Cada época elege seu objeto favorito de expurgo.

As críticas e apedrejamentos verbais podem até ter o mérito de tocar em algum ponto que precisa ser melhor analisado, mas sempre, no final das contas, transformam-se em exemplos da falácia do espantalho.

espantalho assustador
Espantalhos são sempre assustadores.

É o caso das críticas à indústria farmacêutica e a alguns transtornos mentais, como o TDAH.

Não vou negar que exista, aparentemente, uma epidemia de diagnósticos.

Os psiquiatras podem estar sendo descuidados com seu trabalho. Realizam consultas em poucos minutos, o suficiente apenas para ouvir uma lista objetiva de critérios e oferecer um diagnóstico ou uma receita.

É como se os cursos de medicina estivessem formando atendentes do Spoleto.

Hannibal e seu apetite
“Meu médico disse: “Hannibal, você não tem problema algum, só tem um apetite diferenciado.”‘

E quando digo medicina, não psiquiatria, não é por acaso. Uma das últimas vezes que fui a um clínico geral, sabendo da impaciência habitual desses profissionais, tentei descrever rápido os sintomas.

Antes de terminar, o cara já estava me interrompendo e enfiando nas minhas mãos uma receita e ao mesmo tempo levantando da cadeira e me acompanhando até a porta.

Portanto, o problema não se restringe a psiquiatras. Mas eles são os escolhidos para protagonizar algumas conversas de bar, conversas nada elogiosas.

É meio deprimente, mas no ambiente universitário, na grande maioria das vezes, o debate não é mais aprofundado do que seria nesses encontros regados por álcool.

A maioria das críticas se repete entediantemente. Toda aula é a mesma epifania sobre como a busca por lucro explica o universo e tudo o mais.

Depois de passar anos ouvindo os mesmos argumentos, me sinto no direito de citar uma lista das falas mais manjadas e oferecer a resposta que considero mais adequada para cada uma delas.

[optinform]

1- A indústria farmacêutica tem um lucro absurdo, o que prova que os transtornos são inventados.

É óbvio que, se uma empresa ganha dinheiro vendendo remédios, seu lucro aumentará caso haja mais doenças catalogadas, pois mais pessoas usarão seus medicamentos.

Mas onde está o salto explicativo e as evidências que mostram que isso não é mera correlação?

A relação entre essas duas variáveis não mostra automaticamente que alguém está propositalmente inventando transtornos para lucrar.

O lucro pode simplesmente ser uma consequência do fato de que existem mesmo muitas condições “medicalizáveis”.

Essa falácia é, às vezes, defendida pela medicina alternativa, como se os terapeutas alternativos estivessem dizendo: “trate-se com a gente, não estamos interessados em lucro, mas na sua felicidade”.

Mas homeopatas não lucram?

Os psicólogos mais pós-modernos embarcam na onda, como se o psicólogo prestasse algum serviço messiânico à população. O médico é o único que quer seu dinheiro, nobre paciente.

 

2- E quanto à invenção de transtornos?

Isso me deixa confuso. O que quer dizer “inventar” um transtorno”? O oposto disso seria “encontrar” um transtorno.

Tecnicamente, falar de “invenção” não é bem uma crítica, mas uma constatação – a não ser que se tome a posição extrema do instrumentalismo quanto à capacidade das teorias científicas descreverem a realidade com algum grau de eficiência.

Um transtorno é um modelo teórico que conta com evidências de que algumas pessoas possuem um “funcionamento mental” diferente, o que causa prejuízos em suas vidas.

A causa não é clara, mas se tem geralmente uma lista de variáveis correlacionadas, sejam elas fenomenológicas, neurobiológicas, cognitivas e até genéticas.

O que difere essencialmente um transtorno de uma doença, é isso.

A doença tem um agente etiológico claro. Sabemos que ela foi causada por vírus ou bactéria, por exemplo.

Um transtorno psicológico, por sua vez, correlaciona-se com variáveis ambientais, individuais, experienciais, orgânicas, mas não se tem um consenso claro sobre qual dessas esferas CAUSA o problema.

Pode ser uma delas, duas ou todas interagindo ao mesmo tempo.

Nesse sentido é que um transtorno é “inventado”.

Nós, psicólogos, psicanalistas e pesquisadores partimos de um pressuposto filosófico: o de que existem comportamentos patológicos e não meramente divergentes de uma média.

A partir daí, testamos teorias e juntamos evidências que mostrem um funcionamento divergente do funcionamento da norma estatística e do desvio padrão.

Um exemplo bem ilustrativo é o autismo. Muitas pessoas, incluindo autistas, lutam para que sua condição seja reconhecida como apenas um estilo diferente de ser no mundo, ou um estilo cognitivo distinto do da maioria.

Essa é uma discussão muito mais conceitual do que científica, pois estilos cognitivos discrepantes da curva normal também tem a ver com uma estrutura neurobiológica diferente.

Ou seja, existem evidências de que o quadro é diverso da curva normal – o problema filosófico é como devemos entender esses quadros.

Outro transtorno que padece desse dilema é o TDAH.

 

3- O TDAH é uma fraude. Ele não existia antes dos anos 90.

É para a confusão de alguns que informo que, de certa forma, elétrons também não existiam antes do século XX, tampouco o vírus da gripe.

Isso é ao menos verdade em termos de um construto claro integrando uma teoria formal da física e da biologia.

No entanto, isso obviamente se deduz hoje, dadas as evidências – a não ser que você seja um filósofo chamado Paul Feyerabend.

Paul Feyerabend
Meu nome é Feyerabend e eu não acredito na razão – nem em máquinas digitais.

É preciso ser dito também que o TDAH é um transtorno com evidências amparando seu diagnóstico. Inclusive, essas mesmas evidências mostram que não só medicamentos podem controlar os sintomas, mas terapias não farmacológicas também.

 

4- A sociedade de consumo, desatenta, rápida e superficial, está causando o TDAH.

Como disse antes, quando se trata de transtornos psicológicos, é muito difícil bater o martelo e falar de uma causa.

Em se tratando de comportamento humano, sempre existem múltiplos fatores a serem considerados.

É possível, portanto, que o ambiente tenha algum papel no surgimento de um transtorno numa dada população. Um contexto regido por valores que em nada tem a ver com o cultivo de atenção concentrada pode acostumar mal as pessoas.

Nesse sentido, podemos ser moldados para responder a essas novas demandas (lembre-se de que nosso cérebro é plástico, muito suscetível ao aprendizado).

Assim como a prática da meditação pode ter impactos positivos sobre a atenção e sobre transtornos, constantes inputs de uma sociedade que funciona de certo modo podem também levar a resultados danosos sobre essa capacidade atencional.

grupo budista
Estudos indicam que meditação pode ter os mesmos efeitos ou ser ainda melhor que medicamentos, para alguns transtornos.

Também poderíamos levar em conta possíveis predisposições genéticas, que seriam engatilhadas ou inibidas por esses inputs contextuais.

Portanto, eu não seria tão radical em dizer que o ambiente está “causando” o TDAH, mas certamente o ambiente pode ter influência sobre sua expressão.

Ainda assim, isso nada tem a ver com os medicamentos serem mais ou menos eficazes em seu tratamento. Ninguém nasce com transtorno de estresse pós-traumático, mas claramente medicamentos e terapia têm papel terapêutico.

 

Culpados ou inocentes?

A verdade é que temos dois lobos internos, um lutando para que façamos algo por amor e pelo simples prazer de ajudar, e outro querendo que tenhamos sucesso financeiro.

Nenhum dos dois é condenável.

Vivemos numa sociedade capitalista. Não faz muito sentido residir numa área nobre do Rio de Janeiro, ir de Ferrari para a universidade pública, almoçar no restaurante universitário e ficar ostentando uma camiseta importada com estampa reforçada do Che Guevara – a não ser que seus símbolos tenham sido reeditados.

O lucro não é a raiz de todo mal, parafraseando aqui o título exagerado de um documentário do Richard Dawkins. Mas isso não quer dizer absolvição de todos os pecados.

Também já é hora de dar um fim ao maniqueísmo amador de “biológico versus ambiental”. Um não anula o outro.

O ambiente pode sim atuar como gatilho para a expressão de predisposições codificadas geneticamente. Por outro lado, uma sociedade que funciona com base na desatenção pode nos moldar para termos mais dificuldade em prestar atenção, ter foco.

Isso também não exclui o fato de esse ambiente estar determinando alguma coisa em nosso sistema nervoso.


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Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.
  • Cassio Silva

    Se alguém é diabético e precisa tomar insulina pelo resto da vida, as pessoas entendem, auxiliam, apoiam. Se alguém tem um transtorno mental e precisa de um remédio, mesmo que seja um estabilizador de humor, ou até mesmo um remédio que seria usado para epilepsia, mas serve para estabilizar as ondas mentais, ja ficam falando: “remédios?? Esta indústria farmacêutica é foda mesmo!!” Ontem li em uma destas páginas ativistas um post questionando algo assim: “e se os transtornos mentais forem uma construção cultural?”, era baseado em um video de um cara americano que nem me preocupei em guardar o nome. Ele questionava os remédios para transtornos mentais. Me pergunto: a diabete é uma construção cultural? O cancer é uma construção cultural? Portanto, se o transtorno é físico, tem evidências físicas todo mundo aceita na boa. Mas é mental? “Deixa de vagabundagem!! Levanta e anda!! Vai pra um shopping”, “não precisa remedio!!”

    • Além disso existem evidências para os transtornos mentais também. Existem modificações fisiológicas, neurofisiológicas e até anatômicas. O problema é que no caso dos transtornos, como eu disse no texto, tem algumas diferenças em relação às doenças tradicionais:

      1- é menos óbvio justificar filosoficamente que comportamentos diferentes, embora prejudiciais, sejam considerados patológicos.

      2- é mais difícil saber até que ponto as evidências do transtorno são consequências dele ou de fato evidências dele mesmo.

      Tudo isso depende de um trabalho conceitual muito mais complicado do que o necessário para lidar com a ideia de doenças tradicionalmente.

    • Leonardo Cubas

      Felipe Novaes ótimo post. Canso de ouvir opiniões superficiais criticando os métodos medicamentosos quanto este tema nas minhas aulas de psicologia. Sua argumentação é totalmente o contrário daquelas 😉

      Em minha opinião Cassio, embora você possa traçar um paralelo entre uma diabetes e um transtorno mental no que tange a fisiologia (alterações físicas no corpo) a manifestação de ambas são diferentes. Porque penso assim: Podemos comparar organismos na natureza e, por meio desta capacidade, constatar se um é patológico e outro saudável, certo? Vemos a totalidade deste e percebemos que um tumor seria algo anormal, comparado ao restante da população. Eu concordaria, pois as implicações desta são puramente biológicas, não há outra variável que não seja esta. Contudo, num transtorno, o comportamento é influenciado. Mas não temos como definir um comportamento como padrão, apenas por ser o mais presente. Comportamento implica diversas variáveis. Eu concordo em classificar o TDAH como transtorno, afinal os processos bioquímicos no cérebro são diferentes dos comuns. Porém, se motivados por agentes históricos diferentes, nos encontrássemos em uma sociedade majoritariamente com TDAH, nós (pessoas com a ausência deste) que seriamos considerados patológicos. Vê, a alteração do comportamento, na minha opinião, que torna o conceito tão abstrato. Afinal este é produto também de causas ambientais, e no ambiente social não existe este “padrão comum”.
      Pareço razoável Cassio?

      • Valeu, cara, fico feliz em ir contra a corrente. hehe

      • Cassio Silva

        Leonardo, Eu entendo que As pessoas queiram ser “normais”, pois a sociedade afasta os “não normais”. Isto sim é uma construção cultural forte e acho que será dificílima de mudar. Não impossivel. Mas acho que uma pessoa deve se tratar se ela esta com comorbidades causadas pelas suas condições psicológicas. Deve tratar da causa fundamental e não só do efeito. se fala muito em TDAH, e eu particularmente evito falar dela pois não tenho experiências sobre ela. Me preocupam as doenças como esquizofrenia, transtorno Bipolar (os realmente diagnosticados como tal, pois hoje varios jovens adolescentes ja se acham bipolar só por estar sob a influência da variação normal dos hormônios da sua idade), transtornos de humor, autismo . São doenças, sindromes e transtornos, que infelizmente, pelo bem e pelo mal, tive contato muito próximo. Eu mesmo não escondo que tenho transtornos de humor, que me levaram a ter 160kg, com diversas outras consequências. Para atuar eu procurei um corpo de ajuda formado por psiquiatra, psicologa, médico, e muito estudo em cima. Não me comparei com outros para saber se eu era normal ou tinha transtorno. Eu sabia que algo estava errado. Hoje tomo remedio que originalmente era para epilepsia, pois resumidamente, as minha atividade cerebral é acelerada. Na terapia descobri varios modos de estabilização, na meditação também busco isto. Enfim: questões complexas exigem abordagem complexas e não somente remedio ou “ida para a natureza”. Em resumo: eu considero transtorno aquilo que me atrapalha. as minhas variações de humor eram um transtorno. Me atrapalhavam a vida.

    • Hyago Kuhn Guedes

      Fazendo um adendo o diabetes tipo II é um bom exemplo de patologia com evidências biológicas e correlação com fatores comportamentais (má alimentação, sedentarismo..) como etiologia. Logo, existe uma influência (lembrando sua natureza MULTIFATORIAL) da construção cultural.

      Realmente existe uma demonização da utilização de fármacos como método terapêutico por um segmento da sociedade mais “alternativa” e isso vem causando prejuízos aos pacientes. Concordo plenamente contigo!

      Abraços.

      • Foi legal você citar isso.

        As doenças raramente (não to lembrando de nenhuma) são condições que se abatem sobre o organismo por causa do próprio organismo. É sempre em interação com o ambiente de algum modo, seja na diabetes, seja no caso de algum transtorno psicológico (embora em ambos os casos possa também haver predisposição genética).

        As próprias doenças cuja natureza é basicamente mutações em algum gene, ou trissomias (como do cromossomo 21, no caso da Síndrome de Down), podem ter alguma relação multifatorial, em última análise, pois ter filhos muito velho pode aumentar as chances de ocorrer esse tipo de cenário.

  • Cássio Alexandre

    Minha contribuição ao texto e questionamento será limitado ao ponto “2- E quanto à invenção de transtornos?” colocado pelo autor.

    Eu sou farmacêutico e lido diariamente com pacientes e medicamentos. Atualmente em debate na área da saúde, sobretudo na área das ciências farmacêuticas, vem sendo discutido a questão da Medicalização da Vida. O que seria isso? Comportamentos humanos que outrora não se classificava em nenhum tipo de transtorno/distúrbio e atualmente vem sendo transformado em patologias. Trago alguns exemplos:

    1. Crianças que fazem muita birra sofrem de um distúrbio psiquiátrico recentemente descoberto, a chamada “desregulação do temperamento com disforia”.

    2. Adolescentes que apresentam de forma particular comportamentos extravagantes podem sofrer da “síndrome de risco psicótico”.

    3. Homens e mulheres que demonstram muito interesse por sexo, quer dizer, aqueles que têm fantasias, impulsos e comportamentos sexuais acima da temperança recomendada, muito provavelmente padecem do distúrbio psiquiátrico chamado “desordem hipersexual”.

    São três exemplos que tirei de um texto feito por Paulo Amarantes e Fernando Freitas publicado no site Centro Brasileiro de Estudos de Saúde – CEBES. Aos três exemplos cabe o questionamento: são de fato problemas? são de fato transtornos/distúrbios? não seria um processo de patologização de um comportamento humano natural? quem sai ganhando com isso?

    Também existem alguns textos e análises de especialistas na área que falam, por exemplo, que atualmente as pessoas são mais intolerantes aos problemas e sofrem mais por isso, e acham que não tem o direito de sentirem tristeza ou sofrerem em algum momento da vida, e para isso recorrem aos medicamentos para consegui lidar com o mundo real. Isso acaba por torna-se um lento processo de medicalização de uma situação que é natural da vida humana!

    O texto do CEBES faz críticas ao DSM-V justamente por isso, pois há muitos transtornos totalmente questionáveis e uma clara noção de que a cada edição tentam criar mais e mais transtornos com situações corriqueiras do dia a dia. A custo de quê?

    Abaixo deixo o link com o texto do CEBES
    • Psiquiatrização da vida e o DSM V: desafios para o início do século XXI: http://cebes.org.br/2012/03/psiquiatrizacao-da-vida-e-o-dsm-v-desafios-para-o-inicio-do-seculo-xxi/

  • Cássio Alexandre

    O Ano Zero sempre conseguindo fazer uma boa análise crítica dos assuntos que se propõe a falar. Porém, dessa vez, terei de deixar minha contribuição ao texto e meu questionamento será limitado ao ponto “2- E quanto à invenção de transtornos?” colocado pelo autor, pois é provável que eu não tenha entendido o que foi colocado.

    Eu sou farmacêutico e lido diariamente com pacientes e medicamentos. Atualmente em debate na área da saúde, sobretudo na área das ciências farmacêuticas, vem sendo discutido a questão da MEDICALIZAÇÃO DA VIDA. O que seria isso? Comportamentos humanos que outrora não se classificavam em nenhum tipo de transtorno/distúrbio e ao longo do tempo vem sendo transformado em patologias. Trago alguns exemplos:

    1. Crianças que fazem muita birra sofrem de um distúrbio psiquiátrico recentemente descoberto, a chamada “desregulação do temperamento com disforia”.

    2. Adolescentes que apresentam de forma particular comportamentos extravagantes podem sofrer da “síndrome de risco psicótico”.

    3. Homens e mulheres que demonstram muito interesse por sexo, quer dizer, aqueles que têm fantasias, impulsos e comportamentos sexuais acima da temperança recomendada, muito provavelmente padecem do distúrbio psiquiátrico chamado “desordem hipersexual”.

    São três exemplos que tirei de um texto feito por Paulo Amarantes e Fernando Freitas publicado no site do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde – CEBES. Aos três exemplos cabe o questionamento: são de fato problemas? são de fato transtornos/distúrbios? não seria um processo de patologização de um comportamento natural humano? quem sai ganhando com isso?

    Existem alguns textos e análises de especialistas na área que falam, por exemplo, que atualmente as pessoas são mais intolerantes aos problemas e sofrem mais por isso, achando que não tem o direito de sentirem tristeza ou sofrerem em algum momento da vida, e para isso recorrem aos medicamentos para conseguirem lidar com o mundo real. Isso acaba por tornar-se um lento processo de medicalização de uma situação que é natural da vida humana!

    O texto do CEBES faz críticas ao DSM-V justamente por isso, pois há muitos transtornos totalmente questionáveis e uma clara noção de que a cada edição tentam criar mais e mais transtornos com situações comportamentais corriqueiras do dia a dia. A custo de quê?

    Abaixo deixo o link com o texto do CEBES
    • Psiquiatrização da vida e o DSM V: desafios para o início do século XXI: http://cebes.org.br/2012/03/psiquiatrizacao-da-vida-e-o-dsm-v-desafios-para-o-inicio-do-seculo-xxi/

    No mais, grato por contribuir com o texto nessa área em específico.

    • Cara, valeu pelo comentário. Curti.

      Vamos por partes.

      Vc começa falando das críticas que, resumidamente, vou chamar de Críticas sobre a Medicalização da Vida.

      Sério, eu acho que essa crítica tá certa. É um questionamento conceitual e existencial que podemos fazer sobre as práticas médicas da sociedade, digamos assim. E, em parte, eu enunciei isso no texto, quando digo que o conceito de transtorno psicológico é…bom, um conceito. Faz parte de uma visão filosófica que parte do pressuposto de que algumas variações da multiplicidade de comportamentos humanos que existem não são apenas variações, mas são variações perigosas, patológicas, modificáveis (por remédios ou terapia psicológica).

      Ou seja, vc pode ser partidário de três posições aqui:

      (1) Qualquer patologização é indevida, é medicalização da vida.

      (2) Se o comportamento foge da curva normal e prejudica o indivíduo, causando sofrimento, podemos dizer que ele possui um transtorno catalogado, o que torna esse quadro passível de tratamento e de comunicação pelos outros médicos (tendo em vista que de agora em diante todo paciente que tiver esses mesmos sintomas será tratado como portador de tal transtorno).

      (3) Calma, podemos usar esse artifício do “transtorno”, mas com moderação; não precisamos catalogar toda variação como transtorno passível de tratamento.

      Eu acho que tendo mais pra posição 3, mais moderada. Realmente acho que é muito fácil rolar exageros desnecessários. Então, sim, temos que tomar cuidado com a medicalização da vida.

      Ao mesmo tempo, sim, tenho que concordar com a crítica de que as pessoas estão cada vez mais acostumadas com a lógica “estou me sentindo triste, quero um remédio”, quando na verdade a tristeza em si não tem nada de patológica.

      Mas isso é uma cultura que se está criando, que é alheia à medicina em si. Mas, ao mesmo tempo, isso influencia na prática dos psiquiatras.

      Ainda assim, o problema é a cultura que se está criando fora da medicina, não a medicina em si ou a ideia de que podemos considerar comportamentos patológicos e outros não. Entende?

      Tipo, eu posso começar a tomar antibióticos por conta própria e criar uma superbactéria imune ao antibiótico. Mas isso não é uma prova de que tem algo errado com o remédio ou com a medicina que o prescreve. O problema é o entendimento popular que se tem da coisa.

      Ainda não li o texto que vc linkou, to meio sem tempo. Se quiser comentar de novo me contando mais sobre ele, prometo que leio e te respondo haha.

      Mas a minha questão permanece, Cássio. De qualquer forma, as ligações feitas entre criação de transtornos e qualquer intenção maliciosa unicamente motivada pelo lucro não é provada por dados, mas por conclusões baseadas em coisas supostamente óbvias.

      O meu problema com esse raciocínio é que a estrutura usada é praticamente a mesma usada na formulação de qualquer teoria conspiracionista. Se eu simplesmente assumir que esse link está correto, tenho que passar a assumir como correto o de outras teorias com o mesmo formato conspirador. E isso seria um problema.