Planos malignos dos norteamericanos imperialistas para colocar o mundo de joelhos perante o Grande Capital, maquiavélicos estratagemas dos participantes do Foro de São Paulo para implantar o comunismo na América do Sul, tramóias de uma elite mundial de maçons secretamente manipulados por seres extradimensionais reptilianos: a verdade é que todo mundo adora uma teoria da conspiração. E temos bons motivos para isso.

É que observamos a realidade e ela parece ser caótica demais, complexa demais e imprevisível demais para que possamos aceitar que as coisas sejam realmente assim. Em primeiro lugar, é desconfortável viver em um mundo onde não há uma só explicação, simples e direta, sobre tudo de importante que acontece. A ideia de que nosso destino coletivo e os destinos individuais estão sujeitos não só ao jogo do acaso, mas, pior ainda, ao jogo de fatores tão complexos e numerosos que se torna impossível controlar o que nos acontecerá, é algo que a mente humana repudia.

Em segundo lugar, um mundo e uma sociedade onde não há ninguém específico para culpar pelos sofrimentos e mazelas é também uma conceito que perturba. E isso porque, se não há um grande inimigo (os Comunistas, o Grande Capital, o Mercado, os Maçons, o Judaísmo Internacional, os Alienígenas Extradimensionais Reptilianos) ao qual possamos atribuir todo o sangue e dor que perturba diariamente o curso de muitas vidas humanas, o que nos resta é compreender as motivações daqueles que etiquetamos como Grande Inimigo e cogitar até que ponto nós próprios não somos culpados pela confusão toda.

E por fim, mas talvez não menos importante, há um motivo puramente estético para todos nós secretamente gostarmos de uma boa teoria da conspiração. Viver num mundo em que há enormes estratagemas conspiratórios, poderosos grupos devotados ao Mal, grandes vilões e segredos funestos é muito mais emocionante e interessante do que viver num mundo de histórias fragmentadas, desastres sem culpados e pequenos detalhes mesquinhos. A realidade, em resumo, é muito sem graça.

A Era das Conspirações

Podemos ver isso claramente na obra de ficção mais alucinada em termos de teoria da conspiração já criada pela mente humana. Duvido que alguém consiga no futuro bolar uma história tão inventiva sobre teorias da conspiração como A Trilogia Illuminatus! (assim mesmo, com ponto de exclamação), um clássico do gênero escrito por Robert Shea e Anton Wilson.

Imagine que todas as teorias conspiratórias mais populares fossem incluídas em uma só história. Os três livros da trilogia envolvem sociedades secretas como os Illuminatis, planos de manipulação em massa da  Associação Médica Americana, bandas de rock que fizeram pactos com o Diabo, soldados nazistas que querem converter Hitler num deus e a invocação de monstros lovecraftianos – tudo numa suposta exposição de como o mundo realmente é do ponto de vista dos adeptos de teoria da conspiração. A mensagem é clara: esta vida aparentemente medíocre do cotidiano em que vivemos é apenas uma forma de nos hipnotizar e nos controlar enquanto pessoas mais espertas vivem a vida verdadeira, que é maravilhosamente repleta de histórias mirabolantes e guerras secretas travadas entre forças poderosas que determinam o destino da nossa sociedade.

Trilogia Illuminatus!: ninguém nunca viajou tanto na maionese.
Trilogia Illuminatus!: ninguém nunca viajou tanto na maionese.

Ao contrário do que se pode supor, teorias da conspiração não são exatamente uma novidade. Elas são uma herança da Idade Média, período no qual algumas lendas fantásticas surgiram sobre o mundo ser verdadeiramente controlado por grupos poderosos e ocultos. Porém, a partir do século XX essas teorias mirabolantes se multiplicaram e disseminaram feito a prole de um casal de coelhos no cio. Não há hoje um só evento histórico ou político de grande relevância sobre o qual não se desenvolva algum tipo de teoria da conspiração. Estamos, de fato, na era das conspirações.

A razão disso iremos abordar mais claramente em um texto futuro sobre a percepção humana da realidade a partir do fim do século dezenove. Mas por ora basta adiantar que é significativo o fato de que as teorias de conspiração se multiplicaram e encontraram mais adeptos no exato momento em que a ciência e a revolução tecnológico-industrial destronaram a religião como única forma de interpretar a realidade.

Basicamente, o substrato de toda teoria da conspiração é o mesmo substrato de qualquer religião: uma narrativa atraente e colorida, segundo a qual toda a história humana e também o destino de cada indivíduo pode ser explicado em termos de embates entre poderes ocultos que controlam os rumos de nossas vidas. Há os poderes bons, mas há também (e, de regra, tanto nas religiões quanto nas teorias de conspiração a ênfase está nesse ponto) os poderes que pretendem manipular os seres humanos com a mesma frieza com que mandamos o gado diariamente para o abate. Precisamos achar sempre grandes inimigos para culpar por nossas vidas amesquinhadas.

A ideia de que somos potenciais vítimas de um grande plano que pretende manipular nossa percepção da realidade e fazer com que nos comportemos como marionetes possui um julgamento moral subjacente, e é um julgamento contra a própria percepção da realidade que o espírito científico propõe: uma visão complexa, cética e atenta aos nuances de cada fato.

Isso ocorre pois nossa mente naturalmente repudia a natureza caótica do mundo, graças a qual nossos destinos são influenciados por centenas de fatores que não podemos controlar ou prever, e principalmente pelo acaso. Os adeptos de teorias da conspiração são filhos de seu tempo, e encontram dificuldades em aderir incondicionalmente à simplória explicação do mundo fornecida pelas grandes religiões. Tornaram-se, por assim dizer, imunes à grande anestesia dos sentidos propiciada pela literalização de símbolos que é feita por todas as religiões. Dessa forma, precisam de um analgésico mais modesto, que atenue o desconforto decorrente da percepção da realidade tal como ela é, e esse analgésico são as teorias conspiratórias.

O problema das teorias conspiratórias 

O problema central de todos aqueles que aderem a algum tipo de teoria da conspiração é retratado com maestria no hilariante filme Queime Depois de Ler, dos irmãos Coen. Na obra, moradores de Washington são contaminados pelo clima de paranoia oriundo da Guerra Fria e tratam eventos insignificantes, eventos demasiadamente humanos, como se fossem indícios de que estratagemas secretos e terríveis estão sendo tramados pela CIA e pelos adversários dos Estados Unidos.

Porém, todas as teorias conspiratórias formuladas no filme, e na vida real, esbarram em duas verdades inconvenientes.

A primeira é que o ser humano não é tão esperto assim, ao ponto de um grupo deles ser capaz de criar um plano secreto através do qual efetivamente manipule-se toda a sociedade por um tempo razoável, sem que sejam desmascarados ou acabem sabotando involuntariamente seus próprios planos. Nós simplesmente não somos macacos tão inteligentes e hábeis assim. Como demonstra a história, natureza humana é frágil e tola, mesmo nos seus melhores momentos, e ela está sujeita a inúmeros atos-falhos, a incontáveis armadilhas emocionais, sendo incapaz de elaborar e fazer funcionar, com eficiência, intrincados planos de conspiração que envolvem detalhes e variáveis demais para que todas as contingências sejam calculadas.

Os adeptos da teoria da conspiração têm a inteligência humana em alta conta. Porém, para uma espécie que mata a si própria, destrói o próprio ambiente em que vive e ao menos uma vez na história já se colocou na posição concreta de flertar com o absoluto auto-extermínio, essa visão de si própria é demasiadamente romântica e idealizada.

Queime depois de ler: como você pode dormir com tanta gente conspirando contra você neste momento???
Queime depois de ler: como você pode dormir com tanta gente conspirando contra você neste momento???

A segunda verdade consiste no fato de que a realidade, não só a natural mas também e principalmente a humana, é muito mais complexa do que qualquer plano mirabolante de controle secreto da sociedade poderia englobar em suas previsões. Qualquer fato do mundo moderno está sujeito continuamente à influência de tantos fatores, encontra-se inserida em relações de tamanha complexidade que se torna virtualmente impossível executar um plano secreto a longo prazo sem que ele acabe naufragando nos mares dessa realidade caótica.

Nesse aspecto, os adeptos da teoria da conspiração possuem uma visão muito simplória da vida e das relações sociais. E de certo modo essa visão simples e caricata é uma escolha voluntária, pois o que realmente não desejam perceber é o quanto o mundo ao seu redor pode lhes machucar e decepcionar de formas que não conseguem prever.

Em resumo, as teorias conspiratórias exigem uma eficiência incompatível com a desastrada natureza humana e uma simplicidade inexistente no mundo real.

Porém, observe que não estou dizendo que grupos secretos de conspiração não existem. O que estou dizendo é que eles não funcionam. Sim, pois após um século inteiro fomentando teorias conspiratórias na cultura popular por meio de livros, filmes e seriados, com certeza nossas mentes já estão familiarizadas o suficiente com o assunto para que alguns de nós comecem a cogitar como podem se aproveitar dessas ideias.

Estamos, com certeza, no limiar de uma nova fase da era das teorias conspiratórias. 

Os metaconspiradores 

Neste momento da história recente, temos em nossa sociedade pelo menos duas gerações de indivíduos criados num ambiente em que conspirações não são apenas um tópico presente em qualquer assunto em pauta nas conversas informais das mesas de bar, salas de aula e ambientes de trabalho – as teorias conspiratórias também integram grande parte da nossa produção cultural voltada ao entretenimento. É seguro dizer que consideramos já as conspirações uma das formas habituais de exercício e manutenção do poder – embora isso antes fosse apenas pura ficção.

Assim, apesar de até agora as teorias de conspiração terem habitado apenas nosso imaginário, é razoável supor que, a partir de determinado momento, indivíduos criados num ambiente cultural em que esse tipo de estratagema pareça não só possível como até mesmo normal passem eles próprios, quando estiverem lidando com o poder, a considerar a conspiração uma forma legítima de se manterem numa posição dominante e ampliarem seu controle sobre populações.

A respeito disso há um filme em geral esquecido de Sydney Pollack, intitulado Três dias do Condor. No filme, Robert Redford faz o papel de um sujeito que trabalha em um peculiar escritório da CIA. Sua função e a de seus colegas consiste em ler todos os livros, revistas e jornais possíveis, em busca de inventivas teorias conspiratórias boladas por escritores ou jornalistas criativos. Identificadas essas teorias, o próximo passo seria resumi-las e encaminhá-las para seus superiores da CIA, que considerariam a possibilidade de realmente implementar tais ideias como forma de ampliar o poder americano.

Parece inevitável que, em determinado momento da Era das Conspirações, quando as inventivas teorias conspiratórias criadas por mentes imaginativas (e, por vezes, alucinadas) adquirirem um notável nível de sofisticação e simultânea disseminação na cultura popular, aqueles que ascenderem a posições de poder passem a levar realmente a sério a possibilidade de utilizar estratagemas conspiratórios como uma das ferramentas para manter e aumentar o seu poder.

Nesse caso, podemos estar diante de uma nova tapa da Era das Conspirações: a fase dos metaconspiradores, ou seja, a fase em que indivíduos criados em um ambiente cultural no qual teorias conspiratórias são o arroz-com-feijão da cultura de massa tentem implementar, quando chegam a determinada posição de poder, eles próprios seus estratagemas conspiratórios. Os metaconspiradores (meta no sentido de que metaficção designa aqueles casos em que a própria natureza ficcional de uma obra é incluída na história) estariam criando as primeiras metaconspirações.

E, se isso ocorrer, estamos razoavelmente fodidos.

Três Dias do Condor: e quando a ficção alucinada começar a dar boas ideias?
Três Dias do Condor: e quando a ficção alucinada começar a dar boas ideias?

Mas Victor, você disse que isso não funciona, que os seres humanos não são inteligentes o bastante, e que a realidade é complexa demais. É o que alguém pode argumentar, e com razão.

De fato, a mente humana, como disse, é pouco criativa e inteligente – e isso é uma verdade ainda maior em relação à mente daqueles que adquirem posições de efetivo poder na nossa sociedade. A conquista, pela força e astúcia, de posições de poder deixa pouco espaço para a sofisticação criativa.

Ocorre que, ao lado desses indivíduos práticos o suficiente para ascenderem ao poder (ou que já nasceram em situações de poder devido a sua família), há alguns raros e criativos indivíduos, incapazes eles próprios de conquistarem do poder (ou simplesmente desinteressados) mas por isso mesmo aptos a devotar muito de seu tempo e energia intelectual à elaboração teórica de complexos esquemas conspiratórios. Falo dos artistas, dos escritores, dos roteiristas e dos malucos que alardeiam suas supostas verdade a respeito de alguma conspiração mundial.

Resumindo, hoje em dia há material suficiente já produzido na literatura e no cinema para que os detentores do poder comecem a considerar, no ápice de seu pragmatismo, se essa doidera de conspirações secretas e manipuladoras dos destinos humanos não seria, de fato, um bom recurso para a manutenção e expansão do seu poder.

Ainda assim, é claro, há muito espaço para que a insuficiente inteligência humana faça bobagens e sabote uma conspiração secreta, mesmo que muito bem construída. Ocorre que, em primeiro lugar, até a derrocada dessa metaconspiração, muita dor e sofrimento seria produzido em suas vítimas.

Em segundo lugar, a falta de inteligência humana e a extrema complexidade da realidade encontram neste momento da nossa história um adversário, senão à altura, ao menos desafiador. É que uma das características humanas, e que nos fez sobreviver por tanto tempo, consiste na habilidade de suprir nossas limitações com ferramentas ampliadoras de nossas faculdades. Assim como construímos a luneta para ampliar o alcance de nossa visão, e diversos maquinários para suprir os limites de nossa força física, nós criamos a tecnologia e os algoritmos informacionais para suprir os limites de nossa inteligência.

Em palavras mais simples, este é o pior momento para alguém decidir colocar em prática aquelas teorias conspiratórias imaginadas por mentes criativas, pois elas adquiriram um nível de sofisticação elevado o suficiente para fazer frente às nossas limitações intelectuais. Além disso, a tecnologia de que dispomos hoje em dia (câmeras e GPS em todos os celulares, câmeras em todos os ambientes públicos, informações pessoais compartilhadas em redes sociais, a quantidade absurda de informação que compõe o big data e, por fim, o horizonte da inteligência artificial) é capaz de fazer frente ao desafio que é controlar uma sociedade extremamente complexa como a nossa.

E esse tópico em específico merecerá três outros artigos que demonstram a seguinte proposição: nunca, na história humana, foi tão perigoso e possível sermos vitimizados por uma metaconspiração de indivíduos poderosos. Em primeiro lugar, porque nunca houve indivíduos realmente tão poderosos quanto hoje em dia. Em segundo lugar, porque no século vinte acumulou-se conhecimento suficiente sobre a natureza humana a ponto de torná-la suscetível de manipulação. Em terceiro lugar, porque nunca houve tanta tecnologia disponível para a manipulação e vigilância de grandes populações.

As conspirações até hoje foram o subproduto fantasioso de uma sociedade incapaz de lidar com sua própria complexidade. A partir de determinado momento, essas ideias mirabolantes serão encaradas como estratégias legítimas de manutenção e expansão do poder. É uma forma de “profecia autorrealizável“: de tanto expressarmos culturalmente o medo de que nossas vidas estejam sendo controladas por conspiradores poderosos, esse delírio pode acabar tornando-se pura realidade. E, nesse caso, todos os malucos paranoicos do passado terão sua vingança final por termos achado tanta graça de suas teorias conspiratórias. Invertendo a famosa frase de Marx (“a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa”), poderemos dizer que nossos piores temores se repetem, primeiro como farsa fantasiosa, depois como tragédia real.

escrito por:

Victor Lisboa

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