falácias

As 4 falácias de quem defende Lula e Dilma

Em Comportamento, Consciência, Política, Sociedade por Victor LisboaComentários

Um pedido: antes de pas­sar os olhos pelo texto e tirar alguma con­clu­são a par­tir de seu título e sub­tí­tu­los, dê-se ao tra­ba­lho de ler. Nin­guém pre­cisa fazer juízo ins­tan­tâ­neo sobre nada, ainda mais sobre ques­tões fun­da­men­tais para a soci­e­dade.

Falácia 1: A luta é contra a direita

João San­tana é um mar­que­teiro sem pai­xões par­ti­dá­rias. O que é muito justo — afi­nal, um pro­fis­si­o­nal deve tra­tar sua pro­fis­são com obje­ti­vi­dade. Con­tra­tado para coor­de­nar o mar­ke­ting do PT nas elei­ções pre­si­den­ci­ais, ao longo dos anos João San­tana ensi­nou ao par­tido mui­tas téc­ni­cas e tru­ques de mani­pu­la­ção da opi­nião pública.

Mas o mais impor­tante dos tru­ques, pos­si­vel­mente, é criar fal­sas divi­sões da soci­e­dade, atri­buindo fala­ci­o­sa­mente a um ini­migo tudo aquilo que o par­tido deseja que seus elei­to­res e mili­tan­tes tra­tem com aver­são.

É uma téc­nica que sim­pli­fica a com­ple­xi­dade dos fatos (o que no fundo é sem­pre atra­tiva para o público em geral) e esta­be­lece uma lógica mani­queísta na qual, do outro lado, está um abo­mi­ná­vel ini­migo (algo que cor­res­ponde à nossa herança cató­lica de demo­ni­za­ção do outro e ao nosso cora­ção de tor­ce­do­res apai­xo­na­dos por um time de fute­bol).

Por exem­plo, o PT ten­tou asso­ciar o pro­cesso de impe­a­ch­ment, ini­ci­al­mente, à detes­tá­vel figura de Cunha. Na sim­pli­fi­ca­ção, tra­tava-se de Cunha ver­sus Dilma. Esque­ceu-se com­ple­ta­mente o jurista Miguel Reale Jr. e Hélio Bicudo, um dos fun­da­do­res do PT, ambos sig­na­tá­rios do pedido de Impe­a­ch­ment. Nessa lógica, já atu­al­mente ultra­pas­sada, se você fosse a favor do Impe­a­ch­ment, então era tor­ce­dor e amigo do Cunha. Difí­cil para qual­quer pes­soa em sã cons­ci­ên­cia, nesse caso, ser a favor do impe­a­ch­ment.

Agora, a grande falá­cia cri­ada é a seguinte: a defesa da Lava Jato e o desejo de punir cri­mi­no­sos e gover­nan­tes é uma bata­lha da direita.

Seguindo nessa lógica, se você é da esquerda, pre­cisa neces­sa­ri­a­mente ser con­tra a Lava Jato. Se você é a favor da jus­tiça social, da dis­tri­bui­ção de renda, da luta pelos direi­tos das mino­rias, do fim dos pri­vi­lé­gios da elite, da luta con­tra pre­con­cei­tos, do meio ambi­ente e de tan­tas outras cau­sas impor­tan­tes e legí­ti­mas, tra­di­ci­o­nal­mente asso­ci­a­das no Bra­sil à esquerda, então pre­cisa defen­der Dilma, pre­cisa defen­der Lula. Custe o que cus­tar.

A Falácia 1 explicada, porque né? Tem vários pressupostos equivocados no raciocínio acima, os principais em vermelho. Mas não vou me deter em cada um deles porque né? falácias

A Falá­cia 1 expli­cada bem basi­ca­mente. Há vários pres­su­pos­tos equi­vo­ca­dos no raci­o­cí­nio acima, dois dos prin­ci­pais em ver­me­lho, mas não vou me deter em cada um deles.

É uma tre­menda cilada, armada por pes­soas bem habi­li­do­sas na mani­pu­la­ção da opi­nião pública. E, não é de se sur­pre­en­der, muita gente inte­li­gente e bem inten­ci­o­nada tem caído nela como pati­nhos.

É que essa falá­cia fun­ci­ona muito bem por uma sim­ples razão: entre aque­les que apoiam a Lava Jato estão sim alguns dos pio­res ele­men­tos da direita bra­si­leira, estão sim imbe­cis rea­ci­o­ná­rios que defen­dem inter­ven­ção mili­tar. E aí é muito fácil come­çar a cam­pa­nha nas redes soci­ais, publi­cando ima­gens des­ses idi­o­tas durante as mani­fes­ta­ções a fim de refor­çar no ima­gi­ná­rio cole­tivo de todos que sim­pa­ti­zam com a esquerda que apoiar a Lava Jato é, obri­ga­to­ri­a­mente, apoiar a direita.

Isso fun­ci­ona muito bem em esta­dos como São Paulo, onde há uma forte rejei­ção por parte da popu­la­ção mais jovem ao PSDB (que, ao menos do ponto de vista pro­gra­má­tico em que se auto­de­no­mina “social-demo­crata”, não é um par­tido de direita, mas de cen­tro esquerda), inclu­sive por ser desse par­tido um dos pio­res gover­na­do­res dos últi­mos anos, Geraldo Alck­min.

Mas a ver­dade é a seguinte: às vezes pes­soas de mau cará­ter podem ter total razão. Isso pode sur­pre­en­der e dei­xar escan­da­li­zado alguém que poli­ti­ca­mente está no jar­dim da infân­cia, mas para qual­quer adulto que observa a his­tó­ria é um fato evi­dente.

Sim. Esse. Maldito. Idiota. E esses aí ao seu redor, que não vou adjetivar para não ser processado: infelizmente a matemática indica que 1 vez a cada mil eles tem razão. Eu preferia que estivessem sempre 100% errados. Não seria perfeito e fácil um mundo assim? falácias

Sim. ESSE MALDITO IMBECIL e esses aí ao seu redor, que não vou adje­ti­var para não ser pro­ces­sado: infe­liz­mente, a esta­tís­tica indica que 1 vez a cada 1 milhão eles têm razão em alguma coisa. Eu pre­fe­ria que esti­ves­sem sem­pre 100% erra­dos. Aí até usa­ria um deles como con­se­lheiro pes­soal e sem­pre faria o con­trá­rio do que dis­sesse. Não seria per­feito e fácil um mundo assim?

Nós, bra­si­lei­ros, odi­a­mos a ambi­gui­dade do mundo real, no qual mui­tas vezes alguém cujas opi­niões e estilo de vida detes­ta­mos pode, em cer­tos assun­tos, ter com­pleta razão e, pior ainda, ter a mesma opi­nião que a nossa. Fugi­mos ins­tin­ti­va­mente da com­ple­xi­dade da rea­li­dade, onde nem tudo é preto e branco, nós con­tra eles, bons con­tra maus, fla­mengo con­tra flu­mi­nense, moci­nho da novela con­tra vilão, e somos fáceis víti­mas de nar­ra­ti­vas ela­bo­ra­das por opor­tu­nis­tas para sim­pli­fi­car as coi­sas e nos man­ter afas­ta­dos dos des­con­for­tos de uma vida repleta de nuan­ces e ambi­va­lên­cias cons­tran­ge­do­ras.

Veja meu caso, por exem­plo. Eu, pes­so­al­mente, anti­pa­tizo com o Cons­tan­tino, abo­mino o Bol­so­naro, detesto o Aécio, tenho uma inex­pli­cá­vel aver­são pelo Alck­min, rio do Olavo de Car­va­lho e me enver­go­nho por ter entre meus com­pa­tri­o­tas gente que defende a dita­dura mili­tar. Mas tenho uma raiva ainda maior desse pes­soal cor­rupto que se tor­nou um cân­cer den­tro do Governo Fede­ral e que me obri­gou com seus deli­tos a, por certo período de tempo, ficar do lado des­ses sacri­pan­tas da pior qua­li­dade, espe­rando por mudan­ças e efe­tiva puni­ção de todos os res­pon­sá­veis, prin­ci­pal­mente de gover­nan­tes que foram com­pla­cen­tes com as mara­cu­taias por anos.

A luta pela puni­ção de todos os res­pon­sá­veis pelos escân­da­los de cor­rup­ção des­co­ber­tos pela Lava Jato, inclu­sive por gover­nan­tes que faziam vis­tas gros­sas a um pro­pi­no­duto de bilhões de dóla­res, não é uma luta da direita, não é uma luta do PSDB. É uma luta da cida­da­nia, em prol do espí­rito repu­bli­cano. Se há mais direi­tis­tas e elei­to­res do PSDB nas mani­fes­ta­ções, é por­que nessa his­tó­ria o des­tino os pou­pou de ter que enfren­tar a ambi­gui­dade do mundo real, já que nesse caso os fatos aca­ba­ram se ajus­tando a suas pres­su­po­si­ções e expec­ta­ti­vas ínti­mas. Em ter­mos de “eco­no­mia de esfor­ços”, para eles é só ques­tão de seguir o fluxo de seus pró­prios pre­con­cei­tos, sem des­pen­der esforço para refor­mu­lar cer­tas opi­niões sobre as evi­dên­cias do mundo real. Às vezes isso acon­tece. Mas, na ver­dade, essa deve­ria ser uma luta muito mais da esquerda do que da direita, e inclu­sive dos pró­prios petis­tas, como vere­mos na Falá­cia 4. Basta a cora­gem de enfren­tar as dis­so­nân­cias cog­ni­ti­vas que a rea­li­dade às vezes nos impõe.

Falácia 2: O que parece bonito e coerente necessariamente é verdade

A Falá­cia 1 não fun­ci­ona sozi­nha. Após criá-la, é pre­ciso ela­bo­rar uma jus­ti­fi­ca­tiva para tudo aquilo que foi apu­rado pela ope­ra­ção Lava Jato. É pre­ciso a Falá­cia 2: uma nar­ra­tiva que pareça boa e con­sis­tente e assim des­vie a aten­ção de cer­tas ques­tões, como se elas não exis­tis­sem.

E até agora essa nar­ra­tiva ofe­re­cida para a esquerda (mais ainda: sedu­tora para qual­quer pes­soa da esquerda) é a seguinte: (1) Moro, os pro­cu­ra­do­res da repú­blica e os dele­ga­dos da ope­ra­ção Lava Jato estão orques­tra­dos com a opo­si­ção para der­ru­bar o atual governo; (2) com esse pro­jeto, uti­li­zam da sele­ti­vi­dade nas apu­ra­ções a fim de com­pro­me­ter o PT, esque­cendo da cor­rup­ção do ante­rior governo do PSDB; (3) para tal obje­tivo, con­tam com o apoio da grande mídia, que mani­pula as cabe­ças fra­cas (segundo a nar­ra­tiva) que com­põem a nossa classe média típica; (4) essa elite e classe média, rea­ci­o­ná­ria e for­mada quase que exclu­si­va­mente por admi­ra­do­res do Bol­so­naro, Cons­tan­tino e Olavo de Car­va­lho (segundo a nar­ra­tiva), é empur­rada às ruas para vomi­tar toda sua agres­si­vi­dade, pre­con­ceito e des­lum­bra­mento bur­guês, cons­tran­gendo os cul­tos, his­to­ri­ca­mente bem infor­ma­dos e pers­pi­ca­zes defen­so­res da esquerda (segundo a nar­ra­tiva).

Essa nar­ra­tiva é atra­ente, e é coesa. Como toda falá­cia bem ela­bo­rada, ela se ajusta à inter­pre­ta­ção de cer­tos fatos des­vi­ando a aten­ção de outros. Como toda habi­li­dosa cons­tru­ção retó­rica, ela seduz pelo seguinte motivo: ten­de­mos a achar que aquilo que nos soa bonito aos ouvi­dos e parece coe­rente do ponto de vista lógico, neces­sa­ri­a­mente é ver­dade.

Mas a ver­dade é a seguinte: essa nar­ra­tiva, ela­bo­rada e ven­dida a todos aque­les que se con­si­de­ram da esquerda, tem como grande falha não res­pon­der essas fun­da­men­tais ques­tões: e tudo o que já foi apu­rado nas diver­sas ações penais da Lava Jato? E os 3 bilhões de dóla­res já recu­pe­ra­dos, vie­ram do nada? E os gran­des emprei­tei­ros e dolei­ros já efe­ti­va­mente con­de­na­dos, são ino­cen­tes? E os mem­bros do PT con­de­na­dos, entre eles o tesou­reiro do par­tido? E os favo­res patri­mo­ni­ais com­pro­va­da­mente rece­bi­dos por Lula? A suposta sele­ti­vi­dade ou esque­ci­mento da cor­rup­ção do PSDB mila­gro­sa­mente tem o poder de ino­cen­tar a cor­rup­ção do PT? Ser sele­tivo dei­xou de ser sinô­nimo de esco­lher cer­tas ver­da­des fac­tu­ais em detri­mento de outras ver­da­des para tor­nar-se sinô­nimo de inven­ci­o­nice, de men­tira? E as ver­da­des fac­tu­ais supos­ta­mente sele­ci­o­na­das, dei­xam de ser ver­da­dei­ras por serem sele­ci­o­na­das?

Lula disse que quem protestou na sexta era o povo, e no domingo a elite. Curioso país em que a elite é em média 90% da população. falácias

Lula disse que quem pro­tes­tou na sexta foi o povo, e no domingo foi a elite. Curi­oso país em que, segundo os núme­ros de par­ti­ci­pan­tes de ambos os pro­tes­tos, a elite é em média 90% da popu­la­ção (esti­ma­ti­vas da PM e dos orga­ni­za­do­res).

O sin­toma que revela essa falá­cia é que as crí­ti­cas sem­pre se vol­tam con­tra cer­tos e pon­tu­ais aspec­tos pro­ces­su­ais dos inqué­ri­tos e ações penais da Lava Jato, e não con­tra o mérito das con­de­na­ções e dos fatos até agora com­pro­va­dos. Cri­tica-se, por exem­plo, a sis­te­má­tica da dela­ção pre­mi­ada, os fun­da­mento da con­du­ção coer­ci­tiva de Lula, a gra­va­ção da con­versa entre Dilma e Lula, o vaza­mento da liga­ção de Lula a Jaques Wag­ner pedindo para Dilma inter­ce­der com uma minis­tra do STF.

Porém, nunca as crí­ti­cas abor­dam o con­teúdo das dela­ções pre­mi­a­das (exceto para refutá-las com a nega­ção total de que são pura men­tira, esque­cendo que uma dela­ção só é homo­lo­gada pela Jus­tiça se vier acom­pa­nhada de outras pro­vas). Nunca se jus­ti­fica o teor em si das con­ver­sas telefô­ni­cas (a Dilma até ten­tou, mas não foi longe). Nunca se fala sobre as pro­vas que ser­vi­ram de fun­da­mento para a con­de­na­ção de emprei­tei­ros, dolei­ros, depu­ta­dos fede­rais, mem­bros do PT, lobis­tas, dire­to­res da Petro­bras e ser­vi­do­res públi­cos. São sem­pre os pro­ce­di­men­tos judi­ci­ais (e ape­nas alguns) que são ata­ca­dos — jamais o mérito das deci­sões con­de­na­tó­rias.

Falácia 3: Moro é um vilão

Tra­tar o juiz fede­ral Sér­gio Moro como um vilão que, por vai­dade e por estar em con­luio com a opo­si­ção, mani­pula o sis­tema judi­ciá­rio para per­se­guir o PT é tão imbe­cil quanto o con­si­de­rar um herói, um sal­va­dor da pátria que var­rerá a cor­rup­ção do Bra­sil. É o outro lado da mesma moeda.

Vila­ni­zar Moro com­põe, ao lado de sua ido­la­tria, o binô­mio da idi­o­tice bipo­lar bra­si­leira, uma mio­pia inte­lec­tual que nos torna inca­paz de enxer­gar a ambi­va­lên­cia da rea­li­dade e a com­ple­xi­dade ine­rente aos fatos. Para o típico idi­ota bra­si­leiro, as auto­ri­da­des ou são total­mente cor­rup­tas ou são heroi­cas sal­va­do­ras da pátria. Não há lugar para raci­o­cí­nios sofis­ti­ca­dos.

Moro retratado como vilão da Disney: porque a simplificação da realidade e obliteração dos nuances é sempre tentadora. falácias

Moro retra­tado como vilão da Dis­ney: por­que a sim­pli­fi­ca­ção da rea­li­dade e obli­te­ra­ção das nuan­ces é sem­pre ten­ta­dora.

Mas a ver­dade é a seguinte: Moro é um juiz, um ser­vi­dor público. Às vezes acerta, às vezes erra. Quando acerta, não é o cora­joso sal­va­dor da pátria. Quando erra, não está male­vo­la­mente per­se­guindo o PT

Quem cai nessa cilada de tra­tar o Moro como um mani­pu­la­dor do sis­tema judi­ciá­rio que per­se­gue o PT esquece que ele é ape­nas parte de um com­plexo sis­tema. A Ope­ra­ção Lava Jato é o resul­tado do intenso tra­ba­lho de pro­cu­ra­do­res da repú­blica, dele­ga­dos fede­rais e de deze­nas de ser­vi­do­res públi­cos. Cogi­tar que toda essa gente é da opo­si­ção e está mani­pu­lando os fatos é de uma inge­nui­dade, sin­ce­ra­mente, ver­go­nhosa.

Além disso, Moro não decide sozi­nho. Acima dele, há um com­plexo sis­tema de órgãos judi­ciá­rios que têm ana­li­sado todas as suas deci­sões: Tri­bu­nal Regi­o­nal Fede­ral, STJ e STF, nome­a­da­mente. E é bom lem­brar que as deze­nas de acu­sa­dos da Lava Jato (entre eles, gran­des empre­sá­rios) con­tam com uma genuína tropa de advo­ga­dos, entre os quais estão alguns dos mais reco­nhe­ci­dos do país. E até agora nenhum dos recur­sos, habeas cor­pus e man­da­dos de segu­rança apre­sen­ta­dos por essa gente con­se­guiu, em qual­quer das ins­tân­cias recur­sais, inva­li­dar a Lava Jato. Con­si­de­rar que todos os minis­tros do STF e demais órgãos judi­ci­ais acima do Moro estão cola­bo­rando com a mani­pu­la­ção dos fatos é algo que beira aque­les malu­cos cré­du­los das teo­rias da cons­pi­ra­ção.

Falácia 4: Ser petista é defender o governo

Em Cem Anos de Soli­dão, há um tre­cho em que o sim­pa­ti­zante do PT Gabriel Gar­cía Már­quez narra a his­tó­ria de como um per­so­na­gem, o Coro­nel Aure­li­ano Buen­día, envol­vido com polí­tica para fazer jus­tiça, per­cebe que seu grupo abdi­cou, após anos de luta, dos seus ide­ais e pas­sou a sim­ples­mente lutar pelo poder. “Não perca seu tempo, dou­tor”, diz em certo tre­cho o coro­nel a um de seus asses­so­res, que tenta jus­ti­fi­car com retó­rica uma deci­são que vai con­tra seus ide­ais, “o impor­tante é que, a par­tir deste momento, luta­mos ape­nas pelo poder”.

Esse é o des­tino de qual­quer agre­mi­a­ção polí­tica que: (1) per­ma­nece por muito tempo lutando pelo poder sem obtê-lo; ou (2) per­ma­nece muito tempo no poder tor­nando-se dele depen­dente. Por isso a efe­tiva alter­nân­cia de gru­pos no poder não pode ser, em uma demo­cra­cia, uma mera pos­si­bi­li­dade que temos a facul­dade de exer­cer ou não ao longo de anos: ela pre­cisa ser exer­cida de tem­pos em tem­pos, sob pena de os ide­ais que ins­pi­ram (ou deve­riam ins­pi­rar) os par­ti­dos polí­ti­cos serem pau­la­ti­na­mente dete­ri­o­ra­dos pelos pri­vi­lé­gios do poder, ao ponto de, em algum momento, o prin­ci­pal obje­tivo tor­nar-se man­ter tais pri­vi­lé­gios.

É uma incrí­vel iro­nia que, na medida em que foi se sen­tido con­for­tá­vel no poder, um par­tido que se auto­de­no­mina “dos Tra­ba­lha­do­res” tenha se envol­vido jus­ta­mente com os prin­ci­pais repre­sen­tan­tes da elite bra­si­leira, como o ban­queiro André Este­ves, o espe­cu­la­dor finan­ceiro Car­los Alberto da Costa, o lati­fun­diá­rio José Car­los Bum­lai e o mega emprei­teiro Mar­celo Ode­bre­cht. Isso, na ver­dade, sem­pre carac­te­ri­zou a polí­tica bra­si­leira: gru­pos refor­mis­tas são gra­du­al­mente coop­ta­dos e tor­nam-se parte da estru­tura que pre­ten­diam refor­mar.

Mas é triste.

Inde­pen­den­te­mente de con­cor­dar-se ou não com sua ide­o­lo­gia e agenda polí­tica, mesmo seus adver­sá­rios reco­nhe­ciam que por anos, nota­da­mente nas duas últi­mas déca­das do século pas­sado, o PT foi o único par­tido bra­si­leiro ide­o­lo­gi­ca­mente com­pro­me­tido e estru­tu­ral­mente coeso em sua orga­ni­za­ção. Ainda mais se com­pa­rado com agre­mi­a­ções de puro inte­resse como PFL e PMDB, na época. O PSDB, por breve tempo, pare­ceu seguir pelo mesmo notá­vel cami­nho, mas desan­dou cedo demais. Já o PT desan­dou em algum momento de sua per­ma­nên­cia no poder — mas quando desan­dou, criou uma das mai­o­res metás­ta­ses já regis­tra­das na máquina pública.

"Quem não deve não teme", disse o petista Olívio Dutra. Fala mais Olívio, a gente precisa te ouvir. falácias

Quem não deve não teme”, disse o petista Olí­vio Dutra. Fala mais Olí­vio, a gente pre­cisa te ouvir.

Houve fran­cos avan­ços soci­ais durante os gover­nos petis­tas, sem dúvida. Existe gente honesta no PT ainda, e acre­dito que a maior parte dos seus mili­tan­tes seja bem inten­ci­o­nado. Mas creio que a maior falá­cia para essas pes­soas (e o que efe­ti­va­mente decre­tará a morte do par­tido) é a de que ser petista, neste momento, sig­ni­fica defen­der esse governo e fazer vis­tas gros­sas para os bene­fí­cios rece­bi­dos inde­vi­da­mente pelo maior ídolo do par­tido, o ex-pre­si­dente Lula.

Mas um par­tido e seus ide­ais não podem se esgo­tar num governo. As aspi­ra­ções de um par­tido que se con­si­dera de esquerda não podem se resu­mir a defen­der incon­di­ci­o­nal­mente um ídolo, por mais caris­má­tico que esse ídolo seja. Fazer isso não é ser esquerda, fazer isso é reno­var o cau­di­lhismo que por tanto tempo ames­qui­nhou a polí­tica latino-ame­ri­cana, agora apre­sen­tando uma ver­são “soci­a­lista” do mesmo mal que ante­ri­or­mente era carac­te­rís­tico da direita desse con­ti­nente.

Creio que o maior gesto de cora­gem e demons­tra­ção de efe­tivo com­pro­me­ti­mento com as aspi­ra­ções his­tó­ri­cas do PT seriam essas pou­cas pes­soas uni­rem-se e cri­a­rem uma voz dis­so­nante em meio a esse dis­curso que busca defen­der o que a essa altura é inde­fen­sá­vel.

Eu sei que essas vozes exis­tem, conheço algu­mas delas, e gos­ta­ria que tives­sem a bra­vura de falar mais fran­ca­mente.


Você pode que­rer ler tam­bém:

5 ver­da­des sobre os pro­tes­tos deste domingo
As van­ta­gens de ser polí­tico em um país cor­rupto

 

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

Compartilhe