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7 sinais de um indivíduo saudável em uma sociedade enferma

Em Consciência, O MELHOR DO AZ, Sociedade por Victor LisboaComentários

Não é sinal de saúde estar bem adap­tado a uma soci­e­dade doente, disse o filó­sofo e edu­ca­dor indi­ano Jiddu Krish­na­murti. E para pen­sa­do­res do cali­bre de Guy Debord, Sam Har­ris, Adam Cur­tis, Zyg­munt Bau­man, Joel Bir­man, Gil­les Lipo­vetsky e David Fos­ter Wal­lace esta­mos, de fato, em uma soci­e­dade ado­e­cida.

Mas se esses pen­sa­do­res apre­sen­tam os sin­to­mas de nossa enfer­mi­dade cole­tiva, há alguma forma de ini­ci­ar­mos o pro­cesso de cura?

A ver­dade é que mui­tas pes­soas atri­buem as cau­sas dessa doença a essa ou aquela carac­te­rís­tica estru­tu­ral de nossa soci­e­dade: ora é a tec­no­lo­gia, ora é o capi­ta­lismo, ora é a publi­ci­dade. Mas a expe­ri­ên­cia his­tó­rica demons­tra que sem­pre que ten­ta­mos alte­rar as gran­des estru­tu­ras soci­ais, além de muita vio­lên­cia e sofri­mento, o que obte­mos são novas e dife­ren­tes estru­tu­ras soci­ais que pro­du­zem o mesmo nível de ado­e­ci­mento de toda a soci­e­dade.

Tal­vez essa abor­da­gem seja o equi­va­lente a cul­par a gar­ganta pela irri­ta­ção que sen­ti­mos nela quando fica­mos gri­pa­dos, ou afir­mar que a causa da enxa­queca seja a exis­tên­cia da cabeça. A ori­gem da enfer­mi­dade, na ver­dade, é sem­pre outra, e de natu­reza micros­có­pica: assim como no caso da gripe a ori­gem esteja em um vírus, a causa da enfer­mi­dade social tal­vez resida na forma como cada ser humano está vivendo sua vida indi­vi­du­al­mente.

Have­ria, por­tanto, com­por­ta­men­tos virais na con­duta humana que criam o ado­e­ci­mento da soci­e­dade? E, nesse caso, pode­mos nos trans­for­mar, de hos­pe­dei­ros desse vírus, em anti­cor­pos defen­so­res dessa mesma soci­e­dade, sem a neces­si­dade de alte­rar as suas estru­tu­ras? Nesse caso, a nossa saúde com­por­ta­men­tal teria o poder de indu­zir a saúde de toda a comu­ni­dade.

Sete gran­des inte­lec­tos apre­sen­ta­ram sete carac­te­rís­ti­cas de um ser humano equi­li­brado e sau­dá­vel. E tal­vez desen­vol­ver em nós essas sete carac­te­rís­ti­cas seja o iní­cio do pro­cesso de cura cole­tiva.

 

1. Ter autoconsciência (David Foster Wallace)

David Fos­ter Wal­lace pro­fe­riu em 2005 um dis­curso para uma turma que colava grau no Kenyon Col­lege. Esse dis­curso, que pas­sou a ser conhe­cido pelo título “Isso é Água”, tor­nou-se tal­vez a obra mais popu­lar e divul­gada de Wal­lace nas redes soci­ais. E a essên­cia de sua men­sa­gem trata da impor­tân­cia de apren­der­mos a pen­sar.

Pen­sar”, algo que con­si­de­ra­mos uma ati­vi­dade auto­má­tica e natu­ral, para Wal­lace é um pro­cesso a ser apren­dido e pra­ti­cado com cons­ci­ên­cia e treino, prin­ci­pal­mente durante as ati­vi­da­des coti­di­a­nas. Pen­sar seria, na ver­dade, uma prá­tica na qual pode­mos ser bem suce­di­dos ou falhar ver­go­nho­sa­mente, e desse resul­tado depen­de­ria nossa rea­li­za­ção pes­soal.

David Foster Wallace frase

A maior parte das pes­soas deixa seu fluxo de pen­sa­mento con­du­zir-se ale­a­to­ri­a­mente, à medida em que asso­ci­a­ções e lem­bran­ças lhe ocor­rem. Numa soci­e­dade que nos empurra para o auto­ma­tismo e a pressa, em que fica­mos pre­sos em engar­ra­fa­men­tos e lon­gas filas de super­mer­cado, pen­sar dessa forma nos torna víti­mas fáceis da mani­pu­la­ção e do con­trole externo. A “bovi­ni­za­ção” humana é con­sequên­cia de nossa inap­ti­dão para pen­sar de um modo mais cons­ci­ente e atento.

Mas pen­sar não se con­funde com capa­ci­dade inte­lec­tual. Como Wal­lace deixa claro em seu dis­curso, indi­ví­duos de inve­já­vel for­ma­ção aca­dê­mica podem ser com­ple­ta­mente incom­pe­ten­tes nessa ati­vi­dade, pois ela não implica ape­nas no raci­o­cí­nio abs­trato e teó­rico: pen­sar implica em ana­li­sar con­ti­nu­a­mente os pres­su­pos­tos pes­so­ais e emo­ci­o­nais sobre os quais estru­tu­ra­mos a nossa vida, a ponto de con­se­guir­mos enxer­gar coi­sas tão óbvias que não as per­ce­be­mos — tal como os pei­xes não per­ce­bem a água em que estão sub­mer­sos.

Quando Wal­lace res­salta a impor­tân­cia de apren­der­mos a pen­sar, ele está falando da auto­cons­ci­ên­cia, daquela capa­ci­dade de pen­sar­mos sobre nos­sos pen­sa­men­tos, de ques­ti­o­nar­mos os pres­su­pos­tos de nos­sas esco­lhas e de nos­sos sen­ti­men­tos em rela­ção ao mundo, ado­tando uma pers­pec­tiva situ­ada além do pro­ta­go­nismo, da visão segundo a qual nós somos o cen­tro dos even­tos que nos ocor­rem.

 

2. Praticar o amor como forma de arte (Erich Fromm)

O filó­sofo e psi­ca­na­lista Erich Fromm publi­cou em 1956 sua obra A Arte de Amar. Segundo pro­põe nesse ensaio, o amor não seria um sen­ti­mento que viven­ci­a­mos com pas­sivo arre­ba­ta­mento: o amor seria, antes de tudo, uma prá­tica a ser exer­cida com plena cons­ci­ên­cia. Mais ainda, é uma prá­tica que pre­cisa ser apren­dida até o ponto em que nos tor­ne­mos artis­tas em sua expres­são e desen­vol­vi­mento.

Fromm equi­pa­rava o amor, assim, a uma forma de arte, seja o amor entre um casal, o amor entre fami­li­a­res, o amor entre os ami­gos e o amor pelo pró­ximo. E como apren­de­mos uma habi­li­dade artís­tica? “O pro­cesso de apren­di­zado de uma arte pode ser divi­dido em duas par­tes: em pri­meiro lugar, o domí­nio da sua teo­ria; em segundo, o domí­nio da sua prá­tica.” Mas Fromm ainda inclui um ter­ceiro ele­mento: ao lado da teo­ria e da prá­tica, a maes­tria em qual­quer arte deve ser, para o artista, uma ques­tão pri­o­ri­tá­ria em sua vida.

Erich Fromm, frase amor

Vive­mos em uma cul­tura que hiper­va­lo­riza o amor român­tico de forma ide­a­li­zada e às vezes irreal, algo carac­te­rís­tico de indi­ví­duos infan­ti­li­za­dos. Porém, Fromm enten­dia que a real satis­fa­ção no amor român­tico não pode ser atin­gida sem a capa­ci­dade de amar­mos tam­bém a todas as outras pes­soas ao nosso redor. Mais ainda, o ver­da­deiro amor exige humil­dade genuína, fé na natu­reza humana e dis­ci­plina emo­ci­o­nal. E “numa cul­tura em que essas qua­li­da­des são raras, alcan­çar a capa­ci­dade de amar con­ti­nua algo tam­bém raro”.

A cons­tru­ção de uma soci­e­dade mais sau­dá­vel depende, por­tanto, de que apren­da­mos não só a pen­sar, como propôs Wal­lace, mas tam­bém a amar, e como se fosse uma forma de arte.

 

3. Ser senhor do próprio destino (Jean-Paul Sartre)

Em 1946, Jean-Paul Satre publi­cou O Exis­ten­ci­a­lismo é um Huma­nismo. Resul­tado de uma con­fe­rên­cia que o filó­sofo deu no ano ante­rior em Paris, a obra resume a essên­cia de sua con­cep­ção sobre a con­di­ção humana.

Para Sar­tre, o que nos dife­ren­cia dos outros seres é a natu­reza da nossa cons­ci­ên­cia, pois ao nas­cer­mos ela não está ori­en­tada para nada — os nos­sos obje­ti­vos na vida, o que ire­mos ser e fazer não estão pre­de­ter­mi­na­dos; são, ao con­trá­rio, coi­sas que ape­nas pos­te­ri­or­mente toma­rão forma, à medida em que rece­be­mos impres­sões do mundo externo. Este é o sen­tido de sua frase “a exis­tên­cia pre­cede a essên­cia”: nós nas­ce­mos antes de nos defi­nir­mos enquanto seres huma­nos, pois a “natu­reza humana” e o “des­tino humano” não estão pre­es­ta­be­le­ci­dos pela natu­reza — são, antes de tudo, coi­sas que pre­ci­sa­mos cons­truir a par­tir de nos­sas ações e esco­lhas ao longo de nos­sas vidas.

Daí a impor­tân­cia de um homem coman­dar o seu des­tino. “O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo”, afirma Sar­tre. O ser humano total­mente sub­me­tido à soci­e­dade doente acre­dita que des­tino é algo que lhe acon­tece. Mas, na ver­dade, des­tino é algo que o ser humano cons­trói, e cons­truindo esse des­tino é que o indi­ví­duo cria a si mesmo, defi­nindo sua pró­pria natu­reza.

Sartre, o homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo

Com essa pro­posta, Sar­tre pre­tende afas­tar a ideia popu­lar de que a sua filo­so­fia é pes­si­mista. Na ver­dade, ela é oti­mista e impul­si­ona o homem à ação. “O covarde se faz covarde”, enquanto “o herói se faz herói”, sendo que “existe sem­pre, para o covarde, uma pos­si­bi­li­dade de não ser mais covarde”.

Porém, Sar­tre reco­nhece que a noção de que somos livres para cons­truir nosso des­tino é tão desa­fi­a­dora que mui­tos a con­si­de­ram um fardo, um peso do qual bus­cam se livrar de todas as for­mas pos­sí­veis. E com isso abri­mos as defe­sas imu­no­ló­gi­cas da soci­e­dade ao ata­que de agen­tes noci­vos.

Toda vez que alguém depo­sita sua fé em uma dou­trina espi­ri­tual segundo a qual for­ças inson­dá­veis deter­mi­nam o des­tino humano; toda vez que um indi­ví­duo decide levar a vida “no piloto auto­má­tico”, seguindo as regras soci­ais sobre o que ser e fazer sem ques­ti­oná-las; toda vez em que alguém abdica de sua pró­pria liber­dade pes­soal para tor­nar-se mili­tante a ser­viço de uma ide­o­lo­gia ou líder polí­tico: em todas essas situ­a­ções esta­mos como­da­mente abdi­cando de uma impor­tante par­cela de nossa auto­no­mia, como uma espé­cie de preço que paga­mos para viver sem a pres­são da res­pon­sa­bi­li­dade sobre nosso des­tino.

A mai­o­ria dos seres huma­nos ingressa na vida adulta e decide seguir o passo-a-passo tra­di­ci­o­nal que soci­al­mente foi con­ven­ci­o­nado como certo e nor­mal: uni­ver­si­dade, tra­ba­lho, casa­mento, filhos, casa pró­pria, apo­sen­ta­do­ria e morte. Isso não é certo nem errado, o pro­blema é fazer isso sem refle­xão, somente por pres­são social. Isso nos torna víti­mas per­fei­tas dos aspec­tos mais ado­e­ci­dos de nossa soci­e­dade, como o hiper­con­su­mismo. Num mundo enfermo, um indi­ví­duo começa seu cami­nho em dire­ção à cura quando reco­nhece que o seu des­tino é sua res­pon­sa­bi­li­dade, e que pre­cisa cons­truir um pro­jeto pes­soal a res­peito do que fará e de quem será na vida. 

 

4. Buscar por um sentido existencial (Viktor Frankl)

Vik­tor Frankl acres­cen­tou um outro ele­mento nessa dinâ­mica do prin­cí­pio do pra­zer e do prin­cí­pio da rea­li­dade, de modo que pode­mos enca­rar sua pro­posta como um com­ple­mento, e não uma nega­ção do que expôs Freud. Para Frankl, a von­tade de agir e viver com um sen­tido é mais forte nos seres huma­nos que a von­tade de obter pra­zer.

Isso expli­ca­ria, por exem­plo, por­que már­ti­res acei­ta­riam tor­men­tos físi­cos e até mesmo a pró­pria morte por se recu­sa­rem a abdi­car de suas con­vic­ções polí­ti­cas ou reli­gi­o­sas: antes de tudo, o ser humano busca não a satis­fa­ção de seus dese­jos, mas a devo­ção a uma vida com ple­ni­tude de sen­tido. E se essa ple­ni­tude de sen­tido tiver de ser con­fir­mada ao preço dessa pró­pria vida, em casos extre­mos tal sacri­fí­cio é aceito.

Viktor Frankl, decisões

Dessa forma, a crise humana atual seria uma crise de vazio exis­ten­cial. Inse­ri­dos em uma soci­e­dade que não nos pro­põe um sen­tido e sequer valo­riza a busca por um sig­ni­fi­cado nas expe­ri­ên­cias huma­nas, subs­ti­tuí­mos neu­ro­ti­ca­mente essa aspi­ra­ção fun­da­men­tal pelo con­sumo irre­fre­ado e pela espe­ta­cu­la­ri­za­ção de nos­sas vidas.

É como estar­mos em um palco no qual uti­li­za­mos recur­sos cêni­cos, ilu­mi­na­ção colo­rida e efei­tos espe­ci­ais para dis­far­çar­mos a total falta de um enredo.

Para Vik­tor Frankl, a vida de cada ser humano é uma jor­nada espi­ri­tual em busca da res­posta à grande ques­tão sobre o sen­tido dessa pró­pria vida. Mas tal res­posta não está pronta, espe­rando que a des­cu­bra­mos: ela pre­cisa ser cons­truída, e sua for­mu­la­ção não é feita por meio de expli­ca­ções teó­ri­cas, mas por meio de atos con­cre­tos. Assim, o cami­nho para uma soci­e­dade sau­dá­vel depen­de­ria de reco­nhe­cer­mos a impor­tân­cia de con­ce­ber­mos e imple­men­tar­mos cole­ti­va­mente um sen­tido para a exis­tên­cia humana.

 

5. Lidar com o princípio do prazer com maturidade (Freud)

Embora esteja em voga atu­al­mente cri­ti­car as teo­rias de Freud, a ver­dade é que rejei­tar inte­gral­mente suas ideias é tão tolo quanto abraçá-las como os dog­mas de uma nova reli­gião. Freud trouxe impor­tan­tes con­tri­bui­ções para o atual enten­di­mento da con­di­ção humana, embora tenha come­tido, como qual­quer um, seus equí­vo­cos (alguns dos quais pos­te­ri­or­mente cor­ri­gi­dos pelos pró­prios teó­ri­cos da psi­ca­ná­lise).

E uma das prin­ci­pais de suas con­tri­bui­ções é a noção de que o ego humano está em cons­tante rela­ção com dois prin­cí­pios fun­da­men­tais: o Prin­cí­pio do Pra­zer e o Prin­cí­pio da Rea­li­dade. O prin­cí­pio do pra­zer con­siste num meca­nismo psí­quico sim­ples que faz o ego bus­car o pra­zer de todas as for­mas e evi­tar o des­con­forto e a dor com todas as for­ças. Isso ocorre como um movi­mento que ignora as difi­cul­da­des e exi­gên­cias do mundo real.

O prin­cí­pio da rea­li­dade, por outro lado, tam­bém está rela­ci­o­nado com a busca de pra­zer pelo ego, mas em uma con­di­ção na qual as difi­cul­da­des e exi­gên­cias da rea­li­dade são reco­nhe­ci­das e acei­tas, de modo que bus­ca­mos rea­li­zar o pra­zer e evi­tar a dor em uma cons­tante rela­ção com o mundo real e suas pos­si­bi­li­da­des efe­ti­vas.

De uma forma bem sim­pli­fi­cada, ima­gine o prin­cí­pio do pra­zer como uma cri­ança mimada ao extremo, que “quer por­que quer aquilo que quer”, e que não tem a mínima capa­ci­dade de acei­tar ou sequer com­pre­en­der as limi­ta­ções do mundo real. Já o prin­cí­pio da rea­li­dade é um indi­ví­duo adulto e maduro o sufi­ci­ente para enten­der que a rea­li­za­ção de seus dese­jos demanda a cons­tante tra­ta­tiva com as exi­gên­cias da rea­li­dade. São duas faces do nosso ego.

Freud, a única pessoa com a qual você pode se comparar é com você mesmo no passado

O ponto fun­da­men­tal é que não há uma tran­si­ção do prin­cí­pio do pra­zer para o prin­cí­pio da rea­li­dade. Ou seja, segundo Freud, o prin­cí­pio da rea­li­dade (o indi­ví­duo adulto e maduro), não subs­ti­tui o prin­cí­pio do pra­zer (a cri­ança mimada e egoísta). Inter­na­mente, ambos coe­xis­tem, e sem­pre tere­mos um aspecto de nosso ego que busca o pra­zer de todas as for­mas, igno­rando com­ple­ta­mente as limi­ta­ções da rea­li­dade. A ques­tão é saber reco­nhe­cer essa carac­te­rís­tica de nossa mente e apren­der­mos a lidar de forma ade­quada com essa ten­dên­cia humana.

Na soci­e­dade atual, porém, temos adul­tos e jovens oriun­dos de famí­lias que não sou­be­ram impor os limi­tes ade­qua­dos, expondo gra­du­al­mente as cri­an­ças às deman­das da rea­li­dade. Ao con­trá­rio, cada vez mais os pais ado­tam uma pos­tura quase ser­vil em rela­ção a filhos mima­dos e des­pre­pa­ra­dos para enca­rar o mundo real. 

Assim, homens e mulhe­res cres­cem com a ilu­são de oni­po­tên­cia e com a falsa impres­são de que são espe­ci­ais. Escra­vos da mira­gem de que seus dese­jos e sonhos serão satis­fei­tos sem esforço, quando isso não ocorre surge a ten­ta­ção da deso­be­di­ên­cia da lei e da con­duta antié­tica.

Como o prin­cí­pio do pra­zer não encon­tra a con­tra­po­si­ção efi­ci­ente do prin­cí­pio da rea­li­dade, o resul­tado é uma soci­e­dade com­posta por indi­ví­duos egoís­tas, inca­pa­zes de lida­rem com frus­tra­ções diá­rias e des­pro­vi­dos da deter­mi­na­ção neces­sá­ria para a con­cre­ti­za­ção pos­sí­vel de seus sonhos. O cami­nho para uma soci­e­dade mais sau­dá­vel passa pelo desen­vol­vi­mento de uma rela­ção mais madura com o prin­cí­pio do pra­zer que está den­tro de todos nós, con­tra­ba­lan­çando-o com o prin­cí­pio da rea­li­dade, de forma que desen­vol­va­mos a capa­ci­dade de tole­rar frus­tra­ções e de resis­tir­mos à satis­fa­ção ime­di­ata de nos­sos dese­jos medi­ante atos impul­si­vos e antié­ti­cos.

 

6. Saber viver e agir na permanente incerteza (Bertrand Russell)

Reco­nhe­cer que pre­ci­sa­mos apren­der a amar e a pen­sar cor­re­ta­mente, bem como admi­tir que nosso des­tino e o sen­tido de nos­sas vidas não estão pre­de­ter­mi­na­dos, mas pre­ci­sam ser dili­gen­te­mente cons­truí­dos por meio de nos­sos atos, exige um tipo muito par­ti­cu­lar de humil­dade: a capa­ci­dade de viver­mos per­ma­nen­te­mente na incer­teza, com pou­cas con­vic­ções.

O filó­sofo, mate­má­tico e his­to­ri­a­dor bri­tâ­nico Ber­trand Rus­sell, em sua obra Unpo­pu­lar Essays (Ensaios Impo­pu­la­res), con­si­de­rou a habi­li­dade de con­vi­ver sau­da­vel­mente com a incer­teza uma das mai­o­res vir­tu­des do ser humano. Essa apti­dão seria o que impede um indi­ví­duo de se tor­nar joguete nas mãos de cren­ças reli­gi­o­sas, ide­o­lo­gias polí­ti­cas ou líde­res mes­si­â­ni­cos que nos pro­me­tem uma expli­ca­ção tota­li­zante para as mai­o­res ques­tões da com­plexa vida con­tem­po­râ­nea.

Bertrand Russell, amor conhecimento

Ansiar pela cer­teza é algo inato na natu­reza humana, mas ainda assim é um grande vício inte­lec­tual”, escre­veu Rus­sell. O fun­da­men­ta­lismo (não só reli­gi­oso, mas tam­bém polí­tico, em todas as suas face­tas) tem por base uma cer­teza dog­má­tica e ina­ba­lá­vel, que reto­ri­ca­mente ou emo­ci­o­nal­mente seduz os seus devo­tos.

Mas a incer­teza não deve para­li­sar a ação, pois Ber­trand Rus­sell nos pre­vine do perigo de os mais inte­li­gen­tes abri­rem espaço na vida pública a idi­o­tas cheios de cer­te­zas equi­vo­ca­das. “Agir com vigor, mesmo na falta de abso­luta cer­teza”, mas man­tendo um ele­mento de sau­dá­vel dúvida, ainda que pequeno, em rela­ção a cada assunto, é uma forma de evi­tar a um só tempo o radi­ca­lismo, o fun­da­men­ta­lismo, a ali­e­na­ção e o pre­con­ceito.

 

7. Ter o espírito livre e criativo de uma criança (Nietzsche)

Para Nietzs­che, filó­sofo ale­mão que ante­ci­pou mui­tas das ques­tões que desa­fiam o ser humano na atu­a­li­dade, con­du­zir o pró­prio des­tino com irres­pon­sa­bi­li­dade é abdi­car da pró­pria auto­no­mia e ceder a algo ou a alguém uma par­cela impor­tante de nosso poder pes­soal.

É que num mundo regido por rela­ções de poder, dei­xar que con­ven­ções soci­ais ou for­ças políticas/religiosas deci­dam o nosso des­tino implica em abra­çar uma espé­cie dis­far­çada e enver­go­nhada de escra­vi­dão. Quando não assu­mi­mos a inte­gral res­pon­sa­bi­li­dade pelas esco­lhas que pre­ci­sa­mos fazer, alguém as fará por nós, e sem dúvida o cri­té­rio uti­li­zado não será o nosso bene­fí­cio.

Nietzs­che, que na vida pes­soal expe­ri­men­tou os sofri­men­tos de lon­gos perío­dos de enfer­mi­dade, tinha um espe­cial apreço pela metá­fora do ser humano inte­gral­mente sau­dá­vel. Esta­mos espi­ri­tu­al­mente ado­e­ci­dos ao viver­mos em uma soci­e­dade enferma, e o espí­rito livre desse estado de ado­e­ci­mento ini­cia seu pro­cesso de recu­pe­ra­ção da saúde seguindo uma tera­pia que Nietz­che apre­sen­tou na sua obra Assim Falou Zara­tus­tra em três eta­pas, que cha­mou de As Três Trans­for­ma­ções.

Nietzsche, aqueles que são vistos dançando são considerados loucos por aqueles que não conseguem ouvir a música

Na pri­meira, ainda enfermo, o ser humano é como um camelo, um escravo que aceita todas as car­gas impos­tas a si sem ques­ti­o­nar. Na segunda fase, a do leão, o indi­ví­duo passa a des­truir seu con­di­ci­o­na­men­tos limi­ta­do­res de forma vee­mente, res­ga­tando o con­trole de sua vida das mãos daque­las pes­soas, dou­tri­nas ou ide­o­lo­gias para as quais ante­ri­or­mente havia entre­gado o poder sobre si mesmo. Nesse momento, a pes­soa diz “não” à sua pri­são. Por fim, na fase mais impor­tante, o ser humano livre e autô­nomo começa a recons­truir-se com a ludi­ci­dade e a cri­a­ti­vi­dade de uma cri­ança. Nessa etapa, o indi­ví­duo diz “sim” à sua vida.

Nesse roteiro em três par­tes, pode­mos per­ce­ber com cla­reza o papel da iro­nia. Ela exerce um tra­ba­lho des­trui­dor e depu­ra­dor de anti­gos con­di­ci­o­na­men­tos soci­ais e cren­ças tra­di­ci­o­nais. Assim, a iro­nia inte­gra o “rugido do leão” que nos liberta da sujei­ção a uma visão do mundo obso­leta e supers­ti­ci­osa. Mas, após essa etapa, a iro­nia pode dei­xar de ser parte do remé­dio para con­ver­ter-se em veneno. O espí­rito irô­nico é cor­roído pela des­con­fi­ança e pela amar­gura, sendo inca­paz de acre­di­tar até mesmo em si mesmo e nas mais nobres aspi­ra­ções huma­nas. Por isso, Nietzs­che exor­tava: “não jogue fora o herói que há em sua alma, man­tém sagrada a sua mais alta espe­rança!”

Essa é a razão de a metá­fora da cri­ança ser cen­tral na pro­posta tera­pêu­tica de Nietz­che. Se o ser humano pre­cisa apren­der a con­du­zir seus pen­sa­men­tos da melhor forma, como pro­põe Wal­lace, e se a natu­reza e o des­tino de um indi­ví­duo são coi­sas que ele pre­cisa cons­truir a par­tir de seus atos e esco­lhas, como afirma Sar­tre, a ati­vi­dade humana é, por­tanto, essen­ci­al­mente cri­a­dora. E esse pro­cesso cri­a­ção deve ser rea­li­zado com o mesmo pra­zer lúdico que uma cri­ança tem ao brin­car, com a mesma espe­rança e aspi­ra­ção ao heroísmo que uma cri­ança tem ao olhar seu futuro.


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Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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