1 – Não há mais dois lados nas ruas, só um.

Dilma começou seu segundo mandato com o país dividido. Durante as eleições, marqueteiros como João Santana, atualmente atrás das grades, reforçaram a imagem de que seria “nós, da esquerda, contra eles”. Foi uma estratégia de campanha do PT aprofundar a divisão no país, e no início do mandato a Presidente pagou o preço de conviver com um profundo racha na sociedade, que os governistas tentaram negar utilizando sua retórica da união nacional.

Mas essa divisão da sociedade já não existe. Intimidada, acuada, a reação da esquerda tradicional, neste momento, ou é a do silêncio constrangido ou é a do refúgio na retórica.

Para esquerda, essa multidão não é a voz do povo brasileiro. protestos
Para a esquerda, essa multidão não é a voz do povo brasileiro, pois entende que só ela pode outorgar tal título a alguém.

A esquerda ataca os protestos dizendo que se tratam de manifestações da tal “classe média privilegiada”. Tenta desmerecer suas pretensões descrevendo tudo como ameaça de golpe à democracia. Procura tirar a legitimidade da sua voz associando as manifestações ao Bolsonaro. Compartilha fotos nas redes sociais dos sinais exteriores de riqueza de alguns participantes (lanchas, babás, marcas de grife), cirurgicamente selecionados em uma multidão de milhões de pessoas, para assim desqualificar todo o movimento.

Mas nada disso cola. Ridicularizar, desprezar e etiquetar o seu adversário é burrice, é admitir a derrota. Explicar um movimento maior em números que as Diretas Já afirmando que é “coisa de coxinha que quer implementar uma ditadura militar” é o atestado de que se está num canto do ringue, sendo nocauteado pelos fatos. Ainda que seja sim um movimento predominantemente da classe média, o fato de que muita gente considera tal circunstância, por si só, um argumento que depõe contra os protestos mostra a que nível chegou a esquizofrenia nacional.

A elite branca.
A elite branca.

Só que nada mais resta à esquerda senão fazer isso. A outra alternativa, que seria enfrentar o mérito de tudo aquilo que está sendo descoberto pela Lava Jato, é impossível. Nem mesmo a tese (na qual só o Papai Noel da esquerda acredita) de que é tudo uma armação da oposição em conluio com a mídia e agentes públicos federais (que usariam a prisão e a delação para extorquir acusações falsas) está colando. Após a condenação de Marcelo Odebrecht a quase vinte anos de prisão, a situação ficou indefensável, os fatos são claros demais, eloquentes demais. Os fatos gritam.

E o principal fato é que o primeiro governo legitimamente de esquerda deste país, embora tenha sim implementado importantes reformas sociais, mancomunou-se por outro lado com representantes da classe alta em um esquema bilionário. Alguns dos principais líderes de um partido que se autodenomina “dos Trabalhadores” envolveram-se com um esquema que presta serviço, olha que ironia, ao alto empresariado, a empreiteiros e banqueiros poderosos. É difícil enfrentar essa questão diretamente, e por isso o único recurso atual da esquerda é a retórica que tenta desviar a atenção dos fatos.

2 – Não, o Moro não é nosso herói.

O pessoal parece ter se esquecido que essa história toda começou com Lula, o “Filho do Brasil”, com a narrativa de um personagem que seria o herói nacional, o herói do tal “povo trabalhador”.

Na verdade, começou antes. Já tivemos o Caçador de Marajás. E antes o Pai dos Pobres. Isso remonta até Dom Sebastião, é uma necessidade que corre fundo em nossas veias: parece que o povo sempre precisa encontrar uma autoridade que prometa varrer o mal que corrompe a sociedade brasileira. Um pai generoso e redentor de nossas mazelas. Hoje é Moro, o herói da Lava Jato.

Mas Moro não é um super-herói. Ele é um servidor público comprometido e honesto. Ponto. E isso deveria ser a regra, o normal.

Simplesmente não. protestos
Simplesmente não.

Mas comprometimento e honestidade são tão excepcionais por aqui que ficamos espantados. Deveríamos, ao invés de idolatrar o personagem da ocasião, nos perguntar em que buraco é esse que estamos, e como cavamos com nossas mãos e de olhos fechados até esse fundo do poço no qual ser honesto e comprometido é algo sobre-humano e digno de culto.

Nós não “somos Moro”. Não somos mesmo. No fundo, em nosso dia a dia, no ato de ultrapassar o sinal vermelho, estacionar em fila dupla, furar fila de banco, dirigir embriagado, baixar conteúdo pirata, somos muito mais Maluf, Lula e Collor.

Se há algo de único neste momento, porém, é que diferente dos outros heróis, todos chefes do Executivo, dessa vez idolatra-se um juiz, um servidor público que prestou compromisso com a Justiça e está tentando agir de acordo. Isso nos dá uma pista que o que deve ser objeto de admiração, neste momento, não é o Japa da Federal ou o Juiz Moro. Sequer é uma pessoa. Devemos ficar admirados com o funcionamento, ainda que capenga, de algumas instituições essenciais à preservação da democracia e da República. E, admirados, precisamos assegurar que também não sejam solapadas por privilégios e corrupção.

3 – Sim, a classe média foi às ruas, e tem todo o direito.

Vivemos em um país mergulhado na tradição católica da “culpa” pelo enriquecimento individual. É que a esquerda latino-americana, ainda que conte com um bom número de ateus, abraçou a ética católica que vê na usura (e, por decorrência, no lucro) um pecado.

Isso se explica. A maior parte da esquerda brasileira é organizada pelos filhos da classe média, tradicionalmente católica. Apesar de seu verniz contestador do status quo, a esquerda traz na bagagem a culpa católica, a hostilidade diante do lucro. Há uma clara associação entre a narrativa que a esquerda faz sobre opressores e oprimidos e a ênfase que a Igreja dá à pobreza de Cristo (que era financiado por seguidoras, como a esposa de um procurador de Herodes, entre “muitas outras”).

Onde chegamos com isso? É que uma das críticas que se fez aos protestos deste domingo e aos anteriores é que são “protestos da classe média”. Como se isso desqualificasse a manifestação política por si só. Como se fosse “coisa dessa gente pecadora”, que empreende para buscar lucro. Trata-se da mesma retórica que com má-fé associa esses protestos à Marcha da Família com Deus Pela Liberdade, como se a presente geração fosse culpada pelos erros de seus avós.

Aécio corrido das manifestações: quem representa a classe média? protestos
Aécio corrido das manifestações: uma oposição fraca diante de um governo corrupto.

Ocorre que a classe média é responsável por parte fundamental do empreendedorismo que impulsiona o nosso desenvolvimento social. O Brasil não sobrevive sem a classe média. Poucos atores do meio social têm mais autoridade do que a classe média para dizer o quão mal ou bem vai esse país.

A classe média é um termômetro indicativo do estado de saúde do Brasil, e se ela começa a protestar, precisa ser ouvida, precisa fazer-se ouvir na justa expectativa de determinar o futuro da nação. Desqualificar suas manifestações etiquetando-as como “coisa da elite branca” ou de pessoas “sem conhecimento acadêmico e histórico” é um perigoso ato de cegueira, típico aliás da esquerda tradicional, sempre atropelada pelos fatos por se recusar a reconhecer poder e legitimidade às vozes que considera dissonantes.

O problema dessa classe média que sai às ruas não é sua falta de legitimidade (que ela possui inquestionavelmente), é o seu vazio de liderança. E por liderança entenda-se não um novo “salvador da pátria”, mas representantes capazes de falar legitimamente em seu nome. Depois de Aécio ser hostilizado na Avenida Paulista, ficou evidente que a oposição não consegue mais controlar o movimento senão pelos bastidores. Não consegue oferecer um representante na linha de frente.

Bolsonaro só chama a atenção porque é o único representante de uma parte muito caricata e atrasada da direita brasileira, mas que de forma alguma é endossada por toda a classe média. Por ser um dos poucos, acaba recebendo mais atenção do que merece. Mas há uma silenciosa maioria que vai às ruas e ainda não encontrou uma voz.

4 – Ainda não é a corrupção, mas a economia.

O ódio ao PT sempre existiu por parte da população desde a década de oitenta do século passado. Seus detratores estavam lá durante os dois mandatos do Lula e estavam lá no primeiro mandato da Dilma, em que ocorreu o julgamento do mensalão. Mas, curiosamente, mesmo com aquele terrível escândalo de corrupção, jamais conseguiram juntar milhões de pessoas na Avenida Paulista.

Mais ainda, se considerarmos não apenas o aspecto das cifras e da complexidade do esquema, e sim do impacto e comprometimento do sistema democrático, o escândalo do mensalão foi muito mais grave do que a Lava Jato. Nesse último, tratava-se de um esquema de distribuir propinas a congressistas para que votassem de acordo com a agenda do governo. Era o Poder Executivo comprando membros do Poder Legislativo, rompendo a separação dos poderes de forma espúria. Algo muito sério, que em qualquer país de sólida tradição democrática teria resultado no expurgo de todas as autoridades remotamente envolvidas no esquema, ainda que por uma questão de princípios. Mas no país não deu em nada, pois a economia estava bem.

A diferença agora é em outro nível. A corrupção prossegue. O que faz milhões de pessoas irem para a Avenida Paulista não são os escândalos da Lava Jato. O que as faz sair de casa no domingo é a crise econômica.

Só tem uma coisa simples nessa história toda: a crise tem responsável. protestos
Só tem uma coisa simples nessa história toda: a crise tem responsável.

Somos uma sociedade caracterizada pela anomia: aqui, não gostamos muito de levar a sério as regras. A corrupção faz parte do nosso cotidiano, a classe média compactua diariamente com diversos tipos de desrespeito às normas, sendo ela a principal perpetuadora da lógica da “vantagem”. No fundo no fundo, na sua Carta o gringo chamou os brasileiros de malandros inconsequentes e banalmente corruptos. A roubalheira nunca realmente nos escandaliza, e jamais nos faria sair da poltrona para protestar nas ruas.

Mas o grande pecado de Dilma no primeiro mandato foi ter colocado a perder, por uma desastrosa e irrealista condução da economia, grande parte das conquistas sociais dos últimos anos. Por pura incompetência, a crise aprofundou-se e começou a atingir nossos bolsos de forma pungente. E quando começam a mexer com nosso bolso, aí sim queremos todos os criminosos na cadeia com força o suficiente para nos manifestarmos.

Isso não é uma tentativa de desqualificar os protestos. Mas precisamos compreender que se o que queremos é realmente acabar com a corrupção, não bastam manifestações nas ruas, pois a corrupção, todos sabemos, é endêmica e banal em nosso cotidiano – de forma alguma ela é privilégio do PT e muito menos uma característica exclusiva da atual etapa democrática: durante a ditadura militar, roubava-se sem qualquer pudor.

5 – O cenário é péssimo.

Uma classe média tradicional que, com legitimidade, reivindica reformas – mas que não tem líderes que representem, desprovida de uma voz. Uma esquerda intimidada e envergonhada pelo poder dos fatos – que se refugia numa retórica tão rasa que se limita a etiquetar os adversários como “coxinhas”, “alienados”, “isentões” e “opressores”. Uma classe política que continua a se preocupar apenas com seus interesses típicos, congressistas e pré-candidatos dedicados a ganhar alguma vantagem eleitoral, algum cargo, algum privilégio, com essa instabilidade política. Uma oposição que parece ter perdido o controle das manifestações. Uma classe empresarial assustada com certas prisões, mas ainda assim pronta, como um todo, para corromper o próximo governo, seja ele de que partido for, e continuar a mamar nas gordas tetas do Estado.

Se temos de um lado Lula e Dilma nas mãos do Delcídio e de sua delação premiada, do outro temos líderes da oposição fracos e débeis, como Aécio e Alckmin. Isso é preocupante, pois está se formando um vazio de representatividade perigoso demais. Esse vazio, quando surge, é um dos primeiros sinais de ruptura democrática – seja essa ruptura iniciada pelos governistas ou pela oposição.

Neste momento, a observância ao princípio republicano e à soberania das leis deveria ser nossa principal preocupação. É possível derrubar governos, é possível salvar governos – desde que segundo as regras do jogo constitucional e democrático. Se uma solução for encontrada segundo as regras já estabelecidas, todos nós sairemos, de certa forma, vitoriosos e fortalecidos. Se só conseguirmos sair dessa burlando as regras do jogo, voltaremos à estaca zero, retornaremos ao mesmo estado em que nos encontrávamos há décadas atrás, como um pais que fracassa sempre que tenta brincar de democracia.

Há poucos momentos tão decisivos para o futuro de uma sociedade como os próximos meses de 2016. Se a classe média mostra-se como a única força coordenada e entusiasmada o suficiente para ir às ruas aos milhões e reivindicar mudanças, que ela assuma a responsabilidade de fazer isso com propostas consistentes e com legitimidade democrática, sem esperar dessa vez por salvadores da pátria e soluções mágicas. Não há solução mágica, não há redenção do dia pra noite. Há apenas muito trabalho a ser feito, e trabalho duro.


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escrito por:

Victor Lisboa

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