Capa do artigo "A Economia da Obesidade", de Franz Wasieleswki, publicado no Portal Ano Zero.

A Economia da Obesidade

Em Consciência, Economia, Sociedade por Franz WasielewskiComentário

Ulti­ma­mente, fala-se muito daquilo que cha­mam de epi­de­mia de obe­si­dade. A obe­si­dade, de um dia para o outro, tor­nou-se o pro­blema número um da saúde pública, colo­cando milhões de pes­soas em risco. Mas como isso acon­te­ceu?

Bom, é neces­sá­rio rea­li­zar­mos toda uma aná­lise his­tó­rica e social para res­pon­der­mos a esta per­gunta.

A REVOLUÇÃO

Durante o século XIX e XX, a soci­e­dade pas­sou por um pro­cesso de urba­ni­za­ção, indus­tri­a­li­za­ção e revo­lu­ção tec­no­ló­gica. O modelo popu­la­ci­o­nal estava mudando da soci­e­dade agrá­ria para a urbana, o que mudou mui­tas coi­sas — den­tre elas, o per­fil de tra­ba­lho, ali­men­ta­ção e lazer.

A indus­tri­a­li­za­ção fez com que hou­vesse uma grande oferta de mão de obra para a indús­tria emer­gente, fazendo com que as pes­soas aban­do­nas­sem o tra­ba­lho no campo, que era pre­do­mi­nan­te­mente mais bra­çal, exi­gindo das pes­soas grande gasto de ener­gia em ati­vi­da­des como cul­ti­var o solo e mane­jar o gado. Na indús­tria, o esforço é menor, pois a uti­li­za­ção as máqui­nas (e, pos­te­ri­or­mente, de meios robó­ti­cos) auxi­lia na pro­du­ção, fazendo com que haja menor con­sumo de ener­gia humana.

Além disso, em para­lelo à indús­tria cres­ceu tam­bém os tra­ba­lhos admi­nis­tra­ti­vos, que ocor­rem em apoio e em para­lelo à pro­du­ção indus­trial, e cuja demanda de ener­gia humana é mínima, pois a maior parte de suas tare­fas é men­tal.

Essa urba­ni­za­ção da soci­e­dade mudou o per­fil da soci­e­dade. Os cen­tros urba­nos, onde as indús­trias se esta­be­le­ce­ram, come­ça­ram a cres­cer popu­la­ci­o­nal­mente de forma ace­le­rada. Este cres­ci­mento fez com que a demanda por ali­men­tos aumen­tasse, fomen­tando a neces­si­dade de se desen­vol­ver toda uma indús­tria ali­men­tí­cia. A pro­du­ção rural era con­si­de­rada ina­de­quada para abas­te­cer gran­des con­tin­gen­tes popu­la­ci­o­nais por ser pere­cí­vel, ou seja, pos­sui uma curta vali­dade para arma­ze­na­mento.

Simul­ta­ne­a­mente a esse pro­cesso de urba­ni­za­ção e indus­tri­a­li­za­ção, temos a evo­lu­ção tec­no­ló­gica, que atin­giu não ape­nas a indús­tria, mas as tele­co­mu­ni­ca­ções e o lazer. Hoje, temos uma enorme aces­si­bi­li­dade aos meios de comu­ni­ca­ção, além de con­tar­mos com apa­re­lhos ele­tro­do­més­ti­cos que faci­li­tam as tare­fas diá­rias e com as opções de lazer pas­sivo ofe­re­ci­das pela inter­net e TV.

Imagem 1 utilizada no corpo do texto "A Economia da Obesidade", de Franz Wasielewski, publicado no Portal Ano Zero. Na imagem, Homer Simpson, da série "Os Simpsons", está ao centro, deitado no sofá de sua sala de estar, comendo porcarias, atirado e com a barriga, exposta, para cima.

Agora, não pre­ci­sa­mos mais nos des­lo­car para entrar em con­tato com alguém, a ida ao cinema pode ser subs­ti­tuída pela TV a cabo ou por sites de fil­mes on demand. Ao mesmo tempo, nossa inte­ra­ção social torna-se mais vir­tual e não pre­sen­cial, já que é mais fácil falar com os ami­gos em um grupo de What­sapp do que reu­nir todos em um mesmo espaço.

Ou seja, com a tec­no­lo­gia, e con­se­quen­te­mente com a vir­tu­a­li­za­ção das rela­ções inter­pes­so­ais e de lazer, nosso gasto ener­gé­tico dimi­nuiu.

Como escre­veu Frei Beto em seu livro Mosca Azul, na Revo­lu­ção Indus­trial “o exce­dente da pro­du­ção e a mer­ca­do­ria supér­flua encon­tra­ram na publi­ci­dade a ala­vanca de que neces­si­ta­vam para indu­zir a popu­la­ção a com­prar mais do que pre­cisa e con­si­de­rar impres­cin­dí­vel o que, a rigor, é supér­fluo e até mesmo pre­ju­di­cial à saúde, como ali­men­tos ricos em açú­ca­res e gor­dura satu­rada”.

Até agora, o que se pode con­cluir é que a obe­si­dade ocor­reu devido à redu­ção de nosso gasto de ener­gia, certo? A res­posta é nem sim, nem não, mas tam­bém. Temos agora que avan­çar mais um pouco.

A “RIQUEZA CALÓRICA

Referi-me à neces­si­dade de uma indús­tria ali­men­tí­cia. Essa indús­tria tinha por fina­li­dade fazer ali­men­tos com maior dura­bi­li­dade, mai­o­res pra­zos de vali­dade. Mas ao mesmo tempo ocor­ria nos cen­tros urba­nos um fenô­meno social impor­tan­tís­simo: a des­nu­tri­ção, cau­sada pela fome por causa das desi­gual­da­des soci­ais. Isso fez com que órgãos mun­di­ais de saúde deter­mi­nas­sem que era obri­ga­ção dos gover­nos de cada país suprir as carên­cias nutri­ci­o­nais de seus cida­dãos.

E a solu­ção pro­posta foi suprir as neces­si­da­des ener­gé­ti­cas pela inges­tão de calo­rias que des­sem con­di­ções neces­sá­rias para que uma pes­soa pudesse sobre­vi­ver e tra­ba­lhar. A indús­tria ali­men­tí­cia, para aten­der a essa demanda por calo­rias, ado­tou a estra­té­gia de pro­du­zir ali­men­tos com altos teo­res de gor­du­ras e açú­ca­res, uti­li­zando sais (sódio) como meios de con­ser­va­ção.

Uma pre­o­cu­pa­ção social é, desde o iní­cio, a ali­men­ta­ção infan­til. Todas as soci­e­da­des têm a pre­o­cu­pa­ção de que­rer ver seus filhos bem nutri­dos e sau­dá­veis. Ainda mais em paí­ses onde a mor­ta­li­dade infan­til seja alta por causa da des­nu­tri­ção e da fome. Essas duas pala­vras, nutri­tivo e sau­dá­vel, são ele­men­tos cha­ves para a comer­ci­a­li­za­ção de ali­men­tos pro­ces­sa­dos.

Afi­nal, quem não quer comer algo que seja gos­toso e ao mesmo tempo nutri­tivo e sau­dá­vel? Ali­men­tos alta­mente gor­du­ro­sos e açu­ca­ra­dos foram então ofe­re­ci­dos para aten­der a essa demanda por calo­rias. A pro­pa­ganda trans­for­mou o ali­mento pro­ces­sado em algo essen­cial à vida (ricos ou for­tes), em detri­mento de vege­tais, fru­tas e ver­du­ras. Aliás, fru­tas, ver­du­ras e legu­mes for­ne­cem pou­cas calo­rias — logo eram ali­men­tos con­si­de­ra­dos “fra­cos” ou “pobres”.

O inte­res­sante é a divi­são ali­men­tar entre rico/forte e pobre/fraco. Os ali­men­tos foram abor­da­dos não ape­nas por seus valo­res nutri­ci­o­nais, mas tam­bém de acordo com a sua aces­si­bi­li­dade de con­sumo. No iní­cio, os pro­du­tos pro­ces­sa­dos eram caros, adqui­ri­dos em super­mer­ca­dos, des­ti­nado à classe média e alta, enquanto as fei­ras de rua eram reser­va­das às pes­soas pobres.

Imagem 2 incorporada ao artigo "A Economia da Obesidade", de Franz Wasielewski, publicado no Portal Ano Zero. Na imagem, uma publicidade da marca Maizena, com uma criança se alimentando com uma mamadeira em mãos.

Durante algum tempo, era motivo de orgu­lho para uma pes­soa da classe baixa adqui­rir ali­mento indus­tri­a­li­zado, pois isso lhe con­fe­ria um maior sta­tus social. Com o decor­rer do tempo, houve o bara­te­a­mento do custo dos ali­men­tos pro­ces­sa­dos, o que resul­tou no aumento de seu con­sumo pela popu­la­ção de baixa renda. A van­ta­gem, agora, não estava ape­nas em sua dura­bi­li­dade, mas tam­bém no seu preço, e isso em detri­mento dos ali­men­tos ven­di­dos nas fei­ras livres. Hoje as pes­soas se sen­tem feli­zes em terem nas suas gela­dei­ras e armá­rios Danone, Miojo, Leite Moça, Leite Ninho e Nes­cau.

Nos últi­mos 50 anos, a fome mun­dial foi redu­zida, não sendo mais uma ame­aça à saúde pública. Agora, fala-se na obe­si­dade como ame­aça, e uma ame­aça que é colo­cada, gra­ças a argu­men­tos médi­cos, no nível de uma epi­de­mia simi­lar a uma doença infecto-con­ta­gi­osa.

Isso ocor­reu de forma alar­mante nos mea­dos da década de 90, quando se cons­ta­tou que a popu­la­ção estava engor­dando e tendo pro­ble­mas asso­ci­a­dos a dia­be­tes, hiper­ten­são e coles­te­rol. Essa cons­ta­ta­ção mexeu com dois outros seg­mento igual­mente impor­tan­tes: a indús­tria far­ma­cêu­tica e o ramo de segu­ros de saúde.

É que as pes­soas pas­sa­ram a uti­li­zar mais os seus pla­nos de saúde, aumen­tando assim os gas­tos das empre­sas do ramo, com a con­se­quente redu­ção de seus lucros. Na con­tra­mão dessa ten­dên­cia, temos uma indús­tria far­ma­cêu­tica que deci­diu explo­rar o sobre­peso da popu­la­ção para ofe­re­cer novos pro­du­tos. E foi dada uma solu­ção por meio do IMC.

A Fraude no IMC

A regra médica uti­li­zada pelos órgãos mun­di­ais de saúde é o Índice de Massa Cor­po­ral – IMC. O IMC é a medida que define de forma rápida se uma pes­soa é ou não obesa. Até 1997, as tabe­las deste índice apre­sen­ta­vam estes valo­res:Imagem 3 incorporada ao artigo "A Economia da Obesidade", de Franz Wasielewski, publicado no Portal Ano Zero. Na imagem, uma tabela das categorias de peso do Índice de Massa Corporal - IMC.

O soció­logo e filó­sofo Jean-Pierre Pou­lain reve­lou, em seu livro Soci­o­lo­gia da Obe­si­dade, que as indús­trias far­ma­cêu­ti­cas e ali­men­tí­cias con­se­gui­ram, por meio de repre­sen­tan­tes e mem­bros da Orga­ni­za­ção Mun­dial da Saúde, mudar essa tabela. O índice foi rea­de­quado sem qual­quer jus­ti­fi­ca­tiva médica ou pes­quisa cien­tí­fica. O obje­tivo era ape­nas aten­der à demanda indus­trial de ven­der novi­da­des que esta­vam sendo lan­ça­das no mer­cado: os pro­du­tos de ema­gre­ci­mento (ini­bi­do­res de ape­tite, laxan­tes, blo­que­a­do­res de absor­ção de gor­dura e diu­ré­ti­cos), os ter­mo­gê­ni­cos (pro­du­tos que quei­mam gor­dura) e os ali­men­tos diets e lights. A tabela ficou com esses valo­res:

Imagem 4 do artigo "A Economia da Obesidade", de Franz Wasielewski, publicado no Portal Ano Zero. Na imagem, uma tabela com as categorias de peso, atualizadas, do IMC (Índice de Massa Corporal).

A par­tir da década de 1990, o debate sobre o aumento de peso da popu­la­ção mun­dial come­çou a tomar as man­che­tes dos meios de comu­ni­ca­ção. E a forma como o tema foi abor­dado colo­cou a res­pon­sa­bi­li­dade pelo engor­dar não no sis­tema econô­mico de con­sumo, mas na res­pon­sa­bi­li­dade indi­vi­dual. A cul­pa­bi­li­za­ção da pes­soa foi a solu­ção encon­trada para jus­ti­fi­car a obe­si­dade — ou seja, as pes­soas engor­dam por serem seden­tá­rias, irres­pon­sá­veis por sua ali­men­ta­ção e pre­gui­ço­sas. Criou-se inú­me­ros juí­zos morais e coloca-se o IMC como uma jus­ti­fi­ca­tiva, trans­for­mando-o de mero meio de men­su­ra­ção cor­po­ral a regra social.

Por outro lado, em nenhum momento as empre­sas ali­men­tí­cias foram res­pon­sa­bi­li­za­das por não terem mudado suas linhas de pro­du­ção de ali­men­tos, e tam­bém não houve a ade­quada res­pon­sa­bi­li­za­ção das pro­pa­gan­das men­ti­ro­sas que mol­da­ram, durante 60 anos, os hábi­tos de con­sumo ali­men­tar.

Assim, a res­pon­sa­bi­li­dade pes­soal pela obe­si­dade foi imposta de forma mas­siva, trans­for­mando qual­quer quilo a mais em um drama indi­vi­dual. Ao mesmo tempo, a publi­ci­dade obriga as pes­soas a acom­pa­nha­rem os avan­ços tec­no­ló­gi­cos, que mudam per­fis de pro­du­ção, soci­a­li­za­ção e lazer.

E, por incrí­vel que pareça, a mídia de hoje ainda nos empurra ali­men­tos que não acom­pa­nha­ram as mudan­ças soci­ais, e que foram pla­ne­ja­dos para uma rea­li­dade de fome e des­nu­tri­ção. A indús­tria ali­men­tí­cia con­ti­nua ofe­re­cendo ali­men­tos ricos em gor­du­ras, açú­ca­res e sódio, e depois nega que sejam res­pon­sá­veis pela obe­si­dade e, con­se­quen­te­mente, pelo aumento de doen­ças coro­na­ri­a­nas, dia­be­tes e hiper­ten­são.

A ECONOMIA DA OBESIDADE

É per­cep­tí­vel o cres­ci­mento de inú­me­ros pro­du­tos e ser­vi­ços vol­ta­dos para o com­bate da obe­si­dade. Um novo mer­cado sur­giu, favo­re­cendo outros seg­men­tos como a indús­tria far­ma­cêu­tica, esté­tica, ali­men­tí­cia e ser­vi­ços como aca­de­mias, psi­có­lo­gos e médi­cos.

O mer­cado foi ampli­ado, trans­for­mando a pes­soa gorda em um poten­cial con­su­mi­dor de novos pro­du­tos die­té­ti­cos, clí­ni­cas e remé­dios de ema­gre­ci­mento. E, incri­vel­mente, as pes­soas obe­sas tam­bém se tor­na­ram objeto de entre­te­ni­mento na TV, em pro­gra­mas nos quais elas são colo­ca­das numa dis­puta para ver quem ema­grece mais em menos tempo, obri­gando-as a rea­li­zar pro­vas e exer­cí­cios pesa­dos sob o comando de “trei­na­do­res” que, aos bra­dos, gri­tam este­rió­ti­pos agres­si­vos para a auto­es­tima: “Você quer ser um fra­cas­sado para sem­pre?”, “Você quer ser feia para sem­pre?”, “Vamos, você con­se­gue, deixa essa pre­guiça de lado!”

E as empre­sas de saúde tam­bém lucram. Afi­nal, trans­fe­rindo a res­pon­sa­bi­li­dade da obe­si­dade para o indi­ví­duo, elas não pre­ci­sam ree­qui­par clí­ni­cas e hos­pi­tais com equi­pa­men­tos e mobí­lias adap­ta­dos aos obe­sos, nem refor­mu­lar espa­ços para a melhor cir­cu­la­ção des­sas pes­soas. Cri­a­ram uma demanda por pro­ce­di­men­tos caros, como as cirur­gias de redu­ção de estô­mago e o pro­ce­di­mento esté­tico de abdo­mi­no­po­las­tia.

Porém, para fazer esses pro­ce­di­men­tos, exis­tem eta­pas a serem segui­das, são neces­sá­rios exer­cí­cios super­vi­si­o­na­dos (aca­de­mias ou per­so­nal trai­ners), remé­dios (ter­mo­gê­ni­cos e ini­bi­do­res de ape­ti­tes), tra­ta­mento psi­co­ló­gico (tera­peu­tas) e die­tas (ree­du­ca­ção ali­men­tar com nutri­ci­o­nis­tas, ali­men­tos diets e lights).

Ten­tar atin­gir o peso ideal aci­ona toda uma ciranda econô­mica asso­ci­ada a um este­rió­tipo social — ciranda essa em que as empre­sas bene­fi­ciá­rias ficam isen­tas de sua res­pon­sa­bi­li­dade. É mais fácil ade­quar as pes­soas a essa estru­tura econô­mica do que mudar toda a sis­te­má­tica e tec­no­lo­gia de pro­du­ção moderna. Em pleno século XXI, con­su­mi­mos ali­men­tos pla­ne­ja­dos para uma rea­li­dade de 1950. O gordo e a gorda são as gali­nhas dos ovos de ouro que movi­men­tam uma imensa eco­no­mia ali­men­tar, esté­tica, far­ma­cêu­tica e médica.


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Franz Wasielewski
Servidor público federal, formado em nível superior em teologia. Também tem experiência com administração de empresas e conhecimentos quanto à pedagogia. É administrador de um grupo sobre inclusividade de pessoas obesas e contra o preconceito a estas pessoas, no Facebook. Clique aqui para participar.

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