Hillary Clinton | 2016, o fim da história para os progressistas

2016, o fim da história para os progressistas

Em Consciência, História, Política, Sociedade por Maximillian AlvarezComentários

Em uma carta de cor­tar o cora­ção publi­cada no New York Times, o jor­na­lista norte-ame­ri­cano Michael Luo des­creve um recente inci­dente, em que um sujeito into­le­rante insul­tou a ele e sua famí­lia gri­tando que “vol­tas­sem pra China”.

Esse tipo de situ­a­ção, infe­liz­mente, é bas­tante comum para asiá­tico-ame­ri­ca­nos em todo os EUA. De fato, para mui­tas pes­soas de dife­ren­tes etnias, sexu­a­li­da­des, gêne­ros e cren­ças, a carta de Luo soou como um eco muito fami­liar de dis­cri­mi­na­ção, medo, ódio e into­le­rân­cia.

Logo depois, Luo se uti­li­zou do Twit­ter para con­vi­dar outros asiá­tico-ame­ri­ca­nos a com­par­ti­lha­rem suas expe­ri­ên­cias com o racismo usando a hash­tag #Thi­sIs2016. O que real­mente se des­ta­cou nos tes­te­mu­nhos tui­ta­dos foi a frequên­cia des­sas expe­ri­ên­cias.

Todos ficam sur­pre­sos de que, no ano de 2016, ainda exista pre­con­ceito e into­le­rân­cia, mas não car­ros voa­do­res.

E o real cho­que das pes­soas diante do fato de que a herança sinis­tra do pas­sado con­ti­nue a man­char nosso pre­sente pro­gres­sista revela uma pro­funda fé de que o ano de 2016 seria por­ta­dor de uma graça reden­tora da men­ta­li­dade pro­gres­sista: a graça de que a his­tó­ria e o pro­gres­sismo tor­na­riam (ou deve­riam tor­nar) as coi­sas sim­ples­mente melho­res.

Mas acho que é hora de abor­dar­mos o que 2016 real­mente sig­ni­fica: merda nenhuma. E há um veneno espe­cial que per­passa a crença de que este ano deve­ria sig­ni­fi­car alguma coisa.

Desde o iní­cio, a visão de Donald Trump de “fazer a Amé­rica grande nova­mente” já ven­dia uma peri­gosa nos­tal­gia, atra­ente para as ansi­e­da­des e os des­con­for­tos de pes­soas que se encon­tram à deriva das trans­for­ma­ções soci­ais.

Mui­tas crí­ti­cas neces­sá­rias foram rápi­das ao liga­rem os pon­tos entre o sonho nos­tál­gico de gló­ria pas­sada de Trump e o seu per­fil racista, xeno­fó­bico e misó­gino.

Tais crí­ti­cas sali­en­tam que os apoi­a­do­res de Trump, ao sus­pi­ra­rem pelo retorno dos bons velhos tem­pos estão, na ver­dade, sau­do­sos de um tempo de “vida boa” que foi real­mente cons­truído atra­vés da exclu­são opres­siva dos não-bran­cos, mulhe­res, pes­soas LGBT, den­tre outros.

Trump inclui aber­ta­mente esses excluí­dos do pas­sado, esses “outros”, em sua lista de bodes expi­a­tó­rios res­pon­sá­veis pelas ansi­e­da­des atu­ais de seus elei­to­res. E por muito tempo ele e seus par­ti­dá­rios fler­ta­ram peri­go­sa­mente com uma nar­ra­tiva feti­chi­zada onde tais bodes expi­a­tó­rios per­de­riam para a cul­tura domi­nante ou seriam total­mente eli­mi­na­dos.

No entanto, no com­bate à nos­tal­gia que ins­pira a nar­ra­tiva de Trump e seus apoi­a­do­res, mui­tas vezes pode­mos nos cegar para nossa pró­pria visão his­tó­rica míope.

É assim que a ide­o­lo­gia fun­ci­ona: nós não per­ce­be­mos como ela dis­torce nos­sas per­cep­ções.

Como a morte, é sem­pre algo que aflige a outra pes­soa. Mas enquanto Trump e mui­tos dos seus apoi­a­do­res feti­chi­zam um pas­sado que é pro­fun­da­mente retró­grado, pro­gres­sis­tas tam­bém demons­tra­ram uma ten­dên­cia pre­o­cu­pante em feti­chi­zar um futuro que pre­su­mem estar do seu lado.

O desdém dos progressistas pela visão de mundo dos eleitores de Trump colaborou para que subestimassem o poder das forças conservadoras no ano de 2016.

O des­dém dos pro­gres­sis­tas pela visão de mundo dos elei­to­res de Trump cola­bo­rou para que subes­ti­mas­sem o poder das for­ças con­ser­va­do­ras no ano de 2016.

Há algo pecu­liar sobre este tipo de feti­chismo pro­gres­sista. Tanto se esti­ver­mos falando sobre o bri­lho atra­ente do avanço tec­no­ló­gico ou o triunfo dos valo­res do huma­nismo pro­gres­sista, a visão tele­o­ló­gica do pro­gresso his­tó­rico é con­tra­pro­du­cente e poten­ci­al­mente peri­gosa.

Quando esta­mos pre­sos no trân­sito infer­nal da hora do rush, por exem­plo, pode­mos aca­bar nos per­gun­tando por que dia­bos não pode­mos nos tele­por­tar ainda. Mas há um aste­risco con­su­mista implí­cito ao lado do “nós”. O que que­re­mos dizer é:

por que aque­les nerds de jale­cos nos labo­ra­tó­rios ainda não inven­ta­ram algo do tipo para que o resto de nós possa viver no futuro que nos foi pro­me­tido?”

Quando impo­mos ao futuro uma tra­je­tó­ria espe­cí­fica, na qual ele é cus­to­mi­zado e equi­pado com aquilo que supo­mos que o pro­gresso tec­no­ló­gico nos trará, con­fi­a­mos a pro­du­ção desse futuro aos espe­ci­a­lis­tas que, pre­su­mi­mos, que­rem as mes­mas coi­sas que nós.

Isso é peri­go­sa­mente pare­cido com o futu­rismo da era Clin­ton, que sor­ra­tei­ra­mente apoiou, sob o manto do pen­sa­mento mágico pro­gres­sista, o neo­li­be­ra­lismo tec­no­crá­tico e um com­plexo mili­tar-indus­trial glo­bal­mente expan­sivo.

Toda vez que Hil­lary Clin­ton e seus par­ti­dá­rios afir­ma­vam com segu­rança que 2016 seria “o” ano, refor­ça­vam a ideia de que o pre­do­mí­nio pro­gres­sista é ine­vi­tá­vel, e que nossa situ­a­ção nes­tes tem­pos é prova sufi­ci­ente da tran­quila lógica interna dessa ver­dade his­tó­rica.

Eles fir­ma­ram sua ban­deira nos espó­lios da his­tó­ria e os rei­vin­di­ca­ram para si, asse­gu­rando-se de que os cor­pos de nos­sos ante­pas­sa­dos caí­ram deli­be­ra­da­mente em uma dire­ção defi­nida, abrindo a tri­lha para o futuro dou­rado que atu­al­mente habi­ta­mos.

Embora cada ide­o­lo­gia polí­tica queira ven­der sua ideia de “pro­gresso”, a glo­ri­fi­ca­ção que os pro­gres­sis­tas faziam de “2016” revela um traço não tão sutil de arro­gân­cia.

Acre­di­tando que o futuro não é nada senão o pro­duto neces­sá­rio do binô­mio da gover­nança pro­gres­sista e tole­rân­cia huma­nista, vemos o pre­sente não como uma opor­tu­ni­dade para lutar pelo que o futuro pode­ria ser, mas sim como uma chance de apro­vei­tar o que já deve­ria ter acon­te­cido neste momento.

Este é o cerne do pro­blema. Quando nos depa­ra­mos com pes­soas como os apoi­a­do­res de Trump, cujas opi­niões con­si­de­ra­mos estú­pi­das, into­le­ran­tes e impru­den­tes, tor­nou-se per­fei­ta­mente acei­tá­vel repre­endê-los gri­tando “Isto é 2016!”

Vemos essas pes­soas e suas opi­niões diver­gen­tes (por mais peri­go­sa­mente medi­e­vais que pos­sam ser) não como o resul­tado ine­vi­tá­vel de um pro­cesso his­tó­rico que ainda está se desen­ro­lando, mas como obs­tá­cu­los irri­tan­tes no cami­nho de um pro­cesso his­tó­rico que acre­di­ta­mos já ter aca­bado.

Esti­mu­la­dos pela sedu­ção do “pro­gresso”, pos­tu­la­mos nos­sos valo­res pro­gres­sis­tas como con­tra­peso van­guar­dista às trin­chei­ras con­ser­va­do­ras, que se ape­gam tei­mo­sa­mente às tra­di­ções ultra­pas­sa­das e às nor­mas som­brias que as com­ple­men­tam.

Mas, na ver­dade, a nossa abor­da­gem é o reflexo espe­cu­lar do con­ser­va­do­rismo.

Assim como nos­tál­gi­cos da extrema direita rea­gem às trans­for­ma­ções cul­tu­rais agar­rando-se à tra­di­ção con­ser­va­dora, os pro­gres­sis­tas defen­dem-se erguendo bar­ri­ca­das em torno de um futuro cuja natu­reza justa e neces­sá­ria deve­ria falar por si mesma.

Essa ten­dên­cia emer­giu, na ver­dade, na ascen­são de Bill Clin­ton como a repre­sen­ta­ção da men­sa­gem dos Novos Demo­cra­tas sobre uma “ter­ceira via”, que simul­ta­ne­a­mente pro­mo­ve­ria o igua­li­ta­rismo social e a tole­rân­cia mul­ti­cul­tu­ral enquanto ala­van­ca­ria a des­re­gu­la­men­ta­ção econô­mica e a repres­são puni­tiva ao crime.

Com o fim da Guerra Fria, o filó­sofo neo­li­be­ral Fran­cis Fukuyama infa­me­mente decla­rou esse ponto como “o fim da his­tó­ria como a com­pre­en­de­mos”. Isso, claro, não sig­ni­fi­cava que coi­sas dei­xa­riam de acon­te­cer, mas que nós final­mente havía­mos che­gado “no ponto final da evo­lu­ção ide­o­ló­gica da huma­ni­dade, com a uni­ver­sa­li­za­ção da demo­cra­cia como forma defi­ni­tiva de governo humano”.

O soci­a­lismo era o último grande rival das pru­den­tes for­ças oci­den­tais base­a­das no auto­a­pri­mo­ra­mento. A par­tir de então, a demo­cra­cia libe­ral oci­den­tal seria o único jogo a ser jogado no mundo — não havia outra alter­na­tiva.

Mas a his­tó­ria ainda se agita com dis­pu­tas ide­o­ló­gi­cas, e o pouco per­ce­bido legado da visão neo­li­be­ral de Fukuyama é o fato de que foi adap­tado para ser­vir como pro­fe­cia autor­re­a­li­zá­vel no sub­cons­ci­ente cole­tivo dos pro­gres­si­tas ame­ri­ca­nos.

A morte do soci­a­lismo no leste euro­peu levou o pro­jeto de auto­de­fi­ni­ção pro­gres­sista dos ame­ri­ca­nos a um fim abrupto, e o pri­meiro man­dato de Clin­ton foi tola­mente apon­tado como pre­cur­sor de uma era de ouro pós-ide­o­ló­gica.

A teoria de Fukuyama, segundo a qual a vitória na Guerra Fria havia consolidado a vitória da democracia e da economia de mercado, inspirou os progressistas,

A teo­ria de Fukuyama, segundo a qual a vitó­ria na Guerra Fria havia con­so­li­dado a vitó­ria da demo­cra­cia e da eco­no­mia de mer­cado, ins­pi­rou os pro­gres­sis­tas a acre­di­ta­rem que o futuro seria exa­ta­mente como con­ce­biam que deve­ria ser.

A demo­cra­cia libe­ral tinha asse­gu­rado seu direito à per­ma­nên­cia no poder, e o obje­tivo daqui em diante seria difun­dir o novo evan­ge­lho.

As pes­soas foram enco­ra­ja­das a pen­sar no ama­nhã não como um campo aberto para enfren­tar as ques­tões-chave não resol­vi­das no pas­sado, mas como um lugar para defen­der e esten­der o domí­nio do que já havia sido alcan­çado.

Além disso, nosso rela­ci­o­na­mento com o futuro tor­nou-se pro­fun­da­mente pes­so­a­li­zado, sem qual­quer remorso da nossa parte. Na atro­fia ide­o­ló­gica que se seguiu ao triunfo his­tó­rico do Oci­dente, tudo o que era real­mente neces­sá­rio para a polis neo­pro­gres­sita era que os cida­dãos se tor­nas­sem par­ti­ci­pa­ti­vos, para con­du­zi­rem a si mes­mos à luz dos novos tem­pos.

Nossa “res­pon­sa­bi­li­dade sagrada” para com a “pos­te­ri­dade”, como obser­vou Bill em seu pri­meiro dis­curso de posse, equi­vale a for­mar um cír­culo de pro­te­ção em torno de nos­sos “ide­ais”, atendo-se fir­me­mente ao que já temos e garan­tindo a tran­si­ção segura em dire­ção ao futuro.

E defen­de­mos esses ide­ais, não de qual­quer ame­aça exis­ten­cial urgente, mas do tra­ba­lho desa­tu­a­li­zado e atra­sado daque­les que se ali­nha­ram per­ver­sa­mente con­tra o pro­gresso. No final da his­tó­ria, as ame­a­ças de seus adver­sá­rios jamais leva­ram os pro­gres­sis­tas a refle­tir a res­peito de sua pró­pria situ­a­ção — eles ape­nas temiam retro­ce­der.

Em seu segundo dis­curso de posse, Clin­ton dei­xou claro que a ordem mun­dial que os Novos Demo­cra­tas defen­diam era inse­pa­rá­vel dessa visão da his­tó­ria:

Pros­pe­ri­dade e poder, sim, eles são impor­tan­tes e deve­mos mantê-los. Mas nunca vamos esque­cer: o maior pro­gresso que fize­mos e o maior pro­gresso que ainda temos que fazer está no cora­ção humano”.

Esses são os pri­mei­ros prin­cí­pios do futu­rismo de Clin­ton:

(1) com­pre­en­der o poder inques­ti­o­ná­vel da demo­cra­cia libe­ral como uma ques­tão resol­vida no grande esquema da his­tó­ria, como algo que sim­ples­mente deve ser “man­tido”;

(2) colo­car a si pró­prio e ao par­tido Demo­crata como guar­diães do “maior pro­gresso que fize­mos”, enquanto rede­fi­ni­mos o que seria “o maior pro­gresso que ainda temos de fazer” como um assunto irre­du­ti­vel­mente pes­soal, ques­tão que deve ser resol­vida “no cora­ção humano”.

Não coin­ci­den­te­mente, esses prin­cí­pios aju­da­ram Bill Clin­ton a trei­nar os olhos da Amé­rica libe­ral tão fir­me­mente e tão pes­so­al­mente no futuro que ele pode­ria pra­ti­ca­mente asso­biar enquanto aca­bava com as polí­ti­cas de bem-estar social, assi­nar o NAFTA e for­ta­le­cer com este­roi­des o com­plexo indus­trial-pri­si­o­nal dos EUA.

Esses mes­mos prin­cí­pios tam­bém per­mi­ti­ram aos libe­rais afir­ma­rem sem hesi­ta­ção que o voto em Hil­lary seria um voto que pro­va­ria à pos­te­ri­dade que o elei­tor está no “lado cor­reto da his­tó­ria” (uma rei­vin­di­ca­ção cuja cla­reza era geral­mente for­ta­le­cida pela notí­cia da última boba­gem, arre­ba­ta­mento de into­le­rân­cia ou repú­dio à lógica his­tó­rica que Trump tivesse come­tido).

E é ainda uma prova maior da astú­cia abso­luta des­ses prin­cí­pios que os Clin­tons tenham con­se­guido asso­ciá-los com êxito à retó­rica deso­nesta de Rea­gan e Bush sobre a pros­pe­ri­dade indi­vi­du­a­lista.

A era Clinton, que prosseguiu com Obama, deixou-se seduzir pela crença de que a posteridade os colocaria no "lado justo e correto" da história.

A era Clin­ton, que pros­se­guiu com Obama, dei­xou-se sedu­zir pela crença de que a pos­te­ri­dade os colo­ca­ria no “lado justo e cor­reto” da his­tó­ria.

Por que não pen­sa­mos nos tem­pos vin­dou­ros”, sugere Fle­etwood Mac, “ao invés de nas coi­sas que já fize­mos?”

Essa é a lógica ine­vi­tá­vel e popu­lar de uma cons­ci­ên­cia pro­gres­sista gui­ada por pes­soas que inter­pre­tam os lados mais negros da Nova Ordem Demo­crá­tica (se são per­ce­bi­dos) como meros e infe­li­zes aspec­tos neces­sá­rios à “manu­ten­ção” de um sis­tema para o qual, no fim da his­tó­ria, não há alter­na­tiva.

Tal é a lógica que tor­nou pos­sí­vel para Hil­lary e demo­cra­tas evi­ta­rem enfren­tar os aspec­tos mais con­de­ná­veis de sua polí­tica sim­ples­mente sur­fando em seu des­prezo por Trump e em seu feti­che pela defesa his­tó­rica dizendo: “Vamos enviar uma men­sa­gem para Donald Trump em novem­bro: não ire­mos retro­ce­der”.

Essa lógica lem­brava aos pro­gres­sis­tas que seu dever era encar­nar pes­so­al­mente e sal­va­guar­dar em seus cora­ções os valo­res soci­ais e cul­tu­rais que pre­ga­vam no seu púl­pito em defesa do pro­gresso — e pro­var isso votando em Hil­lary.

Quando o ter­reno his­tó­rico con­cen­tra a maior parte de nos­sas ener­gias polí­ti­cas na tarefa de nos dife­ren­ci­ar­mos de nos­sos opo­nen­tes ainda ador­me­ci­dos para o pro­gresso, pode­mos per­der toda a intros­pec­ção crí­tica.

Pode­mos trans­mi­tir sem crí­tica o fato de que, por exem­plo, o mul­ti­cul­tu­ra­lismo pro­gres­sista pode aca­bar sendo real­mente racista, a tole­rân­cia às sexu­a­li­da­des queer pode aca­bar reci­clando a lin­gua­gem bio­lo­gi­ca­mente deter­mi­nista da euge­nia e assim por diante.

Além disso, como a ascen­são dos Novos Demo­cra­tas dei­xou claro como água (de Bill e Hil­lary a Obama), nós base­a­mos nos­sas esco­lhas polí­ti­cas prin­ci­pal­mente na neces­si­dade focada no futuro de nos posi­ci­o­nar­mos no lado cor­reto da pers­pec­tiva his­tó­rica.

Logo, e daí que isso sig­ni­fi­que mais ata­ques con­du­zi­dos por dro­nes, depor­ta­ções, encar­ce­ra­mento em massa de mino­rias, acor­dos de livre comér­cio des­tru­ti­vos, con­ces­sões cor­po­ra­ti­vas e des­re­gu­la­men­ta­ção finan­ceira? É com­pli­cado “asse­gu­rar” a his­tó­ria, afi­nal.

Não pare de pen­sar no ama­nhã. Não pare. Logo estará aqui. E somente quando ele che­gar nós per­ce­be­re­mos o que pode­ría­mos ter feito para o impe­dir.

Em 2016, os valo­res pro­gres­sis­tas gozam de um lugar rela­ti­va­mente domi­nante na cul­tura popu­lar. A rea­li­dade refle­tida pelos meios de comu­ni­ca­ção é aquela que gene­ri­ca­mente aceita valo­res como igual­dade, tole­rân­cia, res­peito pela dife­rença, uma crí­tica de muito baixa qua­li­dade à ganân­cia cor­po­ra­tiva, etc.

As guer­ras cul­tu­rais aca­ba­ram e nós, no lado esquerdo do espec­tro polí­tico, “ven­ce­mos” — e essa visão tal­vez seja pro­va­vel­mente o motivo pelo qual a vitó­ria de Trump foi tão cho­cante para mui­tos.

Mas o trum­pismo, entre mui­tos outros des­vios do roteiro da his­tó­ria como a supú­nha­mos, não veio do nada, e não vai sim­ples­mente ir embora.

Um dos sub­pro­du­tos mais detes­tá­veis da elei­ção de 2016 foi a obs­ti­nada recusa dos pro­gres­sista em rea­va­liar sua supo­si­ção tácita de que a ubi­qui­dade cul­tu­ral de nos­sos “valo­res com­par­ti­lha­dos” sig­ni­fi­cava que não havia mais neces­si­dade de defen­der ou rede­fi­nir esses valo­res.

O trum­pismo deve­ria aler­tar aos pro­gres­sis­tas de que há, e sem­pre haverá, infi­ni­ta­mente mais tra­ba­lho a fazer.

Em vez disso, ape­nas rea­fir­mou para a men­ta­li­dade pro­gres­sista sua jus­tiça infi­nita quando com­pa­rada com a pos­tura de Trump, con­fir­mando a con­vic­ção dos pro­gres­sis­tas de que algo devia estar fun­da­men­tal­mente desa­tu­a­li­zado “nos cora­ções” dos elei­to­res que esco­lhe­ram ficar do “lado errado da his­tó­ria”.

Nossa obses­são bizarra em estar­mos no “lado certo da his­tó­ria” tor­nou-se outra arma do “estilo pre­sun­çoso” no pro­gres­sismo. A pre­sun­ção pro­gres­sista envolve mais que a con­des­cen­dên­cia ao falar com aque­les que não “enten­dem”, redu­zindo o com­pli­cado tecido de suas almas aos tra­ços pes­so­ais e igno­mi­ni­o­sos do racismo, da miso­gi­nia, etc.

A pre­sun­ção pro­gres­sista é uma pos­tura que nos per­mite não refle­tir ade­qua­da­mente sobre nossa pos­tura de “cor­re­tos” e “jus­tos” — ao ponto que nós nem sen­tir­mos mais neces­si­dade de defen­der­mos nos­sas posi­ções.

Ao invés de con­fron­tar os lados mais escu­ros de nos­sas pró­prias cren­ças, ou enca­rar de frente as con­tra-rei­vin­di­ca­ções his­tó­ri­cas que outros ato­res polí­ti­cos estão fazendo, per­ma­ne­ce­mos iso­la­dos em nos­sos luga­res de fala e câma­ras de rever­be­ra­ção social reple­tas de pes­soas que já con­cor­dam conosco.

Encon­tra­mos tam­bém a con­fir­ma­ção de que esta­mos “cer­tos” na mais ampla câmara de rever­be­ra­ção social que é a cul­tura popu­lar, cujo domí­nio pro­gres­sista nos asse­gura ainda mais de que há algo de errado nas cren­ças de quem dis­corda de nós.

Mas isto é 2016, olhe à sua volta. Fique acor­dado.

Estar do lado “certo” de qual­quer coisa é, como todos sabem, uma ques­tão de pers­pec­tiva. Ao reser­var­mos para nós mes­mos o lugar de van­guarda no drama his­tó­rico, esta­mos con­fi­an­tes em pre­su­mir que sabe­mos qual será a pers­pec­tiva da pos­te­ri­dade.

Mas o aspecto mais desa­gra­dá­vel dessa pre­o­cu­pa­ção de “estar do lado certo da his­tó­ria” é a pro­mo­ção de uma rela­ção sin­gu­lar­mente autoi­lu­dida com a pró­pria his­tó­ria.

A his­tó­ria não é mais o forno popu­lar da cri­a­ção cul­tu­ral e da inven­ção polí­tica, pro­du­zindo um futuro cuja forma ainda não foi defi­nida.

Em vez disso, nessa visão rigi­da­mente esque­ma­ti­zada, a his­tó­ria é redu­zida ao papel de modelo esta­be­le­cido (divi­dido pelo meio com um lado “certo” e outro “errado” para que pos­sa­mos esco­lher) que tes­te­mu­nhará e vali­dará nossa esco­lha pes­soal.

Isso não é uma espé­cie de esca­to­lo­gia?

Além disso, esta­mos pro­cla­mando aber­ta­mente que nossa maior e egoís­tica pre­o­cu­pa­ção é ter nos­sas esco­lhas reco­nhe­ci­das pela pos­te­ri­dade, ainda que a custa de sacri­fi­car­mos hoje os mes­mos nobres valo­res soci­ais que apoi­a­mos.

Aumen­tar nosso capi­tal social (mesmo na morte), decla­rando nosso lugar no “lado certo da his­tó­ria”, ali­nhando-nos com valo­res cuja bon­dade acre­di­ta­mos estar pre­des­ti­nada tele­o­lo­gi­ca­mente, torna mais jus­ti­fi­cá­veis os com­ba­tes san­gren­tos que foram tra­va­dos no pas­sado para defen­der ditos valo­res e os sacri­fí­cios des­ses valo­res que sere­mos obri­ga­dos a fazer hoje para rea­firmá-los no futuro.

Esta­mos nos ilu­dindo ao pen­sar­mos que a bata­lha será sem­pre ganha pelo “bem” — ou que seria defi­nida pelo ano sagrado de 2016.

É claro que nos­sas moti­va­ções não são intei­ra­mente egoís­tas. Nós ainda acre­di­ta­mos genui­na­mente que nos­sos valo­res pro­gres­sis­tas são jus­tos, bons e “cor­re­tos”. O pro­blema é que sen­ti­mos que a época de com­ba­ter em defesa des­ses valo­res já pas­sou. Não assu­mi­mos mais a res­pon­sa­bi­li­dade de os defen­der e apri­mo­rar.

Nossa fun­ção em momen­tos “his­tó­ri­cos” (como as par­tes inte­res­sa­das des­cre­vem cada ciclo elei­to­ral) é ape­nas para garan­tir que nos­sos cora­ções este­jam no “lugar certo”, para asse­gu­rar a sal­va­ção de nos­sas belas almas aos olhos da pos­te­ri­dade.

Como em uma busca de entrar no Céu, estar no lado cor­reto da his­tó­ria pode neces­sa­ri­a­mente impli­car em fazer obras boas para outras pes­soas, mas a recom­pensa é ainda intei­ra­mente pes­soal.

A his­tó­ria vai recom­pen­sar você (ou seja, lem­brará de você) por ter estado no “lado cor­reto”, mas você não poderá sal­var outros que não fize­rem a mesma esco­lha.

Algo real­mente sinis­tro acon­tece, porém, quando ten­tar con­fir­mar nosso lado “cor­reto” na his­tó­ria torna-se o prin­cí­pio orga­ni­za­dor da nossa polí­tica à custa de tan­tas outras coi­sas.

Nos­sos papéis como agen­tes polí­ti­cos se tor­nam tão estrei­ta­mente e pes­so­al­mente defi­ni­dos que nos trans­for­ma­mos em guer­rei­ros da jus­tiça social que são cegos (ou, pior, cúm­pli­ces) da mon­ta­gem de máqui­nas de guerra mon­ta­das diante de nós.

Ter uma rela­ção feti­chista com o pro­gres­sismo ao con­si­derá-lo uma ine­vi­ta­bi­li­dade, redu­zindo nosso ter­reno polí­tico à esco­lha esque­má­tica entre um lado “certo” e outro “errado”, remo­dela fun­da­men­tal­mente nossa cone­xão com a pró­pria his­tó­ria.

Com isso, pas­sa­mos a con­si­de­rar a his­tó­ria como um movi­mento cole­tivo em dire­ção aos can­tos escu­ros a fim de ilu­miná-los com “mil pon­tos de luz” pai­rando acima de nos­sas cabe­ças, dando-nos a opor­tu­ni­dade como indi­ví­duos escla­re­ci­dos de sim­ples­mente olhar para cima, enxer­gar a luz e dizer “Ooo­o­o­ohhh.”

Entenda bem: com cer­teza, há valo­res pro­gres­sis­tas pelos quais deve­mos lutar. O que falta, no entanto, é o espí­rito de luta. O que falta é uma com­pre­en­são da his­tó­ria como um campo de bata­lha sem fim, cujas vir­tu­des devem ser con­quis­ta­das e cujos hor­ro­res devem ser con­fron­ta­dos todos os dias.

Este é o mate­rial vivido da his­tó­ria não-esque­ma­ti­zada, e nunca pode ser sim­ples­mente con­fi­ado à “manu­ten­ção” tec­no­crá­tica das eli­tes inte­lec­tu­ais.

Em 2016, nin­guém deve se sur­pre­en­der ao iden­ti­fi­car o racismo ou qual­quer outro aspecto abo­mi­ná­vel que desa­fia nos­sos ide­ais pro­gres­sis­tas, nem nin­guém deve ficar espe­rando que a his­tó­ria sim­ples­mente eli­mi­nará esses aspec­tos por conta pró­pria.

As for­ças da tole­rân­cia e da jus­tiça são hoje tão fra­cas e vul­ne­rá­veis como eram ontem — sem­pre de luz tênue, sem­pre à beira de serem eli­mi­na­das. E isso deve ser mais uma razão para que seja­mos inces­san­te­mente crí­ti­cos e infi­ni­ta­mente exi­gen­tes em rela­ção a todos que afir­mam ser seus defen­so­res.


(tra­du­ção e adap­ta­ção do texto ori­gi­nal, em inglês, 2016, a Libe­ral Odys­sey, publi­cado na The Blaf­fer)


Contribua com a continuidade de Ano Zero, clique aqui.

Você pode que­rer ler tam­bém:

A esquerda é o melhor cabo elei­to­ral da direita
Para curar o Bra­sil, pre­ci­sa­mos eli­mi­nar a classe polí­tica

PhD nos departamentos de História e Literatura Comparada da Universidade de Michigan.

Compartilhe