indústria farmacêutica e psiquiatria

4 falácias sobre a psiquiatria e a indústria farmacêutica

Em Ciência, Consciência por Felipe NovaesComentários

Cada época elege seu objeto favo­rito de expurgo.

As crí­ti­cas e ape­dre­ja­men­tos ver­bais podem até ter o mérito de tocar em algum ponto que pre­cisa ser melhor ana­li­sado, mas sem­pre, no final das con­tas, trans­for­mam-se em exem­plos da falá­cia do espan­ta­lho.

espantalho assustador

Espan­ta­lhos são sem­pre assus­ta­do­res.

É o caso das crí­ti­cas à indús­tria far­ma­cêu­tica e a alguns trans­tor­nos men­tais, como o TDAH.

Não vou negar que exista, apa­ren­te­mente, uma epi­de­mia de diag­nós­ti­cos.

Os psi­qui­a­tras podem estar sendo des­cui­da­dos com seu tra­ba­lho. Rea­li­zam con­sul­tas em pou­cos minu­tos, o sufi­ci­ente ape­nas para ouvir uma lista obje­tiva de cri­té­rios e ofe­re­cer um diag­nós­tico ou uma receita.

É como se os cur­sos de medi­cina esti­ves­sem for­mando aten­den­tes do Spo­leto.

Hannibal e seu apetite

Meu médico disse: “Han­ni­bal, você não tem pro­blema algum, só tem um ape­tite dife­ren­ci­ado.“‘

E quando digo medi­cina, não psi­qui­a­tria, não é por acaso. Uma das últi­mas vezes que fui a um clí­nico geral, sabendo da impa­ci­ên­cia habi­tual des­ses pro­fis­si­o­nais, ten­tei des­cre­ver rápido os sin­to­mas.

Antes de ter­mi­nar, o cara já estava me inter­rom­pendo e enfi­ando nas minhas mãos uma receita e ao mesmo tempo levan­tando da cadeira e me acom­pa­nhando até a porta.

Por­tanto, o pro­blema não se res­tringe a psi­qui­a­tras. Mas eles são os esco­lhi­dos para pro­ta­go­ni­zar algu­mas con­ver­sas de bar, con­ver­sas nada elo­gi­o­sas.

É meio depri­mente, mas no ambi­ente uni­ver­si­tá­rio, na grande mai­o­ria das vezes, o debate não é mais apro­fun­dado do que seria nes­ses encon­tros rega­dos por álcool.

A mai­o­ria das crí­ti­cas se repete ente­di­an­te­mente. Toda aula é a mesma epi­fa­nia sobre como a busca por lucro explica o uni­verso e tudo o mais.

Depois de pas­sar anos ouvindo os mes­mos argu­men­tos, me sinto no direito de citar uma lista das falas mais man­ja­das e ofe­re­cer a res­posta que con­si­dero mais ade­quada para cada uma delas.

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1- A indústria farmacêutica tem um lucro absurdo, o que prova que os transtornos são inventados.

É óbvio que, se uma empresa ganha dinheiro ven­dendo remé­dios, seu lucro aumen­tará caso haja mais doen­ças cata­lo­ga­das, pois mais pes­soas usa­rão seus medi­ca­men­tos.

Mas onde está o salto expli­ca­tivo e as evi­dên­cias que mos­tram que isso não é mera cor­re­la­ção?

A rela­ção entre essas duas variá­veis não mos­tra auto­ma­ti­ca­mente que alguém está pro­po­si­tal­mente inven­tando trans­tor­nos para lucrar.

O lucro pode sim­ples­mente ser uma con­sequên­cia do fato de que exis­tem mesmo mui­tas con­di­ções “medi­ca­li­zá­veis”.

Essa falá­cia é, às vezes, defen­dida pela medi­cina alter­na­tiva, como se os tera­peu­tas alter­na­ti­vos esti­ves­sem dizendo: “trate-se com a gente, não esta­mos inte­res­sa­dos em lucro, mas na sua feli­ci­dade”.

Mas home­o­pa­tas não lucram?

Os psi­có­lo­gos mais pós-moder­nos embar­cam na onda, como se o psi­có­logo pres­tasse algum ser­viço mes­si­â­nico à popu­la­ção. O médico é o único que quer seu dinheiro, nobre paci­ente.

 

2- E quanto à invenção de transtornos?

Isso me deixa con­fuso. O que quer dizer “inven­tar” um trans­torno”? O oposto disso seria “encon­trar” um trans­torno.

Tec­ni­ca­mente, falar de “inven­ção” não é bem uma crí­tica, mas uma cons­ta­ta­ção — a não ser que se tome a posi­ção extrema do ins­tru­men­ta­lismo quanto à capa­ci­dade das teo­rias cien­tí­fi­cas des­cre­ve­rem a rea­li­dade com algum grau de efi­ci­ên­cia.

Um trans­torno é um modelo teó­rico que conta com evi­dên­cias de que algu­mas pes­soas pos­suem um “fun­ci­o­na­mento men­tal” dife­rente, o que causa pre­juí­zos em suas vidas.

A causa não é clara, mas se tem geral­mente uma lista de variá­veis cor­re­la­ci­o­na­das, sejam elas feno­me­no­ló­gi­cas, neu­ro­bi­o­ló­gi­cas, cog­ni­ti­vas e até gené­ti­cas.

O que difere essen­ci­al­mente um trans­torno de uma doença, é isso.

A doença tem um agente eti­o­ló­gico claro. Sabe­mos que ela foi cau­sada por vírus ou bac­té­ria, por exem­plo.

Um trans­torno psi­co­ló­gico, por sua vez, cor­re­la­ci­ona-se com variá­veis ambi­en­tais, indi­vi­du­ais, expe­ri­en­ci­ais, orgâ­ni­cas, mas não se tem um con­senso claro sobre qual des­sas esfe­ras CAUSA o pro­blema.

Pode ser uma delas, duas ou todas inte­ra­gindo ao mesmo tempo.

Nesse sen­tido é que um trans­torno é “inven­tado”.

Nós, psi­có­lo­gos, psi­ca­na­lis­tas e pes­qui­sa­do­res par­ti­mos de um pres­su­posto filo­só­fico: o de que exis­tem com­por­ta­men­tos pato­ló­gi­cos e não mera­mente diver­gen­tes de uma média.

A par­tir daí, tes­ta­mos teo­rias e jun­ta­mos evi­dên­cias que mos­trem um fun­ci­o­na­mento diver­gente do fun­ci­o­na­mento da norma esta­tís­tica e do des­vio padrão.

Um exem­plo bem ilus­tra­tivo é o autismo. Mui­tas pes­soas, incluindo autis­tas, lutam para que sua con­di­ção seja reco­nhe­cida como ape­nas um estilo dife­rente de ser no mundo, ou um estilo cog­ni­tivo dis­tinto do da mai­o­ria.

Essa é uma dis­cus­são muito mais con­cei­tual do que cien­tí­fica, pois esti­los cog­ni­ti­vos dis­cre­pan­tes da curva nor­mal tam­bém tem a ver com uma estru­tura neu­ro­bi­o­ló­gica dife­rente.

Ou seja, exis­tem evi­dên­cias de que o qua­dro é diverso da curva nor­mal — o pro­blema filo­só­fico é como deve­mos enten­der esses qua­dros.

Outro trans­torno que padece desse dilema é o TDAH.

 

3- O TDAH é uma fraude. Ele não existia antes dos anos 90.

É para a con­fu­são de alguns que informo que, de certa forma, elé­trons tam­bém não exis­tiam antes do século XX, tam­pouco o vírus da gripe.

Isso é ao menos ver­dade em ter­mos de um cons­truto claro inte­grando uma teo­ria for­mal da física e da bio­lo­gia.

No entanto, isso obvi­a­mente se deduz hoje, dadas as evi­dên­cias — a não ser que você seja um filó­sofo cha­mado Paul Feye­ra­bend.

Paul Feyerabend

Meu nome é Feye­ra­bend e eu não acre­dito na razão — nem em máqui­nas digi­tais.

É pre­ciso ser dito tam­bém que o TDAH é um trans­torno com evi­dên­cias ampa­rando seu diag­nós­tico. Inclu­sive, essas mes­mas evi­dên­cias mos­tram que não só medi­ca­men­tos podem con­tro­lar os sin­to­mas, mas tera­pias não far­ma­co­ló­gi­cas tam­bém.

 

4- A sociedade de consumo, desatenta, rápida e superficial, está causando o TDAH

Como disse antes, quando se trata de trans­tor­nos psi­co­ló­gi­cos, é muito difí­cil bater o mar­telo e falar de uma causa.

Em se tra­tando de com­por­ta­mento humano, sem­pre exis­tem múl­ti­plos fato­res a serem con­si­de­ra­dos.

É pos­sí­vel, por­tanto, que o ambi­ente tenha algum papel no sur­gi­mento de um trans­torno numa dada popu­la­ção. Um con­texto regido por valo­res que em nada tem a ver com o cul­tivo de aten­ção con­cen­trada pode acos­tu­mar mal as pes­soas.

Nesse sen­tido, pode­mos ser mol­da­dos para res­pon­der a essas novas deman­das (lem­bre-se de que nosso cére­bro é plás­tico, muito sus­ce­tí­vel ao apren­di­zado).

Assim como a prá­tica da medi­ta­ção pode ter impac­tos posi­ti­vos sobre a aten­ção e sobre trans­tor­nos, cons­tan­tes inputs de uma soci­e­dade que fun­ci­ona de certo modo podem tam­bém levar a resul­ta­dos dano­sos sobre essa capa­ci­dade aten­ci­o­nal.

grupo budista

Estu­dos indi­cam que medi­ta­ção pode ter os mes­mos efei­tos ou ser ainda melhor que medi­ca­men­tos, para alguns trans­tor­nos.

Tam­bém pode­ría­mos levar em conta pos­sí­veis pre­dis­po­si­ções gené­ti­cas, que seriam enga­ti­lha­das ou ini­bi­das por esses inputs con­tex­tu­ais.

Por­tanto, eu não seria tão radi­cal em dizer que o ambi­ente está “cau­sando” o TDAH, mas cer­ta­mente o ambi­ente pode ter influên­cia sobre sua expres­são.

Ainda assim, isso nada tem a ver com os medi­ca­men­tos serem mais ou menos efi­ca­zes em seu tra­ta­mento. Nin­guém nasce com trans­torno de estresse pós-trau­má­tico, mas cla­ra­mente medi­ca­men­tos e tera­pia têm papel tera­pêu­tico.

 

Culpados ou inocentes?

A ver­dade é que temos dois lobos inter­nos, um lutando para que faça­mos algo por amor e pelo sim­ples pra­zer de aju­dar, e outro que­rendo que tenha­mos sucesso finan­ceiro.

Nenhum dos dois é con­de­ná­vel.

Vive­mos numa soci­e­dade capi­ta­lista. Não faz muito sen­tido resi­dir numa área nobre do Rio de Janeiro, ir de Fer­rari para a uni­ver­si­dade pública, almo­çar no res­tau­rante uni­ver­si­tá­rio e ficar osten­tando uma cami­seta impor­tada com estampa refor­çada do Che Gue­vara — a não ser que seus sím­bo­los tenham sido ree­di­ta­dos.

O lucro não é a raiz de todo mal, para­fra­se­ando aqui o título exa­ge­rado de um docu­men­tá­rio do Richard Daw­kins. Mas isso não quer dizer absol­vi­ção de todos os peca­dos.

Tam­bém já é hora de dar um fim ao mani­queísmo ama­dor de “bio­ló­gico ver­sus ambi­en­tal”. Um não anula o outro.

O ambi­ente pode sim atuar como gati­lho para a expres­são de pre­dis­po­si­ções codi­fi­ca­das gene­ti­ca­mente. Por outro lado, uma soci­e­dade que fun­ci­ona com base na desa­ten­ção pode nos mol­dar para ter­mos mais difi­cul­dade em pres­tar aten­ção, ter foco.

Isso tam­bém não exclui o fato de esse ambi­ente estar deter­mi­nando alguma coisa em nosso sis­tema ner­voso.


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Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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