Escola ocupada por jovens secundaristas | 4 perguntas para pensar as ocupações de escolas

4 perguntas para pensar as ocupações de escolas

Em Consciência, Política, Sociedade por Pedro SampaioComentários

Minha impres­são é que favo­rá­veis e con­trá­rios às ocu­pa­ções de esco­las estão em uma briga de foice no escuro. Isso é comum na polí­tica, mas neste caso é ainda mais des­ne­ces­sá­rio. Afi­nal, não somos todos a favor de uma edu­ca­ção melhor em nosso país?

Não que­re­mos todos melho­res esco­las, prin­ci­pal­mente para os mais pobres (os ricos já têm a opção de óti­mas esco­las par­ti­cu­la­res), e jovens mais enga­ja­dos poli­ti­ca­mente, lutando pela edu­ca­ção?

Recla­ma­mos do jovem desin­te­res­sado em apren­der, desin­te­res­sado na escola, na edu­ca­ção, em seu país, mas ten­ta­mos punir quando ele decide ir à luta?

Muita calma nessa hora. Não estou dizendo que con­cordo com eles que a reforma do ensino médio seja tão ruim ou que a PEC 241 seja um ata­que à edu­ca­ção.

Estou dizendo que todos nós que­re­mos edu­ca­ção melhor em nosso país, sem­pre qui­se­mos que os jovens lutas­sem mais por isso e agora, ao menos na cabeça deles, eles estão fazendo isso. Se há um erro aqui é a falta de diá­logo.

Os estu­dan­tes e demais que apoiam a ocu­pa­ção pre­ci­sam ouvir as dúvi­das e crí­ti­cas de quem dis­corda da ocu­pa­ção e res­pondê-las.

Estas pes­soas não são os polí­ti­cos ali­a­dos de Temer ou os aris­to­cra­tas de monó­cu­los, mas os pais des­tes alu­nos, vários cole­gas des­tes alu­nos, o fun­ci­o­ná­rio da far­má­cia, o dono da pada­ria, seu tio, sua avó, sua sobri­nha, seu psi­có­logo.

Pes­soas. Iguais a vocês.

E eles têm per­gun­tas que eu, ao menos, não estou vendo res­pon­di­das. Que tal alguém fazer uma pos­ta­gem escla­re­cendo estas dúvi­das, ou um vídeo, ou uma ima­gem?

Acho que exis­tem QUATRO per­gun­tas prin­ci­pais, que pare­cem se repe­tir no dis­curso dos con­trá­rios às ocu­pa­ções e que pre­ci­sam ser res­pon­di­das (e não estou dizendo que elas não têm res­posta, sequer que não têm boas res­pos­tas):

 

Perguntas para pensar as ocupações de escolas

1.

Existe algum fun­da­mento LEGAL que dê suporte ao fato de um grupo de alu­nos poder deci­dir ocu­par sua escola/universidade e impe­dir seu fun­ci­o­na­mento nor­mal?

 

2.

Saindo da esfera legal e indo para a esfera moral: é JUSTO que um grupo de alu­nos que se opõem a X possa impe­dir alu­nos que NÃO se opõem a X (podem ser até favo­rá­veis a X, mas tam­bém indi­fe­ren­tes) de ter aulas e con­ti­nuar sua vida estu­dan­til para pres­si­o­nar o Estado con­tra X?

Se, por exem­plo, alu­nos que apoiam o Bol­so­naro deci­di­rem fazer o mesmo, ocu­pando e parando as aulas em esco­las e uni­ver­si­da­des em pro­testo à lei que exige que trans­gê­ne­ros sejam cha­ma­dos pelo seu nome social nas esco­las e uni­ver­si­da­des, tam­bém será justo?

 

3.

Há fun­da­mento legal que per­mita aos estu­dan­tes de escolas/universidades públi­cas impe­dir a entrada de outras pes­soas?

No caso de secun­da­ris­tas, por se tra­tar de meno­res de idade, ao menos os pais ou res­pon­sá­veis legais não deve­riam ter acesso?

 

4.

Por que não está havendo um debate sobre a PEC e a reforma do ensino médio nes­tas esco­las e uni­ver­si­da­des?

Estou falando de DEBATE, onde há a apre­sen­ta­ção de pers­pec­ti­vas con­fli­tan­tes sobre o mesmo tema, não dife­ren­tes pes­soas que pen­sam igual pre­gando aos estu­dan­tes.

Já que ale­gam estar apren­dendo mais do que nunca sobre polí­tica e eco­no­mia ali, por que NENHUMA pes­soa que defende a PEC e a reforma foi con­vi­dada para apre­sen­tar seus argu­men­tos?

Por mais con­vic­tos que este­jam de sua posi­ção, há de se con­vir que ela está longe de ser con­sen­sual e que exis­tem pes­soas inte­li­gen­tes e hones­tas que pen­sam dife­rente – que acre­di­tam sin­ce­ra­mente que as medi­das às quais os estu­dan­tes se opõem seriam boas para a edu­ca­ção e para o país.

Por que não ouvir o outro lado ou ao menos chamá-lo para o debate?


Enfim, acho que é isso. Espero que alguma das cen­te­nas de pes­soas que apoiam ati­va­mente as ocu­pa­ções dis­po­nha-se a res­pon­der estas ques­tões.

Com isso, favo­rá­veis às ocu­pa­ções terão res­pos­tas acerca da legi­ti­mi­dade das ocu­pa­ções e as dis­cor­dân­cias terão de se focar em inter­pre­ta­ções dife­ren­tes acerca da MP e da PEC – e só idi­o­tas argu­men­ta­riam que as ocu­pa­ções só seriam legí­ti­mas se levan­tas­sem ban­dei­ras que eles tam­bém levan­tam.

Penso que se estas ques­tões não forem res­pon­di­das de maneira raci­o­nal e con­vin­cente, pes­soas opos­tas às ocu­pa­ções con­ti­nu­a­rão com a forte impres­são de que não se trata de um movi­mento que luta pela edu­ca­ção – ou que, se luta, está uti­li­zando estra­té­gias lamen­tá­veis para isso. Con­ti­nu­ará a briga de foice no escuro.


Cola­bore com a con­ti­nui­dade de Ano Zero aqui.


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A lição por trás da ocu­pa­ção de esco­las

Pedro Sampaio
Psicólogo, psicoterapeuta, professor universitário, hiperativo e insone. É casado com a Psicologia, mas tem dificuldades com a monogamia intelectual, dando frequentes puladas de cerca com a Música, Filosofia, Ciência, Literatura, Cinema e Política. Cético, acredita no debate baseado em evidências, na racionalidade e na honestidade intelectual para qualquer área, mas chora até em propaganda de margarina.

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