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5 verdades sobre os protestos deste domingo

Em Consciência, Política por Victor LisboaComentários

1 — Não há mais dois lados nas ruas, só um.

Dilma come­çou seu segundo man­dato com o país divi­dido. Durante as elei­ções, mar­que­tei­ros como João San­tana, atu­al­mente atrás das gra­des, refor­ça­ram a ima­gem de que seria “nós, da esquerda, con­tra eles”. Foi uma estra­té­gia de cam­pa­nha do PT apro­fun­dar a divi­são no país, e no iní­cio do man­dato a Pre­si­dente pagou o preço de con­vi­ver com um pro­fundo racha na soci­e­dade, que os gover­nis­tas ten­ta­ram negar uti­li­zando sua retó­rica da união naci­o­nal.

Mas essa divi­são da soci­e­dade já não existe. Inti­mi­dada, acu­ada, a rea­ção da esquerda tra­di­ci­o­nal, neste momento, ou é a do silên­cio cons­tran­gido ou é a do refú­gio na retó­rica.

Para esquerda, essa multidão não é a voz do povo brasileiro. protestos

Para a esquerda, essa mul­ti­dão não é a voz do povo bra­si­leiro, pois entende que só ela pode outor­gar tal título a alguém.

A esquerda ataca os pro­tes­tos dizendo que se tra­tam de mani­fes­ta­ções da tal “classe média pri­vi­le­gi­ada”. Tenta des­me­re­cer suas pre­ten­sões des­cre­vendo tudo como ame­aça de golpe à demo­cra­cia. Pro­cura tirar a legi­ti­mi­dade da sua voz asso­ci­ando as mani­fes­ta­ções ao Bol­so­naro. Com­par­ti­lha fotos nas redes soci­ais dos sinais exte­ri­o­res de riqueza de alguns par­ti­ci­pan­tes (lan­chas, babás, mar­cas de grife), cirur­gi­ca­mente sele­ci­o­na­dos em uma mul­ti­dão de milhões de pes­soas, para assim des­qua­li­fi­car todo o movi­mento.

Mas nada disso cola. Ridi­cu­la­ri­zar, des­pre­zar e eti­que­tar o seu adver­sá­rio é bur­rice, é admi­tir a der­rota. Expli­car um movi­mento maior em núme­ros que as Dire­tas Já afir­mando que é “coisa de coxi­nha que quer imple­men­tar uma dita­dura mili­tar” é o ates­tado de que se está num canto do rin­gue, sendo nocau­te­ado pelos fatos. Ainda que seja sim um movi­mento pre­do­mi­nan­te­mente da classe média, o fato de que muita gente con­si­dera tal cir­cuns­tân­cia, por si só, um argu­mento que depõe con­tra os pro­tes­tos mos­tra a que nível che­gou a esqui­zo­fre­nia naci­o­nal.

A elite branca.

A elite branca.

Só que nada mais resta à esquerda senão fazer isso. A outra alter­na­tiva, que seria enfren­tar o mérito de tudo aquilo que está sendo des­co­berto pela Lava Jato, é impos­sí­vel. Nem mesmo a tese (na qual só o Papai Noel da esquerda acre­dita) de que é tudo uma arma­ção da opo­si­ção em con­luio com a mídia e agen­tes públi­cos fede­rais (que usa­riam a pri­são e a dela­ção para extor­quir acu­sa­ções fal­sas) está colando. Após a con­de­na­ção de Mar­celo Ode­bre­cht a quase vinte anos de pri­são, a situ­a­ção ficou inde­fen­sá­vel, os fatos são cla­ros demais, elo­quen­tes demais. Os fatos gri­tam.

E o prin­ci­pal fato é que o pri­meiro governo legi­ti­ma­mente de esquerda deste país, embora tenha sim imple­men­tado impor­tan­tes refor­mas soci­ais, man­co­mu­nou-se por outro lado com repre­sen­tan­tes da classe alta em um esquema bili­o­ná­rio. Alguns dos prin­ci­pais líde­res de um par­tido que se auto­de­no­mina “dos Tra­ba­lha­do­res” envol­ve­ram-se com um esquema que presta ser­viço, olha que iro­nia, ao alto empre­sa­ri­ado, a emprei­tei­ros e ban­quei­ros pode­ro­sos. É difí­cil enfren­tar essa ques­tão dire­ta­mente, e por isso o único recurso atual da esquerda é a retó­rica que tenta des­viar a aten­ção dos fatos.

2 — Não, o Moro não é nosso herói.

O pes­soal parece ter se esque­cido que essa his­tó­ria toda come­çou com Lula, o “Filho do Bra­sil”, com a nar­ra­tiva de um per­so­na­gem que seria o herói naci­o­nal, o herói do tal “povo tra­ba­lha­dor”.

Na ver­dade, come­çou antes. Já tive­mos o Caça­dor de Mara­jás. E antes o Pai dos Pobres. Isso remonta até Dom Sebas­tião, é uma neces­si­dade que corre fundo em nos­sas veias: parece que o povo sem­pre pre­cisa encon­trar uma auto­ri­dade que pro­meta var­rer o mal que cor­rompe a soci­e­dade bra­si­leira. Um pai gene­roso e reden­tor de nos­sas maze­las. Hoje é Moro, o herói da Lava Jato.

Mas Moro não é um super-herói. Ele é um ser­vi­dor público com­pro­me­tido e honesto. Ponto. E isso deve­ria ser a regra, o nor­mal.

Simplesmente não. protestos

Sim­ples­mente não.

Mas com­pro­me­ti­mento e hones­ti­dade são tão excep­ci­o­nais por aqui que fica­mos espan­ta­dos. Deve­ría­mos, ao invés de ido­la­trar o per­so­na­gem da oca­sião, nos per­gun­tar em que buraco é esse que esta­mos, e como cava­mos com nos­sas mãos e de olhos fecha­dos até esse fundo do poço no qual ser honesto e com­pro­me­tido é algo sobre-humano e digno de culto.

Nós não “somos Moro”. Não somos mesmo. No fundo, em nosso dia a dia, no ato de ultra­pas­sar o sinal ver­me­lho, esta­ci­o­nar em fila dupla, furar fila de banco, diri­gir embri­a­gado, bai­xar con­teúdo pirata, somos muito mais Maluf, Lula e Col­lor.

Se há algo de único neste momento, porém, é que dife­rente dos outros heróis, todos che­fes do Exe­cu­tivo, dessa vez ido­la­tra-se um juiz, um ser­vi­dor público que pres­tou com­pro­misso com a Jus­tiça e está ten­tando agir de acordo. Isso nos dá uma pista que o que deve ser objeto de admi­ra­ção, neste momento, não é o Japa da Fede­ral ou o Juiz Moro. Sequer é uma pes­soa. Deve­mos ficar admi­ra­dos com o fun­ci­o­na­mento, ainda que capenga, de algu­mas ins­ti­tui­ções essen­ci­ais à pre­ser­va­ção da demo­cra­cia e da Repú­blica. E, admi­ra­dos, pre­ci­sa­mos asse­gu­rar que tam­bém não sejam sola­pa­das por pri­vi­lé­gios e cor­rup­ção.

3 — Sim, a classe média foi às ruas, e tem todo o direito.

Vive­mos em um país mer­gu­lhado na tra­di­ção cató­lica da “culpa” pelo enri­que­ci­mento indi­vi­dual. É que a esquerda latino-ame­ri­cana, ainda que conte com um bom número de ateus, abra­çou a ética cató­lica que vê na usura (e, por decor­rên­cia, no lucro) um pecado.

Isso se explica. A maior parte da esquerda bra­si­leira é orga­ni­zada pelos filhos da classe média, tra­di­ci­o­nal­mente cató­lica. Ape­sar de seu ver­niz con­tes­ta­dor do sta­tus quo, a esquerda traz na baga­gem a culpa cató­lica, a hos­ti­li­dade diante do lucro. Há uma clara asso­ci­a­ção entre a nar­ra­tiva que a esquerda faz sobre opres­so­res e opri­mi­dos e a ênfase que a Igreja dá à pobreza de Cristo (que era finan­ci­ado por segui­do­ras, como a esposa de um pro­cu­ra­dor de Hero­des, entre “mui­tas outras”).

Onde che­ga­mos com isso? É que uma das crí­ti­cas que se fez aos pro­tes­tos deste domingo e aos ante­ri­o­res é que são “pro­tes­tos da classe média”. Como se isso des­qua­li­fi­casse a mani­fes­ta­ção polí­tica por si só. Como se fosse “coisa dessa gente peca­dora”, que empre­ende para bus­car lucro. Trata-se da mesma retó­rica que com má-fé asso­cia esses pro­tes­tos à Mar­cha da Famí­lia com Deus Pela Liber­dade, como se a pre­sente gera­ção fosse cul­pada pelos erros de seus avós.

Aécio corrido das manifestações: quem representa a classe média? protestos

Aécio cor­rido das mani­fes­ta­ções: uma opo­si­ção fraca diante de um governo cor­rupto.

Ocorre que a classe média é res­pon­sá­vel por parte fun­da­men­tal do empre­en­de­do­rismo que impul­si­ona o nosso desen­vol­vi­mento social. O Bra­sil não sobre­vive sem a classe média. Pou­cos ato­res do meio social têm mais auto­ri­dade do que a classe média para dizer o quão mal ou bem vai esse país.

A classe média é um termô­me­tro indi­ca­tivo do estado de saúde do Bra­sil, e se ela começa a pro­tes­tar, pre­cisa ser ouvida, pre­cisa fazer-se ouvir na justa expec­ta­tiva de deter­mi­nar o futuro da nação. Des­qua­li­fi­car suas mani­fes­ta­ções eti­que­tando-as como “coisa da elite branca” ou de pes­soas “sem conhe­ci­mento aca­dê­mico e his­tó­rico” é um peri­goso ato de cegueira, típico aliás da esquerda tra­di­ci­o­nal, sem­pre atro­pe­lada pelos fatos por se recu­sar a reco­nhe­cer poder e legi­ti­mi­dade às vozes que con­si­dera dis­so­nan­tes.

O pro­blema dessa classe média que sai às ruas não é sua falta de legi­ti­mi­dade (que ela pos­sui inques­ti­o­na­vel­mente), é o seu vazio de lide­rança. E por lide­rança entenda-se não um novo “sal­va­dor da pátria”, mas repre­sen­tan­tes capa­zes de falar legi­ti­ma­mente em seu nome. Depois de Aécio ser hos­ti­li­zado na Ave­nida Pau­lista, ficou evi­dente que a opo­si­ção não con­se­gue mais con­tro­lar o movi­mento senão pelos bas­ti­do­res. Não con­se­gue ofe­re­cer um repre­sen­tante na linha de frente.

Bol­so­naro só chama a aten­ção por­que é o único repre­sen­tante de uma parte muito cari­cata e atra­sada da direita bra­si­leira, mas que de forma alguma é endos­sada por toda a classe média. Por ser um dos pou­cos, acaba rece­bendo mais aten­ção do que merece. Mas há uma silen­ci­osa mai­o­ria que vai às ruas e ainda não encon­trou uma voz.

4 — Ainda não é a corrupção, mas a economia.

O ódio ao PT sem­pre exis­tiu por parte da popu­la­ção desde a década de oitenta do século pas­sado. Seus detra­to­res esta­vam lá durante os dois man­da­tos do Lula e esta­vam lá no pri­meiro man­dato da Dilma, em que ocor­reu o jul­ga­mento do men­sa­lão. Mas, curi­o­sa­mente, mesmo com aquele ter­rí­vel escân­dalo de cor­rup­ção, jamais con­se­gui­ram jun­tar milhões de pes­soas na Ave­nida Pau­lista.

Mais ainda, se con­si­de­rar­mos não ape­nas o aspecto das cifras e da com­ple­xi­dade do esquema, e sim do impacto e com­pro­me­ti­mento do sis­tema demo­crá­tico, o escân­dalo do men­sa­lão foi muito mais grave do que a Lava Jato. Nesse último, tra­tava-se de um esquema de dis­tri­buir pro­pi­nas a con­gres­sis­tas para que votas­sem de acordo com a agenda do governo. Era o Poder Exe­cu­tivo com­prando mem­bros do Poder Legis­la­tivo, rom­pendo a sepa­ra­ção dos pode­res de forma espú­ria. Algo muito sério, que em qual­quer país de sólida tra­di­ção demo­crá­tica teria resul­tado no expurgo de todas as auto­ri­da­des remo­ta­mente envol­vi­das no esquema, ainda que por uma ques­tão de prin­cí­pios. Mas no país não deu em nada, pois a eco­no­mia estava bem.

A dife­rença agora é em outro nível. A cor­rup­ção pros­se­gue. O que faz milhões de pes­soas irem para a Ave­nida Pau­lista não são os escân­da­los da Lava Jato. O que as faz sair de casa no domingo é a crise econô­mica.

Só tem uma coisa simples nessa história toda: a crise tem responsável. protestos

Só tem uma coisa sim­ples nessa his­tó­ria toda: a crise tem res­pon­sá­vel.

Somos uma soci­e­dade carac­te­ri­zada pela ano­mia: aqui, não gos­ta­mos muito de levar a sério as regras. A cor­rup­ção faz parte do nosso coti­di­ano, a classe média com­pac­tua dia­ri­a­mente com diver­sos tipos de des­res­peito às nor­mas, sendo ela a prin­ci­pal per­pe­tu­a­dora da lógica da “van­ta­gem”. No fundo no fundo, na sua Carta o gringo cha­mou os bra­si­lei­ros de malan­dros incon­se­quen­tes e banal­mente cor­rup­tos. A rou­ba­lheira nunca real­mente nos escan­da­liza, e jamais nos faria sair da pol­trona para pro­tes­tar nas ruas.

Mas o grande pecado de Dilma no pri­meiro man­dato foi ter colo­cado a per­der, por uma desas­trosa e irre­a­lista con­du­ção da eco­no­mia, grande parte das con­quis­tas soci­ais dos últi­mos anos. Por pura incom­pe­tên­cia, a crise apro­fun­dou-se e come­çou a atin­gir nos­sos bol­sos de forma pun­gente. E quando come­çam a mexer com nosso bolso, aí sim que­re­mos todos os cri­mi­no­sos na cadeia com força o sufi­ci­ente para nos mani­fes­tar­mos.

Isso não é uma ten­ta­tiva de des­qua­li­fi­car os pro­tes­tos. Mas pre­ci­sa­mos com­pre­en­der que se o que que­re­mos é real­mente aca­bar com a cor­rup­ção, não bas­tam mani­fes­ta­ções nas ruas, pois a cor­rup­ção, todos sabe­mos, é endê­mica e banal em nosso coti­di­ano — de forma alguma ela é pri­vi­lé­gio do PT e muito menos uma carac­te­rís­tica exclu­siva da atual etapa demo­crá­tica: durante a dita­dura mili­tar, rou­bava-se sem qual­quer pudor.

5 — O cenário é péssimo.

Uma classe média tra­di­ci­o­nal que, com legi­ti­mi­dade, rei­vin­dica refor­mas — mas que não tem líde­res que repre­sen­tem, des­pro­vida de uma voz. Uma esquerda inti­mi­dada e enver­go­nhada pelo poder dos fatos — que se refu­gia numa retó­rica tão rasa que se limita a eti­que­tar os adver­sá­rios como “coxi­nhas”, “ali­e­na­dos”, “isen­tões” e “opres­so­res”. Uma classe polí­tica que con­ti­nua a se pre­o­cu­par ape­nas com seus inte­res­ses típi­cos, con­gres­sis­tas e pré-can­di­da­tos dedi­ca­dos a ganhar alguma van­ta­gem elei­to­ral, algum cargo, algum pri­vi­lé­gio, com essa ins­ta­bi­li­dade polí­tica. Uma opo­si­ção que parece ter per­dido o con­trole das mani­fes­ta­ções. Uma classe empre­sa­rial assus­tada com cer­tas pri­sões, mas ainda assim pronta, como um todo, para cor­rom­per o pró­ximo governo, seja ele de que par­tido for, e con­ti­nuar a mamar nas gor­das tetas do Estado.

Se temos de um lado Lula e Dilma nas mãos do Del­cí­dio e de sua dela­ção pre­mi­ada, do outro temos líde­res da opo­si­ção fra­cos e débeis, como Aécio e Alck­min. Isso é pre­o­cu­pante, pois está se for­mando um vazio de repre­sen­ta­ti­vi­dade peri­goso demais. Esse vazio, quando surge, é um dos pri­mei­ros sinais de rup­tura demo­crá­tica — seja essa rup­tura ini­ci­ada pelos gover­nis­tas ou pela opo­si­ção.

Neste momento, a obser­vân­cia ao prin­cí­pio repu­bli­cano e à sobe­ra­nia das leis deve­ria ser nossa prin­ci­pal pre­o­cu­pa­ção. É pos­sí­vel der­ru­bar gover­nos, é pos­sí­vel sal­var gover­nos — desde que segundo as regras do jogo cons­ti­tu­ci­o­nal e demo­crá­tico. Se uma solu­ção for encon­trada segundo as regras já esta­be­le­ci­das, todos nós sai­re­mos, de certa forma, vito­ri­o­sos e for­ta­le­ci­dos. Se só con­se­guir­mos sair dessa bur­lando as regras do jogo, vol­ta­re­mos à estaca zero, retor­na­re­mos ao mesmo estado em que nos encon­trá­va­mos há déca­das atrás, como um pais que fra­cassa sem­pre que tenta brin­car de demo­cra­cia.

Há pou­cos momen­tos tão deci­si­vos para o futuro de uma soci­e­dade como os pró­xi­mos meses de 2016. Se a classe média mos­tra-se como a única força coor­de­nada e entu­si­as­mada o sufi­ci­ente para ir às ruas aos milhões e rei­vin­di­car mudan­ças, que ela assuma a res­pon­sa­bi­li­dade de fazer isso com pro­pos­tas con­sis­ten­tes e com legi­ti­mi­dade demo­crá­tica, sem espe­rar dessa vez por sal­va­do­res da pátria e solu­ções mági­cas. Não há solu­ção mágica, não há reden­ção do dia pra noite. Há ape­nas muito tra­ba­lho a ser feito, e tra­ba­lho duro.


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Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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