As 6 Leis Universais da Política de Merda do Brasil

As 6 Leis Universais da Política de Merda do Brasil

Em Consciência, Política, Sociedade por Victor LisboaComentários

Impe­a­ch­ment, Lava­jato, pro­pi­no­duto, dela­ções pre­mi­a­das, cor­rup­ção: é difí­cil, senão impos­sí­vel, acom­pa­nhar as notí­cias e enten­der tudo o que está acon­te­cendo. Na inter­net há sites, pod­casts e gru­pos de dis­cus­são que aju­dam a com­pre­en­der os even­tos, citando nomes, joga­das polí­ti­cas e cri­mes que com­põem esse enorme (e até agora incon­cluso) mosaico de even­tos. Porém, em algum momento esse excesso de infor­ma­ções e expli­ca­ções só parece nos dei­xar mais per­di­dos.

E se ao invés de ana­li­sar­mos a super­fí­cie das notí­cias diá­rias, nós exa­mi­nás­se­mos aquilo que está por trás dos fatos? Seria pos­sí­vel iden­ti­fi­car padrões que podem ser obser­va­dos e se repe­tem a cada denún­cia, a cada golpe polí­tico, a cada acu­sa­ção? Há regras que pode­mos abs­trair de todos os fatos para poder apli­car em todas as cir­cuns­tân­cias?

Este texto tenta apre­sen­tar 6 leis “uni­ver­sais” que tor­nam a polí­tica no bra­sil uma fossa cheia de merda.

LEI:
TODOS OS POLÍTICOS BRASILEIROS SÃO CORRUPTOS

É pro­vá­vel que alguns defen­so­res do impe­a­ch­ment de Dilma acre­di­tas­sem que, com a queda do PT, os cor­rup­tos sai­riam do governo. É pro­vá­vel que alguns defen­so­res de Dilma acre­di­tas­sem que o governo petista era com­posto de gente honesta e bem inten­ci­o­nada. Nenhum dos casos me sur­pre­ende, pois não deve­mos subes­ti­mar o poder da idi­o­tice humana.

Mas agora os fatos gri­tam, e já não é caso mais de idi­o­tice, e sim de cegueira invo­lun­tá­ria, quase má-fé. Pois os fatos reve­lam que quase todos os polí­ti­cos de quase todos os par­ti­dos são cor­rup­tos.

Ao con­trá­rio do que ale­gava a tese das “inves­ti­ga­ções sele­ti­vas”, já ficou evi­dente que a ope­ra­ção Lava­jato é, do ponto de vista dos polí­ti­cos de Bra­sí­lia, um trem des­go­ver­nado que passa por cima de todos, sem abso­lu­ta­mente qual­quer sele­ti­vi­dade. A ope­ra­ção Lava­jato é uma lan­terna que lança luz sobre uma sala escura cha­mada bas­ti­do­res de Bra­sí­lia, e o que essa lan­terna revela é que todos os con­gres­sis­tas e auto­ri­da­des do Poder Exe­cu­tivo há anos têm sido com­pra­dos por pode­ro­sas emprei­tei­ras, rece­bendo mesa­das ou pro­pi­nas, mui­tas vezes dis­far­ça­das de con­tri­bui­ção para cam­pa­nhas elei­to­rais.

E aí, vai defender algum?

E aí, vai defen­der algum?

Não se salva nenhum: PT, PCdoB, PMDB, PSDB, PP, DEM e qual­quer outro par­tido que tenha a mínima rele­vân­cia no Con­gresso e no Exe­cu­tivo. O que o governo do PT fez foi ape­nas arti­cu­lar de forma mais “efi­ci­ente” (para cor­rom­pi­dos e cor­rup­to­res) um sis­tema que sem­pre exis­tiu: o PT aper­fei­çoou o que já exis­tia e criou o “pro­pi­no­duto”, um esquema arti­cu­lado, dinâ­mico e pro­fis­si­o­nal de cor­rup­ção que orga­ni­zou e oti­mi­zou o fluxo de pro­pi­nas.

Essa orga­ni­za­ção estru­tu­rada da cor­rup­ção per­mi­tiu que se cri­asse o cha­mado “men­sa­lão”, ou seja, o rece­bi­mento de mesada por par­la­men­ta­res a fim de que votas­sem sem­pre a favor do governo. E isso é muito pior do que um polí­tico embol­sar a grana para gas­tar em uma via­gem na Europa, pois houve a vio­la­ção de prin­cí­pios repu­bli­ca­nos e demo­crá­ti­cos mais ele­men­ta­res, entre eles da sepa­ra­ção de pode­res e da repre­sen­ta­ti­vi­dade.

Se havia alguma dúvida a res­peito disso, basta ver a pro­posta de José Dir­ceu, um dos mai­o­res arti­cu­la­do­res do par­tido, e Vac­cari Neto, tesou­reiro do par­tido, de que o PT pro­po­nha um “acordo de leni­ên­cia”, ou seja, um acordo pelo qual con­fessa a prá­tica de infra­ções e, cola­bo­rando com inves­ti­ga­ções, tem sua puni­ção ate­nu­ada.

LEI:
TODA DISPUTA POLÍTICA É ENTRE LADRÕES

A segunda lei é uma con­sequên­cia da pri­meira.

Tra­tando-se de uma estru­tura polí­tica cor­rom­pida e cri­mi­nosa em sua essên­cia, tal como é Bra­sí­lia, qual­quer dis­puta polí­tica dá-se entre fac­ções igual­mente cor­rup­tas, qual­quer alter­nân­cia de poder ocorre entre legen­das par­ti­dá­rias que estão, todas elas, a ser­viço das mes­mas pode­ro­sas empre­sas, prin­ci­pal­mente emprei­tei­ras.

Se o impe­a­ch­ment de Dilma trouxe algum bene­fí­cio, foi ape­nas o de des­man­te­lar um gigan­tesco esquema de cor­rup­ção que estava a ser­viço de uma agenda polí­tica cujo obje­tivo era man­ter no poder uma mesma fac­ção, a do PT. Mas o que se seguiu foi a recon­fi­gu­ra­ção das rela­ções fisi­o­ló­gi­cas, a fim de que outra fac­ção, asso­ci­ada àquela (o PMDB), com apoio de fac­ções de opo­si­ção ao PT (entre as quais o PSDB), pros­se­guis­sem bene­fi­ci­ando-se da mesma estru­tura de pro­mis­cui­dade entre inte­res­ses públi­cos e pri­va­dos que sem­pre exis­tiu no país.

Antes que alguém reclame que essa cor­rup­ção gene­ra­li­zada é culpa da Demo­cra­cia, vale lem­brar que a cor­rup­ção sagrava pode­rosa tam­bém durante os vinte anos de Dita­dura Mili­tar. E com o grave adendo de que, naquele período, a imprensa e os órgãos públi­cos de inves­ti­ga­ção cri­mi­nal não esta­vam livres para apu­rar e divul­gar os fatos.

Então, a que se deve essa cor­rup­ção ampla, geral e irres­trita? Esse é nosso pró­ximo assunto.

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LEI:
O BRASILEIRO CONFUNDE POSICIONAMENTO POLÍTICO COM TORCIDA DE FUTEBOL

Não importa que even­tos polí­ti­cos estão acon­te­cendo, uma lei uni­ver­sal da polí­tica de merda do Bra­sil é que a popu­la­ção vai tra­tar tudo com a obtu­si­dade e riva­li­da­des de tor­ci­das orga­ni­za­das.

Durante as mani­fes­ta­ções a favor do impe­a­ch­ment, mui­tos dos mani­fes­tan­tes uti­li­za­vam a cami­seta ama­rela da sele­ção bra­si­leira. Em con­tra­par­tida, mui­tos dos que se mani­fes­ta­vam con­tra o impe­a­ch­ment foram pro­tes­tar com cami­se­tas ver­me­lhas. Até nomes recí­pro­cos se atri­buí­ram: “coxi­nhas” e “petra­lhas”. Isso é sin­to­má­tico: nós tra­ta­mos ques­tões polí­ti­cas com o mesmo emo­ci­o­na­lismo gros­seiro e sim­pló­rio de tor­ce­do­res de fute­bol.

dois-times

São sem­pre “nós” con­tra “eles”.

Basta obser­var as redes soci­ais para mesmo um idi­ota per­ce­ber a vis­ce­ra­li­dade como a mai­o­ria das pes­soas lida com ques­tões públi­cas e polí­ti­cas. Nesse aspecto, tanto o senhor que tem ódio dos “petra­lhas” quanto a menina que grita “golpe não pas­sará” são víti­mas cons­ci­en­tes da mesma imbe­ci­li­za­ção que nos equi­para a todos com os mais faná­ti­cos e irra­ci­o­nais tor­ce­do­res de um time de fute­bol.

A pior con­sequên­cia disso não é o ódio recí­proco que separa ami­gos e fami­li­a­res das redes soci­ais. Isso não é nada (e só nos focar­mos nisso demons­tra como somos cegos para nossa rea­li­dade dra­má­tica). A pior con­sequên­cia é que essa nossa forma de lidar com polí­tica como se fosse ques­tão de tor­ci­das adver­sá­rias acaba sendo mani­pu­lada pelos polí­ti­cos para que defen­da­mos seus inte­res­ses escu­sos.

Não se espante, mas Bol­so­naro e Dilma fazem isso.

Sujei­tos como Bol­so­naro, por exem­plo, ves­tem o uni­forme de joga­dor de um suposto time do “homem de bem” e come­çam a jogar a bola no campo da tor­cida adver­sá­ria, fazendo comen­tá­rios machis­tas, homo­fó­bi­cos e rea­ci­o­ná­rios. Como resul­tado, seus adver­sá­rios ficam furi­o­sos e, uni­dos em tor­cida orga­ni­zada, come­çam a atacá-lo nas redes soci­ais.

A con­sequên­cia é que Bol­so­naro acaba ganhando publi­ci­dade gra­tuita diante de seu elei­to­rado (que o ele­geu não com base em pro­pos­tas con­cre­tas, mas como repre­sen­tante do rea­ci­o­na­rismo) e de milhões de idi­o­tas no Bra­sil que se iden­ti­fi­cam com suas ideias, tor­nando-se um poten­cial can­di­dato à Pre­si­dên­cia da Repú­blica.

Outra forma de polí­ti­cos se bene­fi­ci­a­rem de nossa ten­dên­cia de tra­tar polí­tica como jogo de fute­bol é criar fal­sas dico­to­mias: somos nós con­tra eles. Essa é a sín­tese da estra­té­gia do PT diante do impe­a­ch­ment.

Num pri­meiro momento, quando o pro­cesso de impe­a­ch­ment come­çou no Con­gresso, o par­tido ten­tou esta­be­le­cer a falsa dico­to­mia de que a ques­tão se resu­mia entre Dilma ver­sus Cunha. À medida em que o pro­cesso se desen­vol­via e ganhava apoio mais abran­gente, o PT mudou a retó­rica e pas­sou a ven­der a ideia (ampla­mente com­prada) de que se tra­tava de “nós”, esquerda demo­crá­tica e huma­nista, con­tra “eles”, direita gol­pista e rea­ci­o­ná­ria.

Se você entra nessa lógica (e muita gente entrou), a con­sequên­cia é que você asso­cia “huma­nista”, “anti-rea­ci­o­ná­rio” e “demo­crá­tico” a “defen­der a Dilma”. E como você gosta de pen­sar em si mesmo como uma pes­soa legal, logo deduz que pre­cisa ser con­tra o impe­a­ch­ment. Quando vê, está nas redes soci­ais defen­dendo um bando de ladrões con­tra o ata­que de outro bando de ladrões. Pronto, sem per­ce­ber, acaba de ves­tir a cami­seta de um time, tal como os mar­que­tei­ros do PT que­riam.

Por­tanto, já é bem evi­dente que todas as fac­ções cri­mi­no­sas que dis­pu­tam espaço polí­tico para usu­fruir das pro­pi­nas de gran­des empre­sá­rios per­ce­be­ram e mani­pu­lam essa nossa ten­dên­cia de lidar com com­ple­xas ques­tões soci­o­po­lí­ti­cas com o fana­tismo e sec­ta­rismo de tor­ci­das de fute­bol. E enquanto “tor­cer­mos” a favor de cer­tos polí­ti­cos como se fos­sem joga­do­res de nosso time do cora­ção, enquanto odi­ar­mos cer­tos par­ti­dos como se fos­sem times adver­sá­rios, sere­mos ape­nas jogue­tes nas mãos dos ladrões des­cri­tos na 1ª Lei.

LEI:
A PROMISCUIDADE ENTRE INTERESSES PÚBLICOS E PRIVADOS É DE NATUREZA ESTRUTURAL

O capi­ta­lismo, ou seja, um sis­tema de livre con­cor­rên­cia entre empre­sas pri­va­das no qual o Estado inter­vém ape­nas para afas­tar obs­tá­cu­los a essa con­cor­rên­cia (como trusts e mono­pó­lios), jamais foi real­mente imple­men­tado no país, da mesma forma que o soci­a­lismo jamais teve qual­quer chance digna. É que capi­ta­lismo e soci­a­lismo depen­dem, para sua imple­men­ta­ção, da pré-exis­tên­cia de ins­ti­tui­ções polí­tico-soci­ais mini­ma­mente estru­tu­ra­das. Porém, no Bra­sil temos uma orga­ni­za­ção social mais pri­mi­tiva (e man­tida na pri­mi­ti­vi­dade para man­ter-se a ser­viço de inte­res­ses escu­sos), que jamais che­gou a desen­vol­ver-se até o ponto de ter ins­ti­tui­ções sóli­das.

No Bra­sil o que há é uma estru­tura polí­tica fisi­o­ló­gica, na qual gran­des empre­sas têm, como prin­ci­pal fonte de lucro, os con­tra­tos públi­cos e inú­me­ros bene­fí­cios rece­bi­dos da Admi­nis­tra­ção Pública. A regra his­tó­rica é a grande pro­mis­cui­dade entre público e pri­vado. O resul­tado é que temos o pior do capi­ta­lismo (gran­des empre­sas pre­da­tó­rias que­rendo bur­lar a con­cor­rên­cia e ofe­re­cendo ser­vi­ços e pro­du­tos de má qua­li­dade) e o pior do soci­a­lismo (Estado auto­crá­tico e inter­ven­tivo, com um apa­re­lho poli­cial mili­ta­ri­zado e des­ti­nado a pro­te­ger a oli­gar­quia domi­nante, seja ela qual for).

Marcelo Odebrecht: apenas mais um numa longa lista de empresários que compraram os nossos políticos por mais de um século.

Mar­celo Ode­bre­cht: ape­nas mais um numa longa lista de empre­sá­rios que com­pra­ram os nos­sos polí­ti­cos e os usa­ram como ser­vi­çais por mais de um século.

Essa é a razão de ter­mos um dos sis­te­mas tri­bu­tá­rios mais one­ro­sos do país: é pre­ciso sus­ten­tar a rela­ção pro­mís­cua entre público e pri­vado, e a única forma de fazê-lo é meter a mão bolso do cida­dão de forma sis­te­má­tica e orga­ni­zada. Afi­nal, obras públi­cas super­fa­tu­ra­das pre­ci­sam ter de onde pagar os valo­res exce­den­tes.

Esse tam­bém é o real motivo por trás do mono­pó­lio esta­tal da explo­ra­ção do petró­leo. Jamais se tra­tou daquela con­versa dema­gó­gica de que “o Petró­leo é nosso” e de que pre­ci­sá­va­mos defen­der o patrimô­nio naci­o­nal. O mono­pó­lio da Petro­brás foi asse­gu­rado por todos os gover­nos, de esquerda e de direita, por­que é uma forma de garan­tir que a gali­nha dos ovos de ouro fique no con­trole da classe polí­tica.

Essa, por fim, é prin­ci­pal a razão pela qual um par­tido que se define até mesmo nomi­nal­mente “dos Tra­ba­lha­do­res” aca­bou tor­nando-se, vejam a iro­nia, o par­tido “das Emprei­tei­ras” quando che­gou ao poder. No curso da his­tó­ria bra­si­leira, tro­cam-se os per­so­na­gens a cada elei­ção, a cada revo­lu­ção, a cada dita­dura, a cada fase de demo­cra­cia, mas os papeis são sem­pre e exa­ta­mente os mes­mos: gran­des empre­sá­rios e polí­ti­cos man­cu­mu­na­dos para enfiar a mão nos cofres públi­cos.

Esse sis­tema arti­cu­lado de pro­mis­cui­dade entre público e pri­vado remonta pelo menos ao nas­ci­mento da Repú­blica, resul­tado que foi de um levante de mili­ta­res a ser­viço de seus pró­prios inte­res­ses, e não de um levante popu­lar. A seguir, esses mili­ta­res foram subs­ti­tuí­dos pela oli­gar­quia pau­lista e mineira de lati­fun­diá­rios, cujo pro­pó­sito era ape­nas aten­dar aos inte­res­ses de sua classe.

A par­tir de então, a máquina esta­tal e as ins­ti­tui­ções repu­bli­ca­nas foram estru­tu­ra­das para o finan­ci­a­mento de seto­res pri­va­dos pode­ro­sos, que evi­ta­vam a livre con­cor­rên­cia e davam uns “tro­ca­dos” ao grupo polí­tico que esti­vesse no poder. Acre­di­tem, os 32 milhões rece­bi­dos por Renan Calhei­ros, pre­si­dente do Senado, não são nada.

A exis­tên­cia de um par­tido como o PMDB é o maior sím­bolo do desen­vol­vi­mento desse sis­tema: um par­tido que não passa da agre­mi­a­ção de polí­ti­cos sem ide­o­lo­gia ou com­pro­misso com prin­cí­pios repu­bli­ca­nos; um agru­pa­mento de polí­ti­cos cujo único pro­pó­sito é ocu­par car­gos de pri­meiro e segundo esca­lão da máquina pública para, quando ali che­ga­rem, tor­na­rem-se ser­vi­çais de gran­des empre­sas.

Não nos escan­da­li­ze­mos, por­tanto, com a cor­rup­ção. Ela não é uma doença estra­nha ao orga­nismo que atinge, não é um cân­cer que ataca a máquina esta­tal. Ela é parte estru­tu­ral do sis­tema polí­tico bra­si­leiro desde sua ori­gem.

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LEI:
O LEGADO DAS FASES ANTIDEMOCRÁTICAS DETERIORA NOSSAS INSTITUIÇÕES

A lei­tura iso­lada da 1ª e 2ª leis pode dar a falsa impres­são de que o pro­blema é o sis­tema demo­crá­tico. Mas nada é mais enga­noso: assim como a Lei da Entro­pia acaba por deter­mi­nar a cor­ro­são mesmo do metal mais resis­tente e a dete­ri­o­ra­ção de todos os cor­pos, o legado que rece­be­mos dos regi­mes anti­de­mo­crá­ti­cos que asso­la­ram o Bra­sil no pas­sado cor­rompe e dete­ri­ora a soci­e­dade bra­si­leira ainda hoje, e de forma bem insi­di­osa.

Nos últi­mos 100 anos, viven­ci­a­mos pelo menos dois perío­dos anti­de­mo­crá­ti­cos que tive­ram sig­ni­fi­ca­tivo impacto na orga­ni­za­ção polí­tico admi­nis­tra­tiva do Estado, com con­sequên­cias dano­sas para todos nós: o Estado Novo de Getú­lio Var­gas e a Dita­dura Mili­tar. Esta­mos colhendo, neste momento, os fru­tos mais recen­tes desse legado.

Estamos apanhando até agora.

Esta­mos apa­nhando até agora.

O foro pri­vi­le­gi­ado que bene­fi­cia nos­sos polí­ti­cos cor­rup­tos, por exem­plo, foi man­tido pela Cons­ti­tui­ção Fede­ral de 1988 devido a uma pro­funda (e tal­vez na época jus­ti­fi­cá­vel) des­con­fi­ança de que repre­sen­tan­tes demo­cra­ti­ca­mente elei­tos fos­sem per­se­gui­dos judi­ci­al­mente sem qual­quer fun­da­men­ta­ção real, ape­nas pela pres­são das auto­ri­da­des, tal como ocor­reu durante a Dita­dura. Hoje, o foro pri­vi­le­gi­ado tor­nou-se ape­nas um pri­vi­lé­gio garan­tido aos polí­ti­cos elei­tos, pois a falta de voca­ção ins­ti­tu­ci­o­nal dos tri­bu­nais para atu­a­rem como ins­tân­cia ori­gi­ná­ria (= juízo que pro­cessa e julga o pro­cesso penal em pri­meira mão) torna a acu­sa­ção e puni­ção incri­vel­mente morosa.

Até mesmo a ima­tu­ri­dade de nossa esquerda e direita, que se mos­tram inca­pa­zes de evo­luir, é um legado dos perío­dos anti­de­mo­crá­ti­cos. De um lado, a nossa esquerda con­ti­nua presa à lógica biná­ria da Guerra Fria, usando cha­vões ultra­pas­sa­dos como “Não Pas­sa­rão” e demo­ni­zando o tal “Grande Capi­tal”. De outro, a nossa direita con­ti­nua inca­paz de enten­der que o libe­ra­lismo social é a outra face da moeda do libe­ra­lismo econô­mico, e que ser de direita não é neces­sa­ri­a­mente ser con­ser­va­dor ou rea­ci­o­ná­rio.

Além disso, qual­quer pes­soa que estude o período da Dita­dura Mili­tar per­cebe a inge­nui­dade com a qual os movi­men­tos revo­lu­ci­o­ná­rios de esquerda deram, sem dese­jar, a legi­ti­ma­ção que a direita anti­co­mu­nista pre­ci­sava para tolher as liber­da­des indi­vi­du­ais de toda a popu­la­ção. E a par­tir dessa per­cep­ção nota­mos que hoje em dia esses dois gru­pos repe­tem os mes­mos pas­sos dessa dança, levando a soci­e­dade bra­si­leira peri­go­sa­mente pró­xima ao abismo de novo.

Mas tam­bém a rigi­dez da legis­la­ção tra­ba­lhista (que pro­tege tanto, mas TANTO, o tra­ba­lha­dor que ele acaba sem con­se­guir emprego), a mili­ta­ri­za­ção da polí­cia (que com men­ta­li­dade de mar­telo trata qual­quer situ­a­ção, mesmo mani­fes­ta­ções popu­la­res, como prego) e o estran­gu­la­mento da pre­vi­dên­cia social (que ame­aça entrar em colapso e dei­xar você desam­pa­rado no futuro, se algo não for feito) são heran­ças dos perío­dos anti­de­mo­crá­ti­cos.

Enquanto não iden­ti­fi­car­mos e eli­mi­nar­mos todos os focos cor­ro­si­vos do legado anti­de­mo­crá­tico, não tere­mos con­di­ções de cons­truir ins­ti­tui­ções repu­bli­ca­nas com a soli­dez neces­sá­ria para man­ter a demo­cra­cia.

LEI:
NÓS SOMOS OS RESPONSÁVEIS POR TUDO ISSO

Atu­al­mente está em voga a tese de que a culpa dessa situ­a­ção seria o sis­tema polí­tico atual, de forma que uma reforma polí­tica daria conta de resol­ver esse pro­blema.

Não é que eu seja des­fa­vo­rá­vel à reforma polí­tica — ao con­trá­rio, ela é impor­tan­tís­sima. Mas é uma peri­gosa e con­ve­ni­ente inge­nui­dade supor que o sis­tema polí­tico seja a real causa da merda em que esta­mos.

Essa tese parte do prin­cí­pio de que os pio­res estão no poder pois tería­mos um sis­tema polí­tico que favo­rece a sele­ção e elei­ção dos pio­res. Pres­su­posto disso é que em nossa soci­e­dade have­ria os melho­res, mas esses jamais con­se­gui­riam.

Não se trata disso. Para come­çar, o Bra­sil tem sido vili­pen­di­ado pela cor­rup­ção há sécu­los, inde­pen­den­te­mente do sis­tema polí­tico e dos donos do poder (Repú­blica do Café com Leite, Getu­lismo, Dita­dura Mili­tar, Nova Repú­blica…).

Assim, não é que os pio­res sejam sele­ci­o­na­dos enquanto os melho­res ficam sem vez. Não é que os polí­ti­cos sejam pio­res do que a popu­la­ção. Não. Nós todos somos os pio­res. Os melho­res são uma exce­ção em nossa soci­e­dade.

Sei que é duro de enca­rar essa rea­li­dade, e que é muito mais fácil acre­di­tar em uma nar­ra­tiva que nos isenta de culpa, mas acre­dito que esse ponto tenha sido muito bem demons­trado pela visão de um gringo, quando Mark Man­son escre­veu a Carta Aberta ao Povo Bra­si­leiro.

Como pre­tendo demons­trar em outro artigo, Sér­gio Buar­que de Holanda, Gil­berto Freyre, Lévi-Strauss e Vilém Flus­ser, entre outros ana­lis­tas da rea­li­dade bra­si­leira, iden­ti­fi­ca­ram tra­ços de cará­ter cul­tu­ral na soci­e­dade bra­si­leira que expli­cam por que foi cri­ada e per­pe­tu­ada essa estru­tura polí­tica de ins­ti­tui­ções débeis e cor­rup­ção gene­ra­li­zada.

Mas o impor­tante agora é afas­tar o mito de que a popu­la­ção bra­si­leira é uma vítima ingê­nua de polí­ti­cos opor­tu­nis­tas que se man­têm no poder.

Lem­bra-se do fes­ti­val de hor­ro­res e bizar­ri­ces que foi o des­file de depu­ta­dos fede­rais no domingo em que a Câmara dos Depu­ta­dos votou o rela­tó­rio da Comis­são de Impe­a­ch­ment da Dilma? Des­culpe, mas aquela é a cara do povo bra­si­leiro. Nós somos aquilo. Não somos, como soci­e­dade, nada melhor do que eles.

Em outras pala­vras, cada povo tem o sis­tema polí­tico que merece. E em última ins­tân­cia, nós somos os res­pon­sá­veis pelos Sar­neys, Renans e Cunhas.

Sei que é muito difí­cil olhar no espe­lho e reco­nhe­cer o quão feia é nossa fisi­o­no­mia. Mas o pri­meiro passo para nosso real des­per­tar cole­tivo é reco­nhe­cer quem nós somos neste momento, de ver­dade. Uma gra­dual e dolo­rosa tomada de cons­ci­ên­cia é o pri­meiro e ine­vi­tá­vel passo que ante­cede a uma genuína e efe­tiva trans­for­ma­ção.


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Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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