Nelson Rodrigues, Buarque de Holanda, Freyre, Flusser e Lévi-Strauss: eles PRECISAM nos ajudar a entender como chegamos ao fundo do poço!

5 teorias que explicam por que o Brasil está na merda

Em Consciência, Filosofia, O MELHOR DO AZ, Política, Sociedade por Victor LisboaComentários

O Bra­sil está há tanto tempo ato­lado na merda que sequer sen­ti­mos mais seu fedor. Não per­ce­be­mos mais a exten­são de nossa tra­gé­dia.

Duvida? Então vou citar alguns exem­plos: rom­pi­mento da bar­ra­gem que mer­gu­lhou uma cidade num mar de lama e matou um rio, cra­tera que se abriu na cons­tru­ção do metrô em São Paulo, pro­pi­no­duto petista, pri­va­ta­ria tucana, queda de uma ciclo­via mal pla­ne­jada com morte de dois ciclis­tas, coli­são de um avião comer­cial com pré­dio, morte da mas­cote das Olim­pía­das, estu­pro de uma ado­les­cente por mais de 30 homens, lin­cha­mento de uma des­co­nhe­cida con­fun­dida com o retrato falado de um boato no Face­book, capo­ta­gem de um ôni­bus cheio de estu­dan­tes, des­mo­ro­na­mento de pré­dio resi­den­cial por erro de cál­culo no pro­jeto, pro­li­fe­ra­ção de um vírus que enco­lhe a cabeça de recém nas­ci­dos… Pode­ría­mos encher uma página inteira com exem­plos ilus­tra­ti­vos do quão fundo esta­mos ato­la­dos na merda.

E já é lugar comum dizer que a res­pon­sa­bi­li­dade por tudo isso não é dos polí­ti­cos ou do sub­de­sen­vol­vi­mento econô­mico, mas nossa, de toda a soci­e­dade bra­si­leira.

E isso, ape­sar de lugar comum, é a pura ver­dade. A res­pon­sa­bi­li­dade é nossa.

Mas não é sufi­ci­ente assu­mir­mos a culpa. O impor­tante agora é enten­der como e por que isso ocorre. Que carac­te­rís­ti­cas cul­tu­rais são res­pon­sá­veis por estar­mos na merda? Que tra­ços de cará­ter trans­mi­ti­mos gera­ção após gera­ção? Que falhas estru­tu­rais temos enquanto povo?

Sim, é um assunto difí­cil, mas pre­ci­sa­mos come­çar a enfren­tar tais ques­tões. E a maneira mais ade­quada e sim­ples de come­çar é recor­rer a alguns dos prin­ci­pais pen­sa­do­res (que se dedi­ca­ram a estu­dar e expli­car as carac­te­rís­ti­cas do povo e da soci­e­dade bra­si­leira.

Claro, as teo­rias des­ses cinco pen­sa­do­res são mais com­ple­xas e sofis­ti­ca­das do que uma breve expo­si­ção aqui per­mite, mas a pro­posta deste artigo é mais modesta do que ten­tar apre­en­der a com­ple­xi­dade de suas visões — vamos cap­tu­rar as pin­ce­la­das mais for­tes do qua­dro pin­tado por cada um deles para ten­tar vis­lum­brar um retrato apro­xi­mado de nos­sas defi­ci­ên­cias.

1 — O homem cordial de Buarque de Holanda

Em seu livro Raí­zes do Bra­sil, o his­to­ri­a­dor Sér­gio Buar­que de Holanda dedica o quinto capí­tulo a apre­sen­tar o retrato mais devas­ta­dor já feito sobre nós, bra­si­lei­ros: o homem cor­dial.

Ao con­trá­rio do que parece, o “homem cor­dial” não é um elo­gio ao bra­si­leiro, mas uma con­tun­dente crí­tica. Para Buar­que de Holanda, a “cor­di­a­li­dade” era o meca­nismo pelo qual o indi­ví­duo se com­porta na soci­e­dade bur­lando e fugindo dos códi­gos de con­duta da civi­li­dade. Ser cor­dial, em sín­tese, é um sub­ter­fú­gio para não ser civi­li­zado e com­pro­me­tido com seus deve­res perante a soci­e­dade.

A “cor­di­a­li­dade” sig­ni­fi­cava pau­tar as rela­ções no âmbito social pelo afeto fami­liar, tanto no sen­tido posi­tivo (amor, ami­zade, com­pa­drio) como nega­tivo (ódio vis­ce­ral, ini­mi­zade, per­se­gui­ção pes­soal). Mas, como demons­tra Buar­que de Holanda, o espaço público não é e nem deve ser o lugar apro­pri­ado para esse tipo de rela­ção afe­tiva, pois a civi­li­dade exige um com­pro­misso do indi­ví­duo pau­tado pela obje­ti­vi­dade e pelo res­peito impes­soal perante os outros.

Sérgio Buarque de Holanda | 5 teorias que explicam por que o Brasil está na merda

Por aí enten­de­mos que o his­to­ri­a­dor uti­li­zava o termo “cor­dial” em seu sen­tido ori­gi­nal: de algo rela­tivo ao cora­ção.

E para ilus­trar sua tese, Buar­que de Holanda exem­pli­fica com um regis­tro his­tó­rico casual: o nego­ci­ante inglês que se mos­trou sur­preso quando des­co­briu que, aqui no Bra­sil, antes de fazer negó­cio, pre­ci­sava pri­meiro fazer ami­zade com os comer­ci­an­tes. Mas isso não pas­sava de um sub­ter­fú­gio para fugir dos códi­gos que a civi­li­za­ção impõe: afi­nal, se um amigo não cum­pre um con­trato, sem­pre se espera que o outro amigo seja tole­rante e releve sua falta de com­pro­me­ti­mento. É o tapi­nha nas cos­tas que a tudo per­doa, do atraso em reu­niões ao ina­dim­ple­mento de cláu­su­las con­tra­tu­ais.

Basta lem­brar­mos do nepo­tismo no ser­viço público; das rela­ções pro­mís­cuas entre auto­ri­da­des públi­cas e empre­sá­rios; da nossa viru­lên­cia emo­ci­o­nal ao deba­ter­mos ques­tões polí­ti­cas; dos favo­res e peque­nos pre­sen­tes com que ten­ta­mos obter per­dão por infra­ções e faci­li­da­des em con­tra­tos pri­va­dos. Tudo isso tem uma só raiz, a nossa suposta “cor­di­a­li­dade”, que usa­mos como des­culpa para não enfren­tar­mos o árduo e cons­tante exer­cí­cio de tra­tar o outro ser humano com equâ­nime civi­li­dade e res­pei­tosa obje­ti­vi­dade.

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2 — A ausência de história de Flusser

Quem não conhece sua his­tó­ria está con­de­nado a repeti-la. E se obser­var­mos os con­tí­nuos escân­da­los de cor­rup­ção que asso­lam o Bra­sil há mais de um século e as repe­ti­das que­bras da ordem demo­crá­tica, per­ce­be­re­mos que algo vai mal em nossa per­cep­ção da his­tó­ria.

O filó­sofo tcheco Vilém Flus­ser morou tempo sufi­ci­ente no país para sen­ten­ciar em seu livro Feno­me­no­lo­gia do Bra­si­leiro: os bra­si­lei­ros não têm his­tó­ria nem senso his­tó­rico.

Não sig­ni­fica que o bra­si­leiro não tenha inte­resse na his­tó­ria, mas que o bra­si­leiro pensa “a-his­to­ri­ca­mente”. Ou seja, falta a nós uma genuína cons­ci­ên­cia his­tó­rica.

É que aque­les que têm cons­ci­ên­cia his­tó­rica enxer­gam a sua soci­e­dade como um pro­cesso de supe­ra­ção que se ini­cia com uma etapa pri­mi­tiva, con­ser­vam da ori­gem as suas vir­tu­a­li­da­des e as rea­liza ple­na­mente no momento pre­sente. O bra­si­leiro, porém, des­pro­vido de senso his­tó­rico, não con­se­gue reco­nhe­cer qual­quer linha de con­ti­nui­dade com o pas­sado e a tra­di­ção.

Vilém Flusser | 5 teorias que explicam por que o Brasil está na merda

Assim, o bra­si­leiro enxerga na soci­e­dade uma foto­gra­fia ins­tan­tâ­nea do pre­sente, na qual os tra­ços do pas­sado são inter­pre­ta­dos não como tra­di­ção, mas como “demons­tra­ção da ide­o­lo­gia bur­guesa ali­e­nada” ou qual­quer outra eti­queta que impeça o reco­nhe­ci­mento do enlace his­tó­rico entre ori­gem e momento atual.

Pela nossa falta de cons­ci­ên­cia his­tó­rica, ten­de­mos a encai­xar teo­rias e ide­o­lo­gias deri­va­das da cons­ci­ên­cia his­tó­rica de forma for­çada e defa­sada. Assim, como exem­pli­fica Flus­ser, o mar­xista bra­si­leiro tenta cap­tar e alte­rar a situ­a­ção bra­si­leira para adaptá-las a cate­go­rias mar­xis­tas, e por isso está con­de­nado ao fra­casso. Mas por outro lado a classe domi­nante tam­bém vive em uma rea­li­dade con­ti­nu­a­mente defa­sada, sendo igual­mente inca­paz de um pen­sa­mento his­tó­rico.

Basta lem­brar­mos do embate ide­o­ló­gico atual entre direita e esquerda para com­pre­en­der­mos o que Flus­ser diz. No Bra­sil, por exem­plo, parece impen­sá­vel a exis­tên­cia de uma ide­o­lo­gia polí­tica que seja ao mesmo tempo libe­ral em ter­mos econô­mi­cos e libe­ral em ter­mos de cos­tu­mes, pois esta­mos tra­ba­lhando com cate­go­rias de pen­sa­mento e asso­ci­a­ções já supe­ra­das após a Guerra Fria.

3 — Os tristes trópicos de Lévi-Strauss

Um espí­rito mali­ci­oso defi­niu a Amé­rica como uma terra que pas­sou da bar­bá­rie à deca­dên­cia sem conhe­cer a civi­li­za­ção”: assim o etnó­logo fran­cês Claude Lévi-Strauss começa o capí­tulo inti­tu­lado “São Paulo”, de seu ensaio “Tris­tes Tró­pi­cos”, no qual relata sua memo­rá­vel via­gem ao Bra­sil.

Para Lévi-Strauss, em algum momento de nossa tran­si­ção entre o Bra­sil pri­mi­tivo dos indí­ge­nas e o Bra­sil que se pre­tende ver reco­nhe­cido pela civi­li­za­ção oci­den­tal, per­de­mos o rumo e alcan­ça­mos a deca­dên­cia da civi­li­za­ção sem conhe­cer seu ápice. Nin­guém saiu ganhando, foi um jogo de dupla perda: o índio foi degra­dado e o euro­peu tor­nou-se um triste mime­ti­za­dor da Europa.

E a razão para isso tal­vez esteja na aná­lise ful­mi­nante que Lévi-Strauss faz da forma como lida­mos com o conhe­ci­mento, inclu­sive com ide­o­lo­gias.

No Bra­sil, escla­rece o etnó­grafo, nossa pro­pen­são é mais a de con­su­mir ideias do que de pro­duzi-las. Mas não se trata de assi­mi­lar conhe­ci­mento de fora para tra­ba­lhar esse conhe­ci­mento de forma apro­fun­dada e sofis­ti­cada: nós usa­mos e exi­bi­mos o conhe­ci­mento impor­tado como alguém que usa um ves­tido e o ostenta em uma festa. Assim, quando uma ideia “vira moda”, nós cor­re­mos para “vesti-la” de forma que seja­mos reco­nhe­ci­dos como iguais pelas outras pes­soas de nosso grupo social.

Claude Lévi-Strauss | 5 teorias que explicam por que o Brasil está na merda

Aqui, para Lévi-Straus, a cul­tura é ape­nas um “brin­quedo para os ricos”, uma espé­cie de dis­tin­ção social, e não uma forma de expres­sar genui­na­mente a nossa iden­ti­dade e riqueza cole­tiva.

Tome-se por exem­plo o caso dos aca­dê­mi­cos bra­si­lei­ros, con­forme ilus­tra Lévi-Strauss. Em qual­quer soci­e­dade, as gran­des men­tes das uni­ver­si­da­des repre­sen­tam o ali­cerce inte­lec­tual da nação. Mas no Bra­sil, o obje­tivo pare­cia ser ape­nas a acu­mu­la­ção de dados (expres­são do con­sumo de ideias), a demons­tra­ção pública de enci­clo­pe­dismo, e não o apro­fun­da­mento de for­mas ori­gi­nais de pen­sar.

4 — O cretino fundamental de Nelson Rodrigues

E qual é o pro­duto final de uma soci­e­dade que ape­nas con­some a cul­tura e o conhe­ci­mento de forma super­fi­cial?

Em uma soci­e­dade na qual a cul­tura, como dizia Lévi-Strauss, é um brin­quedo para os ricos, a rea­ção dos incul­tos e mise­rá­veis, a sua res­posta e reta­li­a­ção, é a glo­ri­fi­ca­ção da igno­rân­cia, da falta de cul­tura. E o escri­tor e jor­na­lista Nel­son Rodri­gues cunhou um nome para defi­nir o indi­ví­duo resul­tante dessa coro­a­ção da idi­o­tice: é o cre­tino fun­da­men­tal.

Essa figura é impor­tante para enten­der­mos o Bra­sil pois Nel­son pro­fe­ti­zava, em mea­dos de 1970, que em algum momento no futuro o cre­tino fun­da­men­tal iria ven­cer por sim­ples van­ta­gem numé­rica. Seria, ao seu ver, a “rebe­lião dos cre­ti­nos fun­da­men­tais”.

Basta lem­brar­mos de nos­sos depu­ta­dos fede­rais e do des­file hor­rendo de figu­ras tra­gicô­mi­cas que há no Con­gresso Naci­o­nal. Quem ele­geu Tiri­rica? Quem ele­geu Cunha? Quem ele­geu Renan Calhei­ros? O cre­tino fun­da­men­tal, que já se tor­nou mai­o­ria.

Nelson Rodrigues | 5 teorias que explicam por que o Brasil está na merda

O cre­tino fun­da­men­tal é, pura e sim­ples­mente, o inculto, o imbe­cil, o igno­rante que se orgu­lha de sua pró­pria igno­rân­cia e se movi­menta em mul­ti­dão feito manada. Basta lem­brar­mos da glo­ri­fi­ca­ção do funk cari­oca até mesmo por parte da inte­lec­tu­a­li­dade bra­si­leira, que nos quer con­ven­cer que as fave­las não podem mais do que isso (e a exce­lên­cia do samba e de artis­tas como Pau­li­nho da Viola demons­tra seu poten­cial cri­a­tivo).

Esse indi­ví­duo des­crito por Nel­son é o resul­tado de uma soci­e­dade que entro­niza a vul­ga­ri­dade, como defi­nida por Con­tardo Cal­li­ga­ris: ser vul­gar é ser pre­gui­çoso demais para pen­sar por si mesmo e assim deli­mi­tar sua indi­vi­du­a­li­dade, é dei­xar-se levar pelo pen­sa­mento majo­ri­tá­rio e pre­do­mi­nante em nossa comu­ni­dade, não importa quão obtuso e desas­troso esse pen­sa­mento seja. É o sujeito que, de tão igno­rante, não con­se­gue per­ce­ber mesmo aquilo que é mais óbvio.

E seria um sinal de nossa igno­rân­cia não per­ce­ber­mos, aqui, o óbvio: ten­de­mos a enca­rar o cre­tino fun­da­men­tal como o “outro bra­si­leiro”, e não nós; ten­de­mos a enca­rar que o cre­tino fun­da­men­tal é aquele bra­si­leiro que dis­corda de nos­sas opi­niões. Mas deve­mos, na ver­dade, nos olhar no espe­lho e per­gun­tar: o que há de cre­tino fun­da­men­tal em mim? Em que aspec­tos da minha vida eu glo­ri­fico a igno­rân­cia e a vul­ga­ri­dade? Em que momen­tos eu cedo à vul­ga­ri­dade de ade­rir cega­mente ao pen­sa­mento de meu grupo social, seja ele qual for, só por­que esse é o cami­nho mais fácil e que me poupa de pen­sar por mim mesmo?

5 — A Casa Grande e a Senzala de Freyre

Para Gil­berto Freyre, o micro­cosmo do Bra­sil colo­nial criou os dois ali­cer­ces que estru­tu­ram a soci­e­dade bra­si­leira até hoje. De um lado, a Casa Grande, espaço de um grupo domi­nante oci­oso e explo­ra­dor, bene­fi­ci­ado pela Coroa e que era adu­lado e ser­vido pelos ser­vos mais dóceis. De outro, a Sen­zala, o espaço daque­les que eram explo­ra­dos e domes­ti­ca­dos — ora atra­vés do insi­di­oso favo­re­ci­mento, ora atra­vés da bru­ta­li­dade.

Tra­tava-se de soci­e­dade escra­vo­crata e lati­fun­diá­ria, na qual o senhor-de-enge­nho era a figura patri­ar­cal domi­nante. Mas esse senhor do enge­nho não era um empre­en­de­dor pro­a­tivo, e sim um sujeito pre­gui­çoso, que per­ma­ne­cia dei­tado em sua rede, dando ordens e copu­lando — a sexu­a­li­za­ção exces­siva de nossa soci­e­dade teria ori­gem já ali, na rela­ção pro­mís­cua entre senho­res e ser­vas.

Gilberto Freyre | 5 teorias que explicam por que o Brasil está na merda

Assim, o ápice do sonho bra­si­leiro de sucesso não é o indi­ví­duo que obtém sucesso gra­ças a seu esforço e empre­en­de­do­rismo, mas sim o indi­ví­duo que, pelo com­pa­drio, favo­re­ci­men­tos escu­sos e bene­fí­cios de mérito duvi­doso, atinge uma posi­ção na qual é pou­pado de qual­quer tra­ba­lho, vivendo da explo­ra­ção do esforço alheio. Qual­quer seme­lhança com nos­sos polí­ti­cos cor­rup­tos e empre­sá­rios que cor­rom­pem para obter facil­mente con­tra­tos mili­o­ná­rios com o Estado, tem ori­gem na figura do senhor do enge­nho.

Do outro lado, está a plebe, quem mora na Sen­zala, e aqui cabe todos aque­les que são de alguma forma explo­ra­dos hoje em dia, do pequeno empre­en­de­dor que paga impos­tos exor­bi­tan­tes ao mora­dor das fave­las sem sane­a­mento básico, todos os bra­si­lei­ros estão sendo explo­ra­dos para sus­ten­tar uma classe domi­nante essen­ci­al­mente para­si­tá­ria.

Para Freyre, a dinâ­mica social bra­si­leira, e que sus­tenta o equi­lí­brio entre o explo­ra­dor e o explo­rado, entre Casa Grande e Sen­zala, é a da ausên­cia de anta­go­nis­mos. E se isso ocor­ria, no tempo dos gran­des lati­fún­dios, por meio da mis­ci­ge­na­ção, da pro­xi­mi­dade sexual entre senhor do enge­nho e escra­vas, no bra­sil con­tem­po­râ­neo ocorre atra­vés da cons­tante pers­pec­tiva que os explo­ra­dos têm de rece­be­rem bene­fí­cios do explo­ra­dor e, até mesmo, de se tor­na­rem eles pró­prios explo­ra­do­res algum dia.

Há um pacto pér­fido e jamais ver­ba­li­zado entre a Casa Grande e a Sen­zala moderna de que é legí­timo aspi­rar à vida oci­osa e base­ada na explo­ra­ção dos demais bra­si­lei­ros. Assim, a classe domi­nante não é uma classe estan­que, pro­te­gida da “mis­ci­ge­na­ção”: a classe domi­nante, mais que um grupo de pes­soas, é uma lógica que seduz e atrai a todos os bra­si­lei­ros, do andar de cima e do andar de baixo.

Basta lem­brar um exem­plo recente: o Par­tido dos Tra­ba­lha­do­res, que ide­al­mente pro­me­tia bene­fi­ciar, até pela sua voca­ção nomi­nal, os tra­ba­lha­do­res, mas que aca­bou se envol­vendo pro­mis­cu­a­mente com gran­des emprei­tei­ros como Mar­celo Ode­bre­cht e lati­fun­diá­rios como José Car­los Bum­lai, favo­re­cendo, no final, ape­nas os atu­ais senho­res do enge­nho.


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Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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