1 – Não há mais dois lados nas ruas, só um.

Dilma começou seu segundo mandato com o país dividido. Durante as eleições, marqueteiros como João Santana, atualmente atrás das grades, reforçaram a imagem de que seria “nós, da esquerda, contra eles”. Foi uma estratégia de campanha do PT aprofundar a divisão no país, e no início do mandato a Presidente pagou o preço de conviver com um profundo racha na sociedade, que os governistas tentaram negar utilizando sua retórica da união nacional.

Mas essa divisão da sociedade já não existe. Intimidada, acuada, a reação da esquerda tradicional, neste momento, ou é a do silêncio constrangido ou é a do refúgio na retórica.

Para esquerda, essa multidão não é a voz do povo brasileiro. protestos
Para a esquerda, essa multidão não é a voz do povo brasileiro, pois entende que só ela pode outorgar tal título a alguém.

A esquerda ataca os protestos dizendo que se tratam de manifestações da tal “classe média privilegiada”. Tenta desmerecer suas pretensões descrevendo tudo como ameaça de golpe à democracia. Procura tirar a legitimidade da sua voz associando as manifestações ao Bolsonaro. Compartilha fotos nas redes sociais dos sinais exteriores de riqueza de alguns participantes (lanchas, babás, marcas de grife), cirurgicamente selecionados em uma multidão de milhões de pessoas, para assim desqualificar todo o movimento.

Mas nada disso cola. Ridicularizar, desprezar e etiquetar o seu adversário é burrice, é admitir a derrota. Explicar um movimento maior em números que as Diretas Já afirmando que é “coisa de coxinha que quer implementar uma ditadura militar” é o atestado de que se está num canto do ringue, sendo nocauteado pelos fatos. Ainda que seja sim um movimento predominantemente da classe média, o fato de que muita gente considera tal circunstância, por si só, um argumento que depõe contra os protestos mostra a que nível chegou a esquizofrenia nacional.

A elite branca.
A elite branca.

Só que nada mais resta à esquerda senão fazer isso. A outra alternativa, que seria enfrentar o mérito de tudo aquilo que está sendo descoberto pela Lava Jato, é impossível. Nem mesmo a tese (na qual só o Papai Noel da esquerda acredita) de que é tudo uma armação da oposição em conluio com a mídia e agentes públicos federais (que usariam a prisão e a delação para extorquir acusações falsas) está colando. Após a condenação de Marcelo Odebrecht a quase vinte anos de prisão, a situação ficou indefensável, os fatos são claros demais, eloquentes demais. Os fatos gritam.

E o principal fato é que o primeiro governo legitimamente de esquerda deste país, embora tenha sim implementado importantes reformas sociais, mancomunou-se por outro lado com representantes da classe alta em um esquema bilionário. Alguns dos principais líderes de um partido que se autodenomina “dos Trabalhadores” envolveram-se com um esquema que presta serviço, olha que ironia, ao alto empresariado, a empreiteiros e banqueiros poderosos. É difícil enfrentar essa questão diretamente, e por isso o único recurso atual da esquerda é a retórica que tenta desviar a atenção dos fatos.

2 – Não, o Moro não é nosso herói.

O pessoal parece ter se esquecido que essa história toda começou com Lula, o “Filho do Brasil”, com a narrativa de um personagem que seria o herói nacional, o herói do tal “povo trabalhador”.

Na verdade, começou antes. Já tivemos o Caçador de Marajás. E antes o Pai dos Pobres. Isso remonta até Dom Sebastião, é uma necessidade que corre fundo em nossas veias: parece que o povo sempre precisa encontrar uma autoridade que prometa varrer o mal que corrompe a sociedade brasileira. Um pai generoso e redentor de nossas mazelas. Hoje é Moro, o herói da Lava Jato.

Mas Moro não é um super-herói. Ele é um servidor público comprometido e honesto. Ponto. E isso deveria ser a regra, o normal.

Simplesmente não. protestos
Simplesmente não.

Mas comprometimento e honestidade são tão excepcionais por aqui que ficamos espantados. Deveríamos, ao invés de idolatrar o personagem da ocasião, nos perguntar em que buraco é esse que estamos, e como cavamos com nossas mãos e de olhos fechados até esse fundo do poço no qual ser honesto e comprometido é algo sobre-humano e digno de culto.

Nós não “somos Moro”. Não somos mesmo. No fundo, em nosso dia a dia, no ato de ultrapassar o sinal vermelho, estacionar em fila dupla, furar fila de banco, dirigir embriagado, baixar conteúdo pirata, somos muito mais Maluf, Lula e Collor.

Se há algo de único neste momento, porém, é que diferente dos outros heróis, todos chefes do Executivo, dessa vez idolatra-se um juiz, um servidor público que prestou compromisso com a Justiça e está tentando agir de acordo. Isso nos dá uma pista que o que deve ser objeto de admiração, neste momento, não é o Japa da Federal ou o Juiz Moro. Sequer é uma pessoa. Devemos ficar admirados com o funcionamento, ainda que capenga, de algumas instituições essenciais à preservação da democracia e da República. E, admirados, precisamos assegurar que também não sejam solapadas por privilégios e corrupção.

3 – Sim, a classe média foi às ruas, e tem todo o direito.

Vivemos em um país mergulhado na tradição católica da “culpa” pelo enriquecimento individual. É que a esquerda latino-americana, ainda que conte com um bom número de ateus, abraçou a ética católica que vê na usura (e, por decorrência, no lucro) um pecado.

Isso se explica. A maior parte da esquerda brasileira é organizada pelos filhos da classe média, tradicionalmente católica. Apesar de seu verniz contestador do status quo, a esquerda traz na bagagem a culpa católica, a hostilidade diante do lucro. Há uma clara associação entre a narrativa que a esquerda faz sobre opressores e oprimidos e a ênfase que a Igreja dá à pobreza de Cristo (que era financiado por seguidoras, como a esposa de um procurador de Herodes, entre “muitas outras”).

Onde chegamos com isso? É que uma das críticas que se fez aos protestos deste domingo e aos anteriores é que são “protestos da classe média”. Como se isso desqualificasse a manifestação política por si só. Como se fosse “coisa dessa gente pecadora”, que empreende para buscar lucro. Trata-se da mesma retórica que com má-fé associa esses protestos à Marcha da Família com Deus Pela Liberdade, como se a presente geração fosse culpada pelos erros de seus avós.

Aécio corrido das manifestações: quem representa a classe média? protestos
Aécio corrido das manifestações: uma oposição fraca diante de um governo corrupto.

Ocorre que a classe média é responsável por parte fundamental do empreendedorismo que impulsiona o nosso desenvolvimento social. O Brasil não sobrevive sem a classe média. Poucos atores do meio social têm mais autoridade do que a classe média para dizer o quão mal ou bem vai esse país.

A classe média é um termômetro indicativo do estado de saúde do Brasil, e se ela começa a protestar, precisa ser ouvida, precisa fazer-se ouvir na justa expectativa de determinar o futuro da nação. Desqualificar suas manifestações etiquetando-as como “coisa da elite branca” ou de pessoas “sem conhecimento acadêmico e histórico” é um perigoso ato de cegueira, típico aliás da esquerda tradicional, sempre atropelada pelos fatos por se recusar a reconhecer poder e legitimidade às vozes que considera dissonantes.

O problema dessa classe média que sai às ruas não é sua falta de legitimidade (que ela possui inquestionavelmente), é o seu vazio de liderança. E por liderança entenda-se não um novo “salvador da pátria”, mas representantes capazes de falar legitimamente em seu nome. Depois de Aécio ser hostilizado na Avenida Paulista, ficou evidente que a oposição não consegue mais controlar o movimento senão pelos bastidores. Não consegue oferecer um representante na linha de frente.

Bolsonaro só chama a atenção porque é o único representante de uma parte muito caricata e atrasada da direita brasileira, mas que de forma alguma é endossada por toda a classe média. Por ser um dos poucos, acaba recebendo mais atenção do que merece. Mas há uma silenciosa maioria que vai às ruas e ainda não encontrou uma voz.

4 – Ainda não é a corrupção, mas a economia.

O ódio ao PT sempre existiu por parte da população desde a década de oitenta do século passado. Seus detratores estavam lá durante os dois mandatos do Lula e estavam lá no primeiro mandato da Dilma, em que ocorreu o julgamento do mensalão. Mas, curiosamente, mesmo com aquele terrível escândalo de corrupção, jamais conseguiram juntar milhões de pessoas na Avenida Paulista.

Mais ainda, se considerarmos não apenas o aspecto das cifras e da complexidade do esquema, e sim do impacto e comprometimento do sistema democrático, o escândalo do mensalão foi muito mais grave do que a Lava Jato. Nesse último, tratava-se de um esquema de distribuir propinas a congressistas para que votassem de acordo com a agenda do governo. Era o Poder Executivo comprando membros do Poder Legislativo, rompendo a separação dos poderes de forma espúria. Algo muito sério, que em qualquer país de sólida tradição democrática teria resultado no expurgo de todas as autoridades remotamente envolvidas no esquema, ainda que por uma questão de princípios. Mas no país não deu em nada, pois a economia estava bem.

A diferença agora é em outro nível. A corrupção prossegue. O que faz milhões de pessoas irem para a Avenida Paulista não são os escândalos da Lava Jato. O que as faz sair de casa no domingo é a crise econômica.

Só tem uma coisa simples nessa história toda: a crise tem responsável. protestos
Só tem uma coisa simples nessa história toda: a crise tem responsável.

Somos uma sociedade caracterizada pela anomia: aqui, não gostamos muito de levar a sério as regras. A corrupção faz parte do nosso cotidiano, a classe média compactua diariamente com diversos tipos de desrespeito às normas, sendo ela a principal perpetuadora da lógica da “vantagem”. No fundo no fundo, na sua Carta o gringo chamou os brasileiros de malandros inconsequentes e banalmente corruptos. A roubalheira nunca realmente nos escandaliza, e jamais nos faria sair da poltrona para protestar nas ruas.

Mas o grande pecado de Dilma no primeiro mandato foi ter colocado a perder, por uma desastrosa e irrealista condução da economia, grande parte das conquistas sociais dos últimos anos. Por pura incompetência, a crise aprofundou-se e começou a atingir nossos bolsos de forma pungente. E quando começam a mexer com nosso bolso, aí sim queremos todos os criminosos na cadeia com força o suficiente para nos manifestarmos.

Isso não é uma tentativa de desqualificar os protestos. Mas precisamos compreender que se o que queremos é realmente acabar com a corrupção, não bastam manifestações nas ruas, pois a corrupção, todos sabemos, é endêmica e banal em nosso cotidiano – de forma alguma ela é privilégio do PT e muito menos uma característica exclusiva da atual etapa democrática: durante a ditadura militar, roubava-se sem qualquer pudor.

5 – O cenário é péssimo.

Uma classe média tradicional que, com legitimidade, reivindica reformas – mas que não tem líderes que representem, desprovida de uma voz. Uma esquerda intimidada e envergonhada pelo poder dos fatos – que se refugia numa retórica tão rasa que se limita a etiquetar os adversários como “coxinhas”, “alienados”, “isentões” e “opressores”. Uma classe política que continua a se preocupar apenas com seus interesses típicos, congressistas e pré-candidatos dedicados a ganhar alguma vantagem eleitoral, algum cargo, algum privilégio, com essa instabilidade política. Uma oposição que parece ter perdido o controle das manifestações. Uma classe empresarial assustada com certas prisões, mas ainda assim pronta, como um todo, para corromper o próximo governo, seja ele de que partido for, e continuar a mamar nas gordas tetas do Estado.

Se temos de um lado Lula e Dilma nas mãos do Delcídio e de sua delação premiada, do outro temos líderes da oposição fracos e débeis, como Aécio e Alckmin. Isso é preocupante, pois está se formando um vazio de representatividade perigoso demais. Esse vazio, quando surge, é um dos primeiros sinais de ruptura democrática – seja essa ruptura iniciada pelos governistas ou pela oposição.

Neste momento, a observância ao princípio republicano e à soberania das leis deveria ser nossa principal preocupação. É possível derrubar governos, é possível salvar governos – desde que segundo as regras do jogo constitucional e democrático. Se uma solução for encontrada segundo as regras já estabelecidas, todos nós sairemos, de certa forma, vitoriosos e fortalecidos. Se só conseguirmos sair dessa burlando as regras do jogo, voltaremos à estaca zero, retornaremos ao mesmo estado em que nos encontrávamos há décadas atrás, como um pais que fracassa sempre que tenta brincar de democracia.

Há poucos momentos tão decisivos para o futuro de uma sociedade como os próximos meses de 2016. Se a classe média mostra-se como a única força coordenada e entusiasmada o suficiente para ir às ruas aos milhões e reivindicar mudanças, que ela assuma a responsabilidade de fazer isso com propostas consistentes e com legitimidade democrática, sem esperar dessa vez por salvadores da pátria e soluções mágicas. Não há solução mágica, não há redenção do dia pra noite. Há apenas muito trabalho a ser feito, e trabalho duro.


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As vantagens de ser político num país corrupto
Os movimentos sociais fracassaram

 

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.
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  • Fabio Pinto

    Belo texto, meu caro. Um tanto otimista, talvez.

  • Luã Lemos

    Texto altamente lúcido. Muito bom.

  • Sensacional. Aliás, a coisa é tão complexa que nos assustamos quando, na mera tentativa de entendermos o quadro geral (que vem do desejo de saber sobre tudo, um fenômeno comum na cultura da opinião), descobrimos que teremos mais dúvidas do que certezas quando percebermos que a realidade não é tão polarizada assim. No fundo a polarização não é apenas um subterfúgio útil à politicagem, mas uma condição confortável àqueles que pretendem, do alto de suas ideologias, ter firmeza sobre seus pontos de vista.

  • Alexandre

    Ainda não é a corrupção? Quantos bilhões de dólares deverão ser desviados dos cofres do povo brasileiro para que a corrupção seja lembrada como motivo para sair às ruas? É a corrupção sim! Da Petrobras, dos desvios escabrosos na copa do mundo, licitações superfaturadas na maioria das licitações com uma porcentagem por fora desviada para políticos, nas contas em paraísos fiscais, na impunidade que reina na maioria do País, construção de pontes que levam a lugar nenhum, dentre milhares de outros exemplos. O sr. Paulo Maluf é condenado em outros países por crimes que se iniciaram no Brasil, como o desvio de milhões de dólares na construção da Avenida Água Espraiada em São Paulo. Mas a justiça brasileira deixa prescrever os crimes, permite recursos protelatórios sem fim, e esse cidadão procurado pela Iterpol, não é preso no Brasil! Quanta cegueira. É a corrupção sim! É de quebra tem a economia. Uma coisa não exclui a outra.

  • Joao Henrique

    Eu não sei bem meu lado , esquerda ou direita, acho que nenhum dos dois. Utopicamente os dois são bons, mas na prática não funcionam. Gostei do texto mas acho que senti um pouco de raiva nele por parte do escritor, os dois lados se alfinetam da mesma maneira,esquerda e direita, e não acho certo dizer que PT representa o lado esquerdo, eu digo, teoricamente sim, mas quando alguém tem uma direção política, ela decide quem representa seu lado, o PT a muito tempo não representa , inclusive foi dito no texto. O que eu quero dizer é que, o texto foi bom mas achei errado falar de “Uma esquerda intimidada e envergonhada “. Me corrijam se eu estiver errado, eu posso ser da esquerda e ir nas manifestações, pois aquele que esta no poder não me representa mais. O texto deixou de lado esse ponto. Enfim, valeu, continua escrevendo, bons textos ! 😉

  • Adriano Malta HōZen

    Já começou mal ao não parar para ver os dados estatísticos da manifestação e perceber que não, a população não estava representada lá como um todo, e sim uma parcela específica. E ainda usa a imagem do catador que todo mundo já conhece e sabe que não está lá por causa de política.
    Depois chama o Moro é comprometido e honesto?? Aquele cujo pai foi um dos fundadores do PSDB em sua cidade natal no Paraná, cujo irmão é deputado pelo PSDB, e a mulher foi advogada do PSDB e que arquivou todas as denúncias dos tucanos (além de ter sentado em cima do processo dos tucanos no escândalo do Banestado)? É tão competente e honesto quanto o “Japonês da Federal”, aquele que está com processo por contrabando.
    Putz, nem deu animo pra comentar o resto… Me poupe

  • Nick Matos

    Você forçou a barra quando disse que “não há mais dois lados”, ali é sim, em sua maioria, os inconformados com a derrota das eleições – está provado em pesquisas. E houve um “esforço” enorme pra levar essa multidão no sábado – até area VIP com artistas. Você vai me dizer que essa gente – que em sua MAIORIA – ganha mais de 20 salários mínimos tá sofrendo com a crise? Há um ânimo em volta da corrupção, sendo tentado – alopradamente – ser capetaniado pela oposição e setores maiores da nossa sociedade (Quem bancou o trio elétrico que a Ivete usa no carnaval pra uma banda do revoltados on-line).

    Você esqueceu de citar no seu texto – não sei porq – que a narrativa da corrupção sempre serviu como mote pra golpear governos aqui no Brasil e que a mídia e a elite nacional embarcam nessa com muita naturalidade e sem culpa.

    Tirando a parte da Economia, todo o texto foi escrito por alguém que fez a análise pelo facebook, isso fica claro. Você fala de retórica mas no texto tem muita, e uma retórica romântica que a gente fica procurando de onde vc tirou, e conclui que é só uma visão rasa dos temas que você tentou abordar. Li como opinião de mais um brasileiro e não um especialista.

    Cara, me explica qual é a tua literatura de cabeceira pra vc escrever isso:

    “Isso se explica. A maior parte da esquerda brasileira é organizada pelos filhos da classe média, tradicionalmente católica. Apesar de seu verniz contestador do status quo, a esquerda traz na bagagem a culpa católica, a hostilidade diante do lucro. Há uma clara associação entre a narrativa que a esquerda faz sobre opressores e oprimidos e a ênfase que a Igreja dá à pobreza de Cristo ”

    Essa parte foi a pior.

    Abraço. Gosto do site e divulgo sempre, apesar das groselhagens. o/

    • Rodrigo Lourenço

      Nick, gosto quando vejo um comentário debatendo assim com o texto, e o debate, especificamente nesse contexto, me interessa muito…por isso faço algumas provocações (saudáveis):

      – Assumir que a bandeira da corrupção sempre foi utilizada para “golpes” na história nacional também não pode “blindar” a corrupção?! Vejamos, se todas as vezes que essa bandeira foi destaca em nível nacional, a ideia for a de que é a base para um golpe e pronto, esse assunto nunca poderá ser trazido, com o risco de ser taxado apenas como ferramenta do golpe.

      – A existência de direita e esquerda, no Brasil, para você (e para o Victor também, no caso) é nítida?! Se for, se incomodaria em tentar evidenciar? (e aqui esse apelo é uma questão pessoal mesmo). Não consigo diagnosticar a base desses ideais no Brasil; as regras (ou ausência delas) no jogo de coalizão torna obscuro essa temática em minha cabeça. Um governo que, claramente, governou agradando os donos de grandes empreiteiras e ao mesmo tempo foi o difusor de programas sociais para “os pobres”…isso é o que?

      – Tenho visto textos dizendo que a maioria das pessoas na manifestação é de massa, de pessoas que não sabem nem o que é impeachment, que não “entende” nada de política e blá, blá, blá…mas, exigir que o conhecimento seja um requisito para não demonstrar sua indignação com um governo que não oferece nenhuma saída econômica (ao menos) e parece dormir enquanto a economia destruída, parece complicado num país onde os índices de escolaridade ainda são pouco significativos, não?! O que acham desse ponto específico?

      Grato pelo debate!

      • Leandro Rocha

        Olá Rodrigo!

        Não vejo o comentário origem de sua resposta e ao qual levanta algumas questões, mas gostaria de alguma forma de talvez dialogar um pouco sobre o assunto.Primeiramente li o texto por alto.

        – Sobre a primeira afirmação creio que a “corrupção” pode e já foi utilizada como bandeira e justificativa a golpes e mudanças em trajetos políticos, assim como o combate ao terrorismo e a caça a armas biológicas levou o Iraque ao caos, e sabemos que os motivos são outros néh!? Mas claro, não se pode inocentar e resguardar toda uma classe política justificando que as investigações podem levar a um golpe. As coisas são muito confusas e difusas, não se tem nada de concreto contra Dilma, agora que ela é mencionada na delação de Delcídio, e olha que todo esse caos criado para tirar essa “corruPTa” de lá. A mídia é de certa maneira irresponsável, qualquer pessoa tem o seu direito a julgamento, mas com “vazamentos” e dezenas de manchetes e chamadas especulativos, o que o cidadão que trabalha o dia todo e liga a TV no jornal nacional irá pensar ao ouvir uma reportagem de mais de 10 minutos a respeito de um partido ou pessoa em especial? Para muitas pessoas o que é dito em meios de comunicação é pura e simplesmente a verdade, e sabemos que isso também não é lá essas coisas… É muito estranho as investigações seguirem pura e simplesmente com uma ênfase em pessoas ou instituições específicas, já houve várias citações a Aécio Neves por exemplo, e a tal pessoa que o cita foi dispensada. Fora os últimos bombásticos acontecimentos, como conduzir uma pessoa com 200 policiais federais a depor, sendo que sempre que solicitada ela o fazia, e vazar a mídia o que iria acontecer, de forma que tudo aquilo vire um circo, um filme de ação ou melhor dizendo, um grande espetáculo. Um cliente que atendi naquele dia me disse “é hoje é o dia, prenderam o Lula”, e essa foi o que as pessoas captaram daquilo tudo, não quero de maneira alguma dizer que ele ou qualquer outro é santo, mas noto uma grande imparcialidade e uma tentativa de “linchamento”. Fora que esse acontecimento nas prévias dessa referida manifestação, e depois tudo pegou fogo. Estamos vivendo uma época de paixões, já elegeram o judas, “fora pt, fora dilma, fora lula”, é o problema de nosso país.

        – Eu creio na definição de direita e esquerda. Só que no jogo político da governabilidade o que vemos são partidos fundados meramente para a troca de tempo de TV, votos e cargos, não se tem uma filosofia. Temos algumas figuras com ideias de direita e acho que até podendo ser classificada como extrema direita, como Jair Bolsonaro e seus filhos, e algumas figuras da bancada evangélica, e uma esquerda como PSOL e PSTU, que defendem bandeiras e causas de esquerda e são bem convictos. Agora o PT seria um partido de centro ou centro esquerda, apesar de muitas políticas progressistas, governou para muito ricos, operou distribuindo um pouco do bolo, e por sua origem de esquerda e a presença de muitos idealistas, é mais sujeito a deixar que se escape projetos e ações progressistas.

        – Esse último ponto levantado me parece bem mais complexo do que todos os outros, acompanhando textos políticos diversos, me deparei com várias repetições de um tema e diagnóstico comum em vários deles, inclusive de intelectuais de fora do país, e diziam sobre a ascensão do consumo que houve durante os governos do PT, mas uma carência na ascensão cultural. Pode ser que esse ponto explique de alguma forma suas indagações. O fato é que como dito na primeira parte, a maior parte das pessoas estão propensas para a tomada como verdade de um noticiário que muitas vezes publicou e ventilou muitas informações dispares e longe de conformação, a mídia em muitos casos condena alguém, longe disso ter se confirmado.

        Cara me desculpe se fui clichê ou raso nas respostas. Gosto muito de política mas tenho estado com medo do que as pessoas se tornaram, não é possível haver debates, fora a dificuldade habitual das pessoas dialogarem nos dias de hoje, nesse assunto reina o grito e o ódio, nada mais. Caso queira comentar algo mais, tamo aí.

        Abraços!

        • Rodrigo Lourenço

          Fala, Leandro!
          Muito obrigado pelo seu tempo, e pela oportunidade do debate de ideias, cara!

          – Concordo contigo nesse primeiro aspecto aí; mas, por acabar admitindo essa verdade aí também, acabamos ficando numa relatividade imensa sobre a tal “bandeira do combate” contra a corrupção. Se por um lado ela já significou um meio de manobra, por outro, pode ser um elemento altamente reducionista. E isso é notório no novo debate da situação, que tenta desqualificar todas as ações da LavaJato, e agora com a implantação da palavra “golpe” e do brocardo “nós estamos tentando salvar a democracia”. Esse discurso reduz demais a significância das coisas; se ocorreu uma falta de observação das normais processuais (como na divulgação das ligações), ocorreu também uma falta de observação das normas éticas (com o desvio de bilhões e bilhões dos cofres públicos.

          – Isso! Nesse ponto você tocou exatamente onde eu pensei: se realmente os conceitos de direita e esquerda são aplicados na prática do jogo político, são apenas naqueles partidos extremistas, com a função, apenas, de inflamar debates de minoria ou adicionar alegoria as discussões sobre política. Os governos que chegam ao poder sempre carregam essa coisa de “centro-alguma coisa”, e esse conceito [minha opinião] acaba por negar essa dicotomia. Como você mesmo disse aí, o governo do PT (e, repito, só faço referência ao PT por ser o partido da situação) estabeleceu um plano de governo que dança com aspectos de ambas as ideias. Um discurso que subiu pelos ombros dos “pobres” e minorias e se sustentou nos colos dos grandes empresários, e isso é bem nítido. Irônico que o discurso de Lula no trio elétrico naquele último ato foi

          “Eles (ricos) querem golpe porque o dólar subiu, mas querem que a gente continue comprando na 25 de março. Eu não admito isso, nós também podemos comprar em miami” e blá, blá, blá…discurso de pobre sem ser pobre, discurso de esquerda sem ser de esquerda (assim como já fez discurso de direita sem ser de direita). Vários discursos de, sem ser.

          – Cara, nesse terceiro ponto aí…você falou de um dado que nunca tinha pensado: a questão da ascensão cultural. Nunca parei para analisar e pensar sobre isso. E também concordo com você: a maior parte tá lá, vendo o JN e tomando como pauta, eu sei…mas também não consigo admitir que a falta de consciência política possa impedir alguém de mostrar sua insatisfação, sabe?! Esse discurso me parece estruturado num preconceito, numa ideia formada, engessada. O mesmo com as milhares de tentativas de desqualificar as manifestações:
          – foto de atores da globo
          – babá negra e patrões brancos
          – entrevista com pessoas que querem até intervenção “alienígena”

          Penso que milhões de pessoas nas ruas, assistindo uma economia que despenca a cada dia – e isso tá muito sério (ao menos aqui onde moro Salvador-BA), enquanto os atores políticos trocam acusações de desvios milionários e a mair otimista medida apresentada pelo governo foi o aumento de incidência tributária…penso que isso não se esconde atrás APENAS desses chacotas listadas aí, nem da falta de consciência política da maioria.

          Leandro, mais uma vez…obrigado pelo seu tempo! Peço desculpas por algum erro, tô escrevendo aqui na correria!

          Grande abraço! Vamos seguindo no papo!