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As 7 doenças que estão matando nossa humanidade

Em Consciência, O MELHOR DO AZ, Sociedade por Victor LisboaComentário

Nem toda supers­ti­ção é reli­gi­osa, e uma das supers­ti­ções mais peri­go­sas de nosso tempo nada tem de mís­tica. Ela con­siste na crença de que o desen­vol­vi­mento da soci­e­dade sem­pre é algo posi­tivo, e que na busca pelo pro­gresso dei­xa­mos para trás ape­nas o que é obso­leto.

Sete das men­tes mais cri­a­ti­vas dos últi­mos tem­pos ata­ca­ram essa supers­ti­ção. É ver­dade, a tec­no­lo­gia e a evo­lu­ção dos cos­tu­mes podem trans­for­mar nos­sas vidas aqui na Terra em um paraíso. Mas é pos­sí­vel que nesse pro­cesso dei­xe­mos para trás algu­mas das con­di­ções neces­sá­rias para uma vida plena, feliz e amo­rosa — uma vida com sabe­do­ria, em outras pala­vras. Se dese­ja­mos rumar até o paraíso, pre­ci­sa­mos saber dis­tin­gui-lo do inferno.

Para sete pen­sa­do­res, nossa soci­e­dade está na enferma, e eles diag­nos­ti­ca­ram as sete doen­ças que a aco­me­tem.

A ESPETACULARIZAÇÃO DE NOSSAS VIDAS

Em 1967, o filó­sofo fran­cês Guy Debord escre­veu A Soci­e­dade do Espe­tá­culo, em que pro­põe que no mundo moderno somos indu­zi­dos a pre­fe­rir a ima­gem e a repre­sen­ta­ção da rea­li­dade à pró­pria rea­li­dade con­creta.

Para Debord, as ima­gens, ape­nas som­bras do que existe, con­ta­mi­na­ram nossa expe­ri­ên­cia coti­di­ana, levando-nos a renun­ciar à vivên­cia da rea­li­dade tal como ela é. Toda a vida em soci­e­dade virou um acú­mulo de espe­tá­cu­los indi­vi­du­ais e cole­ti­vos, tudo é vivido ape­nas enquanto repre­sen­ta­ção perante os outros.

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Com­par­ti­lhar sta­tus, ins­ta­grams, twe­ets: os pal­cos e as pla­teias muda­ram, a ence­na­ção ficou coti­di­ana. Na soci­e­dade do espe­tá­culo em que esta­mos sub­mer­sos, mesmo os rela­ci­o­na­men­tos são con­du­zi­dos pela medi­a­ção de ima­gens. Pas­sando a inter­me­diar as rela­ções com ima­gens e simu­la­cros de sen­ti­men­tos mol­da­dos pelas redes soci­ais, volun­ta­ri­a­mente renun­ci­a­mos à qual­quer ten­ta­tiva de reco­nhe­cer os aspec­tos difí­ceis e desa­fi­a­do­res dos rela­ci­o­na­men­tos ver­da­dei­ros.

Debord enten­dia que o real envol­vi­mento em rela­ci­o­na­men­tos huma­nos foi tro­cado por uma iden­ti­fi­ca­ção pas­siva com a posi­ção de espec­ta­to­res recí­pro­cos. Nesse esquema, cada um assiste, curte e com­par­ti­lha o outro em seu palco par­ti­cu­lar, aguar­dando a sua vez de ser assis­tido, cur­tido e com­par­ti­lhado.

Há, assim, um gra­dual empo­bre­ci­mento das rela­ções huma­nas. Iso­la­das, as pes­soas tor­nam-se inti­ma­mente mais inse­gu­ras, e por­tanto mais fra­gi­li­za­das. Essa fra­gi­li­za­ção torna os indi­ví­duos mais influ­en­cía­veis e facil­mente mano­brá­veis.

A MENTIRA ENQUANTO NARRATIVA

O filó­sofo e neu­ro­ci­en­tista nor­te­a­me­ri­cano Sam Har­ris escre­veu em 2013 o livro Lying (Men­tindo), na ver­dade um ensaio em que ele demons­tra que a men­tira é o pecado que pavi­menta todos os demais peca­dos da moder­ni­dade.

Esti­mu­lar soci­al­mente a neces­si­dade da men­tira é uma decor­rên­cia lógica de uma soci­e­dade do espe­tá­culo, em que men­tir é muito mais do que ocul­tar a ver­dade. A men­tira chega ao ponto de des­cons­truir a ver­dade ao con­fundi-la com uma nar­ra­tiva — algo que serve, por­tanto, ao pró­prio espe­tá­culo.

Dizer tudo é rela­tivo é um slo­gan ultra­pas­sado. Agora, tudo é nar­ra­tiva, e pas­sa­mos a acre­di­tar que não há nenhum fato que não possa ser rede­fi­nido como uma forma de nar­ra­tiva do pro­ta­go­nista.

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Após sécu­los iden­ti­fi­cando Deus como A Ver­dade e o diabo como O Pai da Men­tira, a soci­e­dade atual encara o con­ceito de “ver­dade” com iro­nia e ceti­cismo. Uma das carac­te­rís­ti­cas de nosso tempo é a ideia de que a ver­dade é rela­tiva, e de que tudo depende do ponto de vista do sujeito. O rela­ti­vismo moral é uma men­tira cui­da­do­sa­mente ela­bo­rada para que ela pró­pria pareça uma ver­dade.

O pro­blema é que a linha moral entre ver­dade e men­tira é a única que separa nossa cami­nhada cole­tiva do rio negro da bar­bá­rie e da supers­ti­ção. E nem pre­ci­sa­mos ape­lar para as vir­tu­des morais do lei­tor: já está pro­vado que a melhor solu­ção de qual­quer con­flito humano é a cola­bo­ra­ção e a con­fi­ança mútua. Assim, a posi­ção de van­ta­gem per­cep­tí­vel a curto prazo torna-se uma enorme der­rota logo adi­ante.

O PROTAGONISMO

O pro­du­tor bri­tâ­nico Adam Cur­tis ide­a­li­zou o docu­men­tá­rio The Cen­tury of the Self (O Século do Eu). Nessa obra imper­dí­vel (dis­po­ní­vel aqui legen­dado), ele demons­tra como a publi­ci­dade uti­li­zou as teo­rias psi­co­ló­gi­cas sobre o fun­ci­o­na­mento da mente humana para ten­tar mani­pu­lar o desejo do público e indu­zir todos ao con­sumo.

Não havia lugar para suti­le­zas. Um pouco comi­ca­mente, algo banal como ven­der carro na TV uti­li­zava estra­ta­ge­mas que ten­ta­vam invo­car alguns dos dese­jos sexu­ais mais pri­mi­ti­vos do espec­ta­dor. Era cômico, mas efi­ci­ente: a venda de car­ros aumen­tava. A rea­li­dade humana é que tal­vez seja meio engra­çada. Podia-se, por­tanto, dar um passo além.

Assim, a seguir houve uma evo­lu­ção menos ingê­nua e gros­seira dessa publi­ci­dade, uma forma de explo­rar os medos e anseios do público para além do comer­cial de auto­mó­veis fáli­cos. Afi­nal, por­que ten­tar asso­ciar o pro­duto com os dese­jos ínti­mos do con­su­mi­dor se era pos­sí­vel, pela indús­tria de entre­te­ni­mento, influ­en­ciar e tal­vez até deter­mi­nar esses dese­jos ínti­mos?

A par­tir de 1960, o movi­mento da con­tra­cul­tura ensi­nou às gran­des mul­ti­na­ci­o­nais e agên­cias de publi­ci­dade que dava lucro desen­vol­ver e dis­se­mi­nar entre a pes­soas a noção de indi­vi­du­a­lismo como um estilo de vida.

Daquele momento em diante, os meios de comu­ni­ca­ção de massa (cinema, tele­vi­são, música popu­lar) pas­sa­ram a ven­der a seguinte ideia: somos todos nós indi­ví­duos úni­cos, espe­ci­ais, e temos todos o direito de explo­rar a riqueza lumi­nosa de nossa indi­vi­du­a­li­dade.

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Disso sur­giu o pro­ta­go­nismo. Afinal, numa soci­e­dade em que tudo é espe­tá­culo, a decor­rên­cia lógica é que todos, esti­mu­la­dos em seu indi­vi­du­a­lismo, con­si­de­rem-se pro­ta­go­nis­tas.

As redes soci­ais como Face­book, Ins­ta­gram, Twit­ter e Tum­blr só que­rem uma única coisa de nós: que as uti­li­ze­mos cada vez mais, que as tor­ne­mos uma parte indis­pen­sá­vel de nossa vida. E o que fazem para isso é criar espa­ços em que pode­mos cons­truir nossa ima­gem pes­soal perante os outros de forma que pare­ça­mos pro­ta­go­nis­tas de uma nar­ra­tiva inte­res­sante.

O pro­ta­go­nismo esti­mu­lado pela nossa soci­e­dade torna, sub­je­ti­va­mente, todas as outras pes­soas meros coad­ju­van­tes de nossa his­tó­ria pes­soal. Todos os outros seres huma­nos ao nosso redor são con­si­de­ra­dos ape­nas na exata medida em que cola­bo­ram ou não com o desen­vol­vi­mento dessa pequena novela que repe­ti­mos a nós mes­mos em nossa cabeça.

E um dos aspec­tos mais noci­vos disso é a ideia de pro­ta­go­nismo social, muito difun­dida no ati­vismo das redes soci­ais. Segundo essa pro­posta, ape­nas aque­les que se enqua­dram em deter­mi­nada cate­go­ria mino­ri­tá­ria ou opri­mida pode­riam lutar ati­va­mente con­tra as con­di­ções de opres­são. Todos os demais indi­ví­duos deve­riam, por­tanto, per­ma­ne­cer pas­si­vos diante da luta, em estado de apro­va­ção bovina. Assim, somente mulhe­res pode­riam pro­ta­go­ni­zar o com­bate ao machismo, somente afro­des­cen­den­tes pode­riam pro­ta­go­ni­zar o com­bate ao racismo. Seg­men­tando ainda mais a soci­e­dade, essa pro­posta impede que todos os seres huma­nos, uni­dos, lutem con­tra tudo aquilo que for um pro­blema fun­da­men­tal­mente humano — como o são os pre­con­cei­tos.

AS RELAÇÕES LÍQUIDAS

Muito já se falou da teo­ria do soció­logo polo­nês Zyg­munt Bau­man sobre a soci­e­dade líquida. Por “líquida” entende-se uma soci­e­dade em que não há papeis soci­ais rígi­dos nem cer­te­zas sóli­das. Tudo, por­tanto, é fluído e não somos obri­ga­dos a assu­mir um com­pro­misso dura­douro com qual­quer papel social ou pes­soa.

Que emprego esco­lher, com quem nos casar, que estilo de vida ado­tar: não há qual­quer ori­en­ta­ção sobre o que é certo e errado diante de duas esco­lhas, e tudo o que nos é dito é que temos total liber­dade para deci­dir. O pro­blema é que cada esco­lha por um cami­nho implica na renún­cia de outro, e disso irre­me­di­a­vel­mente sur­gem dúvi­das e a som­bra do arre­pen­di­mento.

Essa liber­dade, inse­rida no con­texto da soci­e­dade que impõe ao indi­ví­duo a obri­ga­ção de espe­ta­cu­la­ri­zar sua vida e expres­sar uma suposta indi­vi­du­a­li­dade de pro­ta­go­nista bem suce­dido, é sen­tida como um fardo. O resul­tado são indi­ví­duos aco­me­ti­dos de ansi­e­dade cons­tante, inse­gu­ros, fra­gi­li­za­dos. E pes­soas fra­gi­li­za­das são mais facil­mente influ­en­ciá­veis.

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Trans­por­tando isso para os rela­ci­o­na­men­tos, Bau­man sali­enta que a faci­li­dade com que hoje pode­mos aban­do­nar uma rela­ção, tran­si­tando de um envol­vi­mento afe­tivo para o outro, sem­pre na busca de uma ide­a­li­za­ção inal­can­çá­vel do sujeito amado e do pró­prio amor, traz tam­bém ansi­e­dade e acar­reta o empo­bre­ci­mento das rela­ções huma­nas.

Como Bau­man expõe no vídeo acima, atu­al­mente nós des­fa­ze­mos nos­sos elos com os outros com a faci­li­dade de quem des­faz uma ami­zade no Face­book: basta um cli­que. Em um pla­neta super­po­vo­ado, parece que sem­pre há a nossa dis­po­si­ção outras tan­tas pes­soas com as quais esta­be­le­cer cone­xão — o pro­blema é que no final nunca esta­be­le­ce­mos cone­xões ver­da­dei­ras com nin­guém.

A FALTA DE TEMPO

Em Mal-estar na atu­a­li­dade, o psi­ca­na­lista bra­si­leiro Joel Bir­man alerta que a raci­o­na­li­za­ção das prá­ti­cas soci­ais usur­pou dos indi­ví­duos o con­trole do seu tempo. A forma como uti­li­za­mos nosso tempo pes­soal está cada vez mais sendo pré-deter­mi­nada pelas deman­das soci­ais, impondo que viva­mos em um fre­nesi ini­ter­rupto.

Hoje em dia, esta­mos sem­pre super ata­re­fa­dos. A soci­e­dade nos seduz com o sonho de ser­mos pro­ta­go­nis­tas de nosso espe­tá­culo pri­vado, mas o cami­nho para esse sonho está ladri­lhado com tare­fas, micro­ta­re­fas e toda espé­cie de ati­vi­dade que exige nossa cons­tante aten­ção. Isso con­some pra­ti­ca­mente todo o nosso tempo des­perto.

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Como resul­tado, embora este­ja­mos hoje em dia sem­pre ata­re­fa­dos, parece que jamais faze­mos o sufi­ci­ente. Disso vem a sen­sa­ção estra­nha de que esta­mos viti­mi­za­dos pela pro­cras­ti­na­ção: nunca temos tempo de fazer tudo o que pre­ci­sa­mos para cum­prir com a pro­messa de que sere­mos pro­ta­go­nis­tas excep­ci­o­nais.

O pro­blema é que um ponto cen­tral de qual­quer pro­jeto de vida é a pos­si­bi­li­dade de revi­sar­mos nos­sas deci­sões e estra­té­gias com aten­ção e tran­qui­li­dade, refle­tindo deti­da­mente sobre aquilo que esta­mos fazendo. A pressa nos impede de ana­li­sar quais coi­sas são real­mente impor­tan­tes para nós e quais são as nos­sas pri­o­ri­da­des.

Sem tempo o sufi­ci­ente para inves­ti­gar a moti­va­ção por trás de cada tarefa coti­di­ana, des­per­di­ça­mos muito de nosso tempo em ati­vi­da­des que podem ser valo­ri­za­das soci­al­mente, mas que inti­ma­mente sig­ni­fi­cam muito pouco para nós. Mais que isso, sem pode­mos nos dar ao luxo de per­der tempo, dei­xa­mos de ter direito ao ócio neces­sá­rio à cri­a­ti­vi­dade e à frui­ção dos pra­ze­res.

O HIPERCONSUMISMO

O filó­sofo fran­cês Gil­les Lipo­vetsky cunhou o termo hiper­con­sumo. Sería­mos, neste momento da his­tó­ria, não meros con­su­mi­do­res, mas hiper­con­su­mi­do­res. Em uma estru­tura na qual o cres­ci­mento econô­mico depende do con­sumo cres­cente da popu­la­ção, esta­mos todos inse­ri­dos numa dinâ­mica social base­ada na com­pra con­tí­nua. Se parar­mos de con­su­mir febril­mente, há um colapso da eco­no­mia.

Não há nada de essen­ci­al­mente errado com o con­sumo. O mer­cado de con­sumo tem sim seus espa­ços legí­ti­mos de atu­a­ção. Porém, a par­tir de 1970, segundo Lipo­vestky, ingres­sa­mos na fase do hiper­con­sumo. Trata-se de uma fase essen­ci­al­mente sub­je­tiva, pois os indi­ví­duos dese­jam adqui­rir obje­tos não pela sua uti­li­dade ou neces­si­dade, mas para ali­vi­a­rem sua ansi­e­dade de acei­ta­ção e inte­gra­ção na cole­ti­vi­dade.

Os pro­du­tos são con­su­mi­dos enquanto ato de expres­são da indi­vi­du­a­li­dade e do estilo de vida do hiper­con­su­mi­dor. Com­pra­mos pro­du­tos, mas esta­mos em busca de sen­sa­ções, vivên­cias e a cons­tru­ção de uma ima­gem social que nos traga pres­tí­gio.

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Gas­ta­mos peque­nas for­tu­nas em smartpho­nes para não uti­li­zar­mos sequer 20% de sua capa­ci­dade com­pu­ta­ci­o­nal. Olha­mos para as ave­ni­das engar­ra­fa­das de nos­sas cida­des e vemos poten­tes uti­li­tá­rios trans­por­tando ape­nas o moto­rista. A cons­tru­ção social da moda e da ten­dên­cia garante que rou­pas ainda em per­feito estado sejam enfi­a­das no fundo do guarda roupa, obri­gando-nos a com­prar novas rou­pas que nos pro­te­jam da ridi­cu­la­ri­za­ção social.

O con­ceito de obso­les­cên­cia pro­gra­mada, a noção de des­va­lo­ri­za­ção dos bens de con­sumo adqui­ri­dos e o sta­tus social asso­ci­ado a novas ver­sões dos mes­mos pro­du­tos asse­gura que tenha­mos que tro­car de carro, smartphone, tele­vi­são e com­pu­ta­dor com uma frequên­cia que é con­ve­ni­ente ao sis­tema de pro­du­ção atual, mas irra­ci­o­nal do ponto de vista do con­su­mi­dor e da capa­ci­dade de explo­ra­ção do meio ambi­ente.

IRONIA

Não se engane, a iro­nia nos tira­niza”, vati­ci­nou o escri­tor ame­ri­cano David Fos­ter-Wal­lace em seu ensaio E Uni­bus Plu­ram. E seu alerta pre­cisa ser levado a sério.

Iro­nia con­siste essen­ci­al­mente em que­rer dizer coisa dis­tinta daquela que está sendo expres­sa­mente dita, cau­sando o efeito de humor. Por­tanto, a iro­nia flerta com a men­tira e, ao lado do con­ceito de nar­ra­tiva, é outra forma efi­caz de dete­ri­o­rar soci­al­mente o valor da ver­dade em nossa soci­e­dade. Mas a iro­nia é ainda mais nociva, pois não para seu tra­ba­lho cor­ro­sivo por aí — a iro­nia mina a pró­pria capa­ci­dade do indi­ví­duo viven­ciar e expres­sar soci­al­mente sen­ti­men­tos ver­da­dei­ros e sig­ni­fi­ca­ti­vos.

Não ape­nas a sin­ce­ri­dade e a pai­xão estão hoje fora de moda, alerta Fos­ter-Wal­lace, mas atu­al­mente é sinal de dis­tin­ção social e de inte­li­gên­cia estar leve­mente ente­di­ado e osten­tar uma leve, cínica, des­con­fi­ança sobre todas as coi­sas: expres­sões faci­ais, ges­tos e comen­tá­rios que infor­mam, com ar de supe­ri­o­ri­dade, que “já vi de tudo nesse mundo”, que “sei que nada é o que parece ser” e que “acho tudo isso que você leva tão a sério muito engra­çado”.

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A iro­nia que come­çou como um espí­rito de van­guarda no pas­sado, do qual dota­das as pes­soas mais inte­li­gen­tes e saga­zes, tor­nou-se agora uma cul­tura de massa. Os meios de comu­ni­ca­ção, segundo Fos­ter-Wal­lace, uti­li­zam ele­men­tos do pós moderno como a meta­lin­gua­gem, o absurdo, o sar­casmo, a ico­no­clas­tia e a rebe­lião e os modela para fins de con­sumo.

A par­tir de então, a iro­nia, que antes era um ins­tru­mento for­ta­le­ce­dor do espí­rito con­tra os dog­mas e as cren­ças sacra­li­za­das mas opres­so­ras, tor­nou-se uma força debi­li­tante do pró­prio espí­rito humano. Pois a iro­nia é a forma irre­ve­rente de o des­prezo anun­ciar que está che­gando.

Citando o poeta ame­ri­cano Lewis Hyde, Fos­ter-Wal­lace expõe que “a iro­nia tem uma uti­li­dade ape­nas emer­gen­cial, e esten­dida no tempo, torna-se a voz do pri­si­o­neiro que pas­sou a gos­tar de sua cela”. Ela perde seu poten­cial con­tes­ta­dor e torna-se uma forma sar­cás­tica de con­for­mar-se e adap­tar-se a tudo aquilo que nos limita. Pois a iro­nia tam­bém atinge as aspi­ra­ções a ges­tos herói­cos e ele­va­dos sen­ti­men­tos.

A iro­nia, embora real­mente pra­ze­rosa, tem uma fun­ção essen­ci­al­mente nega­tiva, pois é crí­tica e des­cons­tru­tiva, “boa para lim­par o ter­reno”. Porém, a iro­nia, após seu tra­ba­lho de des­trui­ção e depu­ra­ção, é inca­paz de cons­truir algo ver­da­deiro, é iná­bil em pro­por a cri­a­ção de algo que subs­ti­tua, e para melhor, aquilo que aju­dou a des­truir.


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Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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