Homem branco com raiva morde o próprio punho | 13 obsessões que dificultam a superação da crise atual

13 obsessões que dificultam a superação da crise atual

Em Comportamento, Consciência, Política, Sociedade por Marco Aurélio NogueiraComentários

Um dos melho­res indi­ca­do­res da con­fu­são em que esta­mos meti­dos é a pro­fu­são de con­vic­ções extre­ma­das que apa­re­cem nas mani­fes­ta­ções orais e escri­tas dos ati­vis­tas, que se dis­tri­buem da esquerda à direita. De tanto ouvi­rem as pro­cla­mas, até mesmo as pes­soas comuns, os paca­tos cida­dãos, aca­bam seguindo as vozes e as repe­tindo.

Elas demons­tram o peso de cer­tas obses­sões des­vi­an­tes, que nos afas­tam do núcleo pro­ble­má­tico da vida e dis­se­mi­nam ilu­sões e fan­ta­sias con­tra­pro­du­cen­tes, que imo­bi­li­zam sob a apa­rên­cia de uma hiper-mobi­li­za­ção.

Reve­lam, por um lado, a impa­ci­ên­cia polí­tica e a baixa den­si­dade ética das pes­soas. Por outro, indi­cam a má for­ma­ção polí­tica de seto­res impor­tan­tes da comu­ni­dade, que aplau­dem e seguem, com extrema faci­li­dade, lemas maxi­ma­lis­tas e slo­gans esque­má­ti­cos que fun­ci­o­nam como blo­que­a­do­res da inte­li­gên­cia refle­xiva.

Tais mani­fes­ta­ções mos­tram bem como mudou o algo­ritmo da polí­tica (expres­são de FHC) e o quanto ingres­sa­mos em outra época social, na qual os hábi­tos, as nar­ra­ti­vas e os esti­los de antes pare­cem não fun­ci­o­nar, ou o fazem com muita difi­cul­dade. A insa­tis­fa­ção com o léxico e o ges­tual do pas­sado impul­si­ona uma entrega cega a ati­tu­des que anun­ci­a­riam o futuro mas que somente são, na ver­dade, uma con­fis­são de impo­tên­cia.

Fiz uma lista com algu­mas des­sas obses­sões, que penso serem impor­tan­tes, à direita e à esquerda. Con­vido os lei­to­res a com­ple­mentá-la.

 

1 — Políticos são canalhas

Todos os polí­ti­cos são cana­lhas, e os atu­ais, os que estão no Con­gresso Naci­o­nal, são mais cana­lhas ainda. Sem exce­ção. Como ban­di­dos pro­fis­si­o­nais, devem ser encar­ce­ra­dos e bani­dos da vida pública. Todos.

 

2 — Dane-se o consenso

O con­senso não importa, pois camu­fla a exis­tên­cia de dis­sen­sos e amor­daça os diver­gen­tes. O impor­tante é mar­car posi­ção.

 

3 — Peitar é preciso

Nego­ci­a­ções são uma demons­tra­ção de frou­xi­dão polí­tica e moral. Só é bom quem peita o adver­sá­rio.

 

4 — Meu lado é o dos mocinhos

A esquerda é sem­pre pura, não cor­rompe nem é cor­rom­pida, e car­rega no peito as espe­ran­ças da Huma­ni­dade. Para ela, a direita é um dejeto igno­mi­ni­oso e é sem­pre podre. Para a direita, ao con­trá­rio, a esquerda é com­pa­nheira inse­pa­rá­vel do diabo, asque­rosa como ele, cami­nho mais curto para o inferno.

 

5 — Quem discorda de mim é Hitler

A direita é o spar­ring per­ma­nente da esquerda. Deve ser desan­cada sem­pre, inde­pen­den­te­mente das par­ti­cu­la­ri­da­des e dife­ren­ças que habi­tam o seu inte­rior. A rigor, todos aque­les que não aplau­dem a esquerda de que gos­ta­mos com­põem o uni­verso da direita, mesmo que tam­bém sejam de esquerda.

 

6 — Grande mídia: uma inimiga

A mídia impressa e a grande mídia — devi­da­mente vis­tas como “oli­go­po­li­za­das” — exis­tem exclu­si­va­mente para hos­ti­li­zar e dene­grir a esquerda e os pro­gres­sis­tas. Pre­ci­sam ser tra­ta­das como ini­mi­gas e com­ba­ti­das a ferro e fogo, por­que só ser­vem para ali­e­nar as pes­soas.

 

7 — Rouba, mas faz: combater a corrupção é golpe

O com­bate à cor­rup­ção é uma arti­ma­nha do sis­tema. No Bra­sil atual, é expres­são tar­dia de ude­nismo mora­lista, mobi­li­zado exclu­si­va­mente para rebai­xar a esquerda. A cor­rup­ção não é, como pen­sam os mora­lis­tas, um expe­di­ente de repro­du­ção do capi­ta­lismo de Estado e de um modo de fazer polí­tica, mas sim um recurso de que se valem os pro­gres­sis­tas para dis­tri­buir renda (não do Estado para os capi­ta­lis­tas, mas des­tes e do Estado para o povo pobre).

A Lava Jato, em par­ti­cu­lar, não deve­ria ser aplau­dida por estar reve­lando as múl­ti­plas face­tas de uma ali­ança cor­rupta entre polí­ti­cos e emprei­tei­ras, cujo maior efeito tem sido o saqueio sis­te­má­tico dos cofres públi­cos e o encur­ra­la­mento das polí­ti­cas públi­cas soci­ais. Ela deve­ria ser ata­cada por estar tendo a cora­gem de denun­ciar a exis­tên­cia de uma “classe polí­tica” (de todos os par­ti­dos) for­jada na ile­ga­li­dade.

 

8 — Os vândalos são do bem

Os que vão às ruas e se mani­fes­tam com furor, batendo em pes­soas, des­truindo pré­dios, que­brando “sím­bo­los do sis­tema” e pro­vo­cando a polí­cia são jovens ati­vis­tas cheios de boas inten­ções e com a alma repleta de con­tes­ta­ção pra dar. Não seriam vân­da­los. A des­trui­ção por eles pro­vo­cada de equi­pa­men­tos cole­ti­vos e meios de trans­porte é ape­nas o efeito cola­te­ral de ações em si mes­mas meri­tó­rias, que aju­dam a extra­va­sar a podri­dão em que vive­mos.

 

9 — Tudo pelo poder

O capi­ta­lismo não pode ser regu­lado ou con­tro­lado demo­cra­ti­ca­mente. Por isso, gover­nos pro­gres­sis­tas deve­riam pro­cu­rar gas­tar o máximo de recur­sos públi­cos para pro­te­ger os pobres e per­ma­ne­cer no poder, indi­fe­ren­tes à esta­bi­li­dade econô­mica, ao tama­nho da dívida pública e à res­pon­sa­bi­li­dade fis­cal.

 

10 — Os fins justificam os meios

Demo­cra­cia não tem a ver com regras, valo­res e pro­ce­di­men­tos para se fazer polí­tica de melhor qua­li­dade, gover­nar com cri­té­rio e dar voz orga­ni­zada aos cida­dãos, mas sim com jus­tiça social e dis­tri­bui­ção de renda.

 

11 — Como eu odeio a classe média!

Os pobres são sem­pre bons e os ricos são sem­pre maus. A classe média, espre­mida entre uns e outros, é em bloco um capa­cho dos de cima e por isso é essen­ci­al­mente rea­ci­o­ná­ria.

 

12 — O que importa é estigmatizar o adversário

Quanto mais duras e des­qua­li­fi­ca­do­ras forem as pala­vras com que nos refe­ri­mos aos adver­sá­rios e aos que pen­sam dife­ren­te­mente, mais razão tere­mos. Quanto mais “radi­cal” for a argu­men­ta­ção, mais chance haverá de sucesso.

 

13 — Gritar é a solução

Uma crise grave pode ser mais facil­mente resol­vida com a irrup­ção explo­siva da con­tes­ta­ção social e o con­fronto polí­tico intran­si­gente, pouco impor­tando o que virá depois.


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Marco Aurélio Nogueira
Duvidar sempre. Desistir jamais. Cientista político por profissão e por paixão. A política liberta, mas também pode ser uma prisão. Democrata e gramsciano por convicção, socialista por derivação. Corintiano de raiz. Atualmente, coordena o Núcleo de Estudos e Análises Internacionais-NEAI da UNESP. Seu livro mais recente é As Ruas e a Democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo (Contraponto/FAP, 2013).

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