Desenho de uma constelação de livros.

3 Livros que ampliarão sua percepção da realidade

Em Consciência, Literatura por Felipe NovaesComentário

(…) Cada camada deve ser cui­da­do­sa­mente empi­lhada sobre a ante­rior para evi­tar vãos. O que difi­culta muito essa ope­ra­ção é o fato de real­mente haver mui­tos vãos.”
~ Bruno Latour — Ciên­cia em Ação (p.75)


Analisar intelectualmente é como descascar cebolas

O termo bibli­o­fi­lia vem do grego biblion, que sig­ni­fica livro, e de phi­lia, amor. Agora, ana­lise outro caso. A allium cepa, tam­bém conhe­cida como cebola, é uma planta que recebe esse nome por per­ten­cer à famí­lia das Alli­a­ceae. O termo vem da estru­tura de suas folhas esca­mi­for­mes, da divi­são em cama­das, todas apa­ren­te­mente orga­ni­za­das, uma depois da outra.

É fácil per­ce­ber que cada pala­vra da lin­gua­gem cor­rente tem uma his­tó­ria. O sig­ni­fi­cado de uma pala­vra, a his­tó­ria de sua inven­ção, a vari­a­ção dos sig­ni­fi­cado atri­buí­dos a ela e seu estudo eti­mo­ló­gico são todos repre­sen­tan­tes de esfe­ras de aná­lise sobre um mesmo objeto.

Esfe­ras de aná­lise não reque­rem exclu­são, e isso é uma con­fu­são muito comum que se comete. Falar da his­tó­ria da bibli­o­fi­lia ou da bibli­o­ma­nia não implica em excluir a aná­lise eti­mo­ló­gica des­ses ter­mos, por exem­plo.

É, ver­da­dei­ra­mente, como uma cebola, a allium cepa. Assim como nesse ali­mento, na ana­lise de tudo que nos cerca, o que pro­pi­cia o termo “camada” para falar das esfe­ras de aná­lise é jus­ta­mente a inter­de­pen­dên­cia entre elas.

Não excluí­mos uma em detri­mento da outra. Entre­tanto, insis­ti­mos em amon­toar essas cama­das, desor­ga­ni­zando o dis­curso e mui­tas vezes detur­pando o objeto. 

Como biblió­filo, ler é uma das coi­sas que mais gosto de fazer. E essa é uma ati­vi­dade em que basi­ca­mente apren­de­mos a des­mon­tar o que antes estava inteiro — ou, con­ti­nu­ando a metá­fora ante­rior, apren­de­mos a sus­pen­der as cama­das para vê-las em pers­pec­tiva.

É como se nos espe­ci­a­li­zás­se­mos em des­cas­car cebo­las ima­gi­ná­rias. Em outras pala­vras, a rea­li­dade passa a não ser mais uma expe­ri­ên­cia cris­ta­li­zada, onde rei­nam o “é assim mesmo”, o “se con­forme”.

Nos tor­na­mos mais fle­xí­veis e mais esper­tos para enten­der as linhas de cau­sa­li­dade e influên­cias que resul­tam nos acon­te­ci­men­tos.

Em 2015 tive con­tato com mui­tos seto­res da lite­ra­tura, de livros aca­dê­mi­cos mais téc­ni­cos a obras clás­si­cas da fic­ção cien­tí­fica. Essa mis­tura de gêne­ros pro­por­ci­o­nou a refle­xão sobre os limi­tes da tec­no­lo­gia, da influên­cia da ciên­cia em nos­sas vidas e em nosso futuro, ou no ques­ti­o­na­mento da pró­pria rea­li­dade como a conhe­ce­mos.

Com frequên­cia a fic­ção cien­tí­fica faz isso, ape­sar de ser comu­mente con­si­de­rada só um monte de his­tó­rias sobre robôs e ali­ens. Ao con­trá­rio, for­ta­leci o que já vinha apren­dendo sobre a psi­co­lo­gia ser bem mais ampla do que nossa vã filo­so­fia do senso comum sus­pei­tava, e vi que a robó­tica pode estar bem mais pró­xima da psi­co­lo­gia do que parece.

 

Brainstorms, de Daniel Dennet

dennet livros brainstorms

Logo no iní­cio do ano li Brains­torms, do filó­sofo Daniel Den­nett.

É um livro com bas­tante espes­sura, tal­vez um pouco com­pli­cado para quem não entende de filo­so­fia ana­lí­tica em geral — e, mais espe­ci­fi­ca­mente, de Filo­so­fia da Mente, uma área um tanto temida até por filó­so­fos.

O livro trata sobre os dile­mas con­cei­tu­ais mais cabe­lu­dos da psi­co­lo­gia, e acaba esbar­rando tam­bém em ques­tões rela­ci­o­na­das à inte­li­gên­cia arti­fi­cial (IA).

Um dos pon­tos mais mar­te­la­dos no texto fala sobre até que ponto pode­mos dizer que os ter­mos da psi­co­lo­gia do senso comum real­mente exis­tem como fenô­me­nos no mundo, ou se são meras fic­ções que a gente uti­liza no dia-a-dia para faci­li­tar a comu­ni­ca­ção.

Um dia des­ses estava tendo uma dis­cus­são calo­rosa com dois ami­gos. Um deles dizia que excluir a conta do Face­book era falta de força de von­tade para dei­xar a conta ati­vada e sim­ples­mente apren­der a se con­tro­lar e não entrar toda hora na rede social.

Em deter­mi­nado momento ques­ti­o­nei se real­mente existe algo como “força de von­tade” ou se a gente usa essa expres­são para fazer refe­rên­cia a vários atri­bu­tos psi­co­ló­gi­cos dis­tin­tos (auto-efi­cá­cia, auto-con­trole, capa­ci­dade de adiar recom­pen­sas etc), algo como um guarda-chuva que abriga várias pes­soas embaixo.

Esses peque­nos cons­tru­tos, por sua vez, pode­riam ser con­si­de­ra­dos como coi­sas real­mente exis­ten­tes? Seriam eles, por sua vez, redu­zi­dos ao fun­ci­o­na­mento cere­bral?

Veja, por exem­plo, o caso de um mecâ­nico olhando o motor pifado do seu carro e dizendo que ele não quer enga­tar. Moto­res têm von­tade pró­pria? Claro que não, mas todo mundo entende o que o mecâ­nico quer dizer, mesmo ele atri­buindo uma pro­pri­e­dade ine­xis­tente a essa máquina. Por­tanto, a von­tade do motor seria uma fic­ção útil.

É nesse sen­tido que tam­bém é tra­vado o debate sobre a IA.

Para que seja pos­sí­vel, ao menos teo­ri­ca­mente, cons­truir com­pu­ta­do­res que sejam tão inte­li­gen­tes quanto nós, pre­ci­sa­mos do pres­su­posto de que emo­ções, von­ta­des e todos esses atri­bu­tos que con­fe­rem nossa sin­gu­la­ri­dade humana, pos­sam ser cri­a­dos sim­ples­mente inven­tando máqui­nas que fun­ci­o­nem como nosso cére­bro — o órgão que supos­ta­mente faz coi­sas orgâ­ni­cas que tra­du­zi­mos para voca­bu­lá­rio men­ta­lista.

brainstorms dennet link afiliado

Só que isso pode­ria sig­ni­fi­car tam­bém que nos­sos dese­jos, nossa cons­ci­ên­cia e nosso livre-arbí­trio seriam tam­bém ape­nas fic­ções úteis que cri­a­mos para des­cre­ver facil­mente o com­por­ta­mento de todo o sis­tema, diga­mos assim — não pode­mos atri­buir dese­jos ou inten­ções ao cére­bro, mas ao com­por­ta­mento glo­bal de todo orga­nismo.

A expli­ca­ção mais rea­lista, ape­sar de não muito prag­má­tica, sem­pre pas­sa­ria por des­cri­ções neu­ro­ló­gi­cas, ao invés de falar­mos de cons­tru­tos psi­co­ló­gi­cos.

Se sen­tir­mos medo, o que ocorre é que na ver­dade certo cir­cuito cere­bral esta­ria ati­vado, sendo o medo um efeito cola­te­ral atri­buído por nós mes­mos ao fun­ci­o­na­mento do orga­nismo como um todo.

Pode pare­cer, mas isso não é fic­ção cien­tí­fica, é filo­so­fia mesmo. A linha entre rea­li­dade e fic­ção às vezes é bem tênue, ainda mais quando ambas se pro­põem a ques­ti­o­nar a natu­reza da rea­li­dade.

 

O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick

pkd livros

E falando em fic­ção cien­tí­fica, final­mente li um dos mai­o­res clás­si­cos do gênero: O Homem do Cas­telo Alto.

O livro foi escrito por Phi­lip K. Dick, que ficou famoso por ques­ti­o­nar a natu­reza da rea­li­dade.

Nessa obra, o autor nos apre­senta um uni­verso para­lelo no qual o Eixo ganhou a Segunda Guerra Mun­dial. Isso teria levado os Esta­dos Uni­dos a serem divi­di­dos entre Japão e Ale­ma­nha.

Assim, temos a explo­ra­ção de um futuro alter­na­tivo, sem a vitó­ria dos Ali­a­dos. Em ter­mos his­tó­ri­cos, a vitó­ria de um lado ou do outro tem o poten­cial de criar todo um novo mundo, lite­ral­mente.

Segundo Dick, um mundo divi­dido entre ale­mães e nipô­ni­cos se reve­sa­ria entre uma eti­queta japo­nesa angus­ti­an­te­mente ritu­a­li­zada e fina, e o ego dos nazis­tas, cren­tes de que seriam uma raça pura, des­cen­dente de deu­ses nór­di­cos. E, ape­sar de ali­a­dos na guerra, ambos os povos se hos­ti­li­za­riam.

Os japo­ne­ses odi­a­riam a gros­se­ria e falta de refi­na­mento ale­mães, e esses teriam inveja da edu­ca­ção japo­nesa. Tudo isso numa panela de pres­são pres­tes a explo­dir.

Os ame­ri­ca­nos, por outro lado, seriam como os peque­nos mamí­fe­ros do final do período Cre­tá­ceo: con­vi­viam com os pode­ro­sos dinos­sau­ros, mas eram igno­ra­dos por eles; sua par­ti­ci­pa­ção naquele ecos­sis­tema seria pra­ti­ca­mente dis­pen­sá­vel à pri­meira vista, não ser­vindo nem como comida para os gigan­tes jurássicos.c

o homem do castelo alto link afiliado

É ater­ra­dor, mas isso pode­ria real­mente ter acon­te­cido. O fato é que, com cer­teza, tería­mos um mundo bem dife­rente sem o empur­rão­zi­nho da URSS e da Ingla­terra na vitó­ria dessa guerra.

É por isso que a fic­ção cien­tí­fica é tão pode­rosa. Pode­mos espe­cu­lar e ainda assim man­te­mos um dos pés fir­mes na som­bra da rea­li­dade.

Às vezes, fica até com­pli­cado defi­nir o que exa­ta­mente é fic­ção cien­tí­fica e até que ponto ela não pode rom­per o selo da fic­ção e se tor­nar rea­li­dade.

 

Ficção Científica, de Raul Fiker

scifi livros

Raul Fiker aumenta nos­sos hori­zon­tes falando das prin­ci­pais obras de fic­ção cien­tí­fica e ten­tando demar­car con­cei­tu­al­mente o gênero.

Exis­tem alguns livros que se enqua­dram ine­qui­vo­ca­mente no gênero, mas, tam­bém (o que me sur­pre­en­deu bas­tante) exis­tia certa espe­cu­la­ção sobre se algu­mas obras de Tol­kien e Edgar Allan Poe tam­bém não esta­riam nesse bojo.

Ora, todos conhe­cem esses auto­res por clás­si­cos da fan­ta­sia e hor­ror, res­pec­ti­va­mente, mas são jus­ta­mente essas con­tro­vér­sias con­cei­tu­ais sobre o que é exa­ta­mente a fic­ção cien­tí­fica que (ao menos na época em que Fiker escre­veu o livro) per­mi­ti­ram essas con­tro­vér­sias.

Algu­mas defi­ni­ções esta­be­le­cem que qual­quer his­tó­ria que se passe num uni­verso para­lelo seria fic­ção cien­tí­fica, ainda que numa ver­são modi­fi­cada do nosso mundo ou em um pas­sado mui­tís­simo dis­tante (que cor­res­ponda às teo­rias cien­tí­fi­cas mais acei­tas ou não).

Isso tor­na­ria uma pos­si­bi­li­dade clas­si­fi­car como fic­ção cien­tí­fica todas as his­tó­rias que se pas­sam na Terra Média ou que cogi­tam uma supra-rea­li­dade, com deu­ses con­fun­di­dos com seres ali­e­ní­ge­nas ou vice-versa, como se fizes­sem mesmo parte do gênero.

Par­ti­cu­lar­mente, acho esse cri­té­rio frouxo demais, mas foi bas­tante inte­res­sante saber que pode­ria não exis­tir uma una­ni­mi­dade mesmo entre espe­ci­a­lis­tas, e que, dis­cor­dando ou não deles, todos pare­cem ter jus­ti­fi­ca­ti­vas razoá­veis.

Aliás, é esse tipo de con­tro­vér­sia que faz Star Wars ainda ser con­si­de­rado fic­ção cien­tí­fica em alguns nichos, ape­sar des­ses defen­so­res esta­rem em bem menor número.

Essas con­tro­vér­sias só enri­que­cem a fic­ção cien­tí­fica e a fan­ta­sia. No pro­cesso de ten­tar defi­nir os ter­mos, aca­ba­mos ampli­ando nossa visão sobre o que sig­ni­fica exa­ta­mente uma obra estar em tal grupo temá­tico.

ficção científica raul fiker link afiliado

Isso é tam­bém o que aca­ba­mos por fazer lendo as mais ins­ti­gan­tes obras de Phi­lip K. Dick.

Esse é parte do lugar que a filo­so­fia ocupa, seja apli­cada às ques­tões onto­ló­gi­cas e meta­fí­si­cas, seja à dis­cus­são sobre as pos­si­bi­li­da­des de se criar com­pu­ta­do­res cons­ci­en­tes, ou sobre se o pró­prio ser humano no fundo tem algo cha­mado cons­ci­ên­cia ou se isso está tão ultra­pas­sado quanto o flo­gisto estava para expli­car a com­bus­tão.

Pode­mos não sair com uma res­posta pronta, mas cer­ta­mente subi­re­mos mais um pouco na esca­lada do inte­lecto. E no fundo, é como a cita­ção que inau­gura este texto.

Qual­quer assunto ade­qua­da­mente apro­fun­dado reve­lará múl­ti­plas cama­das que vão sendo reti­ra­das e colo­ca­das em pers­pec­tiva. E o que torna essa tarefa par­ti­cu­lar­mente ins­ti­gante e ili­mi­tada é que sem­pre haverá espa­ços entre essas cama­das empi­lha­das.

Elas nunca se ajus­ta­rão bem o sufi­ci­ente a ponto de fica­rem encai­xa­das para sem­pre, sem que nin­guém ache neces­sá­rio des­mon­tar as peças e ver do que aquela estru­tura apa­ren­te­mente mono­lí­tica é for­mada.


Contribua com a continuidade de Ano Zero, clique aqui.

Você pode que­rer ler tam­bém:

Livros, fil­mes, séries e como apro­vei­tar 2015
A Revo­lu­ção da Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial

Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

Compartilhe