti­da­des quanto ao ex-pre­si­dente.

Para ter­mi­nar, Gre­enwald reco­nhece que o PT é cheio de pro­ble­mas, mas reforça a posi­ção de que não deve cair, pois seus rivais seriam entes inte­res­sa­dos e deso­nes­tos — algo que é ver­dade em lite­ral­mente qual­quer dis­puta polí­tica, e não deve­ria impe­dir inves­ti­ga­ções e der­ro­ca­das.

3.

O cru­cial para enten­der o artigo de Gre­enwald é focar-se no que ele não diz. A pre­sença de uma mul­ti­dão nas ruas, a opo­si­ção majo­ri­tá­ria ao governo, o ódio anti­pe­tista — tudo isso é tra­tado como óbvio e resul­tado de um con­luio mídia + eli­tes res­sen­ti­das.

Ignora-se que o Bra­sil está em uma reces­são sem pre­ce­den­tes — dois anos segui­dos de queda do PIB na casa dos 4%, algo que lite­ral­mente nunca tinha acon­te­cido antes no país. Ignora-se que o desem­prego e a infla­ção cres­cem, que a popu­la­ção mais pobre é a mais afe­tada.

Ignora-se que há base para o pedido de impe­a­ch­ment. As cha­ma­das peda­la­das fis­cais são um ato de con­ta­bi­li­dade cri­a­tiva absurdo, usa­das para garan­tir uma elei­ção e simu­lar sane­a­mento das con­tas do governo, e fazem parte da cri­a­ção do momento deses­pe­ra­dor que vive­mos. Men­tiu-se aos elei­to­res para ganhar e hoje paga­mos a conta.

Ao mesmo tempo, corre para­lelo no Tri­bu­nal Supe­rior Elei­to­ral um pro­cesso de cas­sa­ção da chapa de Dilma Rous­seff por uso de recur­sos ilí­ci­tos. O governo pode cair duas vezes, ambas de maneira ins­ti­tu­ci­o­nal­mente legí­tima.

Na defesa do governo petista como esquerda acu­ada pelo con­ser­va­do­rismo, ignora-se o que esse governo efe­ti­va­mente faz agora: con­gela o pro­grama social mais impor­tante do país (bolsa famí­lia), corta salá­rios, corta gas­tos com edu­ca­ção. Ignora-se que a cam­pa­nha petista em 2014 acu­sou seus rivais de dese­ja­rem fazer todos esses cor­tes, e depois traiu seus elei­to­res rea­li­zando-os.

Ignora-se a polí­tica pre­da­tó­ria do governo Dilma, que mas­sa­crou indí­ge­nas em busca de um “pro­gresso” téc­nico que ocupa ima­gi­ná­rio seme­lhante aos ide­ais de “bra­sil grande, do futuro” caros à fami­ge­rada dita­dura mili­tar. Ignora-se a ali­ança do petismo ao auto­ri­ta­rismo gros­seiro, as ocu­pa­ções mili­ta­res em fave­las, as remo­ções de gente pobre e invi­sí­vel para a rea­li­za­ção de “gran­des obras” (fon­tes de des­vios e cor­rup­ção) como Belo Monte e os está­dios da Copa do Mundo.

Ignora-se que boa parte do ódio ao petismo é um ódio dos traí­dos. Que o par­tido da ética e da mudança reve­lou-se fia­dor do imo­bi­lismo e da cor­rup­ção, abra­çou os rea­ci­o­na­ris­mos mais explí­ci­tos (quem hoje vê com hor­ror a ban­cada evan­gé­lica e do agro­ne­gó­cio esquece-se con­ve­ni­en­te­mente que foram extre­ma­mente ali­men­ta­dos pelo petismo).

Ignora-se, enfim, todo clima pesado, tóxico de insa­tis­fa­ção que paira no país. A nar­ra­tiva que pos­tula a influên­cia da mídia levando aos pro­tes­tos é uma inver­são dos fato­res: o ódio e deses­pero já esta­vam lá, e a mídia ape­nas pegou carona nesse bonde. Ela tem seus inte­res­ses, claro — todos temos. Mas não é dona do movi­mento, nem das von­ta­des de todos.

É um texto, em resumo, eli­tista. Passa por cima de todos os anseios legí­ti­mos que sur­gem nesse momento de rup­tura e impõe a nar­ra­tiva for­ma­lista e ins­ti­tu­ci­o­nal: tudo isso é ape­nas inter­fe­rên­cia de pode­ro­sos. É notá­vel que Gre­enwald usa algu­mas vezes a pala­vra “sub­ver­são” para se refe­rir à opo­si­ção: o con­ser­va­do­rismo gover­nista se faz pre­sente no voca­bu­lá­rio, seme­lhante ao usado pelos defen­so­res do “con­tra­golpe” mili­tar em 1964.

É curi­oso que uma posi­ção pro­gres­sista, que supos­ta­mente tra­ba­lha­ria a favor da eman­ci­pa­ção e legi­ti­ma­ção dos inte­res­ses dos mais pobres e sem voz (e mar­tela-se de novo que a crise engen­drada pelo governo machuca bem mais aos pobres do que aos ricos), acabe se resu­mindo a isso: a um entro­na­mento eterno e imó­vel da influên­cia dos pode­res cons­ti­tuí­dos, e uma invi­si­bi­li­za­ção de qual­quer pre­sença indi­vi­dual, popu­lar, cidadã.

Espero que esse pro­gres­sismo con­siga se des­li­gar dos laços afe­ti­vos e iden­ti­tá­rios gera­dos pelo petismo e se tor­nar nova­mente inde­pen­dente. Que con­siga olhar mais para as pes­soas e seus anseios e insa­tis­fa­ções e menos para as nar­ra­ti­vas ofi­ci­a­les­cas, abso­lu­tas, fáceis. Não vai ser fácil.


Artigo ori­gi­nal­mente pos­tado no Medium do autor.


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Guilherme Assis
Tem 25 anos, trabalha com audiovisual e sempre se disse de esquerda. A definição mudou, mas ele continua o mesmo - sempre na oposição.

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