Ultimamente, fala-se muito daquilo que chamam de epidemia de obesidade. A obesidade, de um dia para o outro, tornou-se o problema número um da saúde pública, colocando milhões de pessoas em risco. Mas como isso aconteceu?

Bom, é necessário realizarmos toda uma análise histórica e social para respondermos a esta pergunta.

A REVOLUÇÃO

Durante o século XIX e XX, a sociedade passou por um processo de urbanização, industrialização e revolução tecnológica. O modelo populacional estava mudando da sociedade agrária para a urbana, o que mudou muitas coisas – dentre elas, o perfil de trabalho, alimentação e lazer.

A industrialização fez com que houvesse uma grande oferta de mão de obra para a indústria emergente, fazendo com que as pessoas abandonassem o trabalho no campo, que era predominantemente mais braçal, exigindo das pessoas grande gasto de energia em atividades como cultivar o solo e manejar o gado. Na indústria, o esforço é menor, pois a utilização as máquinas (e, posteriormente, de meios robóticos) auxilia na produção, fazendo com que haja menor consumo de energia humana.

Além disso, em paralelo à indústria cresceu também os trabalhos administrativos, que ocorrem em apoio e em paralelo à produção industrial, e cuja demanda de energia humana é mínima, pois a maior parte de suas tarefas é mental.

Essa urbanização da sociedade mudou o perfil da sociedade. Os centros urbanos, onde as indústrias se estabeleceram, começaram a crescer populacionalmente de forma acelerada. Este crescimento fez com que a demanda por alimentos aumentasse, fomentando a necessidade de se desenvolver toda uma indústria alimentícia. A produção rural era considerada inadequada para abastecer grandes contingentes populacionais por ser perecível, ou seja, possui uma curta validade para armazenamento.

Simultaneamente a esse processo de urbanização e industrialização, temos a evolução tecnológica, que atingiu não apenas a indústria, mas as telecomunicações e o lazer. Hoje, temos uma enorme acessibilidade aos meios de comunicação, além de contarmos com aparelhos eletrodomésticos que facilitam as tarefas diárias e com as opções de lazer passivo oferecidas pela internet e TV.

Imagem 1 utilizada no corpo do texto "A Economia da Obesidade", de Franz Wasielewski, publicado no Portal Ano Zero. Na imagem, Homer Simpson, da série "Os Simpsons", está ao centro, deitado no sofá de sua sala de estar, comendo porcarias, atirado e com a barriga, exposta, para cima.

Agora, não precisamos mais nos deslocar para entrar em contato com alguém, a ida ao cinema pode ser substituída pela TV a cabo ou por sites de filmes on demand. Ao mesmo tempo, nossa interação social torna-se mais virtual e não presencial, já que é mais fácil falar com os amigos em um grupo de Whatsapp do que reunir todos em um mesmo espaço.

Ou seja, com a tecnologia, e consequentemente com a virtualização das relações interpessoais e de lazer, nosso gasto energético diminuiu.

Como escreveu Frei Beto em seu livro Mosca Azul, na Revolução Industrial “o excedente da produção e a mercadoria supérflua encontraram na publicidade a alavanca de que necessitavam para induzir a população a comprar mais do que precisa e considerar imprescindível o que, a rigor, é supérfluo e até mesmo prejudicial à saúde, como alimentos ricos em açúcares e gordura saturada”.

Até agora, o que se pode concluir é que a obesidade ocorreu devido à redução de nosso gasto de energia, certo? A resposta é nem sim, nem não, mas também. Temos agora que avançar mais um pouco.

A “RIQUEZA CALÓRICA”

Referi-me à necessidade de uma indústria alimentícia. Essa indústria tinha por finalidade fazer alimentos com maior durabilidade, maiores prazos de validade. Mas ao mesmo tempo ocorria nos centros urbanos um fenômeno social importantíssimo: a desnutrição, causada pela fome por causa das desigualdades sociais. Isso fez com que órgãos mundiais de saúde determinassem que era obrigação dos governos de cada país suprir as carências nutricionais de seus cidadãos.

E a solução proposta foi suprir as necessidades energéticas pela ingestão de calorias que dessem condições necessárias para que uma pessoa pudesse sobreviver e trabalhar. A indústria alimentícia, para atender a essa demanda por calorias, adotou a estratégia de produzir alimentos com altos teores de gorduras e açúcares, utilizando sais (sódio) como meios de conservação.

Uma preocupação social é, desde o início, a alimentação infantil. Todas as sociedades têm a preocupação de querer ver seus filhos bem nutridos e saudáveis. Ainda mais em países onde a mortalidade infantil seja alta por causa da desnutrição e da fome. Essas duas palavras, nutritivo e saudável, são elementos chaves para a comercialização de alimentos processados.

Afinal, quem não quer comer algo que seja gostoso e ao mesmo tempo nutritivo e saudável? Alimentos altamente gordurosos e açucarados foram então oferecidos para atender a essa demanda por calorias. A propaganda transformou o alimento processado em algo essencial à vida (ricos ou fortes), em detrimento de vegetais, frutas e verduras. Aliás, frutas, verduras e legumes fornecem poucas calorias – logo eram alimentos considerados “fracos” ou “pobres”.

O interessante é a divisão alimentar entre rico/forte e pobre/fraco. Os alimentos foram abordados não apenas por seus valores nutricionais, mas também de acordo com a sua acessibilidade de consumo. No início, os produtos processados eram caros, adquiridos em supermercados, destinado à classe média e alta, enquanto as feiras de rua eram reservadas às pessoas pobres.

Imagem 2 incorporada ao artigo "A Economia da Obesidade", de Franz Wasielewski, publicado no Portal Ano Zero. Na imagem, uma publicidade da marca Maizena, com uma criança se alimentando com uma mamadeira em mãos.

Durante algum tempo, era motivo de orgulho para uma pessoa da classe baixa adquirir alimento industrializado, pois isso lhe conferia um maior status social. Com o decorrer do tempo, houve o barateamento do custo dos alimentos processados, o que resultou no aumento de seu consumo pela população de baixa renda. A vantagem, agora, não estava apenas em sua durabilidade, mas também no seu preço, e isso em detrimento dos alimentos vendidos nas feiras livres. Hoje as pessoas se sentem felizes em terem nas suas geladeiras e armários Danone, Miojo, Leite Moça, Leite Ninho e Nescau.

Nos últimos 50 anos, a fome mundial foi reduzida, não sendo mais uma ameaça à saúde pública. Agora, fala-se na obesidade como ameaça, e uma ameaça que é colocada, graças a argumentos médicos, no nível de uma epidemia similar a uma doença infecto-contagiosa.

Isso ocorreu de forma alarmante nos meados da década de 90, quando se constatou que a população estava engordando e tendo problemas associados a diabetes, hipertensão e colesterol. Essa constatação mexeu com dois outros segmento igualmente importantes: a indústria farmacêutica e o ramo de seguros de saúde.

É que as pessoas passaram a utilizar mais os seus planos de saúde, aumentando assim os gastos das empresas do ramo, com a consequente redução de seus lucros. Na contramão dessa tendência, temos uma indústria farmacêutica que decidiu explorar o sobrepeso da população para oferecer novos produtos. E foi dada uma solução por meio do IMC.

A Fraude no IMC

A regra médica utilizada pelos órgãos mundiais de saúde é o Índice de Massa Corporal – IMC. O IMC é a medida que define de forma rápida se uma pessoa é ou não obesa. Até 1997, as tabelas deste índice apresentavam estes valores:Imagem 3 incorporada ao artigo "A Economia da Obesidade", de Franz Wasielewski, publicado no Portal Ano Zero. Na imagem, uma tabela das categorias de peso do Índice de Massa Corporal - IMC.

O sociólogo e filósofo Jean-Pierre Poulain revelou, em seu livro Sociologia da Obesidade, que as indústrias farmacêuticas e alimentícias conseguiram, por meio de representantes e membros da Organização Mundial da Saúde, mudar essa tabela. O índice foi readequado sem qualquer justificativa médica ou pesquisa científica. O objetivo era apenas atender à demanda industrial de vender novidades que estavam sendo lançadas no mercado: os produtos de emagrecimento (inibidores de apetite, laxantes, bloqueadores de absorção de gordura e diuréticos), os termogênicos (produtos que queimam gordura) e os alimentos diets e lights. A tabela ficou com esses valores:

Imagem 4 do artigo "A Economia da Obesidade", de Franz Wasielewski, publicado no Portal Ano Zero. Na imagem, uma tabela com as categorias de peso, atualizadas, do IMC (Índice de Massa Corporal).

A partir da década de 1990, o debate sobre o aumento de peso da população mundial começou a tomar as manchetes dos meios de comunicação. E a forma como o tema foi abordado colocou a responsabilidade pelo engordar não no sistema econômico de consumo, mas na responsabilidade individual. A culpabilização da pessoa foi a solução encontrada para justificar a obesidade – ou seja, as pessoas engordam por serem sedentárias, irresponsáveis por sua alimentação e preguiçosas. Criou-se inúmeros juízos morais e coloca-se o IMC como uma justificativa, transformando-o de mero meio de mensuração corporal a regra social.

Por outro lado, em nenhum momento as empresas alimentícias foram responsabilizadas por não terem mudado suas linhas de produção de alimentos, e também não houve a adequada responsabilização das propagandas mentirosas que moldaram, durante 60 anos, os hábitos de consumo alimentar.

Assim, a responsabilidade pessoal pela obesidade foi imposta de forma massiva, transformando qualquer quilo a mais em um drama individual. Ao mesmo tempo, a publicidade obriga as pessoas a acompanharem os avanços tecnológicos, que mudam perfis de produção, socialização e lazer.

E, por incrível que pareça, a mídia de hoje ainda nos empurra alimentos que não acompanharam as mudanças sociais, e que foram planejados para uma realidade de fome e desnutrição. A indústria alimentícia continua oferecendo alimentos ricos em gorduras, açúcares e sódio, e depois nega que sejam responsáveis pela obesidade e, consequentemente, pelo aumento de doenças coronarianas, diabetes e hipertensão.

A ECONOMIA DA OBESIDADE

É perceptível o crescimento de inúmeros produtos e serviços voltados para o combate da obesidade. Um novo mercado surgiu, favorecendo outros segmentos como a indústria farmacêutica, estética, alimentícia e serviços como academias, psicólogos e médicos.

O mercado foi ampliado, transformando a pessoa gorda em um potencial consumidor de novos produtos dietéticos, clínicas e remédios de emagrecimento. E, incrivelmente, as pessoas obesas também se tornaram objeto de entretenimento na TV, em programas nos quais elas são colocadas numa disputa para ver quem emagrece mais em menos tempo, obrigando-as a realizar provas e exercícios pesados sob o comando de “treinadores” que, aos brados, gritam esteriótipos agressivos para a autoestima: “Você quer ser um fracassado para sempre?”, “Você quer ser feia para sempre?”, “Vamos, você consegue, deixa essa preguiça de lado!”

E as empresas de saúde também lucram. Afinal, transferindo a responsabilidade da obesidade para o indivíduo, elas não precisam reequipar clínicas e hospitais com equipamentos e mobílias adaptados aos obesos, nem reformular espaços para a melhor circulação dessas pessoas. Criaram uma demanda por procedimentos caros, como as cirurgias de redução de estômago e o procedimento estético de abdominopolastia.

Porém, para fazer esses procedimentos, existem etapas a serem seguidas, são necessários exercícios supervisionados (academias ou personal trainers), remédios (termogênicos e inibidores de apetites), tratamento psicológico (terapeutas) e dietas (reeducação alimentar com nutricionistas, alimentos diets e lights).

Tentar atingir o peso ideal aciona toda uma ciranda econômica associada a um esteriótipo social – ciranda essa em que as empresas beneficiárias ficam isentas de sua responsabilidade. É mais fácil adequar as pessoas a essa estrutura econômica do que mudar toda a sistemática e tecnologia de produção moderna. Em pleno século XXI, consumimos alimentos planejados para uma realidade de 1950. O gordo e a gorda são as galinhas dos ovos de ouro que movimentam uma imensa economia alimentar, estética, farmacêutica e médica.


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escrito por:

Franz Wasielewski

Servidor público federal, formado em nível superior em teologia. Também tem experiência com administração de empresas e conhecimentos quanto à pedagogia. É administrador de um grupo sobre inclusividade de pessoas obesas e contra o preconceito a estas pessoas, no Facebook. Clique aqui para participar.


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