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7 Lições de Jesus que até ateus podem aproveitar

Em Comportamento, Consciência, O MELHOR DO AZ, Religião, Sociedade por Victor LisboaComentário

Bom, todo mundo conhece aquele ditado: reli­gião, polí­tica e fute­bol não se dis­cute. Sou total­mente favo­rá­vel a ele. Dis­cu­tir nem pen­sar. Se for para tra­tar des­ses temas, é bom fugir da lógica apri­si­o­nante do a favor ou con­tra, do ali­ado ou ini­migo. Vamos além, vamos ampliar o pano­rama e encon­trar os cami­nhos de paz.

Então este post não entra na ques­tão sobre quem está certo em ter­mos de reli­gião. Se evan­gé­li­cos ou cató­li­cos, cris­tãos ou budis­tas, reli­gi­o­sos ou ateus. Vamos tatear em busca do mínimo deno­mi­na­dor comum em todos nós, ao invés de dis­cu­tir. Vamos em busca daquilo que todos sería­mos capa­zes de amar, ape­sar de nos­sas dife­ren­ças.

E acho que pode­mos come­çar de um modo bem modesto, que é cap­tu­rando em cada crença as men­sa­gens que pode­riam ins­pi­rar todas as outras. Aquilo que há de belo, uni­ver­sal e ver­da­deiro.

E nos Evan­ge­lhos do Novo Tes­ta­mento há pala­vras de Jesus que são tão belas, uni­ver­sais e ver­da­dei­ras que pode­riam ins­pi­rar a todos nós. Pois elas falam de nos­sas vidas indi­vi­du­ais e con­cre­tas. Apli­cam-se a mim e a você. Ape­sar de já terem dois mil anos, são pala­vras que apre­sen­tam solu­ções ousa­das para os prin­ci­pais pro­ble­mas da atu­a­li­dade.

Mais do que atu­ais, essas pala­vras são por vezes tam­bém radi­cais. Radi­cais mesmo para os nos­sos tem­pos. Mas não radi­ca­lismo polí­tico, e sim humano: com­pro­me­ter-se a viver a vida ple­na­mente e com humil­dade, como se fos­se­mos luzes des­ti­na­das a ilu­mi­nar todos os seres ao nosso redor.

Pala­vras, enfim, que todos sería­mos capa­zes de amar.

1) Os bem-aventurados do mundo, como não amá-los?

Os humil­des que cho­ram, os man­sos, os que anseiam pela jus­tiça, os que têm com­pai­xão, os puros de cora­ção, os pací­fi­cos e os per­se­gui­dos por causa da jus­tiça: você é obri­gado a admi­tir que essa é uma lista res­pei­tá­vel (Mateus, 5, 1 a 11).

Bom, na festa de Jesus, eles esta­riam no cama­rote. No aero­porto do cris­ti­a­nismo, a área VIP é para eles. Se a riqueza mun­dana espe­lhasse o real valor humano de cada pes­soa, esses sujei­tos teriam car­tão de cré­dito pre­mium e um gerente exclu­sivo só para tra­tar da sua conta.

A área VIP é deles.

A área VIP é deles.

Área VIP, riqueza e cama­rote são, claro, ape­nas sím­bo­los. Pois na vida real essas pes­soas só levam a pior.

É jus­ta­mente por isso que mere­cem mesmo nosso reco­nhe­ci­mento. Justo por pes­soas assim leva­rem a pior e con­ti­nu­a­rem per­sis­tindo. Qual­quer um que decide ser manso, humilde, ter cora­ção puro e, prin­ci­pal­mente, lutar pela jus­tiça ainda quando per­se­guido, sabe que não vai levar uma vida fácil.

É como acon­se­lhou Kent M. Keith: se você for manso, as pes­soas acha­rão que é fraco — seja manso de qual­quer maneira. Se você lutar pela jus­tiça, as pes­soas lhe acu­sa­rão de moti­vos escu­sos — lute pela jus­tiça de qual­quer maneira. Se você aju­dar alguém que pre­cisa de socorro, você tal­vez seja ata­cado por ela ou receba só ingra­ti­dão — ajude de qual­quer maneira. Se você ten­tar ser cor­reto, só encon­trará obs­tá­cu­los — seja cor­reto de qual­quer maneira.

Essa é mais ou menos a moral dos bem-aven­tu­ra­dos, o que faz deles tão mere­ce­do­res do bilhete pre­mi­ado de Willy Wonka. Ser real­mente ínte­gro, pací­fico, amo­roso, pie­doso, puro em suas inten­ções e com­pro­me­tido com a jus­tiça: não são qua­li­da­des que ilu­mi­na­riam o cará­ter de qual­quer um para acima de seus con­tem­po­râ­neos? Não são essas vir­tu­des que nós todos, eu e você, cris­tãos ou não, deve­ri­a­mos cul­ti­var em nos­sas vidas? Não são essas as vir­tu­des que mais fal­tam a nossa soci­e­dade, inde­pen­den­te­mente de nos­sas cren­ças?

2) Você é a luz do mundo

Jesus disse que somos “a luz do mundo”, e que nin­guém acende uma luz para escondê-la den­tro de uma caixa, e sim para colo­car a luz no alto de uma casa e assim ilu­mi­nar a todos que ali estão (Mateus, 5, 14 a 16).

Se esse não é o mais per­feito resumo do huma­nismo, com cer­teza é ao menos o mais poé­tico.

Cada um de nós é como um sol (ele é luz do mundo). Somos, por­tanto, estre­las, e cada vida tem seu valor único.

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Deixe sua luz bri­lhar.

Porém, Jesus disse mais. Ele não usou ape­nas a metá­fora da luz, mas lem­brou da estu­pi­dez que seria colo­car a luz den­tro de uma caixa, pois ela deve ser colo­cada no alto para ilu­mi­nar. Mui­tos de nós se ames­qui­nham ao longo do cami­nho, dei­xam-se levar pelos capri­chos de seu ego, recu­sam ter maior cons­ci­ên­cia e luci­dez, des­per­di­çam suas ener­gias na busca de coi­sas que não impor­tam. Essas são as pes­soas que colo­cam sua luz íntima den­tro de uma caixa, para nin­guém a ver.

E assim ficam sem­pre no escuro, embora vivam em plena luz do dia.

Jesus disse isso há mais de dois mil anos, e quan­tas pes­soas do nosso con­ví­vio atual estão fazendo isso agora mesmo? Quan­tos de nós esta­mos guar­dando suas luzes den­tro de uma caixa, sem desen­vol­ver todo o seu poten­cial?

O modo como vive­mos, a esco­lhas que faze­mos no coti­di­ano, vão ladri­lhando nosso cami­nho. A cada deci­são que toma­mos em nos­sas vidas rece­be­mos uma pequena pedra. E há pedras fei­tas para cons­truir uma pri­são que ocul­tará nossa indi­vi­du­a­li­dade e luz, enquanto outras são fei­tas para cons­truir uma escada na dire­ção de uma vida ele­vada. Que tipo de pedra cada um de nós está rece­bendo por suas esco­lhas?

Mas Jesus vai mais além. Só tira­mos a luz de den­tro da caixa quando reco­nhe­ce­mos que a luz foi acesa com uma fun­ção. O ser humano existe para exer­cer uma fun­ção, tal como uma lam­pa­rina, e só ao exer­cer essa fun­ção ele bri­lha.

Assim,  a mesma forma que a luz acesa den­tro de uma casa foi acesa para ilu­mi­nar todos que ali habi­tam, a luz humana foi acesa para que, da altura de nos­sas rea­li­za­ções, ilu­mine tam­bém todos os outros seres do mundo. Essa é uma metá­fora capaz de agra­dar qual­quer eco­lo­gista moderno. Na ver­dade, ela foi uma das ins­pi­ra­ções para o jesuita Tei­lhard de Char­din pro­por, no século XX, que o obje­tivo da huma­ni­dade era cons­truir uma espé­cie de cons­ci­ên­cia cole­tiva glo­bal.

3) Seja radicalmente não violento

Dois mil anos antes de os hip­pies colo­ca­rem flo­res em bai­o­ne­tas e Gandhi pre­gar a dou­trina da não-vio­lên­cia, Jesus já falava de um paci­fismo radi­cal. Era um paci­fismo tão extremo que se alguém lhe gol­pe­asse uma face você deve­ria ofe­re­cer a outra (Mateus 5, 38 a 42). Quem hoje em dia faria isso de ver­dade?

Ainda hoje essa pro­posta é algo revo­lu­ci­o­ná­rio. Difi­cil­mente os gover­nan­tes de qual­quer país dese­ja­riam que seus sol­da­dos ado­tas­sem essa filo­so­fia. Mesmo no nosso coti­di­ano esta­mos pron­tos para certo nível de agres­si­vi­dade ani­mal se uma situ­a­ção a exi­gir: um assalto, um aci­dente, uma catás­trofe. A agres­si­vi­dade faz parte da nossa vida moderna tanto quanto dos anti­gos roma­nos, só que hoje ela é mais enver­go­nhada.

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Já não parece tão a fim de com­ba­ter.

Mas de onde vem então a cora­gem para dar a outra face? Da com­pai­xão, res­ponde Jesus, ao falar sobre o amor que pode­mos ter por todos ao nosso redor, mesmo por aque­les que temos por ini­mi­gos (Mateus 5, 43). Ele tam­bém asse­gura que você come­çará a sen­tir esse amor se pas­sar a ver os outros com o mesmo olhar de um Deus que faz cho­ver e bri­lhar o sol sobre todas as suas cri­a­tu­ras, tanto as mais escro­tas quanto as mais baca­nas (Mateus, cap. 4, 45).

É um amor, por­tanto, que ultra­passa o seu ego. É um amor que não per­tence a você, e sim que pos­sui você. Ele per­tence a algo mais ele­vado que você, a algo que sen­ti­mos como divino.

Parece bem difí­cil, con­cordo.

Mas Jesus espe­rava que um dia os seres huma­nos che­gas­sem lá. A sua pre­ten­são de que sua pala­vra fosse dis­se­mi­nada não tinha nada de ambi­ção auto­ral: para ele, um mundo cris­tão seria um mundo em que todos renun­ci­a­ram a seus egos e abra­ça­ram um paci­fismo radi­cal, que res­ponde vio­lên­cia com amor e que só pode nas­cer do exer­cí­cio infi­nito da com­pai­xão.

Tal­vez seja impos­sí­vel colo­car em prá­tica esse paci­fismo radi­cal aqui e agora. Teme­mos as agres­sões e os apro­vei­ta­do­res. Mas se fixar­mos esse paci­fismo como um hori­zonte ideal de soci­e­dade, pode­ría­mos cami­nhar na sua dire­ção aos pou­cos, sendo mais pací­fi­cos e tole­ran­tes a cada dia. Se assu­mir­mos o com­pro­misso de ten­tar res­pon­der as agres­sões com nosso amor, quem se bene­fi­ci­ará disso somos muito mais nós do que quem nos agride.

 

4) Seja como os Lírios do Campo 

É difí­cil enten­der como uma reli­gião voca­ci­o­nada à sim­pli­ci­dade da pobreza deu ori­gem a ins­ti­tui­ções pode­ro­sas e a teo­lo­gia da pros­pe­ri­dade finan­ceira.

Muito mais pró­ximo do ideá­rio hip­pie do que de tem­plos opu­len­tos, Jesus insis­tia (Mateus 6, 25 e seguin­tes) que nós não deve­ría­mos nos pre­o­cu­par com o que vamos ves­tir ou comer no futuro. Ele achava que está­va­mos pre­o­cu­pa­dos demais com nos­sas vidas, obses­si­vos demais com nossa auto­pre­ser­va­ção. “Mas quem de vocês”, ele pre­ve­nia, “pode acres­cen­tar um segundo a mais em sua vida”? 

Deve­ría­mos, por­tanto, ser como os lírios do campo — belos em nossa natu­reza espon­tâ­nea — e como as aves — des­pre­o­cu­pa­dos com o dia de ama­nhã. “Não se pre­o­cu­pem com o dia de ama­nhã”, ele acon­se­lhava, “pois o dia de ama­nhã terá suas pre­o­cu­pa­ções pró­prias” (Mat. 6, 34).

TIpo, viver como esses pássaros, de boas.

Tipo, viver como esses pás­sa­ros, só de boas.

São Fran­cisco levou isso ao pé da letra. O santo cató­lico tirou toda a roupa e foi viver como os pás­sa­ros. Mas tal­vez não pre­ci­se­mos ser tão extre­mos.

O impor­tante é que Jesus man­dou bem ao falar sobre nos­sas exces­si­vas pre­o­cu­pa­ções com o futuro, tão obses­si­vas que nos dis­traem de viver  ple­na­mente o momento pre­sente. Ele fala da impor­tân­cia de você devo­tar sua total aten­ção ape­nas ao essen­cial da vida, sem sacri­fi­car isso em nome de uma falsa segu­rança futura. Pois nada que fizer­mos garante que acres­cen­ta­re­mos um segundo aos nos­sos dias vin­dou­ros.

Quando per­gun­ta­ram a Henry Tho­reau por­que foi morar numa cabana na flo­resta, ele disse que era para con­se­guir ficar atento ape­nas ao que real­mente importa na vida. E isso que ele não tinha men­sa­gens pulando no seu smartphone, nem inú­me­ras abas aber­tas no nave­ga­dor! Se para ele foi tão desa­fi­a­dor assim focar-se ape­nas no que importa, o que dire­mos de nós?

Não são ape­nas as inu­me­rá­veis dis­tra­ções moder­nas que des­viam sua aten­ção daquilo que importa em sua vida. Tam­bém os inú­me­ros deve­res do coti­di­ano atual man­tém você ocu­pado demais para que per­ceba, no meio de tanto baru­lho e excesso de infor­ma­ções, aquilo que é essen­cial, aquilo que jamais pode ser esque­cido.

Mesmo que seja ainda arro­jada demais a exor­ta­ção de Jesus, de que fique­mos tão nus quanto Yoko e John na maté­ria da Roling Sto­nes. Mesmo que seja ainda extrema demais a ideia de parar­mos de pen­sar no que vamos comer ama­nhã. Ainda assim, sem tira­mos a roupa aqui e agora e cor­rer­mos para as pou­cas flo­res­tas que exis­tem, não seria sau­dá­vel nos pre­o­cu­par­mos um pouco menos com o futuro e viver­mos mais no pre­sente?

Não seria melhor sim­pli­fi­car­mos nos­sas vidas, mini­mi­zar­mos nos­sas neces­si­da­des, para dedi­car­mos nossa aten­ção e ener­gia àquilo que real­mente importa? Nesse caso, deve­ría­mos dimi­nuir \nos­sas exces­si­vas pre­o­cu­pa­ções com as rou­pas que ves­ti­mos, com a marca do celu­lar em que faze­mos sel­fies, com todos os ade­re­ços patri­mo­ni­ais que enfei­tam nossa nudez.


Não é por­que todos somos luzes do mundo que somos menos mor­tais. Todos temos um tempo defi­nido neste mundo, e a forma como o gas­ta­mos depende ape­nas de nos­sas deci­sões. O pro­blema da vida moderna é que temos tan­tas obri­ga­ções, con­tas, com­pro­mis­sos, deve­res que con­su­mi­mos quase todo nosso tempo des­perto pre­o­cu­pa­dos com essas coi­sas, e não com aquilo que real­mente importa.

E se não sou­ber­mos o que real­mente importa? Bem, esse é um sinal do quão severa é nossa situ­a­ção atual. Não é que não esta­mos tendo tempo de nos dedi­car ao que real­mente importa: esta­mos tão per­di­dos em dis­tra­ções e com­pro­mis­sos que esque­ce­mos de des­co­brir o que é impor­tante antes de mor­rer.

É algo alar­mante, admita. Pode­mos estar des­per­di­çando nos­sas vidas hoje em dia. E nesse caso as pala­vras de Jesus são um alerta que per­siste há dois mil anos.

5) Obedeça sempre a regra de ouro

Há uma regra, cha­mada Regra de Ouro, que resume toda a essên­cia do cris­ti­a­nismo. Ela é essen­cial para conhe­cer­mos o fun­da­mento de todos os melho­res esfor­ços huma­nos a par­tir de algum ponto do século 1 A.C.

Da sofis­ti­ca­ção de Kant até os prin­cí­pios morais gené­ri­cos da heroína da novela das oito, tudo se ins­pira nessa Regra de Ouro. As con­cep­ções mate­má­ti­cas mais sofis­ti­ca­das, como a teo­ria dos jogos, solu­ci­o­nam pro­ble­mas como o famoso dilema do pri­si­o­neiro che­gando essen­ci­al­mente à Regra de Ouro.

 Para Jesus, essa regra é toda a lei e o espí­rito de seus pro­fe­tas (Mateus 7, 12).

Rufem os tam­bo­res, pois a regra é:

***

 “Faça aos outros o que gostaria que fizessem a você.”

*** 

Nin­guém pode­ria resu­mir toda uma dou­trina, toda uma filo­so­fia de vida, de forma tão per­feita quanto essa. Quer saber o que é agir como um cris­tão? Basta seguir essa regra e ver o que acon­tece.

Trata-se do pri­meiro passo da com­pai­xão humana. O pro­cesso é sim­ples, lógico e efi­caz: em pri­meiro lugar, exer­cite a capa­ci­dade de se colo­car no lugar dos outros; em segundo, faça a ope­ra­ção inversa, a de ima­gi­nar o outro em seu lugar; num ter­ceiro e último passo, con­duza suas ações con­forme o apren­di­zado que tiver obtido. Se todos nós seguís­se­mos esse pro­ce­di­mento sim­ples todos os dias de nos­sas vidas, os resul­ta­dos seriam muito mais sur­pre­en­den­tes do que con­se­gui­mos ima­gi­nar no momento.

Colocar-se no lugar de TODOS os seres.

Colo­car-se no lugar de TODOS os seres.

Obe­de­cer essa regra esta­be­lece, antes de tudo, uma aber­tura à outra pes­soa, o reco­nhe­ci­mento de que o outro existe tão legi­ti­ma­mente quanto nós exis­ti­mos. 

Mais ainda, ao obe­de­cer essa regra de Jesus, admi­ti­mos que somos essen­ci­al­mente iguais a qual­quer outra pes­soa. Todos sofre­mos e ama­mos da mesma maneira. Para tra­tar o outro da forma como gos­ta­ría­mos que ele nos tra­tasse, pre­ci­sa­mos pri­meiro reco­nhe­cer que ele, se esti­vesse no nosso lugar, sen­ti­ria da mesma forma que nós. O mesmo medo, o mesmo gozo, a mesma ago­nia, o mesmo júbilo. 

Somos todos huma­nos meti­dos na mesma encrenca nesta vida. Fomos todos lan­ça­dos neste mundo con­fuso, e esta­mos apa­re­lha­dos com os mes­mos sen­ti­men­tos: fome, amor, medo, desejo. E cien­tes disso, depende apen­sas de nós tor­nar nosso con­ví­vio aqui neste pla­neta um inferno ou uma uto­pia.

 

6) Não julgueis para ser julgado

Cuide de sua vida e pare de cui­dar da vida alheia. Essa é mais ou menos a moral quando Jesus reco­menda que não jul­gue­mos se não qui­ser­mos ser jul­ga­dos (Mat. 7, 1). Uma soci­e­dade em que todos vivem ava­li­ando os ges­tos, o patrimô­nio, o jeito de ves­tir, a ori­en­ta­ção sexual e a forma de viver uns dos outros é uma soci­e­dade de gente neu­ró­tica e infe­liz. 

Antes de cor­ri­gir os defei­tos dos outros, trate de cor­ri­gir todos os seus defei­tos. Melhor ainda, diz Jesus, faça mais: antes de cor­ri­gir o defeito de alguém, per­gunte a si mesmo se não é o seu olhar que está vendo as coi­sas de um jeito errado, como se um obs­tá­culo atra­pa­lhasse a sua visão (Mat. 7, 5). Tal­vez o pro­blema seja com você, e não com a outra pes­soa.

Não existe con­se­lho mais útil para nossa soci­e­dade do que esse. 

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E não me refiro a habi­tual fofoca de vizi­nhos e cole­gas que falam mal dos outros a uma dis­tân­cia segura. Quase todos nós, na ver­dade, esta­mos pre­o­cu­pa­dos demais com o que os outros vão pen­sar, ao ponto de fazer­mos as esco­lhas mais impor­tan­tes de nos­sas vida (o emprego que vai ter, a pes­soa com quem vai casar, etc) para agra­dar os cri­té­rios de outras pes­soas.

Não é por coin­ci­dên­cia que as redes soci­ais mais popu­la­res são justo aque­las em que você apre­senta às outras pes­soas a ima­gem que esco­lhe apre­sen­tar. São espa­ços vir­tu­ais em que mérito de algo é esta­be­le­cido não pelo seu valor intrín­seco, mas pelo número de cur­ti­das, com­par­ti­lha­men­tos e outras pon­tu­a­ções pro­gra­ma­das para simu­lar afeto, apreço.

Além das neces­si­da­des físi­cas como comer, beber e dor­mir, as gran­des empre­sas do mundo digi­tal estão come­çando a mone­ti­zar tam­bém algo que até agora era pre­ci­oso mas eco­no­mi­ca­mente sub-apro­vei­tado: a auto­es­tima e o desejo de ser apro­vado pelo jul­ga­mento de todas as pes­soas que nos vêem.

Vive­mos mais pelos outros do que para nós mes­mos. Mas esses outros sequer são as pes­soas que ama­mos: são os des­co­nhe­ci­dos, são aque­las pes­soas que não se impor­tam conosco e ape­nas que­rem eti­que­tar, por tédio ou frus­tra­ção, todos ao seu redor.

Além da voca­ção espi­ri­tual para a humil­dade, as pala­vras de Jesus suge­rem uma voca­ção para a auten­ti­ci­dade. Seja você mesmo, pre­o­cupe-se com sua vida e não fique obser­vando o modo como as outras pes­soas con­du­zem suas pró­prias vidas. Antes de jul­gar alguém, remova todos os entra­ves à sua cons­ci­ên­cia. Mas se você con­se­guir fazer isso, não sen­tirá neces­si­dade de jul­gar mais nin­guém — pos­si­vel­mente, amará demais as pes­soas para ser capaz de fazer isso.

7) Nada de misturar política e religião

Essa é das mais céle­bres. Quando per­gun­ta­ram a Jesus se era cor­reto que os judeus pagas­sem tri­bu­tos a César, líder de uma nação estran­geira impe­ri­a­lista, Jesus mos­trou uma moeda romana e res­pon­deu: “a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. 

Foi uma das gran­des bronca de Judas em rela­ção a Jesus (Mar­cos 14, 1 e seguin­tes). Acre­di­tava-se que quando nas­cesse o Mes­sias pro­fe­ti­zado no Velho Tes­ta­mento, ergue­ria Israel em toda a sua gló­ria, expul­sando os inva­so­res roma­nos. Jesus, porém, não moveu uma palha nesse sen­tido. Pre­o­cu­pava-se em curar os lepro­sos, e não em desa­fiar os pode­res esta­be­le­ci­dos. Dedi­cava-se a mul­ti­pli­car pães e pei­xes, e não em alte­rar sis­te­mas polí­ti­cos e econô­mi­cos.

Essa é de César. Nem tente mudar o sistema tributário em nome do cristianismo.

Essa é de César. Não mude o sis­tema tri­bu­tá­rio em nome do cris­ti­a­nismo.

O cami­nho cris­tão é natu­ral­mente o da lai­ci­dade: polí­tica e reli­gião devem per­ma­ne­cer sepa­ra­dos, pois são mun­dos que fun­ci­o­nam em lógi­cas dis­tin­tas. O poder polí­tico e o poder espi­ri­tual não podem se jun­tar pois é como mis­tu­rar mate­má­tica e poe­sia — ou a lin­gua­gem dos homens com a lin­gua­gem dos anjos. 

Há, sim, a pre­ten­são cristã de mudar o mundo, mas não pela esfera polí­tica, e sim atra­vés da prá­tica da soli­da­ri­e­dade e da humil­dade. A estra­té­gia para isso é dar o exem­plo silen­ci­o­sa­mente, sem jul­gar as outras pes­soas, com man­si­dão e sede de jus­tiça. Sem alar­dear nos­sos fei­tos, vivendo uma vida sim­ples, fazendo o com­pro­misso de jamais esque­cer aquilo que real­mente importa, aos pou­cos trans­for­ma­re­mos o mundo.

O curi­oso é que Jesus foi bem suce­dido em rela­ção ao Impé­rio Romano sem jamais ter se envol­vido na polí­tica. Suas ideias se dis­se­mi­na­ram (com tal­vez alguns ruí­dos) e, sécu­los depois, todo o Impé­rio Romano foi con­ver­tido ao cris­ti­a­nismo. Só ven­ce­mos algo quando o subs­ti­tuí­mos, dizia Nietzs­che, e nesse caso a vitó­ria cristã foi avas­sa­la­dora.

Jesus con­quis­tou o pode­roso adver­sá­rio romano ao tra­var a bata­lha em um campo que a polí­tica, o com­bate armado e o dinheiro des­co­nhe­cem: o da busca por uma razão para todos viver­mos.

E nesse campo de bata­lha, Jesus trouxe a men­sa­gem mais bela, imba­tí­vel. Ele disse que somos a luz do mundo. É uma res­pon­sa­bi­li­dade e tanto.


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O dis­curso reli­gi­oso e a homos­se­xu­a­li­dade na soci­e­dade bra­si­leira atual
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Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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