Euforia, choque, nojo, indignação: a conversa de Romero Jucá, divulgada ontem pela Folha de São Paulo (leia aqui), deixou o país inteiro atordoado. Defensores da tese do golpe acreditaram que havia surgido a prova que faltava para confirmar sua teoria. Defensores do impeachment apenas confirmaram as suas suspeitas de que o governo interino é da mesma laia daquele que o substituiu.

Mas, abaixada a poeira, contidos os ânimos mais afoitos, cinco pontos sobressaem claros nessa história toda. Vamos a eles.

1) Quem defendeu o impeachment não é responsável pelo Temer

Algo que tenho observado nas redes sociais são os defensores da teoria do golpe divulgando qualquer erro e sujeira do governo interino de Temer e declarando que são evidências de que o impeachment foi um erro. Mais ainda, apontam o dedo para os defensores do impeachment como se eles fossem os responsáveis. Sem mulheres nas pastas ministeriais? Fim do Ministério da Cultura? Réu da Lava Jato como líder do governo Temer na Câmara? Tudo prova de que o impeachment foi um erro, segundo essa turma. Mais ainda, segundo eles tudo isso é culpa de quem foi às ruas protestar pelo impeachment.

Assisti tudo a isso em silêncio até agora. Mas com a conversa de Romero Jucá, essa narrativa falaciosa chegou a um cúmulo de euforia quase maníaca.

Então deixa eu esclarecer uma coisa.

Não foram os manifestantes defensores do impeachment que fizeram uma coligação partidária com essa cambada de bandidos do PMDB. Nem foram eles que subiram em palanques durante duas campanhas eleitorais ao lado dessas ratazanas do PMDB. Não foram os defensores do impeachment que acolheram como seu sucessor um idiota empolado como o Temer.

Não, quem se coligou com esses bandidos do PMDB, subiu no palanque com essas ratazanas do PMDB e tornou um idiota empolado o seu sucessor foi a Dilma, foi o PT, foi a turma que muitos defendem e que agora muitos tratam como se fossem inocentes vítimas violentadas por criminosos com os quais eles jamais tiveram qualquer relação.

E caso isso ainda não tenha sido compreendido, deixa eu usar de uma metáfora. Deixa eu falar da…

…PARÁBOLA DO BAR FALIDO

Imagine que sou dono de um bar e contrato uma gerente para administrá-lo. Essa gerente, ao ser contratada, apresenta um subgerente para substituí-la e auxiliá-la. Entram inclusive de mãos dadas e erguidas em minha sala!

A gerente e o subgerente que ela apresentou. | Romero Jucá
A gerente e o subgerente que ela apresentou.

Mais tarde, descubro que ambos estão roubando o faturamento num esquema criminoso envolvendo fornecedores. Pior ainda, além do roubo, a gestão da gerente tem sido desastrosa e meu boteco, que antes estava cheio de clientes, agora está vazio e tem má reputação no bairro.

Com a ajuda da polícia, obtenho provas de que a gerente adulterou os registros e os livros contábeis de meu estabelecimento, e assim consigo provas para finalmente demiti-la por justa causa. Aliás, demito a gerente e sua equipe de garçons e garçonetes. Claro, tenho agora que aturar o subgerente, que está roubando por si mesmo junto à sua nova equipe, mas esses eu pretendo pegar assim que conseguir as provas necessárias. O problema é que se eu demitir esse filha da puta neste momento, o meu bar talvez quebre de vez, pois qualquer instabilidade na administração do bar pode fazer com que eu vá à falência e minha família morra de fome. Mas se o subgerente bobear e eu descobrir alguma prova concreta vou colocá-lo no meio da rua, vou mesmo, não importa o que aconteça – enfim, que situação terrível essa em que me coloquei ao contratar os dois!

O problema é que, depois de sua demissão, com toda essa confusão me infernizando, a ex-gerente e sua equipe me procuram e dizem que fiz bobagem, que o subgerente agora está roubando sozinho e está dando provas de que é incompetente. Dizem que ele trocou todas as garçonetes por garçons e extinguiu o desconto que artistas do bairro tinham no bar. A ex-gerente e sua equipe, indignados, dizem que isso é culpa minha, que eu deveria tê-la deixado administrando o bar, e que eu fui um otário que fez cagada ao demiti-la.

Pois bem. Se a gerente tivesse a cara-de-pau de me procurar para dizer essas coisas, eu a expulsaria junto de sua equipe a chutes do meu estabelecimento. Tamanho cinismo é inadmissível: primeiro porque ela e sua equipe que roubaram junto com o subgerente, segundo porque ela era conivente com todo o esquema, terceiro porque foi a incompetência e irregularidade contábil dela que me levou a demiti-la, e quarto foi ela quem sugeriu o subgerente como seu substituto quando a contratei!

FIM DA PARÁBOLA

O Temer pode errar o quanto quiser. O fato é que o governo que está sofrendo o processo de impeachment não foi vítima inocente, derrubada pelos ardilosos bandidos do PMDB. Ele foi cúmplice dos bandidos do PMDB e com o PMDB chegou ao poder. Agora, com a maior desfaçatez do mundo, Dilma e seus militantes tentam vender a narrativa de que são pobres vítimas de maldosos golpistas, e que os defensores do impeachment são os responsáveis pelas mazelas desses malfeitores.

Mas quem foi às manifestações exigir o impeachment não foi para pedir a posse do Temer, esse trapalhão pomposo, um Odorico Paraguaçu gourmetizado. Quem foi às manifestações exigir o impeachment assim o fez para exigir o fim de uma estrutura de poder que se sustentava em quatro pilares nocivos para a democracia: (1) corrupção sistematizada com banqueiros e empreiteiras, (2) captura ideológico-partidária de movimentos ativistas, (3) flerte com governos autoritários em países subdesenvolvidos e (4) entrega da máquina pública em todos os níveis de capilaridade a seus militantes.

Uma quadrilha de bandidos caiu, e outra em algum momento deverá cair, mas alguém que padece de tuberculose e câncer ao mesmo tempo e consegue se livrar do câncer não irá se curar da tuberculose com retorno das células cancerígenas.

2) A operação Lava Jato e Moro não são parte do golpe

Se algo fica claro durante a conversa do ex-Ministro Romero Jucá e de Sérgio Machado, é que todos em Brasília estão com medo do Juiz Sérgio Moro e dos Procuradores da República responsáveis pelas investigações e ações penais da operação. Jucá chamou Moro de “Torre de Londres” durante a conversa, uma alusão ao castelo na Inglaterra em que ocorriam torturas e execuções no século XVI. Machado disse que as investigações da Lava Jato não deixariam “pedra sobre pedra”, ao que Jucá concordou que o caso de Machado “não poderia ficar nas mãos desse [Moro]”.

Isso invalida completamente a teoria de que os procuradores, delegados e juiz responsáveis pela Operação Lava Jato estavam mancomunados com a oposição para executar a queda de Dilma. Essa situação, aliás, é percebida em uma conversa interceptada de Lula, em que ele diz que seu projeto ao tornar-se Chefe da Casa Civil seria propor aos congressistas uma forma de barrar a “República de Curitiba” e salvar o couro de todo mundo, inclusive da oposição. Lula, aliás, é mencionado na conversa de Jucá e Machado, quando Jucá diz que Lula se beneficiaria de seu estratagema, pois também seria poupado de Moro.

O que percebemos é que a operação Lava Jato é algo que pegou todos os políticos de Brasília, independentemente do partido e de serem oposição ou governo, desprevenidos e de calças nas mãos. Estão todos (todos! inclusive PMDB) aterrorizados, pois se as investigações prosseguirem ninguém (ninguém!) se salvará.

Acaba, assim, uma das narrativas do governo Dilma: a de que a Lava Jato foi manipulada pela oposição para, por meio da acusação seletiva, criar o clima para o impeachment. A Lava Jato é um trem desgovernado, do ponto de vista dos políticos de Brasília, que ninguém conseguiu frear até agora.

3) A imprensa não está participando do golpe

Outro aspecto da narrativa daqueles que acreditam em golpe é de que a grande imprensa estaria em conluio com a oposição para proteger PSDB e PMDB ao mesmo tempo em que dedicava suas manchetes a acusações e críticas ao PT.

Ocorre que o jornal que divulgou o furo em uma manchete de enorme visibilidade foi a Folha de São Paulo, um dos veículos de comunicação que estariam incluídos na tal “mídia golpista”. Além disso, nos últimos dias a GloboNews, embora tenha elogiado a composição da equipe econômica, foi cáustica e crítica em relação a equívocos do governo Temer tais como a ausência de mulheres nas pastas ministeriais e a escolha de um acusado da Lava Jato como líder do governo na Câmara dos Deputados.

Folha, essa golpista. |Romero Jucá
Folha, essa golpista.

E no dia em que a Folha de São Paulo divulgou o furo da interceptação da conversa de Jucá, o Jornal Nacional anunciou a história antes de todas as outras em sua chamada inicial, e deu ampla cobertura ao fato, inclusive contraditando a versão apresentada por Jucá. Claro, adeptos da teoria do golpe podem dizer que a Globo assim agiu pois estava sendo alvo de duras críticas e fiscalização popular naquele momento – mas essas pessoas jamais vão dar o braço a torcer.

O fato, porém, é que o escândalo de Romero Jucá não exclui apenas Moro e os Procuradores da Lava Jato da suposta “conspiração do golpe”: a exposição desse escândalo pela Folha de São Paulo exclui ao menos grande parte da suposta “mídia golpista” também.

4) Simplesmente, não há golpe

Ao longo do dia de ontem, os adeptos da teoria do golpe entraram em um estado de euforia descontrolada, que aos poucos foi se arrefecendo à medida em que a ficha caiu. Poeira abaixada, podemos ver claramente tudo sob uma ótica mais lúcida.

Jucá falou em acordo espúrio com ministros do STF, falou em acertamento com os militares, mas é bom lembrar que ele estava tentando dissuadir um acusado da Lava Jato a não propor delação premiada ao Juiz Moro. A falsa promessa de ter influência sobre juízes é algo tão comum e manjado que uma de suas modalidades de prática é até mesmo prevista como crime no Código Penal (artigo 357), e foi exatamente o que Delcídio fez do outro lado, do lado do PT, quando tentou dissuadir outro acusado, Nestor Cerveró, a não fazer sua delação premiada. Então é bom decidir, quem é que controla o STF: o PMDB de Jucá ou o PT de Delcídio?

A verdade deve estar no meio-termo: alguns ministros do STF estão comprometidos com a oposição ao PT, outros estão comprometidos com Dilma e Lula, mas em sua composição global o Supremo é um órgão colegiado no qual ministros são assessorados por vários juízes auxiliares, e toda e qualquer decisão submete-se ao crivo e análise não só de uma numerosa comunidade jurídica, mas também da imprensa. Às vezes, algum interesse político pode predominar, mas dificilmente qualquer partido ou facção política seria capaz de guardar no bolso todos os membros do STF.

O que a conversa de Jucá evidencia é algo que todos já sabíamos: que deputados e senadores estão assustados com as investigações da operação Lava Jato; que deputados e senadores estão surpresos com as manifestações que levaram milhões de brasileiros às ruas (basta lembrar como Aécio foi tratado quando tentou participar); que deputados e senadores tentam de alguma forma aplacar a fúria dos brasileiros que protestaram; que deputados e senadores acreditam que, sacrificando Dilma, aplacarão a revolta dos manifestantes; que deputados e senadores desistiram de ver por parte de Dilma qualquer tentativa eficiente de controlar a operação Lava Jato, e esperam que o PMDB tenha sucesso onde o PT falhou; que deputados e senadores não têm qualquer melhor plano que esse, mas esse plano é falho, pois a imprensa, a população e as autoridades envolvidas com a operação Lava Jato não irão ceder a qualquer forma de pressão.

5) O problema não é o PT, o PMDB ou o PSDB. O problema é o sistema político.

Como Nelson Moraes disse, um momento particularmente triste da conversa de Romero Jucá é quando ele ironiza a esperança do povo brasileiro de ver, após a Lava Jato, uma classe política livre da corrupção. Jucá faz troça e diz “Ah, claro, eles querem acabar com a classe política para ressurgir uma nova, casta, pura”.

Esse sim é um momento importante da conversa. Os políticos do PT são podres, os políticos do PMDB são podres, os políticos do PSDB e de todos os outros partidos também o são. E antes que alguém suspire de saudades da ditadura militar, convém lembrar que naquela época a podridão era pior, pois não havia transparência nem imprensa livre para denunciar escândalos – não haveria sequer possibilidade de você estar lendo este artigo agora.

O problema não está nesse ou naquele partido. O problema está no sistema político atual. Um sistema em que só se elege quem tem dinheiro para financiar grandiosas campanhas de marketing. Um sistema em que um candidato eleito com grande número de votos pode levar consigo para o congresso vários candidatos de sua legenda que sequer foram eleitos diretamente. Um sistema em que o lobby não é regulamentado e não há qualquer transparência nos gastos públicos. Um sistema com trinta mil cargos de confiança, em que a escolha para posições-chave em cargos técnicos é pautada unicamente pelo clientelismo. Um sistema em que não se considera crime eleitoral candidatos utilizarem a palavra de Deus e a religião para seduzir eleitores.

Pior ainda, temos um sistema em que os eleitores não estão preparados para votar conscientemente. Não temos cidadãos no melhor sentido da palavra: eleitores críticos e ciosos de seu compromisso com os princípios da República, eleitores que acompanham o desempenho de seus candidatos eleitos, eleitores capazes de dar uma resposta à toda classe política nas próximas eleições. Olhamos esses escândalos no Congresso e no Planalto e ficamos chocados, mas esse Congresso e esse Planalto (com Dilma ou Temer) é sim o espelho de nossas deficiências enquanto cidadãos.


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escrito por:

Victor Lisboa

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