(Nota do editor: este artigo sobre a “carta do gringo” foi originalmente publicado no Medium pelo autor, e é reproduzido pelo AZ com sua autorização)


Um gringo vai morar em um país atrasado e tenta entender por que aquela gente não “vai pra frente”. Depois de muito pensar sobre, ele conclui que não é questão de educação ou pobreza. O atraso é “cultural”. O gringo acha que o povo daquele país é meio egoísta, no sentido de não se envolver na vida pública ou pensar no bem coletivo porque, entre outras coisas, não acredita nas instituições.

A pessoa que vive nessa sociedade atrasada, diz o gringo, quer “maximizar a vantagem material de curto-prazo para a sua família (ou os seus mais próximos); porque ela toma como dado que os outros farão o mesmo.” Nesse contexto social, “a lei é ignorada quando não há razão para temer uma punição”, escreve o observador estrangeiro.

O gringo em questão é Edward C. Banfield, o país atrasado é uma pequena cidade no sul da Itália e o textão de onde vem as aspas é The moral basis of a backward society, de 1958 (É pequeno e bacana, dá pra ler o pdf por aí. O capítulo 5 tem o resumão das hipóteses dele).

Banfield fez a sua pesquisa para tentar explicar por que o sul da Itália era tão menos desenvolvido que o norte. Muitos outros grandes pensadores usaram o país mediterrâneo para tentar entender o que gera o “atraso”, como Robert Putnam, em 1993. Há diversas razões, todas com suas raízes muitos séculos atrás, mas no fim eles dizem que é necessária uma mudança de “cultura” para a sociedade dar certo. Não dá pra ficar culpando “os outros” (especialmente o governo) eternamente.

O trabalho de Banfield na Itália é super citado, mas o que ele escreveu 10 anos depois, “The Unheavenly City“, não tem o mesmo carinho da torcida. Basicamente porque em vez de falar de um país distante, ele se voltou para os próprios Estados Unidos, nos guetos das grandes cidades (ele salientava que apesar de os guetos serem predominantemente negros, o atraso não tinha a ver com “raça”). Ele reforçou que nenhum programa de ajuda do governo seria capaz de mudar aquelas comunidades enquanto elas não mudassem a sua mentalidade.

Para Banfield, as classes “pobres” americanas se diferenciariam das classes “normais” (trabalhadores, classe média e ricos) em um sentido mais psicológico que econômico: os seus membros colocariam ênfase na satisfação pessoal e imediata em detrimento de projetos de longo prazo.

Se a investigação sobre a Itália era abraçada por gente de várias correntes ideológicas, a tese seguinte foi bem mais controversa. Banfield passou a ser visto como um “doutrinador da direita”, e acabou indo trabalhar com Nixon e Reagan. Hoje, ele é conhecido por fundamentar a defesa de várias bandeiras dos conservadores americanos, como a de que o Estado não precisa prover tudo — é até melhor que não ajude. Ou que meritocracia é quase tudo (os pobres deveriam trabalhar mais) e que as famílias precisam ter uma base moral forte.

As ideias de Banfield não parecem mais novas ou interessantes, mas foi curioso vê-las recontadas, ligeiramente atualizadas e relocadas na tal Carta aberta ao Brasil do Mark Manson, que, enquanto eu escrevo, foi compartilhada mais de 260 mil vezes.

O sucesso da carta, e o jeito que ela foi compartilhada (com os textos que acompanhavam vários dos shares) mostram, pra mim, que há uma corrente ideológica crescente, mas órfã de representação política.

Falo do conservadorismo “jovem” no Brasil. Esse conservadorismo não tem muito a ver com a “bancada conservadora” do Congresso, pois não se preocupa tanto com costumes (como ser contra ou a favor do aborto ou casamento igualitário). Tampouco essa ideologia está bem contemplada com os Kataguris anti-Dilma. Muitos dos que compartilharam a carta, aliás, não se vêem como “de direita”.

Para entender como é essa ideologia, é interessante examinar a concorrência.

A esquerda brasileira, que ainda tem uma grande influência no pensamento dos jovens, põe a culpa do atraso brasileiro ou nos governantes, que por séculos não deram a devida assistência, ou nas “elites” rentistas. Mesmo quando admite, como Gilberto Freyre, que há um “problema cultural”, a esquerda brasileira deixa claro que esse problema têm raízes externas, em tradições importadas e impostas. O povo brasileiro é, em linhas gerais, vítima.

carta do gringo: Há um conservadorismo "jovem" que não se identifica com a bancada conservadora do Congresso nem com os típicos anti-Dilma. E sequer se entende como "de direita".
Há um conservadorismo “jovem” que não se identifica com a bancada conservadora do Congresso nem com os típicos anti-Dilma. E sequer se entende como “de direita”.

Os que se opõem à esquerda estabelecida (que não são necessariamente o que se convencionou chamar de “direita”) não oferecem uma explicação fundamentalmente distinta para o nosso atraso. Essas pessoas, que têm bastante espaço na mídia, passam a maior parte do tempo reclamando do governo (os “petralhas” da vez), das pessoas e partidos que estão lá, e da corrupção. Os sites e revistas mais à direita raramente falam de raízes do atraso. Se ousam reclamar do povo, é por escolher os governantes errados — não por uma opção ideológica, mas por ignorância. A direita mais velha-guarda brasileira até apresenta alguns dos vícios culturais que estão na raiz do atraso, pela visão Mark/Banfield, como a desconfiança nas instituições (defendendo por exemplo o justiçamento na ausência da polícia) e o “familismo amoral”. Em resumo, para essa turma o povo brasileiro segue sendo vítima — ainda que os vilões sejam de outra cor.

A carta de Mark — ou a sua repercussão — , por mais propositadamente publicitária e inflamatória que seja, mostra uma outra crítica aos rumos do Brasil: a de que a culpa é sim dos brasileiros. Você pode argumentar que não há nada de novo nisso (infinitas piadas foram feitas sobre). Mas eu acho que ela encaminha uma outra forma de encontrar causas e soluções para nossas doenças. Ela não é necessariamente correta, mas ela é suficientemente diferente do que nos foi oferecido até aqui. Talvez seja mais útil.

Se você parar para pensar, as críticas de Mark são as mesmas que lemos em caixas de comentários nos portais há anos — com uma roupagem mais palatável. Nos comentários do gringo estão representadas as pessoas que pensam sobre o peso da responsabilidade individual, o valor inalienável da “ordem”, os limites do discurso de vítima para explicar os problemas ou a crítica ao nepotismo. A gente vê isso o tempo todo. Entre em uma notícia sobre um funkeiro de sucesso com seu carrão e relógio de ouro e você verá nos comentários o mesmo incômodo com a visão curto-prazista que Mark e Banfield trazem.

Eu moro nos EUA, e aqui esse pensamento transcendeu a caixa de comentários, e é cada vez mais alto.

Make Brazil great again

A diferença ideológica entre PT e PSDB é provavelmente menor que a que existe entre Bernie Sanders e Hillary Clinton. No Brasil, não estamos acostumados a ver no debate público um confronto muito significativo entre maneiras diferentes de ler a realidade, as causas dos problemas e suas soluções. Nos Estados Unidos, republicanos e democratas enxergam o mundo de maneira significativamente diferente — e essa diferença vem aumentando, com novos desdobramentos das duas linhas de pensamento.

Um exemplo prático: pergunte a um americano fortemente democrata e outro republicano por que uma cidade como Baltimore é hoje mais violenta que São Paulo ou Rio de Janeiro. Um democrata lhe dirá que aquilo é um fracasso do estado em melhorar a vida dos cidadãos; o resultado da “guerra às drogas” que colocou gente pobre na cadeia; que a violência é fruto de décadas de brutalidade policial, séculos de racismo estrutural e uma sistema tributário que não arrecada o suficiente para construir, por exemplo, boas escolas. Normalmente você ouvirá dezenas de justificativas ambientais antes de começar a questionar a “culpa” de quem vive naquela situação.

Um conservador terá uma visão bastante distinta. Ele lhe dirá, grosso modo, que o problema é a falta de “cidadãos de bem” na cidade. Veja, por exemplo, como o Breitbart, o mais importante site “jovem-conservador” dos EUA, tratou a crise de Baltimore ano passado:

carta do gringo: Notícia do site conservador Breitbart, depois dos tumultos que se seguiram à morte de Freddie Gray.
“Baltimore é um problema dos democratas, e não um problema da América”: notícia do site conservador Breitbart, depois dos tumultos que se seguiram à morte de Freddie Gray.

Na matéria, o editor John Nolte não está apenas acusando os democratas, que governam a cidade há cinco décadas ininterruptamente, de petralhismo, de administrar mal. Ele acusa também os os moradores pela situação. Não apenas por eles acreditarem no receituário dos democratas (que passa por governo maior para ajudar os mais necessitados), mas por contribuírem ativamente para o fracasso da cidade, pela falta de união por um bem maior e uma visão de longo prazo.

Nolte compara Baltimore com a cidade do interior (de maioria republicana) em que ele vive. Mesmo que sua cidade seja pobre, ela não é violenta. Por quê? “Uma mentalidade que não temos aqui é essa crença de que alguém nos deve alguma coisa. O que é, obviamente, uma receita para o descontentamento. Porque se você não está recebendo o que devem a você, como você não vai ficar bravo?”, explica.

Mark Manson é um autor de auto-ajuda, e não falo isso para diminuí-lo. Ele diz em seus textos que nosso sucesso só depende de nós. E que, por conseguinte, o nosso fracasso é culpa nossa — ficar só reclamando sem olhar para o umbigo não leva ninguém a lugar nenhum. A Carta Aberta ao Brasil é só mais um texto nessa linha, ainda que com toques específicos.

A questão é: é possível que a auto-ajuda, aliada a pitadas de pensamento conservador, seja uma ideologia política?

Talvez sim. Pergunte a Donald Trump — o favorito, por sinal, dos comentaristas do Breitbart.

Você está dizendo que quem compartilhou a carta do gringo é fã enrustido do Trump, Pedro? Não é isso, ou não necessariamente. É só que ambos representam um certo pensamento conservador atualizado, que carece de líderes no establishment político.

A maior parte da mídia brasileira e americana se surpreendeu com a ascensão do magnata americano, e se esforçou para diminuir o apelo do Trumpismo. Mas fizeram isso, creio eu, por não entender qual a ideologia que guiava o surgimento dessa política. O apelo dele esteve na nossa cara o tempo todo, se olhássemos para as pistas certas.

E o apelo conservador está aí, no Brasil. De tempos em tempos algo como uma carta aberta nos lembra disso.

Por outro lado, creio eu, assim como nos EUA até outro dia não há um político, ou um movimento organizado, que capture esse espírito. Perguntas: Será que há espaço para isso? Estamos preparados para que um apareça? Estamos, francamente, com medo?

Talvez eu esteja lendo demais em um textão de Facebook que muita gente achou superficial. Mas acho que é bom a gente prestar mais atenção em quem abraçou aquelas ideias, e levar essas pessoas mais a sério, colocar os seus questionamentos na mesa. As discussões sobre o nosso futuro ficam mais interessantes quando há uma grande variedade de formas de perceber as raízes dos nossos problemas.

escrito por:

Pedro Burgos

Pedro Burgos já escreveu para um monte de revistas, como Superinteressante, Galileu, Exame e VIP, e passou 3 anos como editor-chefe do Gizmodo Brasil. Atualmente, reside em Nova Iorque, após obter Master Degree em Social Journalism na City University of New York.


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