Minha impressão é que favoráveis e contrários às ocupações de escolas estão em uma briga de foice no escuro. Isso é comum na política, mas neste caso é ainda mais desnecessário. Afinal, não somos todos a favor de uma educação melhor em nosso país?

Não queremos todos melhores escolas, principalmente para os mais pobres (os ricos já têm a opção de ótimas escolas particulares), e jovens mais engajados politicamente, lutando pela educação?

Reclamamos do jovem desinteressado em aprender, desinteressado na escola, na educação, em seu país, mas tentamos punir quando ele decide ir à luta?

Muita calma nessa hora. Não estou dizendo que concordo com eles que a reforma do ensino médio seja tão ruim ou que a PEC 241 seja um ataque à educação.

Estou dizendo que todos nós queremos educação melhor em nosso país, sempre quisemos que os jovens lutassem mais por isso e agora, ao menos na cabeça deles, eles estão fazendo isso. Se há um erro aqui é a falta de diálogo.

Os estudantes e demais que apoiam a ocupação precisam ouvir as dúvidas e críticas de quem discorda da ocupação e respondê-las.

Estas pessoas não são os políticos aliados de Temer ou os aristocratas de monóculos, mas os pais destes alunos, vários colegas destes alunos, o funcionário da farmácia, o dono da padaria, seu tio, sua avó, sua sobrinha, seu psicólogo.

Pessoas. Iguais a vocês.

E eles têm perguntas que eu, ao menos, não estou vendo respondidas. Que tal alguém fazer uma postagem esclarecendo estas dúvidas, ou um vídeo, ou uma imagem?

Acho que existem QUATRO perguntas principais, que parecem se repetir no discurso dos contrários às ocupações e que precisam ser respondidas (e não estou dizendo que elas não têm resposta, sequer que não têm boas respostas):

 

Perguntas para pensar as ocupações de escolas

1.

Existe algum fundamento LEGAL que dê suporte ao fato de um grupo de alunos poder decidir ocupar sua escola/universidade e impedir seu funcionamento normal?

 

2.

Saindo da esfera legal e indo para a esfera moral: é JUSTO que um grupo de alunos que se opõem a X possa impedir alunos que NÃO se opõem a X (podem ser até favoráveis a X, mas também indiferentes) de ter aulas e continuar sua vida estudantil para pressionar o Estado contra X?

Se, por exemplo, alunos que apoiam o Bolsonaro decidirem fazer o mesmo, ocupando e parando as aulas em escolas e universidades em protesto à lei que exige que transgêneros sejam chamados pelo seu nome social nas escolas e universidades, também será justo?

 

3.

Há fundamento legal que permita aos estudantes de escolas/universidades públicas impedir a entrada de outras pessoas?

No caso de secundaristas, por se tratar de menores de idade, ao menos os pais ou responsáveis legais não deveriam ter acesso?

 

4.

Por que não está havendo um debate sobre a PEC e a reforma do ensino médio nestas escolas e universidades?

Estou falando de DEBATE, onde há a apresentação de perspectivas conflitantes sobre o mesmo tema, não diferentes pessoas que pensam igual pregando aos estudantes.

Já que alegam estar aprendendo mais do que nunca sobre política e economia ali, por que NENHUMA pessoa que defende a PEC e a reforma foi convidada para apresentar seus argumentos?

Por mais convictos que estejam de sua posição, há de se convir que ela está longe de ser consensual e que existem pessoas inteligentes e honestas que pensam diferente – que acreditam sinceramente que as medidas às quais os estudantes se opõem seriam boas para a educação e para o país.

Por que não ouvir o outro lado ou ao menos chamá-lo para o debate?


Enfim, acho que é isso. Espero que alguma das centenas de pessoas que apoiam ativamente as ocupações disponha-se a responder estas questões.

Com isso, favoráveis às ocupações terão respostas acerca da legitimidade das ocupações e as discordâncias terão de se focar em interpretações diferentes acerca da MP e da PEC – e só idiotas argumentariam que as ocupações só seriam legítimas se levantassem bandeiras que eles também levantam.

Penso que se estas questões não forem respondidas de maneira racional e convincente, pessoas opostas às ocupações continuarão com a forte impressão de que não se trata de um movimento que luta pela educação – ou que, se luta, está utilizando estratégias lamentáveis para isso. Continuará a briga de foice no escuro.


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Precisamos reinventar a educação
A lição por trás da ocupação de escolas

Pedro Sampaio
Psicólogo, psicoterapeuta, professor universitário, hiperativo e insone. É casado com a Psicologia, mas tem dificuldades com a monogamia intelectual, dando frequentes puladas de cerca com a Música, Filosofia, Ciência, Literatura, Cinema e Política. Cético, acredita no debate baseado em evidências, na racionalidade e na honestidade intelectual para qualquer área, mas chora até em propaganda de margarina.
  • Fábio Peres

    Eu mudaria um pouco o escopo dessas discussões: quem perde, a longo prazo, com a escola ocupada? O governo ou os alunos, que estão com um semestre correndo e precisam do conteúdo para passar no ENEM, ou se formar, ou encerrar o ciclo no ensino médio?

  • Isabella Passos

    Penso que a pergunta mais importante diga respeito a identidade e fim de uma escola. Posso protestar de forma até mais eficaz e eficiente em outros lugares da cidade, mas estudar não. Estudar é somente na escola e sua identidade se firma somente por este processo.

  • Igor Souza

    Caralho, eu amo vocês da Ano Zero, sempre com bons argumentos e criando textos relacionados a atualidade. Eu estava conversando com minha progenitora ontem sobre esse assunto, e chegamos nas mesmas conclusões, sendo que esse texto iluminou ainda mais minha mente. Muito grato pela existência de vocês!

    • Fala Igor! Obrigado por acompanhar o nosso trabalho. Abraço!

  • Ladanir Millack

    Considero o seguinte: 1- Quando se editou a medida provisória com a reforma do ensino médio, que foi a causa primeira das ocupações, os interessados não foram chamados a opinar, não se ouviu estudantes, professores ou especialistas, por isso Medida Provisória (sem discussão ampla). 2- O exemplo dado sobre os transgêneros, penso que não foi muito feliz, já que é um grupo severamente reprimido pela sociedade e qualquer atitude contrária a seus direitos feriria a Lei dos Direitos Humanos. 3- Os pais e responsáveis legais estão tendo acesso às ocupações, pais se revezam para dormir nas escolas e fazem até almoço, professores entram e monitoram, tanto que não há sujeira ou pichações, até muros foram pintados em algumas escolas. Há a assistência de advogados pais de alunos. Algumas pessoas estão sim sendo impedidas de entrar, são pessoas estranhas ao movimento e muitas têm intenção apenas de conturbar e confundir. 4- Por fim, numa sociedade democrática, há assembleias para se decidir algo e quem participa decide por quem não quis se envolver ou foi voto vencido. Aqui em Curitiba, o prefeito foi eleito com apenas 35% dos votos dos eleitores, isso não quer dizer que os 65% que não votaram nele devam esperá-lo assumir para depois arrancá-lo do poder. 5- Para terminar, nem tudo o que se fundamenta na lei é justo ou moral, a política nos dá exemplos diários disso. E ainda não sei se a estratégia das ocupações é a melhor, mas foi o que se apresentou a eles no momento, talvez.

  • Herbert Lopes

    Minha filha estuda na UnB, me contou que foram expulsos à força por uma minoria barulhenta, e que fizeram uma votação manipulada onde qualquer um que opinasse diferente dos esquerdistas era vaiado, achincalhado e até agredido. Então… é DESSA democracia que se está falando ? Cercear o direito dos alunos que querem estudar é um absurdo completo! Se queriam se manifestar, havia zilhões de lugares e oportunidades, sem prejudicar os alunos. Isso não passa de arruaça e vandalismo!