O Brasil está há tanto tempo atolado na merda que sequer sentimos mais seu fedor. Não percebemos mais a extensão de nossa tragédia.

Duvida? Então vou citar alguns exemplos: rompimento da barragem que mergulhou uma cidade num mar de lama e matou um rio, cratera que se abriu na construção do metrô em São Paulo, propinoduto petista, privataria tucana, queda de uma ciclovia mal planejada com morte de dois ciclistas, colisão de um avião comercial com prédio, morte da mascote das Olimpíadas, estupro de uma adolescente por mais de 30 homens, linchamento de uma desconhecida confundida com o retrato falado de um boato no Facebook, capotagem de um ônibus cheio de estudantes, desmoronamento de prédio residencial por erro de cálculo no projeto, proliferação de um vírus que encolhe a cabeça de recém nascidos… Poderíamos encher uma página inteira com exemplos ilustrativos do quão fundo estamos atolados na merda.

E já é lugar comum dizer que a responsabilidade por tudo isso não é dos políticos ou do subdesenvolvimento econômico, mas nossa, de toda a sociedade brasileira.

E isso, apesar de lugar comum, é a pura verdade. A responsabilidade é nossa.

Mas não é suficiente assumirmos a culpa. O importante agora é entender como e por que isso ocorre. Que características culturais são responsáveis por estarmos na merda? Que traços de caráter transmitimos geração após geração? Que falhas estruturais temos enquanto povo?

Sim, é um assunto difícil, mas precisamos começar a enfrentar tais questões. E a maneira mais adequada e simples de começar é recorrer a alguns dos principais pensadores (que se dedicaram a estudar e explicar as características do povo e da sociedade brasileira.

Claro, as teorias desses cinco pensadores são mais complexas e sofisticadas do que uma breve exposição aqui permite, mas a proposta deste artigo é mais modesta do que tentar apreender a complexidade de suas visões – vamos capturar as pinceladas mais fortes do quadro pintado por cada um deles para tentar vislumbrar um retrato aproximado de nossas deficiências.

1 – O homem cordial de Buarque de Holanda

Em seu livro Raízes do Brasil, o historiador Sérgio Buarque de Holanda dedica o quinto capítulo a apresentar o retrato mais devastador já feito sobre nós, brasileiros: o homem cordial.

Ao contrário do que parece, o “homem cordial” não é um elogio ao brasileiro, mas uma contundente crítica. Para Buarque de Holanda, a “cordialidade” era o mecanismo pelo qual o indivíduo se comporta na sociedade burlando e fugindo dos códigos de conduta da civilidade. Ser cordial, em síntese, é um subterfúgio para não ser civilizado e comprometido com seus deveres perante a sociedade.

A “cordialidade” significava pautar as relações no âmbito social pelo afeto familiar, tanto no sentido positivo (amor, amizade, compadrio) como negativo (ódio visceral, inimizade, perseguição pessoal). Mas, como demonstra Buarque de Holanda, o espaço público não é e nem deve ser o lugar apropriado para esse tipo de relação afetiva, pois a civilidade exige um compromisso do indivíduo pautado pela objetividade e pelo respeito impessoal perante os outros.

Sérgio Buarque de Holanda | 5 teorias que explicam por que o Brasil está na merda

Por aí entendemos que o historiador utilizava o termo “cordial” em seu sentido original: de algo relativo ao coração.

E para ilustrar sua tese, Buarque de Holanda exemplifica com um registro histórico casual: o negociante inglês que se mostrou surpreso quando descobriu que, aqui no Brasil, antes de fazer negócio, precisava primeiro fazer amizade com os comerciantes. Mas isso não passava de um subterfúgio para fugir dos códigos que a civilização impõe: afinal, se um amigo não cumpre um contrato, sempre se espera que o outro amigo seja tolerante e releve sua falta de comprometimento. É o tapinha nas costas que a tudo perdoa, do atraso em reuniões ao inadimplemento de cláusulas contratuais.

Basta lembrarmos do nepotismo no serviço público; das relações promíscuas entre autoridades públicas e empresários; da nossa virulência emocional ao debatermos questões políticas; dos favores e pequenos presentes com que tentamos obter perdão por infrações e facilidades em contratos privados. Tudo isso tem uma só raiz, a nossa suposta “cordialidade”, que usamos como desculpa para não enfrentarmos o árduo e constante exercício de tratar o outro ser humano com equânime civilidade e respeitosa objetividade.

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2 – A ausência de história de Flusser

Quem não conhece sua história está condenado a repeti-la. E se observarmos os contínuos escândalos de corrupção que assolam o Brasil há mais de um século e as repetidas quebras da ordem democrática, perceberemos que algo vai mal em nossa percepção da história.

O filósofo tcheco Vilém Flusser morou tempo suficiente no país para sentenciar em seu livro Fenomenologia do Brasileiro: os brasileiros não têm história nem senso histórico.

Não significa que o brasileiro não tenha interesse na história, mas que o brasileiro pensa “a-historicamente”. Ou seja, falta a nós uma genuína consciência histórica.

É que aqueles que têm consciência histórica enxergam a sua sociedade como um processo de superação que se inicia com uma etapa primitiva, conservam da origem as suas virtualidades e as realiza plenamente no momento presente. O brasileiro, porém, desprovido de senso histórico, não consegue reconhecer qualquer linha de continuidade com o passado e a tradição.

Vilém Flusser | 5 teorias que explicam por que o Brasil está na merda

Assim, o brasileiro enxerga na sociedade uma fotografia instantânea do presente, na qual os traços do passado são interpretados não como tradição, mas como “demonstração da ideologia burguesa alienada” ou qualquer outra etiqueta que impeça o reconhecimento do enlace histórico entre origem e momento atual.

Pela nossa falta de consciência histórica, tendemos a encaixar teorias e ideologias derivadas da consciência histórica de forma forçada e defasada. Assim, como exemplifica Flusser, o marxista brasileiro tenta captar e alterar a situação brasileira para adaptá-las a categorias marxistas, e por isso está condenado ao fracasso. Mas por outro lado a classe dominante também vive em uma realidade continuamente defasada, sendo igualmente incapaz de um pensamento histórico.

Basta lembrarmos do embate ideológico atual entre direita e esquerda para compreendermos o que Flusser diz. No Brasil, por exemplo, parece impensável a existência de uma ideologia política que seja ao mesmo tempo liberal em termos econômicos e liberal em termos de costumes, pois estamos trabalhando com categorias de pensamento e associações já superadas após a Guerra Fria.

3 – Os tristes trópicos de Lévi-Strauss

“Um espírito malicioso definiu a América como uma terra que passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização”: assim o etnólogo francês Claude Lévi-Strauss começa o capítulo intitulado “São Paulo“, de seu ensaio “Tristes Trópicos“, no qual relata sua memorável viagem ao Brasil.

Para Lévi-Strauss, em algum momento de nossa transição entre o Brasil primitivo dos indígenas e o Brasil que se pretende ver reconhecido pela civilização ocidental, perdemos o rumo e alcançamos a decadência da civilização sem conhecer seu ápice. Ninguém saiu ganhando, foi um jogo de dupla perda: o índio foi degradado e o europeu tornou-se um triste mimetizador da Europa.

E a razão para isso talvez esteja na análise fulminante que Lévi-Strauss faz da forma como lidamos com o conhecimento, inclusive com ideologias.

No Brasil, esclarece o etnógrafo, nossa propensão é mais a de consumir ideias do que de produzi-las. Mas não se trata de assimilar conhecimento de fora para trabalhar esse conhecimento de forma aprofundada e sofisticada: nós usamos e exibimos o conhecimento importado como alguém que usa um vestido e o ostenta em uma festa. Assim, quando uma ideia “vira moda”, nós corremos para “vesti-la” de forma que sejamos reconhecidos como iguais pelas outras pessoas de nosso grupo social.

Claude Lévi-Strauss | 5 teorias que explicam por que o Brasil está na merda

Aqui, para Lévi-Straus, a cultura é apenas um “brinquedo para os ricos”, uma espécie de distinção social, e não uma forma de expressar genuinamente a nossa identidade e riqueza coletiva.

Tome-se por exemplo o caso dos acadêmicos brasileiros, conforme ilustra Lévi-Strauss. Em qualquer sociedade, as grandes mentes das universidades representam o alicerce intelectual da nação. Mas no Brasil, o objetivo parecia ser apenas a acumulação de dados (expressão do consumo de ideias), a demonstração pública de enciclopedismo, e não o aprofundamento de formas originais de pensar.

4 – O cretino fundamental de Nelson Rodrigues

E qual é o produto final de uma sociedade que apenas consome a cultura e o conhecimento de forma superficial?

Em uma sociedade na qual a cultura, como dizia Lévi-Strauss, é um brinquedo para os ricos, a reação dos incultos e miseráveis, a sua resposta e retaliação, é a glorificação da ignorância, da falta de cultura. E o escritor e jornalista Nelson Rodrigues cunhou um nome para definir o indivíduo resultante dessa coroação da idiotice: é o cretino fundamental.

Essa figura é importante para entendermos o Brasil pois Nelson profetizava, em meados de 1970, que em algum momento no futuro o cretino fundamental iria vencer por simples vantagem numérica. Seria, ao seu ver, a “rebelião dos cretinos fundamentais”.

Basta lembrarmos de nossos deputados federais e do desfile horrendo de figuras tragicômicas que há no Congresso Nacional. Quem elegeu Tiririca? Quem elegeu Cunha? Quem elegeu Renan Calheiros? O cretino fundamental, que já se tornou maioria.

Nelson Rodrigues | 5 teorias que explicam por que o Brasil está na merda

O cretino fundamental é, pura e simplesmente, o inculto, o imbecil, o ignorante que se orgulha de sua própria ignorância e se movimenta em multidão feito manada. Basta lembrarmos da glorificação do funk carioca até mesmo por parte da intelectualidade brasileira, que nos quer convencer que as favelas não podem mais do que isso (e a excelência do samba e de artistas como Paulinho da Viola demonstra seu potencial criativo).

Esse indivíduo descrito por Nelson é o resultado de uma sociedade que entroniza a vulgaridade, como definida por Contardo Calligaris: ser vulgar é ser preguiçoso demais para pensar por si mesmo e assim delimitar sua individualidade, é deixar-se levar pelo pensamento majoritário e predominante em nossa comunidade, não importa quão obtuso e desastroso esse pensamento seja. É o sujeito que, de tão ignorante, não consegue perceber mesmo aquilo que é mais óbvio.

E seria um sinal de nossa ignorância não percebermos, aqui, o óbvio: tendemos a encarar o cretino fundamental como o “outro brasileiro”, e não nós; tendemos a encarar que o cretino fundamental é aquele brasileiro que discorda de nossas opiniões. Mas devemos, na verdade, nos olhar no espelho e perguntar: o que há de cretino fundamental em mim? Em que aspectos da minha vida eu glorifico a ignorância e a vulgaridade? Em que momentos eu cedo à vulgaridade de aderir cegamente ao pensamento de meu grupo social, seja ele qual for, só porque esse é o caminho mais fácil e que me poupa de pensar por mim mesmo?

5 – A Casa Grande e a Senzala de Freyre

Para Gilberto Freyre, o microcosmo do Brasil colonial criou os dois alicerces que estruturam a sociedade brasileira até hoje. De um lado, a Casa Grande, espaço de um grupo dominante ocioso e explorador, beneficiado pela Coroa e que era adulado e servido pelos servos mais dóceis. De outro, a Senzala, o espaço daqueles que eram explorados e domesticados – ora através do insidioso favorecimento, ora através da brutalidade.

Tratava-se de sociedade escravocrata e latifundiária, na qual o senhor-de-engenho era a figura patriarcal dominante. Mas esse senhor do engenho não era um empreendedor proativo, e sim um sujeito preguiçoso, que permanecia deitado em sua rede, dando ordens e copulando – a sexualização excessiva de nossa sociedade teria origem já ali, na relação promíscua entre senhores e servas.

Gilberto Freyre | 5 teorias que explicam por que o Brasil está na merda

Assim, o ápice do sonho brasileiro de sucesso não é o indivíduo que obtém sucesso graças a seu esforço e empreendedorismo, mas sim o indivíduo que, pelo compadrio, favorecimentos escusos e benefícios de mérito duvidoso, atinge uma posição na qual é poupado de qualquer trabalho, vivendo da exploração do esforço alheio. Qualquer semelhança com nossos políticos corruptos e empresários que corrompem para obter facilmente contratos milionários com o Estado, tem origem na figura do senhor do engenho.

Do outro lado, está a plebe, quem mora na Senzala, e aqui cabe todos aqueles que são de alguma forma explorados hoje em dia, do pequeno empreendedor que paga impostos exorbitantes ao morador das favelas sem saneamento básico, todos os brasileiros estão sendo explorados para sustentar uma classe dominante essencialmente parasitária.

Para Freyre, a dinâmica social brasileira, e que sustenta o equilíbrio entre o explorador e o explorado, entre Casa Grande e Senzala, é a da ausência de antagonismos. E se isso ocorria, no tempo dos grandes latifúndios, por meio da miscigenação, da proximidade sexual entre senhor do engenho e escravas, no brasil contemporâneo ocorre através da constante perspectiva que os explorados têm de receberem benefícios do explorador e, até mesmo, de se tornarem eles próprios exploradores algum dia.

Há um pacto pérfido e jamais verbalizado entre a Casa Grande e a Senzala moderna de que é legítimo aspirar à vida ociosa e baseada na exploração dos demais brasileiros. Assim, a classe dominante não é uma classe estanque, protegida da “miscigenação”: a classe dominante, mais que um grupo de pessoas, é uma lógica que seduz e atrai a todos os brasileiros, do andar de cima e do andar de baixo.

Basta lembrar um exemplo recente: o Partido dos Trabalhadores, que idealmente prometia beneficiar, até pela sua vocação nominal, os trabalhadores, mas que acabou se envolvendo promiscuamente com grandes empreiteiros como Marcelo Odebrecht e latifundiários como José Carlos Bumlai, favorecendo, no final, apenas os atuais senhores do engenho.


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escrito por:

Victor Lisboa

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