carta do gringo

Por que levar a carta do gringo a sério

Em Consciência, Política por Pedro BurgosComentários

(Nota do edi­tor: este artigo sobre a “carta do gringo” foi ori­gi­nal­mente publi­cado no Medium pelo autor, e é repro­du­zido pelo AZ com sua auto­ri­za­ção)


Um gringo vai morar em um país atra­sado e tenta enten­der por que aquela gente não “vai pra frente”. Depois de muito pen­sar sobre, ele con­clui que não é ques­tão de edu­ca­ção ou pobreza. O atraso é “cul­tu­ral”. O gringo acha que o povo daquele país é meio egoísta, no sen­tido de não se envol­ver na vida pública ou pen­sar no bem cole­tivo por­que, entre outras coi­sas, não acre­dita nas ins­ti­tui­ções.

A pes­soa que vive nessa soci­e­dade atra­sada, diz o gringo, quer “maxi­mi­zar a van­ta­gem mate­rial de curto-prazo para a sua famí­lia (ou os seus mais pró­xi­mos); por­que ela toma como dado que os outros farão o mesmo.” Nesse con­texto social, “a lei é igno­rada quando não há razão para temer uma puni­ção”, escreve o obser­va­dor estran­geiro.

O gringo em ques­tão é Edward C. Ban­fi­eld, o país atra­sado é uma pequena cidade no sul da Itá­lia e o tex­tão de onde vem as aspas é The moral basis of a backward soci­ety, de 1958 (É pequeno e bacana, dá pra ler o pdf por aí. O capí­tulo 5 tem o resu­mão das hipó­te­ses dele).

Ban­fi­eld fez a sua pes­quisa para ten­tar expli­car por que o sul da Itá­lia era tão menos desen­vol­vido que o norte. Mui­tos outros gran­des pen­sa­do­res usa­ram o país medi­ter­râ­neo para ten­tar enten­der o que gera o “atraso”, como Robert Put­nam, em 1993. Há diver­sas razões, todas com suas raí­zes mui­tos sécu­los atrás, mas no fim eles dizem que é neces­sá­ria uma mudança de “cul­tura” para a soci­e­dade dar certo. Não dá pra ficar cul­pando “os outros” (espe­ci­al­mente o governo) eter­na­mente.

O tra­ba­lho de Ban­fi­eld na Itá­lia é super citado, mas o que ele escre­veu 10 anos depois, “The Unhe­a­venly City”, não tem o mesmo cari­nho da tor­cida. Basi­ca­mente por­que em vez de falar de um país dis­tante, ele se vol­tou para os pró­prios Esta­dos Uni­dos, nos gue­tos das gran­des cida­des (ele sali­en­tava que ape­sar de os gue­tos serem pre­do­mi­nan­te­mente negros, o atraso não tinha a ver com “raça”). Ele refor­çou que nenhum pro­grama de ajuda do governo seria capaz de mudar aque­las comu­ni­da­des enquanto elas não mudas­sem a sua men­ta­li­dade.

Para Ban­fi­eld, as clas­ses “pobres” ame­ri­ca­nas se dife­ren­ci­a­riam das clas­ses “nor­mais” (tra­ba­lha­do­res, classe média e ricos) em um sen­tido mais psi­co­ló­gico que econô­mico: os seus mem­bros colo­ca­riam ênfase na satis­fa­ção pes­soal e ime­di­ata em detri­mento de pro­je­tos de longo prazo.

Se a inves­ti­ga­ção sobre a Itá­lia era abra­çada por gente de várias cor­ren­tes ide­o­ló­gi­cas, a tese seguinte foi bem mais con­tro­versa. Ban­fi­eld pas­sou a ser visto como um “dou­tri­na­dor da direita”, e aca­bou indo tra­ba­lhar com Nixon e Rea­gan. Hoje, ele é conhe­cido por fun­da­men­tar a defesa de várias ban­dei­ras dos con­ser­va­do­res ame­ri­ca­nos, como a de que o Estado não pre­cisa pro­ver tudo — é até melhor que não ajude. Ou que meri­to­cra­cia é quase tudo (os pobres deve­riam tra­ba­lhar mais) e que as famí­lias pre­ci­sam ter uma base moral forte.

As ideias de Ban­fi­eld não pare­cem mais novas ou inte­res­san­tes, mas foi curi­oso vê-las recon­ta­das, ligei­ra­mente atu­a­li­za­das e relo­ca­das na tal Carta aberta ao Bra­sil do Mark Man­son, que, enquanto eu escrevo, foi com­par­ti­lhada mais de 260 mil vezes.

O sucesso da carta, e o jeito que ela foi com­par­ti­lhada (com os tex­tos que acom­pa­nha­vam vários dos sha­res) mos­tram, pra mim, que há uma cor­rente ide­o­ló­gica cres­cente, mas órfã de repre­sen­ta­ção polí­tica.

Falo do con­ser­va­do­rismo “jovem” no Bra­sil. Esse con­ser­va­do­rismo não tem muito a ver com a “ban­cada con­ser­va­dora” do Con­gresso, pois não se pre­o­cupa tanto com cos­tu­mes (como ser con­tra ou a favor do aborto ou casa­mento igua­li­tá­rio). Tam­pouco essa ide­o­lo­gia está bem con­tem­plada com os Kata­gu­ris anti-Dilma. Mui­tos dos que com­par­ti­lha­ram a carta, aliás, não se vêem como “de direita”.

Para enten­der como é essa ide­o­lo­gia, é inte­res­sante exa­mi­nar a con­cor­rên­cia.

A esquerda bra­si­leira, que ainda tem uma grande influên­cia no pen­sa­mento dos jovens, põe a culpa do atraso bra­si­leiro ou nos gover­nan­tes, que por sécu­los não deram a devida assis­tên­cia, ou nas “eli­tes” ren­tis­tas. Mesmo quando admite, como Gil­berto Freyre, que há um “pro­blema cul­tu­ral”, a esquerda bra­si­leira deixa claro que esse pro­blema têm raí­zes exter­nas, em tra­di­ções impor­ta­das e impos­tas. O povo bra­si­leiro é, em linhas gerais, vítima.

carta do gringo: Há um conservadorismo "jovem" que não se identifica com a bancada conservadora do Congresso nem com os típicos anti-Dilma. E sequer se entende como "de direita".

Há um con­ser­va­do­rismo “jovem” que não se iden­ti­fica com a ban­cada con­ser­va­dora do Con­gresso nem com os típi­cos anti-Dilma. E sequer se entende como “de direita”.

Os que se opõem à esquerda esta­be­le­cida (que não são neces­sa­ri­a­mente o que se con­ven­ci­o­nou cha­mar de “direita”) não ofe­re­cem uma expli­ca­ção fun­da­men­tal­mente dis­tinta para o nosso atraso. Essas pes­soas, que têm bas­tante espaço na mídia, pas­sam a maior parte do tempo recla­mando do governo (os “petra­lhas” da vez), das pes­soas e par­ti­dos que estão lá, e da cor­rup­ção. Os sites e revis­tas mais à direita rara­mente falam de raí­zes do atraso. Se ousam recla­mar do povo, é por esco­lher os gover­nan­tes erra­dos — não por uma opção ide­o­ló­gica, mas por igno­rân­cia. A direita mais velha-guarda bra­si­leira até apre­senta alguns dos vícios cul­tu­rais que estão na raiz do atraso, pela visão Mark/Banfield, como a des­con­fi­ança nas ins­ti­tui­ções (defen­dendo por exem­plo o jus­ti­ça­mento na ausên­cia da polí­cia) e o “fami­lismo amo­ral”. Em resumo, para essa turma o povo bra­si­leiro segue sendo vítima — ainda que os vilões sejam de outra cor.

A carta de Mark — ou a sua reper­cus­são — , por mais pro­po­si­ta­da­mente publi­ci­tá­ria e infla­ma­tó­ria que seja, mos­tra uma outra crí­tica aos rumos do Bra­sil: a de que a culpa é sim dos bra­si­lei­ros. Você pode argu­men­tar que não há nada de novo nisso (infi­ni­tas pia­das foram fei­tas sobre). Mas eu acho que ela enca­mi­nha uma outra forma de encon­trar cau­sas e solu­ções para nos­sas doen­ças. Ela não é neces­sa­ri­a­mente cor­reta, mas ela é sufi­ci­en­te­mente dife­rente do que nos foi ofe­re­cido até aqui. Tal­vez seja mais útil.

Se você parar para pen­sar, as crí­ti­cas de Mark são as mes­mas que lemos em cai­xas de comen­tá­rios nos por­tais há anos — com uma rou­pa­gem mais pala­tá­vel. Nos comen­tá­rios do gringo estão repre­sen­ta­das as pes­soas que pen­sam sobre o peso da res­pon­sa­bi­li­dade indi­vi­dual, o valor ina­li­e­ná­vel da “ordem”, os limi­tes do dis­curso de vítima para expli­car os pro­ble­mas ou a crí­tica ao nepo­tismo. A gente vê isso o tempo todo. Entre em uma notí­cia sobre um fun­keiro de sucesso com seu car­rão e reló­gio de ouro e você verá nos comen­tá­rios o mesmo incô­modo com a visão curto-pra­zista que Mark e Ban­fi­eld tra­zem.

Eu moro nos EUA, e aqui esse pen­sa­mento trans­cen­deu a caixa de comen­tá­rios, e é cada vez mais alto.

Make Brazil great again

A dife­rença ide­o­ló­gica entre PT e PSDB é pro­va­vel­mente menor que a que existe entre Ber­nie San­ders e Hil­lary Clin­ton. No Bra­sil, não esta­mos acos­tu­ma­dos a ver no debate público um con­fronto muito sig­ni­fi­ca­tivo entre manei­ras dife­ren­tes de ler a rea­li­dade, as cau­sas dos pro­ble­mas e suas solu­ções. Nos Esta­dos Uni­dos, repu­bli­ca­nos e demo­cra­tas enxer­gam o mundo de maneira sig­ni­fi­ca­ti­va­mente dife­rente — e essa dife­rença vem aumen­tando, com novos des­do­bra­men­tos das duas linhas de pen­sa­mento.

Um exem­plo prá­tico: per­gunte a um ame­ri­cano for­te­mente demo­crata e outro repu­bli­cano por que uma cidade como Bal­ti­more é hoje mais vio­lenta que São Paulo ou Rio de Janeiro. Um demo­crata lhe dirá que aquilo é um fra­casso do estado em melho­rar a vida dos cida­dãos; o resul­tado da “guerra às dro­gas” que colo­cou gente pobre na cadeia; que a vio­lên­cia é fruto de déca­das de bru­ta­li­dade poli­cial, sécu­los de racismo estru­tu­ral e uma sis­tema tri­bu­tá­rio que não arre­cada o sufi­ci­ente para cons­truir, por exem­plo, boas esco­las. Nor­mal­mente você ouvirá deze­nas de jus­ti­fi­ca­ti­vas ambi­en­tais antes de come­çar a ques­ti­o­nar a “culpa” de quem vive naquela situ­a­ção.

Um con­ser­va­dor terá uma visão bas­tante dis­tinta. Ele lhe dirá, grosso modo, que o pro­blema é a falta de “cida­dãos de bem” na cidade. Veja, por exem­plo, como o Breit­bart, o mais impor­tante site “jovem-con­ser­va­dor” dos EUA, tra­tou a crise de Bal­ti­more ano pas­sado:

carta do gringo: Notícia do site conservador Breitbart, depois dos tumultos que se seguiram à morte de Freddie Gray.

Bal­ti­more é um pro­blema dos demo­cra­tas, e não um pro­blema da Amé­rica”: notí­cia do site con­ser­va­dor Breit­bart, depois dos tumul­tos que se segui­ram à morte de Fred­die Gray.

Na maté­ria, o edi­tor John Nolte não está ape­nas acu­sando os demo­cra­tas, que gover­nam a cidade há cinco déca­das inin­ter­rup­ta­mente, de petra­lhismo, de admi­nis­trar mal. Ele acusa tam­bém os os mora­do­res pela situ­a­ção. Não ape­nas por eles acre­di­ta­rem no recei­tuá­rio dos demo­cra­tas (que passa por governo maior para aju­dar os mais neces­si­ta­dos), mas por con­tri­buí­rem ati­va­mente para o fra­casso da cidade, pela falta de união por um bem maior e uma visão de longo prazo.

Nolte com­para Bal­ti­more com a cidade do inte­rior (de mai­o­ria repu­bli­cana) em que ele vive. Mesmo que sua cidade seja pobre, ela não é vio­lenta. Por quê? “Uma men­ta­li­dade que não temos aqui é essa crença de que alguém nos deve alguma coisa. O que é, obvi­a­mente, uma receita para o des­con­ten­ta­mento. Por­que se você não está rece­bendo o que devem a você, como você não vai ficar bravo?”, explica.

Mark Man­son é um autor de auto-ajuda, e não falo isso para dimi­nuí-lo. Ele diz em seus tex­tos que nosso sucesso só depende de nós. E que, por con­se­guinte, o nosso fra­casso é culpa nossa — ficar só recla­mando sem olhar para o umbigo não leva nin­guém a lugar nenhum. A Carta Aberta ao Bra­sil é só mais um texto nessa linha, ainda que com toques espe­cí­fi­cos.

A ques­tão é: é pos­sí­vel que a auto-ajuda, ali­ada a pita­das de pen­sa­mento con­ser­va­dor, seja uma ide­o­lo­gia polí­tica?

Tal­vez sim. Per­gunte a Donald Trump — o favo­rito, por sinal, dos comen­ta­ris­tas do Breit­bart.

Você está dizendo que quem com­par­ti­lhou a carta do gringo é fã enrus­tido do Trump, Pedro? Não é isso, ou não neces­sa­ri­a­mente. É só que ambos repre­sen­tam um certo pen­sa­mento con­ser­va­dor atu­a­li­zado, que carece de líde­res no esta­blish­ment polí­tico.

A maior parte da mídia bra­si­leira e ame­ri­cana se sur­pre­en­deu com a ascen­são do mag­nata ame­ri­cano, e se esfor­çou para dimi­nuir o apelo do Trum­pismo. Mas fize­ram isso, creio eu, por não enten­der qual a ide­o­lo­gia que gui­ava o sur­gi­mento dessa polí­tica. O apelo dele esteve na nossa cara o tempo todo, se olhás­se­mos para as pis­tas cer­tas.

E o apelo con­ser­va­dor está aí, no Bra­sil. De tem­pos em tem­pos algo como uma carta aberta nos lem­bra disso.

Por outro lado, creio eu, assim como nos EUA até outro dia não há um polí­tico, ou um movi­mento orga­ni­zado, que cap­ture esse espí­rito. Per­gun­tas: Será que há espaço para isso? Esta­mos pre­pa­ra­dos para que um apa­reça? Esta­mos, fran­ca­mente, com medo?

Tal­vez eu esteja lendo demais em um tex­tão de Face­book que muita gente achou super­fi­cial. Mas acho que é bom a gente pres­tar mais aten­ção em quem abra­çou aque­las ideias, e levar essas pes­soas mais a sério, colo­car os seus ques­ti­o­na­men­tos na mesa. As dis­cus­sões sobre o nosso futuro ficam mais inte­res­san­tes quando há uma grande vari­e­dade de for­mas de per­ce­ber as raí­zes dos nos­sos pro­ble­mas.

Pedro Burgos
Pedro Burgos já escreveu para um monte de revistas, como Superinteressante, Galileu, Exame e VIP, e passou 3 anos como editor-chefe do Gizmodo Brasil. Atualmente, reside em Nova Iorque, após obter Master Degree em Social Journalism na City University of New York.

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