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A Era das Conspirações

Em Comportamento, Consciência, O MELHOR DO AZ por Victor LisboaComentário

Pla­nos malig­nos dos nor­te­a­me­ri­ca­nos impe­ri­a­lis­tas para colo­car o mundo de joe­lhos perante o Grande Capi­tal, maqui­a­vé­li­cos estra­ta­ge­mas dos par­ti­ci­pan­tes do Foro de São Paulo para implan­tar o comu­nismo na Amé­rica do Sul, tra­móias de uma elite mun­dial de maçons secre­ta­mente mani­pu­la­dos por seres extra­di­men­si­o­nais rep­ti­li­a­nos: a ver­dade é que todo mundo adora uma teo­ria da cons­pi­ra­ção. E temos bons moti­vos para isso.

É que obser­va­mos a rea­li­dade e ela parece ser caó­tica demais, com­plexa demais e impre­vi­sí­vel demais para que pos­sa­mos acei­tar que as coi­sas sejam real­mente assim. Em pri­meiro lugar, é des­con­for­tá­vel viver em um mundo onde não há uma só expli­ca­ção, sim­ples e direta, sobre tudo de impor­tante que acon­tece. A ideia de que nosso des­tino cole­tivo e os des­ti­nos indi­vi­du­ais estão sujei­tos não só ao jogo do acaso, mas, pior ainda, ao jogo de fato­res tão com­ple­xos e nume­ro­sos que se torna impos­sí­vel con­tro­lar o que nos acon­te­cerá, é algo que a mente humana repu­dia.

Em segundo lugar, um mundo e uma soci­e­dade onde não há nin­guém espe­cí­fico para cul­par pelos sofri­men­tos e maze­las é tam­bém uma con­ceito que per­turba. E isso por­que, se não há um grande ini­migo (os Comu­nis­tas, o Grande Capi­tal, o Mer­cado, os Maçons, o Judaísmo Inter­na­ci­o­nal, os Ali­e­ní­ge­nas Extra­di­men­si­o­nais Rep­ti­li­a­nos) ao qual pos­sa­mos atri­buir todo o san­gue e dor que per­turba dia­ri­a­mente o curso de mui­tas vidas huma­nas, o que nos resta é com­pre­en­der as moti­va­ções daque­les que eti­que­ta­mos como Grande Ini­migo e cogi­tar até que ponto nós pró­prios não somos cul­pa­dos pela con­fu­são toda.

E por fim, mas tal­vez não menos impor­tante, há um motivo pura­mente esté­tico para todos nós secre­ta­mente gos­tar­mos de uma boa teo­ria da cons­pi­ra­ção. Viver num mundo em que há enor­mes estra­ta­ge­mas cons­pi­ra­tó­rios, pode­ro­sos gru­pos devo­ta­dos ao Mal, gran­des vilões e segre­dos funes­tos é muito mais emo­ci­o­nante e inte­res­sante do que viver num mundo de his­tó­rias frag­men­ta­das, desas­tres sem cul­pa­dos e peque­nos deta­lhes mes­qui­nhos. A rea­li­dade, em resumo, é muito sem graça.

 

A Era das Conspirações

Pode­mos ver isso cla­ra­mente na obra de fic­ção mais alu­ci­nada em ter­mos de teo­ria da cons­pi­ra­ção já cri­ada pela mente humana. Duvido que alguém con­siga no futuro bolar uma his­tó­ria tão inven­tiva sobre teo­rias da cons­pi­ra­ção como A Tri­lo­gia Illu­mi­na­tus! (assim mesmo, com ponto de excla­ma­ção), um clás­sico do gênero escrito por Robert Shea e Anton Wil­son.

Ima­gine que todas as teo­rias cons­pi­ra­tó­rias mais popu­la­res fos­sem incluí­das em uma só his­tó­ria. Os três livros da tri­lo­gia envol­vem soci­e­da­des secre­tas como os Illu­mi­na­tis, pla­nos de mani­pu­la­ção em massa da  Asso­ci­a­ção Médica Ame­ri­cana, ban­das de rock que fize­ram pac­tos com o Diabo, sol­da­dos nazis­tas que que­rem con­ver­ter Hitler num deus e a invo­ca­ção de mons­tros love­craf­ti­a­nos — tudo numa suposta expo­si­ção de como o mundo real­mente é do ponto de vista dos adep­tos de teo­ria da cons­pi­ra­ção. A men­sa­gem é clara: esta vida apa­ren­te­mente medío­cre do coti­di­ano em que vive­mos é ape­nas uma forma de nos hip­no­ti­zar e nos con­tro­lar enquanto pes­soas mais esper­tas vivem a vida ver­da­deira, que é mara­vi­lho­sa­mente repleta de his­tó­rias mira­bo­lan­tes e guer­ras secre­tas tra­va­das entre for­ças pode­ro­sas que deter­mi­nam o des­tino da nossa soci­e­dade.

Trilogia Illuminatus!: ninguém nunca viajou tanto na maionese.

Tri­lo­gia Illu­mi­na­tus!: nin­guém nunca via­jou tanto na mai­o­nese.

Ao con­trá­rio do que se pode supor, teo­rias da cons­pi­ra­ção não são exa­ta­mente uma novi­dade. Elas são uma herança da Idade Média, período no qual algu­mas len­das fan­tás­ti­cas sur­gi­ram sobre o mundo ser ver­da­dei­ra­mente con­tro­lado por gru­pos pode­ro­sos e ocul­tos. Porém, a par­tir do século XX essas teo­rias mira­bo­lan­tes se mul­ti­pli­ca­ram e dis­se­mi­na­ram feito a prole de um casal de coe­lhos no cio. Não há hoje um só evento his­tó­rico ou polí­tico de grande rele­vân­cia sobre o qual não se desen­volva algum tipo de teo­ria da cons­pi­ra­ção. Esta­mos, de fato, na era das cons­pi­ra­ções.

A razão disso ire­mos abor­dar mais cla­ra­mente em um texto futuro sobre a per­cep­ção humana da rea­li­dade a par­tir do fim do século deze­nove. Mas por ora basta adi­an­tar que é sig­ni­fi­ca­tivo o fato de que as teo­rias de cons­pi­ra­ção se mul­ti­pli­ca­ram e encon­tra­ram mais adep­tos no exato momento em que a ciên­cia e a revo­lu­ção tec­no­ló­gico-indus­trial des­tro­na­ram a reli­gião como única forma de inter­pre­tar a rea­li­dade.

Basi­ca­mente, o subs­trato de toda teo­ria da cons­pi­ra­ção é o mesmo subs­trato de qual­quer reli­gião: uma nar­ra­tiva atra­ente e colo­rida, segundo a qual toda a his­tó­ria humana e tam­bém o des­tino de cada indi­ví­duo pode ser expli­cado em ter­mos de emba­tes entre pode­res ocul­tos que con­tro­lam os rumos de nos­sas vidas. Há os pode­res bons, mas há tam­bém (e, de regra, tanto nas reli­giões quanto nas teo­rias de cons­pi­ra­ção a ênfase está nesse ponto) os pode­res que pre­ten­dem mani­pu­lar os seres huma­nos com a mesma fri­eza com que man­da­mos o gado dia­ri­a­mente para o abate. Pre­ci­sa­mos achar sem­pre gran­des ini­mi­gos para cul­par por nos­sas vidas ames­qui­nha­das.

A ideia de que somos poten­ci­ais víti­mas de um grande plano que pre­tende mani­pu­lar nossa per­cep­ção da rea­li­dade e fazer com que nos com­por­te­mos como mari­o­ne­tes pos­sui um jul­ga­mento moral sub­ja­cente, e é um jul­ga­mento con­tra a pró­pria per­cep­ção da rea­li­dade que o espí­rito cien­tí­fico pro­põe: uma visão com­plexa, cética e atenta aos nuan­ces de cada fato.

Isso ocorre pois nossa mente natu­ral­mente repu­dia a natu­reza caó­tica do mundo, gra­ças a qual nos­sos des­ti­nos são influ­en­ci­a­dos por cen­te­nas de fato­res que não pode­mos con­tro­lar ou pre­ver, e prin­ci­pal­mente pelo acaso. Os adep­tos de teo­rias da cons­pi­ra­ção são filhos de seu tempo, e encon­tram difi­cul­da­des em ade­rir incon­di­ci­o­nal­mente à sim­pló­ria expli­ca­ção do mundo for­ne­cida pelas gran­des reli­giões. Tor­na­ram-se, por assim dizer, imu­nes à grande anes­te­sia dos sen­ti­dos pro­pi­ci­ada pela lite­ra­li­za­ção de sím­bo­los que é feita por todas as reli­giões. Dessa forma, pre­ci­sam de um anal­gé­sico mais modesto, que ate­nue o des­con­forto decor­rente da per­cep­ção da rea­li­dade tal como ela é, e esse anal­gé­sico são as teo­rias cons­pi­ra­tó­rias.

 

O problema das teorias conspiratórias 

O pro­blema cen­tral de todos aque­les que ade­rem a algum tipo de teo­ria da cons­pi­ra­ção é retra­tado com maes­tria no hila­ri­ante filme Queime Depois de Ler, dos irmãos Coen. Na obra, mora­do­res de Washing­ton são con­ta­mi­na­dos pelo clima de para­noia oriundo da Guerra Fria e tra­tam even­tos insig­ni­fi­can­tes, even­tos dema­si­a­da­mente huma­nos, como se fos­sem indí­cios de que estra­ta­ge­mas secre­tos e ter­rí­veis estão sendo tra­ma­dos pela CIA e pelos adver­sá­rios dos Esta­dos Uni­dos.

Porém, todas as teo­rias cons­pi­ra­tó­rias for­mu­la­das no filme, e na vida real, esbar­ram em duas ver­da­des incon­ve­ni­en­tes.

A pri­meira é que o ser humano não é tão esperto assim, ao ponto de um grupo deles ser capaz de criar um plano secreto atra­vés do qual efe­ti­va­mente mani­pule-se toda a soci­e­dade por um tempo razoá­vel, sem que sejam des­mas­ca­ra­dos ou aca­bem sabo­tando invo­lun­ta­ri­a­mente seus pró­prios pla­nos. Nós sim­ples­mente não somos maca­cos tão inte­li­gen­tes e hábeis assim. Como demons­tra a his­tó­ria, natu­reza humana é frá­gil e tola, mesmo nos seus melho­res momen­tos, e ela está sujeita a inú­me­ros atos-falhos, a incon­tá­veis arma­di­lhas emo­ci­o­nais, sendo inca­paz de ela­bo­rar e fazer fun­ci­o­nar, com efi­ci­ên­cia, intrin­ca­dos pla­nos de cons­pi­ra­ção que envol­vem deta­lhes e variá­veis demais para que todas as con­tin­gên­cias sejam cal­cu­la­das.

Os adep­tos da teo­ria da cons­pi­ra­ção têm a inte­li­gên­cia humana em alta conta. Porém, para uma espé­cie que mata a si pró­pria, des­trói o pró­prio ambi­ente em que vive e ao menos uma vez na his­tó­ria já se colo­cou na posi­ção con­creta de fler­tar com o abso­luto auto-exter­mí­nio, essa visão de si pró­pria é dema­si­a­da­mente român­tica e ide­a­li­zada.

Queime depois de ler: como você pode dormir com tanta gente conspirando contra você neste momento???

Queime depois de ler: como você pode dor­mir com tanta gente cons­pi­rando con­tra você neste momento???

A segunda ver­dade con­siste no fato de que a rea­li­dade, não só a natu­ral mas tam­bém e prin­ci­pal­mente a humana, é muito mais com­plexa do que qual­quer plano mira­bo­lante de con­trole secreto da soci­e­dade pode­ria englo­bar em suas pre­vi­sões. Qual­quer fato do mundo moderno está sujeito con­ti­nu­a­mente à influên­cia de tan­tos fato­res, encon­tra-se inse­rida em rela­ções de tama­nha com­ple­xi­dade que se torna vir­tu­al­mente impos­sí­vel exe­cu­tar um plano secreto a longo prazo sem que ele acabe nau­fra­gando nos mares dessa rea­li­dade caó­tica.

Nesse aspecto, os adep­tos da teo­ria da cons­pi­ra­ção pos­suem uma visão muito sim­pló­ria da vida e das rela­ções soci­ais. E de certo modo essa visão sim­ples e cari­cata é uma esco­lha volun­tá­ria, pois o que real­mente não dese­jam per­ce­ber é o quanto o mundo ao seu redor pode lhes machu­car e decep­ci­o­nar de for­mas que não con­se­guem pre­ver.

Em resumo, as teo­rias cons­pi­ra­tó­rias exi­gem uma efi­ci­ên­cia incom­pa­tí­vel com a desas­trada natu­reza humana e uma sim­pli­ci­dade ine­xis­tente no mundo real.

Porém, observe que não estou dizendo que gru­pos secre­tos de cons­pi­ra­ção não exis­tem. O que estou dizendo é que eles não fun­ci­o­nam. Sim, pois após um século inteiro fomen­tando teo­rias cons­pi­ra­tó­rias na cul­tura popu­lar por meio de livros, fil­mes e seri­a­dos, com cer­teza nos­sas men­tes já estão fami­li­a­ri­za­das o sufi­ci­ente com o assunto para que alguns de nós come­cem a cogi­tar como podem se apro­vei­tar des­sas ideias.

Esta­mos, com cer­teza, no limiar de uma nova fase da era das teo­rias cons­pi­ra­tó­rias.

 

Os metaconspiradores 

Neste momento da his­tó­ria recente, temos em nossa soci­e­dade pelo menos duas gera­ções de indi­ví­duos cri­a­dos num ambi­ente em que cons­pi­ra­ções não são ape­nas um tópico pre­sente em qual­quer assunto em pauta nas con­ver­sas infor­mais das mesas de bar, salas de aula e ambi­en­tes de tra­ba­lho — as teo­rias cons­pi­ra­tó­rias tam­bém inte­gram grande parte da nossa pro­du­ção cul­tu­ral vol­tada ao entre­te­ni­mento. É seguro dizer que con­si­de­ra­mos já as cons­pi­ra­ções uma das for­mas habi­tu­ais de exer­cí­cio e manu­ten­ção do poder — embora isso antes fosse ape­nas pura fic­ção.

Assim, ape­sar de até agora as teo­rias de cons­pi­ra­ção terem habi­tado ape­nas nosso ima­gi­ná­rio, é razoá­vel supor que, a par­tir de deter­mi­nado momento, indi­ví­duos cri­a­dos num ambi­ente cul­tu­ral em que esse tipo de estra­ta­gema pareça não só pos­sí­vel como até mesmo nor­mal pas­sem eles pró­prios, quando esti­ve­rem lidando com o poder, a con­si­de­rar a cons­pi­ra­ção uma forma legí­tima de se man­te­rem numa posi­ção domi­nante e ampli­a­rem seu con­trole sobre popu­la­ções.

A res­peito disso há um filme em geral esque­cido de Syd­ney Pol­lack, inti­tu­lado Três dias do Con­dor. No filme, Robert Red­ford faz o papel de um sujeito que tra­ba­lha em um pecu­liar escri­tó­rio da CIA. Sua fun­ção e a de seus cole­gas con­siste em ler todos os livros, revis­tas e jor­nais pos­sí­veis, em busca de inven­ti­vas teo­rias cons­pi­ra­tó­rias bola­das por escri­to­res ou jor­na­lis­tas cri­a­ti­vos. Iden­ti­fi­ca­das essas teo­rias, o pró­ximo passo seria resumi-las e enca­mi­nhá-las para seus supe­ri­o­res da CIA, que con­si­de­ra­riam a pos­si­bi­li­dade de real­mente imple­men­tar tais ideias como forma de ampliar o poder ame­ri­cano.

Parece ine­vi­tá­vel que, em deter­mi­nado momento da Era das Cons­pi­ra­ções, quando as inven­ti­vas teo­rias cons­pi­ra­tó­rias cri­a­das por men­tes ima­gi­na­ti­vas (e, por vezes, alu­ci­na­das) adqui­ri­rem um notá­vel nível de sofis­ti­ca­ção e simul­tâ­nea dis­se­mi­na­ção na cul­tura popu­lar, aque­les que ascen­de­rem a posi­ções de poder pas­sem a levar real­mente a sério a pos­si­bi­li­dade de uti­li­zar estra­ta­ge­mas cons­pi­ra­tó­rios como uma das fer­ra­men­tas para man­ter e aumen­tar o seu poder.

Nesse caso, pode­mos estar diante de uma nova tapa da Era das Cons­pi­ra­ções: a fase dos meta­cons­pi­ra­do­res, ou seja, a fase em que indi­ví­duos cri­a­dos em um ambi­ente cul­tu­ral no qual teo­rias cons­pi­ra­tó­rias são o arroz-com-fei­jão da cul­tura de massa ten­tem imple­men­tar, quando che­gam a deter­mi­nada posi­ção de poder, eles pró­prios seus estra­ta­ge­mas cons­pi­ra­tó­rios. Os meta­cons­pi­ra­do­res (meta no sen­tido de que meta­fic­ção designa aque­les casos em que a pró­pria natu­reza fic­ci­o­nal de uma obra é incluída na his­tó­ria) esta­riam cri­ando as pri­mei­ras meta­cons­pi­ra­ções.

E, se isso ocor­rer, esta­mos razo­a­vel­mente fodi­dos.

Três Dias do Condor: e quando a ficção alucinada começar a dar boas ideias?

Três Dias do Con­dor: e quando a fic­ção alu­ci­nada come­çar a dar boas ideias?

Mas Vic­tor, você disse que isso não fun­ci­ona, que os seres huma­nos não são inte­li­gen­tes o bas­tante, e que a rea­li­dade é com­plexa demais. É o que alguém pode argu­men­tar, e com razão.

De fato, a mente humana, como disse, é pouco cri­a­tiva e inte­li­gente — e isso é uma ver­dade ainda maior em rela­ção à mente daque­les que adqui­rem posi­ções de efe­tivo poder na nossa soci­e­dade. A con­quista, pela força e astú­cia, de posi­ções de poder deixa pouco espaço para a sofis­ti­ca­ção cri­a­tiva.

Ocorre que, ao lado des­ses indi­ví­duos prá­ti­cos o sufi­ci­ente para ascen­de­rem ao poder (ou que já nas­ce­ram em situ­a­ções de poder devido a sua famí­lia), há alguns raros e cri­a­ti­vos indi­ví­duos, inca­pa­zes eles pró­prios de con­quis­ta­rem do poder (ou sim­ples­mente desin­te­res­sa­dos) mas por isso mesmo aptos a devo­tar muito de seu tempo e ener­gia inte­lec­tual à ela­bo­ra­ção teó­rica de com­ple­xos esque­mas cons­pi­ra­tó­rios. Falo dos artis­tas, dos escri­to­res, dos rotei­ris­tas e dos malu­cos que alar­deiam suas supos­tas ver­dade a res­peito de alguma cons­pi­ra­ção mun­dial.

Resu­mindo, hoje em dia há mate­rial sufi­ci­ente já pro­du­zido na lite­ra­tura e no cinema para que os deten­to­res do poder come­cem a con­si­de­rar, no ápice de seu prag­ma­tismo, se essa doi­dera de cons­pi­ra­ções secre­tas e mani­pu­la­do­ras dos des­ti­nos huma­nos não seria, de fato, um bom recurso para a manu­ten­ção e expan­são do seu poder.

Ainda assim, é claro, há muito espaço para que a insu­fi­ci­ente inte­li­gên­cia humana faça boba­gens e sabote uma cons­pi­ra­ção secreta, mesmo que muito bem cons­truída. Ocorre que, em pri­meiro lugar, até a der­ro­cada dessa meta­cons­pi­ra­ção, muita dor e sofri­mento seria pro­du­zido em suas víti­mas.

Em segundo lugar, a falta de inte­li­gên­cia humana e a extrema com­ple­xi­dade da rea­li­dade encon­tram neste momento da nossa his­tó­ria um adver­sá­rio, senão à altura, ao menos desa­fi­a­dor. É que uma das carac­te­rís­ti­cas huma­nas, e que nos fez sobre­vi­ver por tanto tempo, con­siste na habi­li­dade de suprir nos­sas limi­ta­ções com fer­ra­men­tas ampli­a­do­ras de nos­sas facul­da­des. Assim como cons­truí­mos a luneta para ampliar o alcance de nossa visão, e diver­sos maqui­ná­rios para suprir os limi­tes de nossa força física, nós cri­a­mos a tec­no­lo­gia e os algo­rit­mos infor­ma­ci­o­nais para suprir os limi­tes de nossa inte­li­gên­cia.

Em pala­vras mais sim­ples, este é o pior momento para alguém deci­dir colo­car em prá­tica aque­las teo­rias cons­pi­ra­tó­rias ima­gi­na­das por men­tes cri­a­ti­vas, pois elas adqui­ri­ram um nível de sofis­ti­ca­ção ele­vado o sufi­ci­ente para fazer frente às nos­sas limi­ta­ções inte­lec­tu­ais. Além disso, a tec­no­lo­gia de que dis­po­mos hoje em dia (câme­ras e GPS em todos os celu­la­res, câme­ras em todos os ambi­en­tes públi­cos, infor­ma­ções pes­so­ais com­par­ti­lha­das em redes soci­ais, a quan­ti­dade absurda de infor­ma­ção que com­põe o big data e, por fim, o hori­zonte da inte­li­gên­cia arti­fi­cial) é capaz de fazer frente ao desa­fio que é con­tro­lar uma soci­e­dade extre­ma­mente com­plexa como a nossa.

E esse tópico em espe­cí­fico mere­cerá três outros arti­gos que demons­tram a seguinte pro­po­si­ção: nunca, na his­tó­ria humana, foi tão peri­goso e pos­sí­vel ser­mos viti­mi­za­dos por uma meta­cons­pi­ra­ção de indi­ví­duos pode­ro­sos. Em pri­meiro lugar, por­que nunca houve indi­ví­duos real­mente tão pode­ro­sos quanto hoje em dia. Em segundo lugar, por­que no século vinte acu­mu­lou-se conhe­ci­mento sufi­ci­ente sobre a natu­reza humana a ponto de torná-la sus­ce­tí­vel de mani­pu­la­ção. Em ter­ceiro lugar, por­que nunca houve tanta tec­no­lo­gia dis­po­ní­vel para a mani­pu­la­ção e vigi­lân­cia de gran­des popu­la­ções.

As cons­pi­ra­ções até hoje foram o sub­pro­duto fan­ta­si­oso de uma soci­e­dade inca­paz de lidar com sua pró­pria com­ple­xi­dade. A par­tir de deter­mi­nado momento, essas ideias mira­bo­lan­tes serão enca­ra­das como estra­té­gias legí­ti­mas de manu­ten­ção e expan­são do poder. É uma forma de “pro­fe­cia autor­re­a­li­zá­vel”: de tanto expres­sar­mos cul­tu­ral­mente o medo de que nos­sas vidas este­jam sendo con­tro­la­das por cons­pi­ra­do­res pode­ro­sos, esse delí­rio pode aca­bar tor­nando-se pura rea­li­dade. E, nesse caso, todos os malu­cos para­noi­cos do pas­sado terão sua vin­gança final por ter­mos achado tanta graça de suas teo­rias cons­pi­ra­tó­rias. Inver­tendo a famosa frase de Marx (“a his­tó­ria se repete, pri­meiro como tra­gé­dia, depois como farsa”), pode­re­mos dizer que nos­sos pio­res temo­res se repe­tem, pri­meiro como farsa fan­ta­si­osa, depois como tra­gé­dia real.

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Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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