Um dos valores que andam impopulares, especialmente pela parcela da população que se pretende intelectualizada, é a Liberdade de Expressão. Acontece que é fácil aceitar discursos com os quais se concorda e defender que as vozes com as quais concordamos tenham o direito de serem ouvidas. O verdadeiro teste, porém, é defender o direito de expressão não só para quem manifesta uma posição que nos parece errada, mas também para quem manifesta uma posição que nos parece detestável e, por vezes, claramente nociva.

No entanto, é exatamente quando o discurso nos parece detestável e nocivo que devemos defender o direito de expressão. Isso de forma alguma significa ratificar o que nos parece ser, e por vezes de fato é, revoltante e nefasto. Isso é garantir o próprio direito a conhecer pontos de vista diferentes. É defender o direito de toda a população a conhecer os posicionamentos cultivados em seu seio. É defender o livre debate de ideias e a contraposição de argumentos. É uma forma de exposição das posições ruins, para que possam ser combatidas e rejeitadas.

A maioria das pessoas não percebe o mal causado pela censura aos posicionamentos repugnantes. Convencê-las dos contrário é custoso e demorado. Então é mais vantajoso expor os benefícios de garantir livre circulação às expressões que nos são abjetas e que, de fato, são potencialmente danosas à sociedade como um todo.

 

As vantagens de permitir a liberdade de expressão:


1º – Expor os reais perigos

Quando impera a censura, oficial ou velada, muitos discursos e personalidades sórdidas avançam com suas agendas sem serem notados. Isso ocorre ou porque expressam suas opiniões em “câmaras secretas”, longe do escrutínio ou do confrontamento público, ou porque mantêm suas motivações e objetivos secretos, assaltando as instâncias formais de poder e de tomada de decisão sem serem notados.

Em resumo, se você proíbe ou dificulta que um discurso detestável venha a público, ele se propaga sem ser notado, e seus apoiadores podem chegar a cargos públicos importantes sem serem sequer identificados, quanto mais combatidos.

2º – Identificar as ameaças

Num ambiente onde haja algum tipo de inibição ou censura, discursos e articuladores nocivos facilmente deixam de ser percebidos e, portanto, combatidos. Permitir a livre exposição de ideias, inclusive e especialmente das piores, possibilita que identifiquemos quais discursos merecem contraposição e quais são seus articulistas, que merecem combate.

3º – Possibilitar o confronto direto

Se um discurso não puder ser abertamente exposto, dificilmente poderá ser contrariado e quase certamente seus articuladores não encontrarão opositores em seus ambientes de “pregação”. Sem exposição do contraditório, a persuasão de ideias nefastas pode ser alarmantemente penetrante em amplas camadas da população.

Em resumo, não é porque não se vê um perigo que ele não existe: aliás, ele é potencialmente mais perigoso quando não temos consciência de sua existência ou noção de qual sua real situação.

4º – Persuadir a opinião pública

Debates públicos se prestam não a persuadir o interlocutor de seu ponto de vista, mas a expor às pessoas, ao público que assiste, todos os pontos-de-vista e persuadi-las de que o nosso é o correto. Sem o debate, este mecanismo falha. E sem livre expressão, não há debate.

5º – Compreender a topografia das ideias na sociedade

Quando inibimos a expressão alheia, nos privamos da possibilidade de compreender qual o verdadeiro retrato do conjunto de ideias e posicionamentos da população, e assim limitamos o próprio acesso ao conhecimento. E quanto pior for um discurso, tanto mais danoso será a ignorância a respeito dele, de seus articuladores e das parcelas populacionais que o apoiam.

6º – Evitar a perda da própria liberdade de expressão

Os mesmos dispositivos instaurados para inibir a expressão de certos discursos podem ser (e eventualmente o são) usados para, futuramente, impedir nosso próprio discurso. E isso pode ocorrer com qualquer discurso que justamente se contraponha a alguma manifestação nefasta que porventura não tenha sido adequadamente vetada. Permitir o “cala a boca” a alguém é, potencialmente, permitir que te calem a boca no futuro.


Há diversos benefícios em permitirmos a livre expressão, inclusive e principalmente das piores ideias e dos piores discursos.

O que é nefasto deve, sim, ser publicamente combatido e contraposto. Seus interlocutores devem ser identificados, apontados e contrariados, talvez até ridicularizados. Apenas com a livre expressão podemos detectar e estimar a penetração de discursos maléficos na população e reagir adequadamente a tais ameaças.

Sabe o que deteriora mais um discurso nefasto do que um soco na cara de seu articulador? Uma poderosa e bem desenvolvida refutação. Sabe o que melhor desmoraliza o articulador de uma barbaridade? Não, não é um soco, mas expô-lo ao ridículo e ao escrutínio público. Sabe o que destrói um idiota? Não é impedir que fale, mas deixá-lo falar demais e, assim, permitir que se revele.

Para desmontar uma má ideia e seu articulador um hit in the face é ineficaz, mas um hitchslap é devastador. Precisamos de mais “boxeadores” de opinião e menos artistas marciais amadores.

Leandro Bellato
Metereologista com a cabeça nas nuvens e o pé nas estrelas, flutua sem rumo satisfazendo sua vasta curiosidade sobre os mais variados e desconexos temas, de literatura à astrofísica, de antropologia à bioquímica, de cultura pop aos pré-socráticos.
  • Simplesmente sensacional, sem tirar nem por. Valeu, Leandro!

  • Edwin Gavilán

    Antigamente eu até tinha ânimo para debater…
    Mas ultimamente eu tô tão cansado disso…
    São pombos enxadristas tanto de direita quanto de esquerda, religiosos, ateus, veganos, onívoros…
    Nunca preferi tanto o silêncio como agora… 😛

  • Vicente Rodrigues

    Interessante texto! Também sou a favor da liberdade de expressão (xô, autoritarismo!), mas fiquei pensando em algumas coisas enquanto lia:
    1 – os indivíduos que compõem a nossa sociedade, de forma geral, possuem leitura crítica suficiente para decidir entre o nefasto e o discurso que o refuta?
    2 – o conceito de “nefasto”, nesse caso, não estaria sujeito ao moralismo? Nem sempre aquilo que é moral é “correto”, do ponto de vista científico.
    Abraço!