Um dos melhores indicadores da confusão em que estamos metidos é a profusão de convicções extremadas que aparecem nas manifestações orais e escritas dos ativistas, que se distribuem da esquerda à direita. De tanto ouvirem as proclamas, até mesmo as pessoas comuns, os pacatos cidadãos, acabam seguindo as vozes e as repetindo.

Elas demonstram o peso de certas obsessões desviantes, que nos afastam do núcleo problemático da vida e disseminam ilusões e fantasias contraproducentes, que imobilizam sob a aparência de uma hiper-mobilização.

Revelam, por um lado, a impaciência política e a baixa densidade ética das pessoas. Por outro, indicam a má formação política de setores importantes da comunidade, que aplaudem e seguem, com extrema facilidade, lemas maximalistas e slogans esquemáticos que funcionam como bloqueadores da inteligência reflexiva.

Tais manifestações mostram bem como mudou o algoritmo da política (expressão de FHC) e o quanto ingressamos em outra época social, na qual os hábitos, as narrativas e os estilos de antes parecem não funcionar, ou o fazem com muita dificuldade. A insatisfação com o léxico e o gestual do passado impulsiona uma entrega cega a atitudes que anunciariam o futuro mas que somente são, na verdade, uma confissão de impotência.

Fiz uma lista com algumas dessas obsessões, que penso serem importantes, à direita e à esquerda. Convido os leitores a complementá-la.

 

1 – Políticos são canalhas

Todos os políticos são canalhas, e os atuais, os que estão no Congresso Nacional, são mais canalhas ainda. Sem exceção. Como bandidos profissionais, devem ser encarcerados e banidos da vida pública. Todos.

 

2 – Dane-se o consenso

O consenso não importa, pois camufla a existência de dissensos e amordaça os divergentes. O importante é marcar posição.

 

3 – Peitar é preciso

Negociações são uma demonstração de frouxidão política e moral. Só é bom quem peita o adversário.

 

4 – Meu lado é o dos mocinhos

A esquerda é sempre pura, não corrompe nem é corrompida, e carrega no peito as esperanças da Humanidade. Para ela, a direita é um dejeto ignominioso e é sempre podre. Para a direita, ao contrário, a esquerda é companheira inseparável do diabo, asquerosa como ele, caminho mais curto para o inferno.

 

5 – Quem discorda de mim é Hitler

A direita é o sparring permanente da esquerda. Deve ser desancada sempre, independentemente das particularidades e diferenças que habitam o seu interior. A rigor, todos aqueles que não aplaudem a esquerda de que gostamos compõem o universo da direita, mesmo que também sejam de esquerda.

 

6 – Grande mídia: uma inimiga

A mídia impressa e a grande mídia — devidamente vistas como “oligopolizadas” — existem exclusivamente para hostilizar e denegrir a esquerda e os progressistas. Precisam ser tratadas como inimigas e combatidas a ferro e fogo, porque só servem para alienar as pessoas.

 

7 – Rouba, mas faz: combater a corrupção é golpe

O combate à corrupção é uma artimanha do sistema. No Brasil atual, é expressão tardia de udenismo moralista, mobilizado exclusivamente para rebaixar a esquerda. A corrupção não é, como pensam os moralistas, um expediente de reprodução do capitalismo de Estado e de um modo de fazer política, mas sim um recurso de que se valem os progressistas para distribuir renda (não do Estado para os capitalistas, mas destes e do Estado para o povo pobre).

A Lava Jato, em particular, não deveria ser aplaudida por estar revelando as múltiplas facetas de uma aliança corrupta entre políticos e empreiteiras, cujo maior efeito tem sido o saqueio sistemático dos cofres públicos e o encurralamento das políticas públicas sociais. Ela deveria ser atacada por estar tendo a coragem de denunciar a existência de uma “classe política” (de todos os partidos) forjada na ilegalidade.

 

8 – Os vândalos são do bem

Os que vão às ruas e se manifestam com furor, batendo em pessoas, destruindo prédios, quebrando “símbolos do sistema” e provocando a polícia são jovens ativistas cheios de boas intenções e com a alma repleta de contestação pra dar. Não seriam vândalos. A destruição por eles provocada de equipamentos coletivos e meios de transporte é apenas o efeito colateral de ações em si mesmas meritórias, que ajudam a extravasar a podridão em que vivemos.

 

9 – Tudo pelo poder

O capitalismo não pode ser regulado ou controlado democraticamente. Por isso, governos progressistas deveriam procurar gastar o máximo de recursos públicos para proteger os pobres e permanecer no poder, indiferentes à estabilidade econômica, ao tamanho da dívida pública e à responsabilidade fiscal.

 

10 – Os fins justificam os meios

Democracia não tem a ver com regras, valores e procedimentos para se fazer política de melhor qualidade, governar com critério e dar voz organizada aos cidadãos, mas sim com justiça social e distribuição de renda.

 

11 – Como eu odeio a classe média!

Os pobres são sempre bons e os ricos são sempre maus. A classe média, espremida entre uns e outros, é em bloco um capacho dos de cima e por isso é essencialmente reacionária.

 

12 – O que importa é estigmatizar o adversário

Quanto mais duras e desqualificadoras forem as palavras com que nos referimos aos adversários e aos que pensam diferentemente, mais razão teremos. Quanto mais “radical” for a argumentação, mais chance haverá de sucesso.

 

13 – Gritar é a solução

Uma crise grave pode ser mais facilmente resolvida com a irrupção explosiva da contestação social e o confronto político intransigente, pouco importando o que virá depois.


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  • Pablo Martin

    Sempre bom lembrar esses tópicos. Obrigado!

  • Adonai Gouvêa

    ABSOLUTAMENTE ESCLARECEDOR!!!!!

  • Ricardo Anibal

    Ser ou não vândalo depende do ponto de vista. Não vamos esquecer quem faz as leis e quem estabelece o que é vandalismo ou terrorismo.
    Ponto de vista ingênuo em achar que existe mudança possível sem “vandalismo”.

    Sobre a classe média, de fato é um bloco reacionário, sobretudo a paulista, mas não significa que personifica o demônio. As críticas precisam ser fundamentadas, não vazias.

    Também considero ingênuo o “combate a corrupção”. A corrupção é sistêmica. Também não conheço ninguém que considere o combate a corrupção como “golpe”. De onde o autor tirou isso?

    Golpe de Estado é um acordo entre Legislativo e Judiciário, juntamente com o patrocínio midiático – que deturpou, manipulou notícias e convocou a população para uma causa própria – para derrubar um governante eleito, incluindo o partido a chapa, que se retirou do governo e se aliou com a oposição que perdeu nas urnas. Se isso não é golpe, nada mais é.

    Nós vivemos um golpe ao mesmo tempo que vemos tucanos receberem dezenas de milhões sem que nada aconteça. Ou seja, o combate à corrupção não é golpe, obviamente, mas é seletivo e faz parte de um jogo de poder.

    • Ligeiro

      Vandalismo basicamente é o ato de destruir algo do alheio por ego ou outro motivo particular. É o uso da violência de forma egocêntrica para “marcar território”, tal como um cão urina em um poste.

      Terrorismo basicamente é usar o medo como arma política de dominação. É o uso da violência para se impor como alguém de respeito, sendo que muitas vezes por trás dos atos terroristas, há atos egocêntricos, arcaicos, incívicos.

      Não é depender do ponto de vista, é entender que destruir algo não vai resolver o problema (exceto se for para destruir algo que realmente incomode, mas aí realmente é subjetivo).

      Parte da classe média atual nada mais é do que oriunda das classes mais pobres de 20-30 anos atrás. Estranho dizer que “é um grupo reacionário”.

      Golpe de Estado é geralmente uma violência contra o Estado. Usa-se meios mais agressivos para a tomada de poder. O que ocorreu no Brasil foi uma manobra, não golpe. Golpe seria se os políticos fossem assassinados ou expulsos do país.

      Quanto aos “tucanos”, não duvido que dentro em breve teremos informações para saber se realmente há tucanos que mereçam a prisão ou não. O ponto aqui é que é sempre estranho esta de “tucano lá”, “tucano cá”.

      No final, boa parte do que você colocou cabe fácil nas obsessões. Pense um pouco mais por favor 🙂