“(…) Cada camada deve ser cuidadosamente empilhada sobre a anterior para evitar vãos. O que dificulta muito essa operação é o fato de realmente haver muitos vãos.”
~ Bruno Latour – Ciência em Ação (p.75)


Analisar intelectualmente é como descascar cebolas

O termo bibliofilia vem do grego biblion, que significa livro, e de philia, amor. Agora, analise outro caso. A allium cepa, também conhecida como cebola, é uma planta que recebe esse nome por pertencer à família das Alliaceae. O termo vem da estrutura de suas folhas escamiformes, da divisão em camadas, todas aparentemente organizadas, uma depois da outra.

É fácil perceber que cada palavra da linguagem corrente tem uma história. O significado de uma palavra, a história de sua invenção, a variação dos significado atribuídos a ela e seu estudo etimológico são todos representantes de esferas de análise sobre um mesmo objeto.

Esferas de análise não requerem exclusão, e isso é uma confusão muito comum que se comete. Falar da história da bibliofilia ou da bibliomania não implica em excluir a análise etimológica desses termos, por exemplo.

É, verdadeiramente, como uma cebola, a allium cepa. Assim como nesse alimento, na analise de tudo que nos cerca, o que propicia o termo “camada” para falar das esferas de análise é justamente a interdependência entre elas.

Não excluímos uma em detrimento da outra. Entretanto, insistimos em amontoar essas camadas, desorganizando o discurso e muitas vezes deturpando o objeto.

Como bibliófilo, ler é uma das coisas que mais gosto de fazer. E essa é uma atividade em que basicamente aprendemos a desmontar o que antes estava inteiro – ou, continuando a metáfora anterior, aprendemos a suspender as camadas para vê-las em perspectiva.

É como se nos especializássemos em descascar cebolas imaginárias. Em outras palavras, a realidade passa a não ser mais uma experiência cristalizada, onde reinam o “é assim mesmo”, o “se conforme”.

Nos tornamos mais flexíveis e mais espertos para entender as linhas de causalidade e influências que resultam nos acontecimentos.

Em 2015 tive contato com muitos setores da literatura, de livros acadêmicos mais técnicos a obras clássicas da ficção científica. Essa mistura de gêneros proporcionou a reflexão sobre os limites da tecnologia, da influência da ciência em nossas vidas e em nosso futuro, ou no questionamento da própria realidade como a conhecemos.

Com frequência a ficção científica faz isso, apesar de ser comumente considerada só um monte de histórias sobre robôs e aliens. Ao contrário, fortaleci o que já vinha aprendendo sobre a psicologia ser bem mais ampla do que nossa vã filosofia do senso comum suspeitava, e vi que a robótica pode estar bem mais próxima da psicologia do que parece.

 

Brainstorms, de Daniel Dennet

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Logo no início do ano li Brainstorms, do filósofo Daniel Dennett.

É um livro com bastante espessura, talvez um pouco complicado para quem não entende de filosofia analítica em geral – e, mais especificamente, de Filosofia da Mente, uma área um tanto temida até por filósofos.

O livro trata sobre os dilemas conceituais mais cabeludos da psicologia, e acaba esbarrando também em questões relacionadas à inteligência artificial (IA).

Um dos pontos mais martelados no texto fala sobre até que ponto podemos dizer que os termos da psicologia do senso comum realmente existem como fenômenos no mundo, ou se são meras ficções que a gente utiliza no dia-a-dia para facilitar a comunicação.

Um dia desses estava tendo uma discussão calorosa com dois amigos. Um deles dizia que excluir a conta do Facebook era falta de força de vontade para deixar a conta ativada e simplesmente aprender a se controlar e não entrar toda hora na rede social.

Em determinado momento questionei se realmente existe algo como “força de vontade” ou se a gente usa essa expressão para fazer referência a vários atributos psicológicos distintos (auto-eficácia, auto-controle, capacidade de adiar recompensas etc), algo como um guarda-chuva que abriga várias pessoas embaixo.

Esses pequenos construtos, por sua vez, poderiam ser considerados como coisas realmente existentes? Seriam eles, por sua vez, reduzidos ao funcionamento cerebral?

Veja, por exemplo, o caso de um mecânico olhando o motor pifado do seu carro e dizendo que ele não quer engatar. Motores têm vontade própria? Claro que não, mas todo mundo entende o que o mecânico quer dizer, mesmo ele atribuindo uma propriedade inexistente a essa máquina. Portanto, a vontade do motor seria uma ficção útil.

É nesse sentido que também é travado o debate sobre a IA.

Para que seja possível, ao menos teoricamente, construir computadores que sejam tão inteligentes quanto nós, precisamos do pressuposto de que emoções, vontades e todos esses atributos que conferem nossa singularidade humana, possam ser criados simplesmente inventando máquinas que funcionem como nosso cérebro – o órgão que supostamente faz coisas orgânicas que traduzimos para vocabulário mentalista.

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Só que isso poderia significar também que nossos desejos, nossa consciência e nosso livre-arbítrio seriam também apenas ficções úteis que criamos para descrever facilmente o comportamento de todo o sistema, digamos assim – não podemos atribuir desejos ou intenções ao cérebro, mas ao comportamento global de todo organismo.

A explicação mais realista, apesar de não muito pragmática, sempre passaria por descrições neurológicas, ao invés de falarmos de construtos psicológicos.

Se sentirmos medo, o que ocorre é que na verdade certo circuito cerebral estaria ativado, sendo o medo um efeito colateral atribuído por nós mesmos ao funcionamento do organismo como um todo.

Pode parecer, mas isso não é ficção científica, é filosofia mesmo. A linha entre realidade e ficção às vezes é bem tênue, ainda mais quando ambas se propõem a questionar a natureza da realidade.

 

O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick

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E falando em ficção científica, finalmente li um dos maiores clássicos do gênero: O Homem do Castelo Alto.

O livro foi escrito por Philip K. Dick, que ficou famoso por questionar a natureza da realidade.

Nessa obra, o autor nos apresenta um universo paralelo no qual o Eixo ganhou a Segunda Guerra Mundial. Isso teria levado os Estados Unidos a serem divididos entre Japão e Alemanha.

Assim, temos a exploração de um futuro alternativo, sem a vitória dos Aliados. Em termos históricos, a vitória de um lado ou do outro tem o potencial de criar todo um novo mundo, literalmente.

Segundo Dick, um mundo dividido entre alemães e nipônicos se revesaria entre uma etiqueta japonesa angustiantemente ritualizada e fina, e o ego dos nazistas, crentes de que seriam uma raça pura, descendente de deuses nórdicos. E, apesar de aliados na guerra, ambos os povos se hostilizariam.

Os japoneses odiariam a grosseria e falta de refinamento alemães, e esses teriam inveja da educação japonesa. Tudo isso numa panela de pressão prestes a explodir.

Os americanos, por outro lado, seriam como os pequenos mamíferos do final do período Cretáceo: conviviam com os poderosos dinossauros, mas eram ignorados por eles; sua participação naquele ecossistema seria praticamente dispensável à primeira vista, não servindo nem como comida para os gigantes jurássicos.c

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É aterrador, mas isso poderia realmente ter acontecido. O fato é que, com certeza, teríamos um mundo bem diferente sem o empurrãozinho da URSS e da Inglaterra na vitória dessa guerra.

É por isso que a ficção científica é tão poderosa. Podemos especular e ainda assim mantemos um dos pés firmes na sombra da realidade.

Às vezes, fica até complicado definir o que exatamente é ficção científica e até que ponto ela não pode romper o selo da ficção e se tornar realidade.

 

Ficção Científica, de Raul Fiker

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Raul Fiker aumenta nossos horizontes falando das principais obras de ficção científica e tentando demarcar conceitualmente o gênero.

Existem alguns livros que se enquadram inequivocamente no gênero, mas, também (o que me surpreendeu bastante) existia certa especulação sobre se algumas obras de Tolkien e Edgar Allan Poe também não estariam nesse bojo.

Ora, todos conhecem esses autores por clássicos da fantasia e horror, respectivamente, mas são justamente essas controvérsias conceituais sobre o que é exatamente a ficção científica que (ao menos na época em que Fiker escreveu o livro) permitiram essas controvérsias.

Algumas definições estabelecem que qualquer história que se passe num universo paralelo seria ficção científica, ainda que numa versão modificada do nosso mundo ou em um passado muitíssimo distante (que corresponda às teorias científicas mais aceitas ou não).

Isso tornaria uma possibilidade classificar como ficção científica todas as histórias que se passam na Terra Média ou que cogitam uma supra-realidade, com deuses confundidos com seres alienígenas ou vice-versa, como se fizessem mesmo parte do gênero.

Particularmente, acho esse critério frouxo demais, mas foi bastante interessante saber que poderia não existir uma unanimidade mesmo entre especialistas, e que, discordando ou não deles, todos parecem ter justificativas razoáveis.

Aliás, é esse tipo de controvérsia que faz Star Wars ainda ser considerado ficção científica em alguns nichos, apesar desses defensores estarem em bem menor número.

Essas controvérsias só enriquecem a ficção científica e a fantasia. No processo de tentar definir os termos, acabamos ampliando nossa visão sobre o que significa exatamente uma obra estar em tal grupo temático.

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Isso é também o que acabamos por fazer lendo as mais instigantes obras de Philip K. Dick.

Esse é parte do lugar que a filosofia ocupa, seja aplicada às questões ontológicas e metafísicas, seja à discussão sobre as possibilidades de se criar computadores conscientes, ou sobre se o próprio ser humano no fundo tem algo chamado consciência ou se isso está tão ultrapassado quanto o flogisto estava para explicar a combustão.

Podemos não sair com uma resposta pronta, mas certamente subiremos mais um pouco na escalada do intelecto. E no fundo, é como a citação que inaugura este texto.

Qualquer assunto adequadamente aprofundado revelará múltiplas camadas que vão sendo retiradas e colocadas em perspectiva. E o que torna essa tarefa particularmente instigante e ilimitada é que sempre haverá espaços entre essas camadas empilhadas.

Elas nunca se ajustarão bem o suficiente a ponto de ficarem encaixadas para sempre, sem que ninguém ache necessário desmontar as peças e ver do que aquela estrutura aparentemente monolítica é formada.


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escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.