Lá vem ela.

A raiva mais uma vez ergueu sua cabeça – na forma de frustrações diárias ou mesmo de profundos ressentimentos.

O que quer que você tenha feito – tenha você surtado diante do seu cônjuge, filho ou outra pessoa amada e seguindo o caminho da raiva, tenha você mandado à merda o seu chefe na segurança do banheiro fechado após ele ter ferrado com os seus horários de trabalho, ou tenha você apenas ficado frustrado com o mundo inteiro por ele “não funcionar do jeito que você quer” – nessas situações você fica furioso, e com frequência faz alguma coisa cujo resultado é deixar você insatisfeito consigo mesmo.

Você sabe o que sente nesses momentos tão bem quanto qualquer um. Como qualquer pessoa com filhos pode (e iria) atestar, crianças testam os limites da sua paciência desde o seu primeiro dia de vida, e elas se tornam cada vez melhores nesse “jogo” a medida em que os anos passam (meu filho mais velho tem 4 anos e duvido que esteja no seu ápice).

Cada um de nós está familiarizado com a natureza possessiva da raiva. Ela afeta a todos nós da mesma forma (mas alguns mais forte do que outros). Quando ficamos com raiva, nós podemos nos “tornar outra pessoa”, por assim dizer.

O sentimento da raiva é como uma enorme onda atingindo uma rocha, ela golpeia contra a rocha de uma forma incontrolável, e a água da onda prossegue cobrindo a rocha ainda por um tempo.

Com frequência, parece como se a raiva fosse uma força incontrolável, que nos subjuga e é completamente inevitável.

Mas a raiva não é uma força inevitável ou mesmo incontrolável. É uma emoção, e podemos desenvolver a capacidade de lidar habilmente com ela. E quando falo “habilmente” quero dizer que podemos desenvolver a capacidade de manejá-la, superá-la e deixá-la passar sem que cause a nós o mesmo nível de sofrimento e dor-de-cabeça que antes causava.

Então como nós superamos nossa raiva habilmente? Há várias formas de fazer isso, mas nenhuma delas tem a ver com “esfriar a cabeça” de uma forma pouco saudável.

Antes de prosseguirmos, faço questão de mencionar que há dois modos muito pouco saudáveis de lidar com a raiva:

  1. Fugir da raiva: isso não funciona, pois apenas acabamos retornando à mesma situação e tendo a mesma reação diante dela – sentir raiva. Para lidar com a raiva com mais habilidade, nós precisamos transformar nossa relação com a raiva indo até sua fonte (e analisá-la de perto).
  2. Descarregar a raiva – só a expressão “descarregar” já é um exemplo de porque isso não funciona eficientemente – descarregar apenas deixa mais espaço para que a raiva volte a ser recarregada. Sem falar que descarregar significa despejar sua raiva e frustração em alguma outra coisa, algo menos “prejudicial” (como socar um saco de pancadas). Mas isso também reforça um mau hábito: o de que para lidar com sua raiva e frustração você precisa danificar alguma coisa.

Abaixo estão 8 formas de superar a raiva habilmente (efetivamente) e de um modo saudável, deixando-a passar e prevenindo-a de retornar novamente (desenvolvendo a capacidade de permanecer calmo em situações frustrantes).

Como mencionei na introdução, a raiva é uma coisa que afeta a todos nós (embora variando de grau). Seja qual for a extensão em que a raiva afeta sua vida, espero que esses 8 pontos possam ser úteis para você.

1. Identifique a expectativa e abandone-a

Essa é uma das técnicas mais poderosas para lidar com a raiva habilmente.

Não costumamos notar, mas a maior parte das coisas que nos deixam enraivecidos no cotidiano são o resultado das muitas expectativas com as quais vivemos.

Nós temos a expectativa de chegar no trabalho em determinado horário, temos a expectativa de curtir uma ótima noite após voltarmos do trabalho, temos a expectativa de nos divertir no fim de semana, temos a expectativa de que nossos filhos se comportem, temos a expectativa disso e daquilo e daquilo outro também…

É algo bem irracional, mas se você parar pra pensar, vivemos a vida inteira com todo o tipo de expectativa irracional. E quase sempre é quando o mundo não se alinha a essas expectativas que ficamos enraivecidos.

Nesse caso, o próprio reconhecimento dessa verdade é com frequência tudo o que basta para começarmos o processo de cura.

Saiba que as expectativas que você tem podem ser a causa de uma boa parte da sua raiva no cotidiano, e que abandonar essas expectativas (uma por uma, a medida em que você as percebem surgindo) é a maneira de você livrar a si mesmo de toda aquela raiva que sentimos em nossas vidas diárias.

Quando você perceber que está começando a sentir raiva, desenvolva o hábito de fazer este exercício simples:

1 – Reconheça a raiva com plena atenção (“aquele carro acabou de me cortar…”);

2 – Perceba o que você está tentando “fazer com que aconteça” naquele momento. Isso é um sinal de expectativa (“estou tentando chegar em casa após um longo dia de trabalho…”).

3 – Reconheça a expectativa (“eu espero chegar em casa lá pelas cinco” ou “eu espero chegar em casa tranquilo, sem interrupções do tráfego e sem adicionar mais frustrações ao dia longo que tive”).

4 – Abandone a expectativa (“eu vou chegar em casa na hora que chegar em casa”). Isso significa aceitar o momento presente “tal como ele é”, seja ele do jeito que for.

Em última instância, esse exercício tem a capacidade de ensinar a você que essas expectativas são na verdade resistências a vivenciar o momento presente, ou mesmo a realidade, tal como é. Tentamos mudar o mundo ao nosso redor constantemente para que se ajuste ao que queremos (esse é o grande problema de muitos de nós), e quando o mundo não se ajusta, ficamos com raiva.

Aprenda a livrar-se dessas expectativas e veja o quanto isso pode ser transformador.

2. Viva desapegadamente (sem expectativas)

Indo além do item anterior, viva “abertamente”, de uma forma que você não tenha tantas expectativas e possa em primeiro lugar evitar que situações como aquelas ocorram.

Como você faz isso? Após algum tempo percebendo as diversas expectativas que tem, ou grupos de expectativas, você pode começar a identificar certos padrões. E é dessa forma que você passa a libertar-se desses padrões e por fim livra-se do modo como eles te “capturam”.

Prossiga praticando o exercício do item 1 e você em algum momento desenvolverá a capacidade de interromper essas expectativas assim que nascem, ao invés de apenas lidar com elas quando já se fortaleceram.

Isso pode levar tempo, mas é muito libertador.

3. Preste atenção ao seu corpo

Sem prática, pode ser difícil perceber o quão nossos corpos e mentes estão interconectados.

Por meio da meditação, porém, especialmente da plena atenção à respiração, nós nos tornamos intimamente conectados com nossos corpos, e percebemos que, quando experimentamos emoções, há quase sempre uma reação física que a acompanha.

A sua reação pode não ser a mesma que a minha ou a de outra pessoa, mas todos nós a temos: uma sensação de calor na sua cabeça ou no resto do seu corpo, uma sensação desconfortável em seu estômago, um tremor em todo corpo, um cerrar dos punhos (especialmente se você tende a reagir fisicamente, mas não necessariamente), ou um tensão nos seus músculos faciais.

Treinando sua mente para tornar-se plenamente atenta a seu corpo, você pode identificar a raiva assim que ela surge e aprender a como lidar habilmente com ela antes que se torne um problema.

Isso pode significar prestar atenção às sensações físicas (liberando a tensão em suas mãos, rosto ou em outra parte do seu corpo) ou simplesmente utilizar a sensação física como um indicador e fazendo algo para se acalmar (respirar, tomar consciência plena da raiva, etc.).

Seja o que for, prestar atenção ao seu corpo pode ajudar você a aprender como deixar sua raiva passar e lidar consigo mesmo de uma forma muito melhor quando as situações frustrantes surgirem.

4. Observe e contemple os outros ao seu redor

Isso tem a ver com lidar com a raiva quando você está numa discussão.

Perceba que tanto você quanto a outra pessoa estão com raiva, e que a raiva basicamente tomou controle de ambos (até certo ponto). Perceba que a raiva não é apenas natural, mas também que sem desenvolver a capacidade de lidar com ela habilmente, você estará submetido aos caprichos dela, e dessa forma você e a outra pessoa podem dizer e fazer coisas que realmente não queriam dizer e fazer.

Se você perceber essa ideia simples com clareza no momento da discussão, isso pode lhe ajudar a reduzir a frustração e dar a capacidade de colocar a raiva “debaixo do microscópio”, por assim dizer, de modo a trazer mais luz a toda a situação.

Mesmo se você não fizer isso no momento em que a discussão ocorre, isso pode ainda ser muito benéfico mais tarde como algo sobre o qual você pode meditar para no futuro lidar com a próxima situação. E quanto mais você praticar, melhor você ficará nisso.

5. Cultive a compreensão

No coração da raiva está a falta de compreensão.

Então faz sentido, que cultivando uma compreensão profunda sobre uma pessoa em particular ou um certo evento, podemos aprender a abandonar a raiva que sentimos dessa pessoa ou evento.

Como você faz isso? Há muitas maneiras, mas uma que usei repetidas vezes (e com muito sucesso) consiste numa técnica simples chamada “curar através da compreensão”.

É uma técnica básica que utilizo TODAS as vezes em que preciso de ajuda para me livrar da raiva, do estresse e da frustração, abandonando as expectativas. E ela pode ser praticada por qualquer um com um pouco de imaginação.

Como você a pratica? A ideia é pegar uma pessoa que faz algo que deixa você com raiva e imaginar tantas possibilidades quanto puder sobre as razões de seu comportamento. Você nem mesmo precisa saber porque a pessoa agiu realmente daquela forma. Você só imagina todas as razões possíveis  que conseguir.

Por fim, dê um passo para trás e revise essas várias possibilidades que imaginou. Perceba então que a razão para o comportamento que lhe irrita tem duas características: 1) não foi na verdade praticado por sua causa e 2) decorre simplesmente de algo que a pessoa está vivenciando e com a qual não sabe lidar. Uma vez feito isso, você verá que há mais sobre aquela pessoa do que as aparências revelam. O conflito usualmente envolve uma ou mais pessoas utilizando a raiva para agredir, então se você puder perceber que o verdadeiro motivo de a pessoa ter agido com raiva e agressão não foi você, mas sim algo profundo dentro dela e que a estava machucando, você pode aprender a cultivar a compaixão por ela, assim como aliviar seu próprio sentimento de raiva e seu estresse.

6. Cultive a compaixão

É difícil permanecer com raiva daqueles que você ama, não é?

Isso ocorre porque (ao menos em geral), se por um lado eles podem incomodar, irritar e frustrar você de vez em quando, por outro você tem amor e compaixão por eles (ao menos algum tipo de amor e compaixão), e quando você esfria sua cabeça após um episódio de raiva, sua compaixão e compreensão quase sempre assumem o controle e começam a eliminar a raiva que você sentia.

Mas isso não evita que você volte a descontar na pessoa a sua raiva, o que leva você a pedir desculpas após fazer algo assim de novo.

Você pode ser mais proativo que isso meditando sobre o amor e compaixão durante ou mesmo logo após uma situação difícil com aquela pessoa.

Essa é a prática da meditação gentil e amorosa (ou pelo menos uma versão mais “curta” dela), e pode ser utilizada ao longo do seu dia para transformar seu sentimento de irritação por uma pessoa em um sentimento de amor, compaixão e gentileza.

A ideia é simples: pense em alguém que você ama e imagine os sentimentos de amor que você tem por aquela pessoa se ampliando cada vez mais. A seguir, imagine que você transfere esses sentimentos de amor e compaixão para a pessoa com quem você começou a ficar irritado. Se você é em parte responsável pela situação, pode começar direcionando o amor e compaixão para você primeiro, a seguir você imagina a pessoa que você ama, e por fim a pessoa com a qual você começou a se irritar.

Essa pode não ser uma solução instantânea, mas é útil por duas razões: 1) com a prática você pode transformar totalmente a sua raiva, e 2) fazer uma só vez esse exercício pode ser muito curador e ajudar a diminuir sua raiva.

7. Fique junto à sua raiva

Uma das coisas mais efetivas que você pode fazer é simplesmente sentar em meditação e ficar atento à emoção.

Para fazer isso, sente e comece a respirar com plena atenção.

Não analise a sua raiva, reconheça quando ela surgir e deixe-a aumentar naturalmente.

Isso não apenas ajudará a reduzir a raiva, mas auxiliará você a descobrir a verdadeira fonte desse sentimento.

Ao ganhar esse tipo de profunda clareza, você pode transformar a sua própria relação com a fonte da raiva, ao invés de simplesmente tentar diminui-la temporariamente.

8. Cultive o perdão (quando a raiva é profunda)

Às vezes a raiva se origina de algo mais profundo do que nossas atividades diárias.

Muitas vezes, ela é o resultado de algo que alguém fez para nós em nosso passado remoto.

Esse tipo de raiva é muito perigosa porque permanece com a gente. Ela com frequência se torna ressentimento a medida em que o tempo passa porque nós vemos como a raiva nos faz sofrer, e ficamos ressentidos com quem nos faz sofrer por tanto tempo.

Por mais estranho que pareça, esse tipo de raiva também tem a ver com nossas expectativas (nossas expectativas sobre a pessoa), mas nesse caso pode ser difícil notar isso antes que a situação ocorra, então a forma como precisamos lidar com isso é em geral totalmente diferente.

Para lidar com esse tipo de raiva ou ressentimentos muito profundo, precisamos meditar sobre o perdão.

Para meditar sobre o perdão, visualize uma imagem da pessoa na sua mente. Torne essa imagem o mais claro possível.

A seguir, relembre o evento ou eventos que levaram você a sentir essa raiva.

Há algumas formas de praticar essa meditação, mas para simplificar, seu próximo passo é se concentrar em perdoar aquela pessoa quando aquela sensação de raiva ou ressentimento surgirem.

Essa forma de meditação é muito semelhante à meditação gentil e amorosa, mas com enfoque em perdoar aquela específica pessoa.

Pode não ser fácil praticar esse tipo de meditação, e pode levar tempo para você cultivar o perdão, mas se a ferida é profunda, a cura também deve ser, de modo a contrabalançá-la.

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Não importa como você vai escolher lidar com a sua raiva, compreenda que você precisa ter a coragem de enfrentá-la e de lidar com a origem dela, se você deseja superá-la.

Viva com plena atenção, medite sobre a origem da raiva e aprenda a livrar-se das expectativas que alimenta na vida cotidiana: assim você dominará a sua raiva de uma vez por todas.

 

escrito por:

Matt Valentine

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