Um pedido: antes de passar os olhos pelo texto e tirar alguma conclusão a partir de seu título e subtítulos, dê-se ao trabalho de ler. Ninguém precisa fazer juízo instantâneo sobre nada, ainda mais sobre questões fundamentais para a sociedade.

Falácia 1: A luta é contra a direita

João Santana é um marqueteiro sem paixões partidárias. O que é muito justo – afinal, um profissional deve tratar sua profissão com objetividade. Contratado para coordenar o marketing do PT nas eleições presidenciais, ao longo dos anos João Santana ensinou ao partido muitas técnicas e truques de manipulação da opinião pública.

Mas o mais importante dos truques, possivelmente, é criar falsas divisões da sociedade, atribuindo falaciosamente a um inimigo tudo aquilo que o partido deseja que seus eleitores e militantes tratem com aversão.

É uma técnica que simplifica a complexidade dos fatos (o que no fundo é sempre atrativa para o público em geral) e estabelece uma lógica maniqueísta na qual, do outro lado, está um abominável inimigo (algo que corresponde à nossa herança católica de demonização do outro e ao nosso coração de torcedores apaixonados por um time de futebol).

Por exemplo, o PT tentou associar o processo de impeachment, inicialmente, à detestável figura de Cunha. Na simplificação, tratava-se de Cunha versus Dilma. Esqueceu-se completamente o jurista Miguel Reale Jr. e Hélio Bicudo, um dos fundadores do PT, ambos signatários do pedido de Impeachment. Nessa lógica, já atualmente ultrapassada, se você fosse a favor do Impeachment, então era torcedor e amigo do Cunha. Difícil para qualquer pessoa em sã consciência, nesse caso, ser a favor do impeachment.

Agora, a grande falácia criada é a seguinte: a defesa da Lava Jato e o desejo de punir criminosos e governantes é uma batalha da direita.

Seguindo nessa lógica, se você é da esquerda, precisa necessariamente ser contra a Lava Jato. Se você é a favor da justiça social, da distribuição de renda, da luta pelos direitos das minorias, do fim dos privilégios da elite, da luta contra preconceitos, do meio ambiente e de tantas outras causas importantes e legítimas, tradicionalmente associadas no Brasil à esquerda, então precisa defender Dilma, precisa defender Lula. Custe o que custar.

A Falácia 1 explicada, porque né? Tem vários pressupostos equivocados no raciocínio acima, os principais em vermelho. Mas não vou me deter em cada um deles porque né? falácias
A Falácia 1 explicada bem basicamente. Há vários pressupostos equivocados no raciocínio acima, dois dos principais em vermelho, mas não vou me deter em cada um deles.

É uma tremenda cilada, armada por pessoas bem habilidosas na manipulação da opinião pública. E, não é de se surpreender, muita gente inteligente e bem intencionada tem caído nela como patinhos.

É que essa falácia funciona muito bem por uma simples razão: entre aqueles que apoiam a Lava Jato estão sim alguns dos piores elementos da direita brasileira, estão sim imbecis reacionários que defendem intervenção militar. E aí é muito fácil começar a campanha nas redes sociais, publicando imagens desses idiotas durante as manifestações a fim de reforçar no imaginário coletivo de todos que simpatizam com a esquerda que apoiar a Lava Jato é, obrigatoriamente, apoiar a direita.

Isso funciona muito bem em estados como São Paulo, onde há uma forte rejeição por parte da população mais jovem ao PSDB (que, ao menos do ponto de vista programático em que se autodenomina “social-democrata”, não é um partido de direita, mas de centro esquerda), inclusive por ser desse partido um dos piores governadores dos últimos anos, Geraldo Alckmin.

Mas a verdade é a seguinte: às vezes pessoas de mau caráter podem ter total razão. Isso pode surpreender e deixar escandalizado alguém que politicamente está no jardim da infância, mas para qualquer adulto que observa a história é um fato evidente.

Sim. Esse. Maldito. Idiota. E esses aí ao seu redor, que não vou adjetivar para não ser processado: infelizmente a matemática indica que 1 vez a cada mil eles tem razão. Eu preferia que estivessem sempre 100% errados. Não seria perfeito e fácil um mundo assim? falácias
Sim. ESSE MALDITO IMBECIL e esses aí ao seu redor, que não vou adjetivar para não ser processado: infelizmente, a estatística indica que 1 vez a cada 1 milhão eles têm razão em alguma coisa. Eu preferia que estivessem sempre 100% errados. Aí até usaria um deles como conselheiro pessoal e sempre faria o contrário do que dissesse. Não seria perfeito e fácil um mundo assim?

Nós, brasileiros, odiamos a ambiguidade do mundo real, no qual muitas vezes alguém cujas opiniões e estilo de vida detestamos pode, em certos assuntos, ter completa razão e, pior ainda, ter a mesma opinião que a nossa. Fugimos instintivamente da complexidade da realidade, onde nem tudo é preto e branco, nós contra eles, bons contra maus, flamengo contra fluminense, mocinho da novela contra vilão, e somos fáceis vítimas de narrativas elaboradas por oportunistas para simplificar as coisas e nos manter afastados dos desconfortos de uma vida repleta de nuances e ambivalências constrangedoras.

Veja meu caso, por exemplo. Eu, pessoalmente, antipatizo com o Constantino, abomino o Bolsonaro, detesto o Aécio, tenho uma inexplicável aversão pelo Alckmin, rio do Olavo de Carvalho e me envergonho por ter entre meus compatriotas gente que defende a ditadura militar. Mas tenho uma raiva ainda maior desse pessoal corrupto que se tornou um câncer dentro do Governo Federal e que me obrigou com seus delitos a, por certo período de tempo, ficar do lado desses sacripantas da pior qualidade, esperando por mudanças e efetiva punição de todos os responsáveis, principalmente de governantes que foram complacentes com as maracutaias por anos.

A luta pela punição de todos os responsáveis pelos escândalos de corrupção descobertos pela Lava Jato, inclusive por governantes que faziam vistas grossas a um propinoduto de bilhões de dólares, não é uma luta da direita, não é uma luta do PSDB. É uma luta da cidadania, em prol do espírito republicano. Se há mais direitistas e eleitores do PSDB nas manifestações, é porque nessa história o destino os poupou de ter que enfrentar a ambiguidade do mundo real, já que nesse caso os fatos acabaram se ajustando a suas pressuposições e expectativas íntimas. Em termos de “economia de esforços”, para eles é só questão de seguir o fluxo de seus próprios preconceitos, sem despender esforço para reformular certas opiniões sobre as evidências do mundo real. Às vezes isso acontece. Mas, na verdade, essa deveria ser uma luta muito mais da esquerda do que da direita, e inclusive dos próprios petistas, como veremos na Falácia 4. Basta a coragem de enfrentar as dissonâncias cognitivas que a realidade às vezes nos impõe.

Falácia 2: O que parece bonito e coerente necessariamente é verdade

A Falácia 1 não funciona sozinha. Após criá-la, é preciso elaborar uma justificativa para tudo aquilo que foi apurado pela operação Lava Jato. É preciso a Falácia 2: uma narrativa que pareça boa e consistente e assim desvie a atenção de certas questões, como se elas não existissem.

E até agora essa narrativa oferecida para a esquerda (mais ainda: sedutora para qualquer pessoa da esquerda) é a seguinte: (1) Moro, os procuradores da república e os delegados da operação Lava Jato estão orquestrados com a oposição para derrubar o atual governo; (2) com esse projeto, utilizam da seletividade nas apurações a fim de comprometer o PT, esquecendo da corrupção do anterior governo do PSDB; (3) para tal objetivo, contam com o apoio da grande mídia, que manipula as cabeças fracas (segundo a narrativa) que compõem a nossa classe média típica; (4) essa elite e classe média, reacionária e formada quase que exclusivamente por admiradores do Bolsonaro, Constantino e Olavo de Carvalho (segundo a narrativa), é empurrada às ruas para vomitar toda sua agressividade, preconceito e deslumbramento burguês, constrangendo os cultos, historicamente bem informados e perspicazes defensores da esquerda (segundo a narrativa).

Essa narrativa é atraente, e é coesa. Como toda falácia bem elaborada, ela se ajusta à interpretação de certos fatos desviando a atenção de outros. Como toda habilidosa construção retórica, ela seduz pelo seguinte motivo: tendemos a achar que aquilo que nos soa bonito aos ouvidos e parece coerente do ponto de vista lógico, necessariamente é verdade.

Mas a verdade é a seguinte: essa narrativa, elaborada e vendida a todos aqueles que se consideram da esquerda, tem como grande falha não responder essas fundamentais questões: e tudo o que já foi apurado nas diversas ações penais da Lava Jato? E os 3 bilhões de dólares já recuperados, vieram do nada? E os grandes empreiteiros e doleiros já efetivamente condenados, são inocentes? E os membros do PT condenados, entre eles o tesoureiro do partido? E os favores patrimoniais comprovadamente recebidos por Lula? A suposta seletividade ou esquecimento da corrupção do PSDB milagrosamente tem o poder de inocentar a corrupção do PT? Ser seletivo deixou de ser sinônimo de escolher certas verdades factuais em detrimento de outras verdades para tornar-se sinônimo de invencionice, de mentira? E as verdades factuais supostamente selecionadas, deixam de ser verdadeiras por serem selecionadas?

Lula disse que quem protestou na sexta era o povo, e no domingo a elite. Curioso país em que a elite é em média 90% da população. falácias
Lula disse que quem protestou na sexta foi o povo, e no domingo foi a elite. Curioso país em que, segundo os números de participantes de ambos os protestos, a elite é em média 90% da população (estimativas da PM e dos organizadores).

O sintoma que revela essa falácia é que as críticas sempre se voltam contra certos e pontuais aspectos processuais dos inquéritos e ações penais da Lava Jato, e não contra o mérito das condenações e dos fatos até agora comprovados. Critica-se, por exemplo, a sistemática da delação premiada, os fundamento da condução coercitiva de Lula, a gravação da conversa entre Dilma e Lula, o vazamento da ligação de Lula a Jaques Wagner pedindo para Dilma interceder com uma ministra do STF.

Porém, nunca as críticas abordam o conteúdo das delações premiadas (exceto para refutá-las com a negação total de que são pura mentira, esquecendo que uma delação só é homologada pela Justiça se vier acompanhada de outras provas). Nunca se justifica o teor em si das conversas telefônicas (a Dilma até tentou, mas não foi longe). Nunca se fala sobre as provas que serviram de fundamento para a condenação de empreiteiros, doleiros, deputados federais, membros do PT, lobistas, diretores da Petrobras e servidores públicos. São sempre os procedimentos judiciais (e apenas alguns) que são atacados – jamais o mérito das decisões condenatórias.

Falácia 3: Moro é um vilão

Tratar o juiz federal Sérgio Moro como um vilão que, por vaidade e por estar em conluio com a oposição, manipula o sistema judiciário para perseguir o PT é tão imbecil quanto o considerar um herói, um salvador da pátria que varrerá a corrupção do Brasil. É o outro lado da mesma moeda.

Vilanizar Moro compõe, ao lado de sua idolatria, o binômio da idiotice bipolar brasileira, uma miopia intelectual que nos torna incapaz de enxergar a ambivalência da realidade e a complexidade inerente aos fatos. Para o típico idiota brasileiro, as autoridades ou são totalmente corruptas ou são heroicas salvadoras da pátria. Não há lugar para raciocínios sofisticados.

Moro retratado como vilão da Disney: porque a simplificação da realidade e obliteração dos nuances é sempre tentadora. falácias
Moro retratado como vilão da Disney: porque a simplificação da realidade e obliteração das nuances é sempre tentadora.

Mas a verdade é a seguinte: Moro é um juiz, um servidor público. Às vezes acerta, às vezes erra. Quando acerta, não é o corajoso salvador da pátria. Quando erra, não está malevolamente perseguindo o PT.

Quem cai nessa cilada de tratar o Moro como um manipulador do sistema judiciário que persegue o PT esquece que ele é apenas parte de um complexo sistema. A Operação Lava Jato é o resultado do intenso trabalho de procuradores da república, delegados federais e de dezenas de servidores públicos. Cogitar que toda essa gente é da oposição e está manipulando os fatos é de uma ingenuidade, sinceramente, vergonhosa.

Além disso, Moro não decide sozinho. Acima dele, há um complexo sistema de órgãos judiciários que têm analisado todas as suas decisões: Tribunal Regional Federal, STJ e STF, nomeadamente. E é bom lembrar que as dezenas de acusados da Lava Jato (entre eles, grandes empresários) contam com uma genuína tropa de advogados, entre os quais estão alguns dos mais reconhecidos do país. E até agora nenhum dos recursos, habeas corpus e mandados de segurança apresentados por essa gente conseguiu, em qualquer das instâncias recursais, invalidar a Lava Jato. Considerar que todos os ministros do STF e demais órgãos judiciais acima do Moro estão colaborando com a manipulação dos fatos é algo que beira aqueles malucos crédulos das teorias da conspiração.

Falácia 4: Ser petista é defender o governo

Em Cem Anos de Solidão, há um trecho em que o simpatizante do PT Gabriel García Márquez narra a história de como um personagem, o Coronel Aureliano Buendía, envolvido com política para fazer justiça, percebe que seu grupo abdicou, após anos de luta, dos seus ideais e passou a simplesmente lutar pelo poder. “Não perca seu tempo, doutor”, diz em certo trecho o coronel a um de seus assessores, que tenta justificar com retórica uma decisão que vai contra seus ideais, “o importante é que, a partir deste momento, lutamos apenas pelo poder”.

Esse é o destino de qualquer agremiação política que: (1) permanece por muito tempo lutando pelo poder sem obtê-lo; ou (2) permanece muito tempo no poder tornando-se dele dependente. Por isso a efetiva alternância de grupos no poder não pode ser, em uma democracia, uma mera possibilidade que temos a faculdade de exercer ou não ao longo de anos: ela precisa ser exercida de tempos em tempos, sob pena de os ideais que inspiram (ou deveriam inspirar) os partidos políticos serem paulatinamente deteriorados pelos privilégios do poder, ao ponto de, em algum momento, o principal objetivo tornar-se manter tais privilégios.

É uma incrível ironia que, na medida em que foi se sentido confortável no poder, um partido que se autodenomina “dos Trabalhadores” tenha se envolvido justamente com os principais representantes da elite brasileira, como o banqueiro André Esteves, o especulador financeiro Carlos Alberto da Costa, o latifundiário José Carlos Bumlai e o mega empreiteiro Marcelo Odebrecht. Isso, na verdade, sempre caracterizou a política brasileira: grupos reformistas são gradualmente cooptados e tornam-se parte da estrutura que pretendiam reformar.

Mas é triste.

Independentemente de concordar-se ou não com sua ideologia e agenda política, mesmo seus adversários reconheciam que por anos, notadamente nas duas últimas décadas do século passado, o PT foi o único partido brasileiro ideologicamente comprometido e estruturalmente coeso em sua organização. Ainda mais se comparado com agremiações de puro interesse como PFL e PMDB, na época. O PSDB, por breve tempo, pareceu seguir pelo mesmo notável caminho, mas desandou cedo demais. Já o PT desandou em algum momento de sua permanência no poder – mas quando desandou, criou uma das maiores metástases já registradas na máquina pública.

"Quem não deve não teme", disse o petista Olívio Dutra. Fala mais Olívio, a gente precisa te ouvir. falácias
“Quem não deve não teme”, disse o petista Olívio Dutra. Fala mais Olívio, a gente precisa te ouvir.

Houve francos avanços sociais durante os governos petistas, sem dúvida. Existe gente honesta no PT ainda, e acredito que a maior parte dos seus militantes seja bem intencionado. Mas creio que a maior falácia para essas pessoas (e o que efetivamente decretará a morte do partido) é a de que ser petista, neste momento, significa defender esse governo e fazer vistas grossas para os benefícios recebidos indevidamente pelo maior ídolo do partido, o ex-presidente Lula.

Mas um partido e seus ideais não podem se esgotar num governo. As aspirações de um partido que se considera de esquerda não podem se resumir a defender incondicionalmente um ídolo, por mais carismático que esse ídolo seja. Fazer isso não é ser esquerda, fazer isso é renovar o caudilhismo que por tanto tempo amesquinhou a política latino-americana, agora apresentando uma versão “socialista” do mesmo mal que anteriormente era característico da direita desse continente.

Creio que o maior gesto de coragem e demonstração de efetivo comprometimento com as aspirações históricas do PT seriam essas poucas pessoas unirem-se e criarem uma voz dissonante em meio a esse discurso que busca defender o que a essa altura é indefensável.

Eu sei que essas vozes existem, conheço algumas delas, e gostaria que tivessem a bravura de falar mais francamente.


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escrito por:

Victor Lisboa

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