Eu sei o que você está pensando. Você viu o título e disse para si mesmo:

“Quem esse cara pensa que é? Me odeio? Será que ele sabe o quão bonito eu sou? Alguma vez ele me viu reclamando do meu novo corte de cabelo? Será que ele sabe que eu treinei uma vez para a meia maratona e realmente corri parte dela? Sou totalmente apaixonado por mim mesmo. Que porra que ele sabe sobre mim?”

Olha, admito, seu cabelo é bastante impressionante. Mas vamos cair na real. Sejamos realmente honestos com nós mesmos: todos cultivamos um pouco de auto-aversão dentro de nós ao longo do tempo.

Certo, talvez um monte de auto-aversão, dependendo do grau de trauma que você sofreu e de quantos episódios de Teletubbies você foi submetido a ver quando criança.

Mas aqui está a boa notícia, a auto-aversão é apenas parte da condição humana. Não há nada inerentemente “errado” com você por não gostar ou sentir vergonha de certos aspectos desagradáveis de si mesmo.

Todo mundo sente isso. Mesmo Oprah deve se odiar em algum momento, eu tenho certeza. E não sou exceção, é claro. Apesar de tudo, estou escrevendo um texto para um site – devo odiar algum canto profundo e escuro de mim mesmo.

Todos nós temos sonhos que já não conseguimos viver, que até já deixaram de encarnar nossos ideais, atos que gostaríamos ou não de ter praticado e diversas coisas em que gostaríamos de ser diferentes do que somos. Isso é normal. E todos nós devemos lidar com essas partes de nós mesmos que não são como queríamos.

Alguns de nós lidamos com isso através da negação – andando sonâmbulos pela vida, não tomando nunca quaisquer decisões difíceis, seguindo os outros e evitando todas as tarefas ou confrontos difíceis.

Alguns de nós lidamos com isso nos entorpecendo com sexo, substâncias, obsessões ou distrações. Outros tentam compensar tentando salvar o mundo, realizando uma utopia e talvez iniciando outra guerra mundial no processo.

O objetivo aqui não é se livrar da auto-aversão. A única maneira de fazer isso seria remover a nossa consciência e/ou tornar-se um psicopata. E nós não queremos isso.

Eu também não recomendo reprimir a sua auto-aversão, ou então você pode acabar entrando com uma arma em uma boate e atirando em inocentes.

Não, a solução é minimizar a nossa auto-aversão: primeiro tornando-se consciente dela; e, em seguida, aprendendo a moldá-la e controlá-la. O objetivo aqui é o de controlarmos nossas decepções com nós mesmos, de uma forma que elas não acabem nos controlando.

É por isso que esse artigo é chamado “Como se odiar menos”, e não “Como parar de se odiar para sempre e ser sempre um Deus perfeito como um floco de neve único e especial.”

Não há floco de neve perfeito porra nenhuma. Eu vivi em Boston, eu vi um monte de flocos de neve. Nenhum deles é perfeito. E mesmo se fossem, eu tenho certeza de que você não seria um deles.

Então, vamos começar com isso. Seguem nove passos para se odiar menos e aprender a gerir a sua auto-aversão e garantir que você não se transformará em um maníaco-depressivo ou, pior ainda, um maluco que fica perambulando por aí com placas que dizem “Deus odeia gays”.

 

Passo 1: Aprenda a dizer “não”.

Quanto mais você odeia a si mesmo, mais você tentará agradar e impressionar as pessoas ao seu redor.

Afinal de contas, se você secretamente acredita que é um pedaço de cocô, então você vai supervalorizar o que as outras pessoas pensam de você e irá inconscientemente dedicar todos os seus esforços para manipulá-las a pensar que você não é a pessoa horrível que secretamente acredita que é.

A palavra “sim” tem recebido muita badalação ultimamente, mas eu quero trazer de volta o poder de dizer “não”.

Dizer não é bastante impressionante quando você sabe quando e como dizê-lo.

Dizer não ao convite para fazer um monte de merda sem sentido que você acha que não é importante na sua vida.

Dizer não para as pessoas que ultrapassam os limites e fazem exigências injustas sobre seu tempo ou atenção.

Dizer não para tornar claro aos outros onde você está e o que você vai/não vai tolerar em seus relacionamentos.

“Não” é incrível.

Dizer esses “nãos” é difícil, é claro. Porque a capacidade de dizer um não saudável requer um certo grau de auto-estima e auto-cuidado.

Mas dizer não para as pessoas e coisas que prejudicam sua vida ao invés de melhorá-la é, muitas vezes, o primeiro passo para aprender a amar e a cuidar de si mesmo.

Ah, e é claro, você aprende a dizer não a si mesmo também, para se disciplinar e se manter em dia, para se lembrar de que você, de fato, não sabe tudo, e nem mesmo sabe o que diabos está dizendo ou fazendo na metade do seu tempo.

Essa é uma habilidade tão subestimada, e parece estar perdida nessa era de “me dê um pouco de tudo”.

Ah, e enquanto estamos dizendo não para nós mesmos…

 

Passo 2: Pare de se masturbar todo o maldito tempo.

Não, eu não quero me intrometer em sua vida íntima. Embora, se você estiver fazendo isso, tipo 15 vezes por dia, talvez você quisesse reduzir isso um pouco também.

O que quero dizer é a masturbação num sentido figurado – todos aqueles hábitos superficiais, auto-prazeres que se tornam habituais.

Quer se trate de comer onze sobremesas, ou ficar até às quatro da manhã tentando se classificar na League of Legends, ou mentir para seus amigos e dizer que você pegou aquela loira quente no último sábado, quando na verdade só ficou tão bêbado que dormiu em posição fetal no banco traseiro de seu carro.

Estas são todas pequenas auto-indulgências insignificantes. E é difícil renunciar a elas nesses dias, e é difícil fazer isso nos dias de hoje, pois essas coisas fazem você se sentir bem – por um pouco de tempo. Mas a sua insignificância irá te consumir.

Há um capítulo muito estranho no livro Pense e Enriqueça de Napoleon Hill, no qual ele fala sobre como Thomas Edison se recusou a fazer sexo ou coisas relacionadas e foi assim que ele surgiu com 10.000 patentes de invenções.

Não sei, isso não fez muito sentido, mas a ideia era de utilizar essa energia para direcioná-la a empreendimentos úteis e produtivos.

Eu não vou tão longe assim, gosto de trocar o óleo de vez em quando como qualquer um. Mas acho que a verdadeira lição aqui é aprender como auto-regulamentar as suas auto-indulgências.

Novamente, tudo resulta em saber quando dizer não a si mesmo. Negar essas indulgências é a cereja do bolo para sua vida. Não o próprio bolo.

 

Passo 3: Exponha o ódio.

Normalmente, as coisas que você mais odeia sobre si mesmo são as coisas que você esconde do resto do mundo. São as coisas que você acha que vão levar as pessoas a te rejeitar, te machucar, apontar e rir de você.

Esses receios são infundados, muitas vezes. Porque frequentemente as coisas que odiamos em nós mesmos são as mesmas coisas que todo mundo odeia em si mesmo.

É como um jogo de poker, onde todo mundo acha que têm a pior mão e tem medo de jogar, porque estão convencidos de que vão perder. Eu sei que todo mundo esconde suas cartas porque estão confusos.

A ironia aqui é que o amor muitas vezes é encontrar alguém que você acha sexy e que aceita e até mesmo curte esses aspectos mais profundos e obscuros de você, enquanto você aceita e até mesmo curte os aspectos mais profundos e obscuros dessa pessoa.

O que estou dizendo é que você tem que compartilhar essa merda, a fim de curá-la, filho.

Expor os piores aspectos de nós mesmos, admitindo-os e compartilhando-os, nos traz confiança e intimidade. Isso, claro, supondo que você esteja disposto e/ou tem capacidade de perdoar as pessoas e/ou a si mesmo.

 

Passo 4: Perdoe as pessoas, incluindo você.

Perdoar é algo que tem muita popularidade, mas em culturas do estilo punitiva, como a nossa, não sentimos como se muitas pessoas na verdade, você sabe, praticassem o perdão.

Perdoar significa perceber algo de ruim e ainda assim amar a pessoa (ou a você mesmo), apesar disso.

Como se faz isso, exatamente? Reconhecendo as boas intenções por trás da ignorância, da maldade e das ações indesejáveis.

Por exemplo, a maioria das pessoas não faz merda porque é ruim: faz porque não sabe fazer algo melhor ou erroneamente crê que tem justificativas aceitáveis. Muitas vezes ajuda lembrar das próprias falhas e ignorância quando se perdoa alguém.

E é por isso que lidar com sua própria auto-aversão é tão importante – quanto menos você for capaz de admitir e aceitar as partes de si mesmo de que não gosta, menos você será capaz de perdoar e deixar de lado os erros dos outros, E mais babaca e detestável você será.

 

Passo 5: Tire uma soneca.

Sério, você parece cansado.

 

Passo 6: Permita-se falhar.

Seu amor-próprio não tem a ver com a forma como você se sente sobre seus sucessos: o seu amor-próprio tem a ver como você se sente sobre seus fracassos.

Uma pessoa que ama e cuida de si mesma não tem uma enorme necessidade de fazer tudo certo ou perfeito ou corrigir tudo obsessivamente na primeira vez em que erra.

Pelo contrário, essas pessoas estão muito mais dispostas a aceitarem a imperfeição e sua confusão de modo a entenderem de onde o verdadeiro crescimento e progresso vem.

 

Passo 7: Realizar seus sonhos não basta.

Perceba que realizar seus mais loucos sonhos (tornar-se rico, dominar sua área profissional, encontrar o amor da sua vida) não vai te trazer todo o sentido e plenitude que você imagina.

Evite ter uma crise existencial e um colapso perguntando-se qual o sentido da sua vida e dedique-se simplesmente a tornar a vida dos outros mais fácil e a proporcionar prazeres simples a você mesmo (salvo muita masturbação, é claro).

 

Passo 8: Tanto os aspectos positivos e negativos do seu discurso interno são uma merda, portanto pare com isso.

Interromper esse processo de me deixar seduzir pela minha narrativa interna sobre quem sou e sobre o que está acontecendo comigo foi algo que mudou minha vida.

Percebi que se todas as coisas ruins e depreciativas que eu me dizia sobre mim mesmo não eram verdade, então também todas as coisas maravilhosas e auto-elogiosas que eu me dizia sobre mim mesmo também não eram.

Em primeiro lugar, você não sabe o que é a verdade sobre você ou como os outros lhe vêem. O fato é que sua mente é confusa e não é confiável nesses assuntos.

Supor-se especial cria um monte de expectativas irrealistas, e expectativas irrealistas criam uma carga extra de auto-aversão.

 

Passo 9: Ouça uma criança.

Pegue o êxito ou o fracasso mais importante de sua vida e pergunte a uma criança de quatro anos de idade o que ela pensa sobre isso.

Provavelmente ela vai rir e pedir para você fingir que é um cavalo, subir nas árvores e brincar com ela. E essa resposta será totalmente adequada e correta.

Porque esteja você descobrindo a cura do câncer ou entrando no bar assim que ele abre para retomar a sua espiral descendente de alcoolismo, você ainda é humano, e você ainda tem a capacidade de se conectar e ter empatia, divertindo-se com a vida dada a você.

E as crianças de quatro anos têm uma incrível capacidade para lembrá-lo disso.

Acho que onde estou chegando com todos esses passos é no desenvolvimento de uma prática saudável de humildade.

Sim, humildade. Quantas vezes não ouvimos essa palavra sendo dita ultimamente?

Porque o denominador comum de todos os auto-ódios é o sentimento descomunal de importância – ou você pensa que tudo sobre a sua vida é a pior coisa do mundo, ou você pensa que tudo o que faz deve ser a melhor coisa do mundo, a fim de compensar.

E nenhuma dessas opções é verdadeira.

Uma menina de quatro anos de idade percebe isso. É por isso que ela pedirá para fingir ser uma árvore.

Porém, em vez disso, você está tentando explicar a ela como você está resolvendo o aquecimento global na parte de trás de um guardanapo de papel. Mas apenas se cale por um minuto e seja uma árvore.


(Esta é a tradução autorizada do artigo original, escrito por Mark Manson em seu site. Se você quer acompanhar os novos artigos em língua inglesa, clique aqui e assine a newsletter de Mark)


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escrito por:

Mark Manson