(Tradução autorizada do artigo original sobre habilidades, escrito por Mark Manson em seu site. Se você quer acompanhar os novos artigos em língua inglesa, clique aqui e assine a newsletter de Mark)


Imagine por um segundo que sou seu pai. Sei que isso pode trazer todos os tipos de conotações difíceis e desagradáveis, mas continue aqui comigo – e quando estiver pronto, basta me chamar de “papai”.

Agora, vamos fingir que estamos tendo uma daquelas conversas olho a olho que todos nós intimamente idealizamos ter com nossos pais. Talvez estejamos bebendo cerveja no quintal, ouvindo grilos e olhando a lua encontrar lentamente o horizonte. Talvez estejamos rindo sobre um filme que acabamos de ver ou relembrando da época em que você jogou o gato na banheira quando tinha cinco anos.

E neste momento, vamos fingir que estou de repente inspirado pelos deuses (ou seja, por três cervejas) e capaz de transmitir alguma sabedoria paternal clichê que supostamente vai reorganizar completamente a decoração de interiores da sua mente.

Vamos fingir que eu me volto para você, meu/minha lindo(a) filho(a,) e compartilho com você, em toda a minha sabedoria paternal, as três habilidades de vida mais importantes que ninguém nunca disse antes.

E então você se vira para mim e diz: “Que porra é essa, pai? De repente você soa como um infomercial”.

E eu digo, “Uh, sim…” e, em seguida, faço desajeitadamente o discurso para você de qualquer jeito, porque, foda-se, eu sou seu pai e você tem que me ouvir, querendo ou não!

Então, finja que tudo isso está acontecendo. E daí imagine que isto é mais ou menos o que eu diria.

 

PRIMEIRA das importantes habilidades de vida: COMO parar de levar as coisas para o lado pessoal

Um efeito colateral infeliz da consciência produzida por nossos cérebros é o fato de que tudo o que vivenciamos em nossas vidas parece dizer respeito a nós de uma ou outra forma. O carro que cortou você no trânsito hoje. O noticiário que você viu na noite passada e te deixou puto.

Como resultado, tendemos a ter um viés inerente de assumir que tudo o que acontece no fundo acontece para nós.

Mas aqui vai uma novidade: Só porque você vivencia algo, só porque algo te traz impacto, só porque você se preocupa com alguma coisa, não significa que ela diz respeito especialmente a você.

Isso é difícil de lembrar. E não apenas porque essa noção de que tudo ocorre principalmente para nós está profundamente incorporada a nossos cérebros. Mas porque fazer tudo ser para nós, de certa maneira, nos faz sentir bem por alguns instantes.

É bom pensar que tudo o que é bom acontece com você porque você é bom, uma pessoa incrível. Mas o preço que você paga por considerar que essas coisas boas dizem respeito a você é que, por decorrência, também precisa interpretar que as coisas ruins de sua vida dizem respeito a especialmente a você.

E, como resultado, você se coloca em uma montanha-russa de auto-estima, onde sua auto-estima vai para cima e para baixo, experimentando alturas vertiginosos e quedas com as marés impiedosas de qualquer besteira que possa estar acontecendo no momento.

Quando as coisas estão bem, você é um presente dos deuses para a Terra, que merece ser reconhecido e aplaudido a cada hora do dia. Quando as coisas vão mal, você é uma santa vítima, que tem sido injustiçada e merece algo melhor.

O que é constante é esse senso de merecimento. E é essa constante sensação de merecimento que te transforma em um vampiro emocional, um buraco negro antissocial que só consome a energia e o amor das pessoas à sua volta, sem nunca oferecer nada em troca.

OK, talvez isso tenha sido um pouco dramático. Mas você entendeu onde quero chegar.

Quando as pessoas te criticam ou rejeitam, provavelmente tem muito mais a ver com elas – seus valores, suas prioridades, sua situação de vida – do que com você. Eu odeio te decepcionar, mas outras pessoas simplesmente não pensam tanto assim sobre você (afinal, estão muito ocupadas tentando acreditar que tudo é sobre elas).

Quando algo que você faz não dá certo, não significa que você é um fracasso enquanto pessoa. Simplesmente significa que você é uma pessoa que às vezes falha.

Quando algo trágico acontecer e você ficar extremamente mal, e tiver a absoluta certeza de que isso deve ter sido por algo que fez, lembre-se de que as dificuldades fazem parte da escolha da vida, que a tragédia da morte é o que dá sentido à vida, e que a dor não tem preconceito – ela aflige a todos. Ser merecedor ou não merecedor não faz parte da equação.

 

SEGUNDA importante habilidade de vida: como ser persuadido e mudar sua mente

A maioria das pessoas, quando suas crenças são desafiadas, agarram-se a elas como se fossem um colete salva-vidas em um naufrágio.

O problema é que muitas vezes as suas crenças são o navio naufragando.

Para a maioria de nós, na maioria das vezes, nossas crenças não são apenas ideias que possivelmente representem a verdade: elas são também os principais componentes da nossa identidade. E questionar essas crenças significa questionar fundamentalmente quem somos enquanto pessoa… o que, caso você não sabia, é algo realmente muito doloroso.

Por isso, preferimos tapar os ouvidos, cantar “La la la la la la” e esperar que essas lamentáveis evidências que estamos errados magicamente desapareçam.

Pegue por exemplo as pessoas que não acreditam em mudanças climáticas. Muitas delas não são estúpidas. Elas entendem o que a ciência diz. Entendem os argumentos. O problema é que, em algum lugar ao longo do caminho, decidiram que não é só a mudança climática que é falsa, mas que a negação da mudança climática também representa quem são enquanto pessoas.

E uma vez que você entra nesse território, nunca mais sairá dele.

Mas esse apego às nossas crenças não se restringe apenas à ciência e política. Já percebi que isso afeta a vida diária da maioria das pessoas também.

Considere o namoro, por exemplo. Já vi homens que ainda estão presos a crenças sobre si mesmos que formaram no ensino médio – de as mulheres não estarem interessadas em nerds; que eles precisam ter um monte de dinheiro ou um puta carro para serem amados.

Talvez essas crenças servissem e explicassem suas vidas quando tinham 16 anos. Mas aos 32 anos, essas mesmas crenças e premissas foram destruindo suas vidas amorosas.

Se fizer o mesmo, você vai se dar muito mal na vida. Na verdade, você vai se dar mal praticamente o tempo todo. E de muitas formas a sua capacidade para ter sucesso e de aprender a longo prazo é diretamente proporcional à sua capacidade de mudar o que você acredita em resposta à sua ignorância e erros.

Você pode estar se perguntando: “como posso fazer isso?”

Não há “como”. Tudo depende de sua cabeça. Não há literalmente nada para fazer aqui que não seja mentalmente experimentar novas perspectivas e se perguntar: “E se [insira aqui a coisa que é o contrário da sua convicção] fosse verdade? O que isso significaria?” E então psicologicamente enfrentar a resposta.

Isso vai ser assustador, em primeiro lugar. Seu cérebro vai resistir à experiência. Mas, é claro, é justo aí onde entra a constante prática dessa habilidade.

Tente isto: anote 20 coisas em sua vida sobre as quais poderia estar errado. E, novamente, isso não precisa se limitar apenas a coisas concretas. Tenho certeza que minha compreensão da Física é deficiente de muitas maneiras. Mas isso não é a coisa mais importante sobre a qual preciso mudar de opinião.

O que estamos fazendo aqui é questionar alguns desses pressupostos profundos sobre a sua identidade: eu não sou uma pessoa atraente; eu sou preguiçoso; eu não sei como falar com as pessoas; eu nunca vou ser feliz porque me sinto preso em minha vida; acho que o mundo vai acabar na próxima terça-feira.

Quanto mais emocionalmente estiver carregada a sua convicção sobre algo, mais importante é desafiá-la.

Então, depois que você anotou 20 coisas, passe a escrever que implicações haveria em sua vida, caso suas convicções sobre essas 20 coisas estivessem erradas.

Isso vai parecer assustador no começo. Você vai resistir em questionar muitas de suas suposições. Mas pense nisso dessa maneira: o quão confiável você pode ficar com suas próprias crenças se você nunca as desafiou, se você nunca viu o outro lado?

O que queremos desenvolver aqui é a capacidade de ver o “outro lado”. E nas poucas ocasiões em que o outro lado parecer mais provável e mais válido, mude suas convicções.

 

TERCEIRA importante habilidade da vida: como agir sem conhecer o resultado

Durante a maior parte de nossa infância e adolescência, quase tudo parece ter um resultado claro.

Na escola, você escreve o seu relatório porque é isso que o seu professor lhe disse para fazer. Em casa, você limpa o seu quarto, porque é por isso que seus pais o recompensam. No trabalho, você faz o que seu chefe diz, porque isso faz com que você receba seu salário.

Não há nenhuma incerteza. Você só age.

O professor quer um relatório. Então você o escreve. A mamãe quer um quarto limpo. Então você o limpa.

Mas a maior parte da vida – isto é, na vida real – não funciona desta forma.

Quando você decide mudar de carreira, não há ninguém lá dizendo qual é a carreira ideal pra você.

Quando você decide se comprometer com alguém, não há ninguém assegurando que essa relação fará você feliz.

Quando você decide começar um negócio, mudar para um novo país ou comer waffles em vez de panquecas no café da manhã, não há nenhuma maneira de saber – com total certeza – se o que você está fazendo é “certo” ou não.

E, assim, evitamos esse tipo de experiência. Evitamos tomar essas decisões. Nós evitamos nos mexer e agir sem termos certeza. E por não podermos agir quando não temos certeza, nossas vidas se tornam incrivelmente repetitivas e seguras.

Eu recebo um monte de e-mails de pessoas me perguntando como encontrar o propósito de suas vidas. Ou como saber se estão na relação amorosa certa ou não. Ou como ter certeza se estão fazendo a mudança correta em suas vidas.

E eu não respondo a essas pessoas, porque eu não faço ideia do que dizer.

Em primeiro lugar, ninguém pode decidir por você o que é certo para a sua vida. Mas, em segundo lugar, o fato de que você está pedindo a um cara na internet que responda esse tipo de coisa (ou procurando em um livro ou algo assim) é por si só uma parte do problema – você está procurando saber o resultado antes de agir.

Há uma grande cena em O Cavaleiro das Trevas, onde o Coringa compartilha a filosofia de sua vida: “eu só faço as coisas”.

Agora, em que pese todos os defeitos do Coringa (terrorista, assassino em massa, ladrão armado, criminoso político – coisas que vamos esquecer por agora), ele tem razão ao nos descrever como “espertalhões que tentam controlar seus mundinhos”.

O fato é: às vezes você apenas tem que fazer as coisas por nenhuma outra razão do que simplesmente fazê-las. Fazê-las porque você pode. Porque são possíveis. Como disse George Mallory quando perguntado por que queria escalar o Monte Everest: “porque ele está lá.”

Adicione um pouco de caos na sua vida. Uma certa quantidade de caos é saudável. Estimula o crescimento, a mudança, a paixão e a emoção.

Desenvolver a capacidade de simplesmente fazer as coisas por nenhuma outra razão senão a curiosidade ou interesse, mesmo por tédio – a capacidade de fazer as coisas sem nenhuma expectativa de resultado ou elogio ou produtividade ou fanfarra – irá treiná-lo para melhor tomar as grandes decisões da vida. Irá treiná-lo simplesmente a fazer algo sem saber para onde diabos você está indo.

E se por um lado isso resultará às vezes em algumas falhas, também resultará provavelmente nos maiores êxitos de sua vida.

Você pode começar pequeno. Participe de algo por nenhuma outra razão senão o interesse de estar lá. Inscreva-se num curso por nenhuma outra razão senão porque parece legal. Chame um amigo ou membro da família e diga: “me mostre algo novo que você acha que é incrível“, e se interesse por isso.

Mas há uma armadilha sutil aqui, é claro.

Muitos de vocês vão sair e pensar: “Bem, meu pai [que sou eu, lembra?] disse que preciso começar a fazer coisas espontaneamente, para que eu possa ser capaz de tomar as grandes decisões da minha vida, apesar da incerteza. Então, vamos ver, que coisa produtiva posso planejar e começar a fazer hoje?”

Você falhou.

Antes mesmo de começar, você já falhou. Não há nada de produtivo sobre isso. Não há progresso aqui. Pare de fazer tudo como se houvesse que realizar algum objetivo do caralho.

Ou, dito de outra forma: torne-se bom em perder tempo de formas inesperadas.

Agora, se você me der licença, tenho um jogo de poker com um grupo de amigos aleatórios e desconhecidos para organizar.


Ajude o Ano Zero a traduzir mais textos do Mark, clique aqui.


Você pode querer ler também:

Para você a vida é um oceano ou uma bola de argila?
9 passos para você odiar menos a si mesmo

escrito por:

Mark Manson

JUNTE-SE À NOSSA NEWSLETTER
Junte-se a outros 2.000 visitantes que recebem nossa newsletter e garanta, semanalmente, artigos sobre ciência, filosofia, comportamento e sociedade diretamente em seu e-mail!
Nós odiamos spam. Seu e-mail não será vendido ou compartilhado com mais ninguém.