1.

Em certos momentos, recorrer à dialética é pedagógico: épocas de confusão e incerteza geram a maior necessidade e apego às certezas e respostas “definitivas”. Quando, em meio ao caos, vemos no horizonte um sujeito sendo aclamado como herói ou um discurso sendo proclamado absoluto, é hora de dar um passo para trás e respirar fundo.

Eu descobri quem era Glenn Greenwald da maneira mais positiva possível: como jornalista envolvido no imbróglio de Edward Snowden, ameaçado e perseguido por publicar (“vazar”, no linguajar oficialesco) informações “confidenciais” que implicavam o governo americano em um esquema autoritário e assustador de monitoramento compulsivo. Greenwald ficou “fichado” na minha mente com todas as boas hashtags: progressista, corajoso, combativo, etc.

Nos últimos dias, ele voltou ao meu radar: um texto, produzido em conjunto com David Miranda e Andrew Fishman, viralizou entre amigos e conhecidos, alcançando o posto de “definitivo”, “explica totalmente a situação brasileira”, etc. É uma análise sobre a situação política no país — sobre a “crise” do governo Dilma e as respostas por ela geradas.

Há, antes de tudo, um elemento levemente fetichista no processo de legitimação do artigo: “olhem, é um gringo falando, podem confiar, ele é isento, botem fé”. Uma afetividade comparável àquela por trás da viralização das inúmeras “cartas abertas” de estrangeiros explicando “os problemas do brasil”, nesse caso com sinal oposto.

Infelizmente, o texto de Greenwald é extremamente superficial, cheio de meias-verdades, e acaba sendo uma reprodução mais “chique” do discurso senso-comum produzido nos mais diversos rincões do petismo mórbido e do esquerdismo conservador. Esse meu artigo é uma tentativa de resposta ao texto de Greenwald e alguns palpites irresponsáveis sobre a famigerada “situação do país”.

2.

Antes de tudo, eis o texto. (Aqui, para quem preferir em inglês, no original).

Começamos com uma contextualização básica (o artigo era, ao menos inicialmente, destinado a leitores estrangeiros, embora tenha se tornado esse elemento mágico legitimador para certos grupos aqui): Brasil está em crise, olimpíadas em breve, o mundo está de olho, etc.

Já no terceiro parágrafo inicia-se um processo narrativo que vai perdurar por todo o texto:

“Porém, uma diferença significante em relação aos EUA é que a agitação no Brasil não se limita a apenas um político. O contrário é verdade, conforme Romero comenta: “quase todas as frentes do sistema político estão sob uma nuvem de escândalo”. O que inclui não apenas o PT, partido trabalhista de centro-esquerda da presidenta — atravessado por casos sérios de corrupção — mas também a grande maioria dos grupos políticos e econômicos de centro e de direita que agem para destruir o PT e que estão afundando em uma quantidade ao menos igual de criminalidade.”

“Uma quantidade ao menos igual de criminalidade.” Seria insano afirmar que os partidos políticos brasileiros prezam pelo respeito às regras e republicanismo, mas o que significa essa informação e de onde ela vem? Os rankings de corrupção efetivamente imputam escândalos e absurdos aos montes à oposição (PSDB e DEM estão longe de serem “limpos”), mas o que significa “quantidade ao menos igual”?

O escândalo mais espetacular da atualidade, nas manchetes e mentes de todos, é a derrocada e implosão da Petrobras. Citando algum anônimo do twitter, “Como uma empresa que controla um monopólio produtivo pode ter tamanho prejuízo?”. A estimativa do montante desviado até agora chega a 42 bilhões de reais — e ninguém acha que tudo já foi descoberto, e essa quantia não inclui os recursos perdidos em negociatas suspeitas, ineficiência decorrente de decisões corrompidas, etc.

Considerando essa montanha de dinheiro, é fácil entender o foco no PT: é o partido responsável pelo controle da estatal desde 2003, a atual presidente sentou no seu conselho por anos, etc. Ainda que políticos da oposição obviamente também tenham cometido as suas falcatruas e mesmo participado do “petrolão”, por pura lógica submetida aos fatos  (o PT é quem exerce maior controle sobre recursos há 14 anos no Brasil )  o partido do governo estará no centro de comando dos escândalos mais vistosos e impactantes.

Seguimos. Greenwald comenta uma certa “mitificação” dos protestos contra a presidente Dilma, caracterizados de maneira utópica. Estou de acordo — novamente, qualquer narrativa que apresenta salvadores da pátria abnegados me gera desconfiança.

A caracterização dos protestos ignora o contexto histórico da política no Brasil e, mais importante, uma série de questões críticas: quem está por trás dos protestos, quão representativos eles são em relação à população brasileira e quais são seus verdadeiros interesses?

Esse discurso, porém, me é extremamente incômodo. Começamos aqui outra grande tendência (tanto do texto de Greenwald quanto das defesas governistas): o “quem ganha com isso, quem comanda isso?”.

É uma decorrência negativa de certa deturpação de análises marxistas: a história não pode ocorrer de maneira largamente caótica, aleatória e desorganizada. Se grupos surgem e se organizam, “interesses” claramente estão por trás disso. Como sempre, essa visão revela mais sobre quem a detém do que sobre os observados: reduzir toda massa a algum nível de controle/liderança demonstra claramente o olhar comum da esquerda quanto ao povo. Estão lá sempre para serem operacionalizados. A ideia de que gente com interesses comuns saiu de casa e se encontrou de maneira mais ou menos independente é sempre uma heresia.

Greenwald em seguida comenta o golpe de 64, sua brutalidade, o auxílio recebido de governos estrangeiros interessados no combate ao “comunismo” incipiente. Nada a reclamar aqui.

O golpe em si e a ditadura que se seguiu foram apoiados pelas oligarquias regionais e por suas grandes redes midiáticas, lideradas pela Globo, a qual — de forma notável — apresentou o golpe de 1964 como uma nobre derrota de um governo esquerdista corrupto (soa familiar?). Tanto o golpe quanto o regime ditatorial foram apoiados também pela extravagante (e absurdamente branca) elite econômica do país, além de sua pequena classe média. Como opositores da democracia geralmente fazem, as classes altas viam a ditadura como uma proteção contra as massas de população pobre, composta majoritariamente por pessoas negras e pardas.

Algumas coisas. A Rede Globo e diversos veículos midiáticos efetivamente apoiaram o governo militar, mas a caracterização dessa emissora como “líder” do golpe é difícil. Embora o jornal “O Globo” existisse desde os anos 20, a Rede Globo de Televisão, que realmente pode ser chamada de “rede midiática”, é oficialmente fundada em 1965, e inicialmente foi um fracasso de público, começando a reverter essa tendência apenas com a contratação de Walter Clark, um prodígio na estruturação da “grade televisiva”.

Além disso, a narrativa “contra a corrupção” era bem menos intensa do que se faz parecer — seria mais apropriada na caracterização do fim do governo Getulio, esse sim acusado de ser um “mar de lama” (e envolvido em escândalos absurdos, como o famigerado atentado da rua Toneleiro, no qual um associado do presidente orquestrou a tentativa de homicídio de um rival político).

A caracterização do golpe como uma conspiração exclusivamente elitista também peca por inexatidão — a rejeição ao comunismo era mais forte na classe média religiosa e conservadora, mas perpassava toda a sociedade, e as famigeradas “marchas da família com deus pela liberdade” foram fenômenos massivos, de grande adesão. A própria evolução do regime aponta para isso: o partido da ditadura, a ARENA, constantemente vencia eleições em regiões mais pobres (os “rincões”), enquanto a oposição do MDB era mais popular entre a classe urbana, liberal, intelectual, etc.

Quanto às colocações de Greenwald sobre a desigualdade no Brasil, nada a discordar novamente. É um problema central e fato definidor da nossa política e sociedade.

O PARTIDO DE DILMA, PT, foi fundado em 1980 como um partido socialista de esquerda clássica.

Isso é uma caracterização errônea, sendo gentil. Toda a “magia” do PT é exatamente fugir ao socialismo da esquerda “clássica”. O Partido dos Trabalhadores surge fugindo ao oficialismo do PCB ainda soviético, e se destaca por suas raízes diversas e menos dogmáticas: sindicatos combativos, classe média liberal e intelectualizada, parcelas progressistas da igreja católica, etc. Lula, o grande nome do partido, nunca foi parte desse socialismo clássico, e na verdade pouco se aproveitou dessa identidade. Mesmo em comparação a outros líderes esquerdistas na América Latina, a diferença se impõe: Chavez, por exemplo, sempre se firmou na herança socialista e bolivariana, algo que nunca foi crucial na fundação da persona de Lula.

De fato, Dilma, por vontade própria ou não, defendeu medidas de austeridade para resolver problemas econômicos e passar confiança aos mercados estrangeiros, e justamente nessa semana assinou uma draconiana lei “anti-terrorismo”.

Tenho dificuldades em entender o que significa “por vontade própria ou não”. Alguém tem o poder de literalmente obrigar a presidente a tomar decisões? Caracterizar os jogos e cessões políticos como algo “fora da vontade” da líder do país é mais um passo nessa narrativa insidiosa que remove das pessoas a agência e as transforma em peças de um tabuleiro fabulaico estrutural.

É curioso, também, que Greenwald comente essas medidas “en passant” mas continue caracterizando Dilma como “governo de esquerda”, como se a identidade petista se sobrepusesse efetivamente ao governo mantido.

Enquanto no poder, o partido promoveu reformas sociais e econômicas que levaram benefícios governamentais e oportunidades para tirar milhões de brasileiros da pobreza.

Fica a pergunta: que reformas? É evidente que o governo petista efetuou mudanças no país — o Bolsa Família, uma emulação de renda mínima emergencial que permitiu a sobrevivência de milhões, é a mais óbvia. Tivemos também avanços inclusivos com as cotas raciais e sociais, o PROUNI, o FIES, e avanços institucionais pouco louvados como a Lei da Transparência.

O texto, porém, fala de “reformas”, e esse é basicamente o grande pecado do petismo. Aproveitando o boom das commodities, uma articulação política invejável (que envolvia, claro, o mensalão, um esquema de compra de votos e domesticação dos embates democráticos) e uma popularidade imensa, o governo petista teve um cenário propício para realizar reformas profundas. Nada aconteceu, porém. Reforma tributária, trabalhista, previdenciária, nada mudou. Mesmo a reforma agrária — pauta histórica da aliança do petismo com os movimentos sem-terra — passou pelo maior período sem desapropriações de terras na história do país, nesse último ano de governo Dilma. Greenwald parece se referir mais a uma mitologia do que ao que realmente ocorreu.

Em seguida, Greenwald comenta a força da figura de Lula, a resposta preconceituosa das elites ao seu personagem popular e “sem modos”, etc. Pouco a comentar, a não ser a lembrança de que, em 2002, Lula foi eleito com um imenso apoio da classe média intelectualizada.

Há muito tempo se cogita que Lula — um político que se opõe publicamente a medidas de austeridade — pretende concorrer novamente para a presidência em 2018, depois de completo o segundo mandato de Dilma. Forças anti-PT se sentem petrificadas com a ideia de que Lula vença novamente.

A palavra “austeridade” é costumeiramente usada de maneiras difíceis de definir. Dilma efetivamente foi eleita com um discurso “anti-austeridade” (algo que o autor pouco comenta), mas suas medidas “austeras” são dúbias. Alguns cortes de benefícios, algumas demissões — mas já estamos novamente em meio a murmúrios sobre aumento de crédito estatal, e os empréstimos a empresas companheiras do governo via BNDES continuam fluindo.

Quanto a Lula, o presidente realmente vociferou contra o “ajuste”, mas é bom lembrar que seu primeiro governo, com o ministro Antonio Palocci na fazenda, foi um exemplo clássico do chamado “neoliberalismo”, seguidor da ortodoxia econômica, respeitador do famoso “tripé macroeconômico”.

E quanto ao “medo” de que Lula vença novamente: o ex-presidente tem hoje uma taxa de rejeição de 57% dos eleitores, o que o coloca próximo de uma situação de inegibilidade.

Embora a classe oligárquica da nação tenha usado o PSDB, partido de centro-direita, de forma bem sucedida como um contrapeso, o partido foi impotente para derrotar o PT em quatro eleições presidenciais consecutivas. O voto é obrigatório, e os cidadãos de baixa renda garantiram as vitórias do PT.

Novamente, recorremos a “forças superiores” — a “classe oligárquica” usa o PSDB. Reduz-se o jogo político e a história a uma disputa de forças basicamente onipotentes e obscuras, negando organicidade a qualquer processo. (A pergunta que ficaria, claro, é quais “forças” controlam o PT?). Além disso, lembremos de novo que a caracterização aí posta é incompleta: na primeira eleição, em 2002, o PT vence com muitos votos da classe média urbana e liberal. É só em 2006, quando esse grupo os abandona, indignado com o escândalo do mensalão, que a base eleitoral petista se converte fortemente nas classes mais baixas (o “lúmpen”, para alguns, ou “subproletariado”, para pensadores como André Singer.)

A corrupção entre a classe política Brasileira — incluindo o alto escalão do PT — é real e substancial. Mas os plutocratas brasileiros, a mídia, e as classes altas e médias estão explorando essa corrupção para atingir o que eles não conseguiram por anos de forma democrática: remover o PT do poder.

Sim. Chama-se política. Exploramos as fraquezas e deficiências dos opositores e rivais para tirar-lhes poder. Greenwald ignora convenientemente o fato de que o PT foi por anos “o partido da ética”, e que sempre fez acusações gravíssimas sobre a idoneidade de seus rivais (boa parte delas com razão, diga-se.)

Ao contrário da descrição romantizada e mal informada (para dizer o mínimo) de Chuck Todd e Ian Bremmer de protestos sendo levantados “pelo Povo”, estes são, na verdade, incitados pela mídia corporativa intensamente concentrada, homogeneizada e poderosa, e compostos por (não exclusivamente, mas majoritariamente) pela parte mais rica e branca dos cidadãos, que por muito tempo guardaram rancor contra o PT e contra qualquer programa social que combate a pobreza.

Novamente, repete-se a narrativa de que as pessoas nas ruas estão lá majoritariamente por “incitação” da mídia. Faz-se necessário um questionamento óbvio: se a imprensa tem todo esse poder de cooptação e é tão oposta ao petismo, como o partido chegou a conseguir ser eleito? O que foram esses anos de aprovação recorde ao governo petista? Por que só agora as pessoas se revoltaram?

Além disso, Greenwald salienta que os protestos são compostos de gente mais rica e branca do que a média do país. Isso é verdade — e nada surpreendente. Manifestações urbanas como essas sempre foram terreno hegemonicamente das classes médias. Mesmo a luta por educação ou transporte costuma ser pautada por grupos intelectualizados distantes da pobreza e marginalização. Uma comparação simples indica isso: o perfil socioeconômico dos manifestantes pró e contra impeachment é extremamente semelhante.

Por fim, martela-se a narrativa de que as pessoas protestam por rancor, por ódio à ascensão social dos pobres, etc. Essa tentativa emotiva de transformar uma imensa insatisfação social em pura maldade e ressentimento é a carta mais jogada no jargão petista. É óbvio que existe uma parcela de elitismo e ódio de classe entre manifestantes, mas está longe de ser um fator preponderante. Insuflam-se espantalhos como os “ricos que reclamam do pobre no aeroporto” para reforçar a vilanização da oposição, reduzindo os críticos do petismo a uma insuficiência moral elitista e ressentida — por contraste, quem “gosta” de pobres só poderia estar ao lado do PT. Mais uma leitura que reduz o “pobre” à instrumentalização e objetificação: é apenas figura retórica para bater nos rivais.

Lembremos, também, que a despeito das pautas liberais e anti-estado de diversos movimentos agitadores, a grande maioria dos protestantes exige mais serviços públicos de qualidade, apóia educação e saúde universais, etc. Até mesmo a oposição ao financiamento privado de campanha, pauta bastante “esquerdista”, é majoritária. Nota-se também que boa parte da classe política é rejeitada fortemente, mesmo a oposição, o que se contrapõe à tese de que os protestos seriam uma ferramente PSDBista para alçar-se ao poder.

A mídia corporativa brasileira age como os verdadeiros organizadores dos protestos e como relações-públicas dos partidos de oposição. Os perfis no Twitter de alguns dos repórteres mais influentes (e ricos) da Rede Globo contém incessantes agitações anti-PT.

A presença da mídia na vanguarda dos movimentos poderia ser atribuída de forma convincente à fraqueza da oposição. Em um momento de caos e mudança, os partidos fora do poder são também rejeitados e se vêem paralisados, manchados por suas corrupções próprias. A energia canalizada contra o governo encontrará vazão em algum lugar — seja na mídia oportunista, seja em novos players (como o judiciário).

Fica também a incredulidade quanto a esse foco na suposta riqueza de jornalistas opositores — um golpe abaixo da cintura, personalista e basicamente irrelevante. Esse tipo de ataque estimula o mesmo nível de resposta daqueles que pintam todo e qualquer defensor do petismo como lacaio financiado por verba publicitária federal (e vale lembrar que esses casos possuem indícios bem mais claros de favorecimento pelego).

Em seguida, Greenwald comenta a reação da Globo aos vazamentos de gravações de conversas entre Lula e Dilma, ignorando o teor e as acusações feitas e se concentrando em ridicularizar o jornal nacional. Mais malabarismo retórico para fugir ao foco — Lula afinal estava conspirando para fugir à justiça? Parece não importar ao jornalista.

Agora, imagine o que esses protestos seriam se não fosse apenas a Fox, mas também a ABC, NBC, CBS, a revista Time, o New York Times e o Huffington Post, todos apoiando o movimento do Tea Party. Isso é o que está acontecendo no Brasil: as maiores redes são controladas por um pequeno número de famílias, virtualmente todas veementemente opostas ao PT e cujos veículos de comunicação se uniram para alimentar esses protestos.

Novamente, isso é uma inverdade. O governo petista inundou as emissoras de verbas publicitárias incessantemente, e isso rendeu frutos. A Rede Globo parece ter assumido uma postura invariavelmente opositora ultimamente, mas por vários anos houve relativa paz entre a emissora e o governo. A Record, segunda maior emissora do país, era ostensivamente aliada ao governo — isso fica evidente no fato de que o grupo é controlado pela Igreja Universal do Reino de Deus, cuja associação ao petismo era forte o suficiente a ponto de que seu rompimento oficial tenha sido notícia.

Lembremos, também, que em contraposição a essa suposta oposição midiática, o PT no governo irrigou financeiramente diversos blogs “independentes”, cuja intenção inicial seria quebrar o “monopólio de opinião”. O resultado, porém, foi o surgimento de uma classe assustadora de disseminadores de desinformação e difamação, trabalhando quasi-abertamente sob soldo governamental e buscando destruir opositores e fazer a defesa incondicional do poder federal.

Resumindo, os interesses mercadológicos representados por esses veículos midiáticos são quase que totalmente pró-impeachment e estão ligados à história da ditadura militar. Segundo afirma Stephanie Nolen, correspondente no Rio para o canadense Globe and Mail: “Está claro que a maior parte das instituições do país estão alinhadas contra a presidente”.

Essa conclusão simplesmente ignora o que foi o governo petista. A alimentação do rentismo levou bancos a lucros recordes. A aliança com grandes empresas na política de “campeões nacionais” e nos desmandos do BNDES criou monstros enormes e sugadores de recursos públicos, como o “fenômeno” Eike Batista, a Friboi, e manteve intactas as relações espúrias entre governo e mega-empreiteiras (algo, aliás, presente fortemente no país desde a ditadura militar). A operação lava-jato está apenas começando a desvendar o labirinto de recursos e alianças estabelecido no governo petista, mas já é mais do que suficiente para tornar risível a hipótese de que os interesses “mercadológicos” seriam rivais inerentes do PT.

De forma simples, essa é uma campanha para subverter as conquistas democráticas brasileiras por grupos que por muito tempo odiaram os resultados de eleições democráticas, marchando de forma enganadora sob uma bandeira anti-corrupção: bastante similar ao golpe de 1964. De fato, muitos na direita do Brasil anseiam por uma restauração da ditadura, e grupos nesses protestos “anti-corrupção” pediram abertamente pelo fim da democracia.

Novamente, as pesquisas apontam que a grande maioria dos presentes rejeita a hipótese da intervenção militar. Simetricamente, indaga-se: a presença de grupos marxistas que abertamente pregam contra a chamada “democracia burguesa” e defendem a ditadura do proletariado desqualifica manifestações de esquerda?

A afirmação de que “de forma simples” conclui-se que o objetivo das demonstrações é “subverter conquistas democráticas” é, também, uma pura expressão ideológica, achismo. Creditar as preocupações anti-corrupção a uma “desculpa” sinistra para interesses sombrios é um ato de falta de caridade interpretativa: ignora completamente a posição de grupos rivais e os reduz à caricatura mais baixa. Repete-se: o PT por muitos anos navegou usando a bandeira da ética e da luta contra a corrupção. Era apenas falsidade, também?

O número de pessoas participando desses protestos — enquanto milhões — é muito pequeno em relação aos votos que reelegeram Dilma (54 milhões). Em uma democracia, governos são eleitos pelo voto, não por demonstrações de oposição na rua — particularmente quando os manifestantes vem de um segmento social relativamente limitado.

Reproduz-se aqui outro argumento extremamente conservador adotado pela linha de frente petista: “disputa é nas urnas”. Reduz-se a democracia e o jogo político a um cerimonial formalista e institucionalizado, caracteriza-se o embate público como mera “subversão”. Essa defesa da “lei e ordem” vinda de visões supostamente progressistas e combativas é assustadora. Desmonta-se a ideia de soberania popular, de mudança, de manifestação ativa, e preserva-se apenas uma visão minúscula e anêmica do que seria democracia. (Além de tudo, vale lembrar que a desaprovação do governo Dilma bate na casa dos 90%, e 67% apóiam o impeachment, embora não estejam todos esses na rua.)

Em seguida, Greenwald dedica-se a um “meme” que ganhou muita publicidade: a foto “impactante” da babá nos protestos. Esquece-se apenas de incluir a fala da própria mulher (instrumentalizada e objetificada pela claque supostamente progressista), que se disse mais incomodada pela exposição à que foi submetida por seus pretensos defensores, e que se coloca a favor da queda da presidente, ainda que reconheça que a corrupção é geral.

ACREDITAR QUE AS FIGURAS políticas agindo para o impeachment de Dilma estão sendo motivadas por uma autêntica cruzada anti-corrupção requer extrema ingenuidade ou ignorância. Para começar, as partes que seriam favorecidas pelo impeachment da Dilma estão pelo menos tão envolvidas quanto ela por escândalos de corrupção. Na maioria dos casos, até mais.

Sim. Novamente, chama-se política. Espantar-se com isso revela ou ingenuidade ou má-fé. Desde sempre grupos rivais utilizam a fraqueza de seus oponentes para derrubá-los. O que caberia a uma sociedade atenta é aproveitar as picuinhas do poder para atacá-lo, impor-lhe derrotas, exigir mudanças. Infelizmente, o que vemos é o contrário: adesão irrestrita a um lado ou outro, sem o menor esforço para impor condições ao apoio. Vale lembrar o apoio “crítico” do PSOL ao governo Dilma nas eleições em 2014, que surgiu espontaneamente, sem nenhum pensamento estratégico, sem nenhum pedido de mudança ao PT. Nesse sentido, a tão criticada Marina Silva ao menos exigiu concessões antes de apoiar Aécio Neves.

Cinco dos membros da comissão de impeachment estão sendo também investigados por estarem envolvidos no escândalo político. Isso inclui Paulo Maluf, que enfrenta um mandato de prisão da Interpol e não pode sair do país há anos; ele foi sentenciado na França três anos atrás por lavagem de dinheiro.

Seria bom lembrar que Paulo Maluf está na comissão para defender a presidente Dilma e se opor ao impeachment, algo que Greenwald convenientemente ignora. Mais: o Senador Collor, ex-presidente que caiu também por indícios de corrupção, chegou ao ponto de romper com seu partido pois era contrário à queda do governo. É claro que há corruptos a favor do impeachment, mas a banda de defesa do petismo está longe de ser idônea.

No congresso, o líder do movimento pelo impeachment, o extremista evangélico Eduardo Cunha, foi apontado como dono de múltiplas contas secretas em bancos na Suíça, onde ele guardava milhões de dólares que os promotores acreditam ser dinheiro recebido como suborno. Ele também é alvo de múltiplas investigações criminais em andamento.

Sim, Cunha é um provável criminoso. Mas Greenwald esquece de lembrar que o PMDB, seu partido, sempre foi um fiel aliado do governo petista, e que sua oposição ao governo começa após uma tentativa desastrada de Dilma para “desidratar” o pmdbismo fomentando o surgimento de novos partidos fisiológicos na base, como o PROS e o PSD. O tiro saiu pela cultra, e Cunha virou seu algoz. Cunha não é uma oposição “puro-sangue” do antipetismo, mas cria do próprio PT.

Em seguida, comenta-se Sergio Moro:

O juiz, Sérgio Moro, essa semana efetivamente divulgou para a mídia uma conversa gravada, extremamente vaga, entre Dilma e Lula, o que a Globo e outras forças anti-PT imediatamente retrataram como criminosas. Moro divulgou a gravação da conversa apenas algumas horas depois de ter sido feita.

Moro não “divulgou” gravação nenhuma. O sigilo quanto às investigações foi levantado, o que está longe de ser algo excepcional — na lei brasileira, a publicidade é norma, e o segredo, sim, deve ser estabelecido pela justiça. A revelação dos documentos tem clara significância política, mas o mecanismo pelo qual ela se deu é institucionalmente razoável.

Mas a conversa gravada foi liberada pelo juiz Moro sem nenhum processo e, pior, com claras intenções políticas, não judiciais: ele estava furioso, uma vez que sua investigação sobre Lula seria finalizada pela nomeação dele ao gabinete de ministro feita por Dilma (ministros só podem ser investigados pelo Supremo Tribunal).

Antes de tudo: Greenwald se dedica apenas ao uso político das gravações e ignora o seu conteúdo. É razoável que um político use da nomeação para um cargo para fugir de uma alçada da justiça? Isso é comum? Mais: mesmo que não seja o caso, a confiança pública estará com esse político? Lembremos: a mulher de César deve parecer honesta, não basta apenas sê-lo.

Mais: a caracterização de Moro como “furioso” é curiosa. Greenwald tem fontes quanto ao estado mental do Juiz? Ou é apenas conjectura narrativa, ficcional, ideológica?

A seguir, Greenwald comenta a progressiva batalha do judiciário contra o PT. A conduta de juízes buscando fama em sua atuação e as justificativas mal ajambradas por trás de um pedido de prisão preventiva são obviamente condenáveis, não temos discordância aqui. Vale lembrar, porém, que no vazamento de certa conversa, Lula acusa o Supremo Tribunal Federal de ser “acovardado”, além de ofender diversos outros poderes e indivíduos. Nada disso deve ajudar na disposição de tais entidades quanto ao ex-presidente.

Para terminar, Greenwald reconhece que o PT é cheio de problemas, mas reforça a posição de que não deve cair, pois seus rivais seriam entes interessados e desonestos — algo que é verdade em literalmente qualquer disputa política, e não deveria impedir investigações e derrocadas.

3.

O crucial para entender o artigo de Greenwald é focar-se no que ele não diz. A presença de uma multidão nas ruas, a oposição majoritária ao governo, o ódio antipetista — tudo isso é tratado como óbvio e resultado de um conluio mídia + elites ressentidas.

Ignora-se que o Brasil está em uma recessão sem precedentes — dois anos seguidos de queda do PIB na casa dos 4%, algo que literalmente nunca tinha acontecido antes no país. Ignora-se que o desemprego e a inflação crescem, que a população mais pobre é a mais afetada.

Ignora-se que há base para o pedido de impeachment. As chamadas pedaladas fiscais são um ato de contabilidade criativa absurdo, usadas para garantir uma eleição e simular saneamento das contas do governo, e fazem parte da criação do momento desesperador que vivemos. Mentiu-se aos eleitores para ganhar e hoje pagamos a conta.

Ao mesmo tempo, corre paralelo no Tribunal Superior Eleitoral um processo de cassação da chapa de Dilma Rousseff por uso de recursos ilícitos. O governo pode cair duas vezes, ambas de maneira institucionalmente legítima.

Na defesa do governo petista como esquerda acuada pelo conservadorismo, ignora-se o que esse governo efetivamente faz agora: congela o programa social mais importante do país (bolsa família), corta salários, corta gastos com educação. Ignora-se que a campanha petista em 2014 acusou seus rivais de desejarem fazer todos esses cortes, e depois traiu seus eleitores realizando-os.

Ignora-se a política predatória do governo Dilma, que massacrou indígenas em busca de um “progresso” técnico que ocupa imaginário semelhante aos ideais de “brasil grande, do futuro” caros à famigerada ditadura militar. Ignora-se a aliança do petismo ao autoritarismo grosseiro, as ocupações militares em favelas, as remoções de gente pobre e invisível para a realização de “grandes obras” (fontes de desvios e corrupção) como Belo Monte e os estádios da Copa do Mundo.

Ignora-se que boa parte do ódio ao petismo é um ódio dos traídos. Que o partido da ética e da mudança revelou-se fiador do imobilismo e da corrupção, abraçou os reacionarismos mais explícitos (quem hoje vê com horror a bancada evangélica e do agronegócio esquece-se convenientemente que foram extremamente alimentados pelo petismo).

Ignora-se, enfim, todo clima pesado, tóxico de insatisfação que paira no país. A narrativa que postula a influência da mídia levando aos protestos é uma inversão dos fatores: o ódio e desespero já estavam lá, e a mídia apenas pegou carona nesse bonde. Ela tem seus interesses, claro — todos temos. Mas não é dona do movimento, nem das vontades de todos.

É um texto, em resumo, elitista. Passa por cima de todos os anseios legítimos que surgem nesse momento de ruptura e impõe a narrativa formalista e institucional: tudo isso é apenas interferência de poderosos. É notável que Greenwald usa algumas vezes a palavra “subversão” para se referir à oposição: o conservadorismo governista se faz presente no vocabulário, semelhante ao usado pelos defensores do “contragolpe” militar em 1964.

É curioso que uma posição progressista, que supostamente trabalharia a favor da emancipação e legitimação dos interesses dos mais pobres e sem voz (e martela-se de novo que a crise engendrada pelo governo machuca bem mais aos pobres do que aos ricos), acabe se resumindo a isso: a um entronamento eterno e imóvel da influência dos poderes constituídos, e uma invisibilização de qualquer presença individual, popular, cidadã.

Espero que esse progressismo consiga se desligar dos laços afetivos e identitários gerados pelo petismo e se tornar novamente independente. Que consiga olhar mais para as pessoas e seus anseios e insatisfações e menos para as narrativas oficialescas, absolutas, fáceis. Não vai ser fácil.


Artigo originalmente postado no Medium do autor.


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escrito por:

Guilherme Assis

Tem 25 anos, trabalha com audiovisual e sempre se disse de esquerda. A definição mudou, mas ele continua o mesmo – sempre na oposição.


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